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domingo, 4 de dezembro de 2022

Raymond Franz – um verdadeiro cristão ou um herege? (Parte 1)

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Contribuído por Cristão Antitípico.


Este artigo é uma defesa da Torre de Vigia e das Testemunhas de Jeová (TJs), uma exposição de fatos sobre a desassociação do ex-membro do Corpo Governante (CG).

Raymond Victor Franz, (1922-2010) foi membro do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová durante os anos de 1971 e 1980, e posteriormente foi desassociado. Devido ao fato de as comissões judicativas[1] serem fechadas ao público, secretas, por assim, dizer, não tenho como saber qual foi a exata acusação lançada sobre R. Franz. De forma genérica, porém, fala-se dele como tendo sido desassociado por apostasia. Isto, porém, é o que se diz, mas não há como saber o exato motivo, a exata acusação que resultou na desassociação de R. Franz.[2]

O artigo da revista TIME

Um breve artigo na revista TIME que tratava da desassociação de Raymond Franz foi escrito na época. (Clique aqui para ler o artigo.) O artigo, entretanto, é tendencioso e conta algumas mentiras a respeito das Testemunhas de Jeová e da Torre de Vigia, evidentemente em resultado das informações que o próprio R. Franz passou à revista.

O artigo disse: “Em 1975, a seita enfrentou um desastre: o mundo atual não desapareceu como as publicações das Testemunhas haviam garantido.” (O itálico é meu.) Esta informação é falsa. As publicações das TJs não haviam “garantido” que o fim do mundo viria em 1975; o que as TJs ensinavam é que em 1975, caso estivessem corretos os cálculos feitos em relação à genealogia humana apresentados na Bíblia, completar-se-ia 6000 anos da criação de Adão, e que as TJs deveriam estar atentas para saber se aquele ano coincidiria com a volta de Cristo ou não – isso é tudo.[3] Não houve “falsa profecia”, apenas uma observação de um ano em que um sistema cronológico se fecharia, conforme cálculos sobre a genealogia indicavam; e ainda assim, os cálculos foram apresentados como falíveis. Portanto, certas informações que R. Franz passou à revista TIME foram difamatórias e falsas, motivadas pela sua própria decepção com a Torre de Vigia.

Associação íntima com desassociados

Comenta-se entre as TJs e também entre os apoiadores de R. Franz, embora não existam informações que provem isso de forma objetiva, que um dos motivos que levou o ex-membro do CG a ser desassociado foi que ele tomava refeições com ex-membros, isto é, tinha associação íntima com apóstatas/dissociados.[4] Isto, entretanto, não constitui base bíblica para a desassociação, pois a Bíblia não ordena que aquele que mantém contato com desassociados deva também ser desassociado, embora a Sociedade Torre de Vigia comumente desassocie pessoas por tal razão.

Assim, é obscura a acusação sob a qual R. Franz foi expulso. Afinal, em qual “pecado de desassociação” R. Franz foi enquadrado? Não sei, mas sei que associação íntima com um desassociado não constitui base bíblica para desassociação, embora seja um descumprimento da ordem bíblica. (1 Coríntios 5:11, 12) Presumindo que tenha sido assim (mas não garantindo), a desassociação de R. Franz teria sido errada e, portanto, injusta.

Entretanto, isso não significa que R. Franz não deveria ter sido posteriormente desassociado, conforme provarei; todavia, ele deveria ter sido desassociado sob a acusação de heresia.

Apostasia e Heresia – termos distintos para ações distintas

A atual Torre de Vigia usa o termo apostasia de forma irresponsável e imprecisa. Este termo tem sido usado para se referir a qualquer coisa que os anciãos congregacionais ou mesmo os irmãos em geral desejarem, isso como resultado da fraca instrução que recebem do CG.

Certo ex-irmão foi desassociado por “mente apóstata” porque disse que acreditava que a ciência estava errada e que a Terra é plana. Ele também disse apenas que a palavra hebraica para “redondeza” em Isaías 40:22 não significa “bola” – e isto é correto; de fato, tal palavra não significa “bola”, mas “redondeza”; é uma palavra usada de forma genérica para falar de coisas arredondadas e se encaixa tanto no fato de a Terra ser esférica quanto na crença absurda de que a Terra seria plana e circular. A palavra em si não determina o formato exato do planeta Terra.

Entretanto, os anciãos não gostaram disso e o desassociaram porque estava com “mente apóstata”. Isto é bizarro, para dizer o mínimo. Deveras, é mais bizarro do que afirmar que a Terra é plana. Tais anciãos e também a congregação que aceitou a desassociação assinaram seus nomes no livro da ira de Jeová. Posteriormente, contudo, tal irmão tornou-se culpado de heresia, passando a ensinar teologias absurdas. Porém, questiono-me se a heresia post-mortem dele foi natural ou uma reação condicional resultante de sua desassociação injusta.

É um fato que a Terra é esférica, e o sujeito deve ser muito excêntrico para afirmar que a Terra é plana; não obstante, dizer que a Terra é plana ou acreditar nisso não se encaixa no conceito de apostasia nem de longe, nem de muito longe, nem perto de ser muito longe. Em realidade, isso é sem pé nem cabeça e apenas mostra o despreparo dos anciãos locais em decorrência da péssima catequização do CG às congregações e anciãos.

Certo irmão que serviu a Jeová durante mais de 50 anos junto da Torre de Vigia se posicionou contra a introdução de máquinas de cartão de débito e crédito para pedir dinheiro nas congregações. Ele falou por um áudio de Whatsapp a outro irmão que isso estava errado e que a Torre de Vigia já havia cometido erros sérios, o que é verdade; esse outro irmão, servo do demônio, repassou o áudio aos anciãos da congregação que desassociaram aquele irmão por “apostasia” sem nem mesmo fazer uma comissão judicativa com ele. Em resultado disso, a esposa do irmão desassociado, a qual sofre de uma doença séria, não fala mais com ele. Isso é trágico.

Esses exemplos reais ilustram o seguinte fato: a palavra apostasia assumiu uma forma arbitrária entre as TJs por causa da fraca instrução do CG, e é usada para se referir a qualquer coisa – não há limites; tudo que for do interesse da “organização” será enquadrado em “apostasia” – isto é vergonhoso.

Definição de apostasia

O termo apostasia significa “abandono”, seja da teologia e da moral cristã ou mesmo da congregação/igreja, e não se refere a um ensino, e sim à conduta. Em resumo, apostasia não é o que se fala ou ensina, mas o que se faz. Por exemplo, se um membro da congregação abandona a lei bíblica quanto a abster-se da idolatria e passa a adorar ídolos, isso é apostasia, pois ele abandonou a moral da Bíblia. Similarmente, se um membro da congregação se torna ateu e se dissocia, ou muda de religião e torna-se um mórmon, católico, adventista – ele se torna um apóstata. Apenas isso é apostasia. Dizer que a Terra é plana, apesar de uma besteira sem fim, não equivale à apostasia. Criticar o CG, um ancião, ou mesmo um entendimento profético, não é apostasia.

Definição de heresia

Este termo sim é um pecado de desassociação, pois a Bíblia diz que o herege deve ser ‘rejeitado’ pela igreja/congregação. (Tito 3:10) A palavra heresia refere-se a duas coisas: a primeira é a promoção de seita, isto é, formar ou tentar formar grupos de cristãos de forma independente por meio de falsos ensinos e ser um líder para tais; e a segunda é pregar doutrinas falsas na congregação que eventualmente resultarão na criação de uma seita.

Esses dois pontos se encaixam no conceito de heresia/promoção de seita. Por exemplo, se um grupo de anciãos passar a ensinar que cristãos verdadeiros não devem cursar o ensino superior, e que  “Jeová nos ensina” que não devemos cursar ensino superior, se tais anciãos coagirem os irmãos a não cursar o ensino superior fazendo-os acreditar que são desleais a Jeová, ou que o fim está tão próximo que não vale a pena fazer curso superior, e todo este ensino causar divisões em famílias, entre irmãos, isso consiste de heresia/promoção de seita e tais instrutores devem ser desassociados por isso. Os oito membros do CG, os membros das filiais (os chamados “Betéis”) e também os anciãos congregacionais que têm apoiado esta postura são culpados de promoção de seita e devem ser desassociados.

Heresia também ocorre se um grupo de anciãos passar a ensinar que apenas eles são “o escravo fiel” e que os demais cristãos não são o “escravo fiel”, que oito homens são o “canal de comunicação de Jeová” – isso é promoção de seita e tais anciãos devem ser desassociados imediatamente. (Mateus 24:45) Em verdade, tolerar tais hereges é deslealdade com o Cristo. (Apocalipse 2:15, 16) Os oito membros do CG são culpados de heresia por introduzir tal ensino em 2013 e devem ser desassociados. (Apocalipse 2:22)

É imprescindível que os termos exatos, precisos, sejam usados no que tange às acusações de heresia e apostasia. Termos imprecisos resultam na difamação de pessoas boas. Rolf Furuli, a via de exemplo, foi desassociado sob a falsa acusação de “apostasia”. O norueguês é inocente de todas as acusações que sofreu. Tanto os anciãos que o desassociaram quanto a congregação que aceitou tal desassociação assinaram seus nomes no livro da ira de Jeová.

Neste artigo vou focar exclusivamente em dos assuntos levantados por R. Franz, a saber, se Deus possui um povo distinto ou não. Eu não usarei o termo “organização” neste artigo porque desprezo tal termo e as implicações de seu uso; antes, opto pela expressão “nossa fraternidade”, expressão que enfoca o aspecto humano e despreza o sistema clerical da Torre de Vigia; opto também pela expressão “o povo de Jeová”, expressão que destaca o aspecto profético e bíblico de um povo distinto.

Como surge um herege?

 Chamar alguém de “herege” é algo muito sério e precisa ser provado nas Escrituras o motivo de tal pessoa ser um herege. O herege deve ser expulso/desassociado da congregação. Algo que muitas ex-TJs que se revoltaram contra a Sociedade Torre de Vigia (STV) e também contra a fraternidade das TJs deixam de perceber é que nenhum herege crê ser um herege. Todo herege dirá que está certo e que acredita que possui uma informação magnífica que a igreja desconhece. São poucas as vezes em que um herege tentará conscientemente atrair para si discípulos, sabendo que está mentindo; na maioria dos casos, o herege está sendo sincero consigo mesmo, mas está cegado pela ira que, até certo nível, pode ser justificável.

Então, não é a sinceridade do indivíduo consigo mesmo e com suas pautas que determina se ele é um herege ou não. Dessa forma, o resultado é que praticamente todo herege se sentirá injustiçado ao ser desassociado e gritará isso aos quatro ventos, ganhando apoiadores que também são ex-membros da congregação. Minha experiência é que tais apoiadores em geral concordarão com tudo que o herege disser, por mais absurdo que seja, pois esses possuem um inimigo em comum.

A maioria dos apoiadores de R. Franz que já conheci é de pessoas que defendem coisas absurdas. Eu admito que, após ler boa parte do que R. Franz escreveu, várias críticas que ele fez são, de fato, justas, corretas, e eu concordo com tais críticas; mas o problema de R. Franz, entretanto, é o mesmo de várias ex-TJs que se tornam inimigas do povo de Jeová: R. Franz se achava mais conhecedor de assuntos profundos do que de fato era.

Não há dúvidas de que o ex-membro do CG era um homem de inteligência distinta; outra coisa, não obstante, é chamá-lo ou encará-lo como erudito bíblico; R. Franz não era erudito coisa nenhuma; ele não tinha conhecimento de hebraico, nem de grego, nem de aramaico, nem qualquer qualificação em linguística, nem em princípios de tradução, nem em cronologia, nem em qualquer outro assunto relevante para os pontos teológicos que ele abordou. Em verdade, a análise cronológica feita por ele é superficial e fraca; e muitos dos argumentos dele são bestas, conforme mostrarei posteriormente.

R. Franz cometeu o mesmo erro que os membros do CG têm cometido: ele foi além de seus conhecimentos e se achou especial demais, passando a acreditar que sua falta de conhecimento seria suprida e compensada de forma sobrenatural por Deus. Isto pode ser inferido com base na leitura de seus livros.

Deus possui um povo distinto?

                Depois de R. Franz ter sido um servo de tempo integral muito ativo por 40 anos, ele escreveu o seguinte em seu livro Crise de Consciência, páginas 273 e 274 (em inglês):

Agora comecei a perceber como grande parte daquilo em que baseei toda a minha vida adulta era apenas isso, um mito - “persistente, persuasivo e irreal”. Não que minha visão da Bíblia tivesse mudado. Na verdade, meu apreço por ela foi aprimorado pelo que vivenciei. Só ela dava sentido e significado ao que eu via acontecer, às atitudes que eu via manifestadas, aos raciocínios que ouvia sendo feitos, à tensão e pressão que sentia. A mudança que ocorreu foi a percepção de que minha maneira de ver as Escrituras tinha sido de um ponto de vista essencialmente sectário, uma armadilha contra a qual pensei estar protegido. Deixando as Escrituras falarem por si mesmas - sem primeiro serem canalizadas por algum agente humano falível como um “canal” - descobri que elas se tornaram imensamente mais significativas. Fiquei francamente surpreso com o quanto de sua importância eu havia perdido.

Essas palavras de Franz são no mínimo peculiares e merecem escrutínio. Ele disse que em 1979 ele repentinamente percebeu que ‘uma grande parte’ da fé das TJs (que ele havia defendido fortemente por 40 anos) era “um mito”. E agora ele afirmava que estava “deixando as Escrituras falarem por si mesmas”; ele estava ‘francamente surpreso com o quanto de sua importância ele havia perdido’.

Seus escritos mostram que ele era uma pessoa inteligente, então como pôde tão repentinamente perceber que todo o fundamento de sua vida cristã era um mito? Depois de ter lido boa parte de seus livros e ouvido o que ele tinha a dizer, não consigo achar sentido para uma mudança tão repentina a não ser este: embora sem qualificação, R. Franz passou a se achar um erudito especial.

Muitos ex-membros das TJs usam os mesmos argumentos usados por R. Franz. Portanto, a seguir eu vou resolver dois problemas de uma só vez por refutar uma das maiores besteiras que R. Franz já falou e que é aceita pela maioria da classe de ex-membros das TJs que militam contra minha amada fraternidade.

A parte 2 deste artigo será lançada na próxima semana e nela dissertarei sobre a alegação de R. Franz quanto a ‘deixar as Escrituras falarem por si mesmas’ e como tal frase, embora soe óbvia em uma compreensão superficial, é, em verdade, dissimulada quando nos aprofundamos nas doutrinas bíblicas e analisamos os ensinos de Jesus e as profecias bíblicas.


Notas:

[1] Essas são comissões onde alguns anciãos se reúnem em privado com um membro da congregação para julgá-lo a fim de saber se ele demonstra arrependimento quanto a um pecado considerado grave pelo Corpo Governante.

[2] Todavia, devido ao fato de que a Torre de Vigia usa atualmente o termo “apostasia” de forma arbitrária e com referências inventadas, duvido muito que o termo “apostasia”, supondo que esta teria sido a acusação feita, teria sido usado da maneira correta no caso da desassociação de Raymond Franz.

[3] A revista A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, p. 115, par. 30, com o título “Por que está aguardando 1975?”, após explicar a cronologia bíblia até o ano da criação de Adão, concluiu:

“Devemos presumir, à base deste estudo, que a batalha do Armagedom já terá acabado até o outono de 1975 e que o reinado milenar de Cristo, há muito aguardado, começará então? Possivelmente, mas, nós esperamos para ver quão de perto o sétimo período de mil anos da existência do homem coincide com o reinado milenar de Cristo, que é como um sábado. Se estes dois períodos decorrerem paralelamente quanto ao ano calendar, não será por mero acaso ou acidente, mas será segundo os propósitos amorosos e oportunos de Jeová. Nossa cronologia, porém, que é razoavelmente exata, (mas, admitidamente não infalível,) no melhor dos casos apenas aponta para o outono de 1975 como o fim de 6.000 anos da existência do homem na terra. Isto não necessariamente significa que 1975 assinala o fim dos primeiros 6.000 anos do sétimo ‘dia’ criativo de Jeová. Por que não? Porque, depois de sua criação, Adão viveu algum tempo durante o ‘sexto dia’, quantidade desconhecida de tempo que teria de ser descontada dos 930 anos de Adão, para se determinar quando terminou o sexto período ou ‘dia’ de sete mil anos e quanto tempo Adão viveu no ‘sétimo dia’. Não obstante, o fim deste sexto ‘dia’ criativo pode ter terminado no mesmo ano do calendário gregoriano em que Adão foi criado. A diferença talvez envolva apenas semanas, ou meses, não anos.”

[4] Pessoas que por vontade própria se dissociaram da Torre de Vigia.

 

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

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