Image Map











domingo, 7 de agosto de 2022

O que é “lascívia” (asélgeia)?

Contribuído.

A Tradução do Novo Mundo 1986 (TNM86) traduz asélgeia por “conduta desenfreada”, ao passo que a TNM15 traduz por “conduta insolente”. Há uma pequena variação de sentido entre algo “insolente” e algo “desenfreado”; insolente significa “desrespeitoso”, “que se opõe as regras”, “arrogante”;[1] desenfreado significa “sem moderação”, “excessivo”, “que não se pode frear”.[2] Essa variação, entretanto, não é substancial para o leitor da TNM; o que importa mesmo são as referências, a saber, a quais ações concretas asélgeia se refere ou se se refere a sentimentos.

A TNM86 é uma das melhores traduções das Escritura Sagradas, se não a melhor que existe em português e em inglês. Ela é, em geral, muito superior à King James (Rei Jaime), às traduções João Ferreira de Almeida, Linguagem de Hoje, Edição Pastoral, Bíblia de Jerusalém e outras. Todavia, neste ponto específico, a tradução “conduta desenfreada/insolente” para a palavra asélgeia não possui base sólida pelos contextos onde o termo aparece, pois assim como akatharsía, asélgeia tampouco se refere a ações específicas, isto é, à “conduta”.

Neste artigo provarei que a melhor tradução para asélgeia é “lascívia”.[3] No artigo sobre akatharsía, mostrei que esta palavra não se refere a ações específicas, e que parece se referir à “impureza de motivos”, que é um conceito abstrato e abrangente, além de se referir ao “estado de impureza” que ocorre após o pecado ter sido cometido. A palavra asélgeia (lascívia) possui sentido ainda mais abstrato que akatharsía e tampouco se refere a ações específicas.  É difícil entender as aplicações da palavra, mas parece se referir à libido descontrolada, não a atitudes ou “conduta insolente”, como verte a TNM15. E assim como akatharsía, asélgeia tampouco é mencionada como pecado de excomunhão/desassociação nas Escrituras.

Ocorrências neotestamentárias de asélgeia, “lascívia”. (“conduta insolente” – TNM15). Todas a citações a seguir são da João Ferreira de Almeida Atualizada (JFAA)

Mar 7:22

“a avareza, as malícias, o dolo, a lascívia, a inveja, a blasfêmia, a soberba, a loucura.”

Nenhuma ação específica.

Ro 13:13

“Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em impudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes;”

Nenhuma ação específica.

2 Co 12:21

“Receio que, indo outra vez, o meu Deus me humilhe no meio de vós, e eu venha a chorar por muitos que, outrora, pecaram e não se arrependeram da impureza, prostituição e lascívia que cometeram.”

Nenhuma ação específica.

Gál 5:19

“Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia. . .”

Não há ações específicas.

Ef 4:19

“os quais, tendo-se tornado insensíveis, se entregaram à dissolução para, com avidez, cometerem toda sorte de impureza.”

Nenhuma ação específica.

1 Pe 4:3

“Porque basta o tempo decorrido para terdes executado a vontade dos gentios, tendo andado em dissoluções, concupiscências, borracheiras, orgias, bebedices e em detestáveis idolatrias.”

Está relacionada ao desejo sexual.

2 Pe 2:18

“porquanto, proferindo palavras jactanciosas de vaidade, engodam com paixões carnais, por suas libertinagens, aqueles que estavam prestes a fugir dos que andam no erro, 

Está relacionada ao desejo sexual.

2 Pe 2:7

“e livrou o justo Ló, afligido pelo procedimento libertino (εν ασελγεια αναστροφης) daqueles insubordinados”

Está relacionada à sexualidade.

Jud 1:4

“Pois certos indivíduos se introduziram com dissimulação, os quais, desde muito, foram antecipadamente pronunciados para esta condenação, homens ímpios, que transformam em libertinagem a graça de nosso Deus e negam o nosso único Soberano e Senhor, Jesus Cristo.”

Nenhuma ação específica.

  

A TNM15 verte todas as ocorrências de asélgeia consistentemente por “conduta insolente”, ao passo que a JFAA é inconsistente na tradução, o que dificulta a pesquisa pessoal. A JFAA usa 3, por assim dizer, campos semânticos de traduções para asélgeia:

1.    Lascívia;[4]

2.  Dissolução/dissoluções;[5]

3.  Libertinagem/procedimento libertino, libertinagens;[6]

A lascívia é a “Qualidade do que se destina à libidinagem ou do que possui uma inclinação para a sensualidade; despudor.” O termo “dissolução”, que significa “rompimento”, é uma tradução imprecisa para asélgeia; “libertinagem” é a manifestação da lascívia, quer dizer, uma pessoa lasciva tem práticas libertinas.

Conforme a exposição anterior deixou claro, não há ações concretas no Novo Testamento para asélgeia, assim como tampouco há pra akatharsía. A obra Mounce Concise English-Greek Dictionary define asélgeia como “intemperança; licenciosidade, lascívia”; o dicionário de Strong define como “licenciosidade (às vezes incluindo outros vícios): - imundo, lascívia, libertinagem”, e a obra Thayer’s Greek Definitions define como “luxúria desenfreada, excesso, licenciosidade, lascívia, libertinagem”.  Em todas as definições lexicais, a palavra que mais se encaixa nos contextos bíblicos das ocorrências de asélgeia é “lascívia”. Sobre o termo grego, Ernest De Witt Burton explicou:

“em vista da associação de Paulo em outro lugar com palavras que denotam sensualidade (Ro 13:1, 2Co 12:21; Ef. 4:19) e seu agrupamento aqui com πορνεία [porneía] e ἀκαθαρσία [akatharsía], é provável que se refira especialmente à devassidão nas relações sexuais.”[7] [O grifo é meu]

Asélgeia é uma palavra de significado abstrato e obscuro. A única coisa que se sabe a partir das ocorrências dela no NT é que é usada em conexão com o sexo ilícito, a saber, porneía e também com akatharsía (impureza de motivo). Não sabemos nada além disso com base nos contextos e referências cruzadas. Se nos basearmos apenas nas Escrituras Sagradas, que é o que devemos fazer, poderemos concluir que asélgeia parece se referir à libido descontrolada, isto é, lascívia. Esta palavra não se refere a ações específicas, mas a desejos que se evidenciam em um modo de vida imoral.

A lascívia não se aplica ao desejo natural que um homem sente por uma mulher e vice-versa; antes, refere-se à libido descontrolada, exagerada, um coração que é dominado pelo desejo sexual, e tal desejo se manifesta em outros atos imorais, tal como a prática de porneía (sexo ilícito).

Por exemplo, se um homem casado vai até uma casa noturna para ver, tocar e acariciar mulheres nuas ou seminuas, cedo ou tarde ele se envolverá com fornicação (porneía), isso sem dúvidas evidenciará a lascívia (asélgeia) no íntimo dele. Isto é libertinagem. Ainda assim, a Bíblia não diz em parte alguma que a lascívia é um pecado de desassociação porque não há ações específicas para essa palavra na Bíblia. Pela definição de Ernest De Witt Burton, poderíamos dizer que uma pessoa que mantem relações sexuais libertinas (porneía), com vários (as) parceiros (as), é lasciva. Esta poderia ser a razão de asélgeia e porneía serem mencionadas juntas algumas vezes no NT. Assim, não é a asélgeia o pecado de desassociação, mas porneía.

Em Gálatas 5:19, 20, Paulo cita as “obras da carne”, e dentre elas estão asélgeia (lascívia), akatharsia (impureza) e porneía (sexo ilícito) juntas.

19  φανερα δε εστιν τα εργα της σαρκος ατινα εστιν μοιχεια πορνεια (porneía) ακαθαρσια (akatharsía) ασελγεια (asélgeia)

20  ειδωλολατρεια φαρμακεια εχθραι ερεις ζηλοι (zēlos – “ciúmes”) θυμοι εριθειαι διχοστασιαι αιρεσεις

21 φθονοι (phthonos, “invejas”) φονοι μεθαι κωμοι και τα ομοια τουτοις α προλεγω υμιν καθως και προειπον οτι οι τα τοιαυτα πρασσοντες βασιλειαν θεου ου κληρονομησουσιν 

 

Significa isso que elas são a mesma coisa, ou que as três são pecados de desassociação? Não, pois o escritor também menciona logo em seguida “ciúmes” e “invejas” como obras da carne, e ninguém pode ser excomungado/desassociado por ciúmes e invejas. Ademais, como alguém poderia ser desassociado por asélgeia se a Bíblia não apresenta nenhuma ação específica para tal palavra? Das obras da carne, as únicas que são mencionadas por Paulo como pecados de desassociação são: fornicação/sexo ilícito (porneía); idolatrias (eidōlolatreia), seitas/heresias (hairesis), bebedeiras/intoxicação (methē), que correspondem respectivamente à lista de personalidades descritas por Paulo em 1 Coríntios, 5 e 6 como sendo os passíveis de desassociação, a saber, fornicador, idólatra, herege (Tito 3:10), e beberrão/alcoólatra.

Ainda sobre as obras da carne, podemos categorizá-las nas quatro formas a seguir:

1)               Pecados sexuais – fornicação (sexo ilícito/imoralidade sexual), impureza e lascívia;

2)             Pecados espirituais – Idolatria e ocultismo (farmakía);

3)             Pecados nos relacionamentos - inimizades, brigas, ciúme, acessos de ira, discórdias, divisões, formação de seitas;

4)             Pecados de indulgência – invejas, embriaguez e festas descontroladas/farras;

Sobre o ponto 1), na obra South Asia Bible Commentary lemos:

“A imoralidade sexual refere-se a todas as formas de relações sexuais ilícitas. Impureza refere-se à impureza moral em pensamento, palavra e ação. Devassidão conota uma exibição aberta e desavergonhada desses males.”[8]

Com base neste comentário, porneía se refere ao sexo ilícito, akatharsía se refere ao estado mental impuro e asélgeia se refere ao estilo de vida devasso/lascivo que um fornicador exibe aos expectadores. Ou seja, asélgeia não é uma ação pecaminosa passível de desassociação, mas é a lascívia percebida no estilo de vida de um fornicador. Em outras palavras, é necessário ser um fornicador para ser culpado de lascívia.

A que ações asélgeia (lascívia) não se refere?

             A palavra asélgeia não se refere a:

1.    Manter contato desnecessário com um desassociado, seja este membro da família ou não; (!)

2.  Namorar alguém sem estar biblicamente livre para se casar;

             É claro que cristãos não devem manter contato desnecessário com aquele que foi excomungado da congregação cristã, pois Paulo disse: “nem se quer comam com tal homem”. (1 Coríntios 5:11) Portanto, o distanciamento de um membro da congregação para com um desassociado deve ser maior que o distanciamento para com os descrentes.

             Jesus ensinou que o único motivo bíblico para divórcio em que o cristão está justificado para se casar de novo é porneía, no caso, o adultério. Por isso, se um casal se divorciou por qualquer motivo que não seja este, nenhum dos envolvidos está justificado para se casar de novo e, caso se case novamente, será culpado de porneía. Por causa disto, é obviamente impróprio que tais pessoas comecem um relacionamento romântico, ainda que sem envolvimento sexual, com outra pessoa. O senso comum revela que muito provavelmente alguém que fez isso se envolverá em porneía.

             Entretanto, o que quero destacar é que não há nenhuma relação entre a palavra asélgeia e “manter contato desnecessário com um desassociado”. (!) O fato de um grupo de instrutores da Bíblia ensinar que há relação entre asélgeia e tal conceito revela grande despreparo para instruir as ovelhinhas de Jeová. Muitas pessoas têm suas vidas arruinadas por causa disso. O mesmo se diz da relação entre asélgeia e “namorar sem estar livre para se casar novamente” – não há nada na Bíblia que relacione asélgeia com tal atitude.

Conclusão

O sentido primário de asélgeia é obscuro no NT. Ainda assim, com base nos estudos lexicais e na análise contextual, as melhores evidências apontam para asélgeia como significando “lascívia”, isto é, a libido descontrolada. Esta não é uma ação, mas um desejo descontrolado que resulta em um estilo de vida que se evidencia a partir da prática de sexo ilícito. Podemos concluir sobre as obras da carne que porneía é o sexo ilícito, akatharsía é a impureza de motivo e também o estado de impureza após o pecado ter sido cometido, e asélgeia é a lascívia percebida no estilo de vida de uma pessoa sexualmente imoral, um fornicador.

Destas três obras da carne, apenas porneía é descrita no NT como passível de desassociação.

Não há relação bíblica entre asélgeia e “manter contato desnecessário com um desassociado”.


Notas:

[1] Veja a definição em: https://www.dicio.com.br/insolente/

[2] Veja a definição em: https://www.dicio.com.br/desenfreado/

[3] Definição de “lascívia”: https://www.dicio.com.br/lascivia/

[7]  Disponível em: https://archive.org/details/acriticalandexeg35burtuoft/page/n401/mode/2up?view=theater

[8] South Asia Bible Commentary. Editor geral: Brian Wintle. Publicado em 2015. Editora: Open Doors Publications. ePub Edition © September 2015: ISBN 978-0-310-55962-7 


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org

 





Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *