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quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Uma regra bíblica desconsiderada pelos trinitaristas

Fonte da ilustração: http://wol.jw.org/en/wol/d/r1/lp-e/1101978083


“O anjo de Jeová apareceu-lhe então numa chama de fogo no meio dum espinheiro. . . . E prosseguiu, dizendo: ‘Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.’ Moisés escondeu então a sua face, porque estava com medo de olhar para o verdadeiro Deus.” – Êxodo 3:2, 6.


     Textos como o acima têm sido interpretados por trinitaristas como prova de que o “anjo de Jeová” é o próprio Jeová, o Deus Todo-Poderoso. O texto apresenta o anjo falando na primeira pessoa do singular, falando como se fosse Jeová, e apresenta Moisés reagindo à manifestação do anjo como se o anjo fosse de fato Deus. Outras passagens bíblicas apresentam o mesmo quadro, de anjos falando e/ou sendo aludidos como sendo Deus. (Gênesis 16:7-13; 22:15-18; 32:24-30; Juízes 13:8-22) No entanto, a interpretação trinitarista de tais textos desconsidera uma regra fundamental que permeia a Bíblia inteira. Que regra é essa? Antes de citá-la, vamos exemplificá-la mediante uma passagem bíblica.
     
Como exemplo, observe parte do discurso de Moisés, registrado em Deuteronômio 29:2-6. Diz o texto:

E Moisés passou a convocar todo o Israel e a dizer-lhes: “Vós fostes os que vistes tudo o que Jeová fez diante dos vossos olhos, na terra do Egito, a Faraó e a todos os seus servos, e a toda a sua terra, as grandes provas que teus olhos viram, aqueles grandes sinais e milagres. Contudo, Jeová não vos deu um coração para saber e olhos para ver, e ouvidos para ouvir até o dia de hoje. ‘Enquanto eu vos guiava por quarenta anos no ermo, vossos mantos não se gastaram sobre vós, e tua sandália não se gastou no teu pé. Não comestes pão nem tomastes vinho e bebida inebriante, a fim de que soubésseis que eu sou Jeová, vosso Deus.’”
     O texto acima mostra Moisés falando na primeira pessoa do singular, e numa parte de seu discurso ele faz a surpreendente declaração acima, colocada em negrito. O fato de ele falar antes de Jeová na terceira pessoa do singular, como que colocando-o à parte, não seria um contra-argumento que explique essa passagem. Pois, nos textos em que um anjo fala como sendo Jeová, ele também menciona Jeová na terceira pessoa do singular. (Veja Gênesis 16:11; Juízes 13:16.) É uma construção gramatical comum alguém falar de si mesmo na terceira pessoa, como se estivesse falando de outro. Por exemplo, em Oseias 1:7, Jeová disse: “Vou salvá-los por Jeová, seu Deus.” (Veja também 1 Reis 8:1; Êxodo 24:1; Oseias 6:6.) Então, como explicar o texto de Deuteronômio 29:2-6?

A solução dessa e de outras passagens similares reside na seguinte regra bíblica:

Os que representam outro podem falar e/ou ser aludidos ou referidos como se fossem a pessoa por eles representada.

No caso da passagem acima, Moisés podia usar tal fraseologia por ser na época o maior representante humano de Jeová. A Tradução do Novo Mundo coloca os versículos 5 e 6 entre aspas simples, mostrando que Moisés estava citando palavras de Jeová. (Infelizmente, muitas outras traduções não colocam aspas, dando a entender que Moisés falou de si mesmo.) Mas, por que ele não fez referência a que tais palavras eram de Jeová, como fizeram profetas posteriores? Por exemplo, muitos profetas iniciaram sua mensagem com as palavras: “Assim disse Jeová.” (1 Reis 20:13, 14; Isaías 37:6; Jeremias 2:1, 2; Ezequiel 11:5) Isto se deu devido a que Moisés gozava de um relacionamento muito especial com Jeová. O próprio Jeová Deus explicou isso, dizendo: “Se houvesse um profeta vosso para Jeová, seria numa visão que eu me daria a conhecer a ele. Falar-lhe-ia num sonho. Não assim com meu servo Moisés! Ele está sendo incumbido de toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, mostrando-lhe assim, e não por enigmas; e a aparência de Jeová é o que ele contempla.” (Números 12:6-8) Mas, o ponto em questão é que a regra bíblica supracitada explica coerentemente a passagem de Deuteronômio 29:2-6.

Uma regra que permeia a Bíblia inteira
   
Encontramos outra alusão a essa regra nas palavras de Jesus em João 13:20: “Quem receber a qualquer que eu enviar, recebe também a mim. Por sua vez, quem me receber, recebe também aquele que me enviou.” A mesma regra harmoniza as passagens de Mateus 8:5-13 e de Lucas 7:1-10. O relato de Mateus diz que um oficial do exército veio a Jesus, suplicando que o Senhor curasse seu servo. Por outro lado, a narrativa de Lucas diz que o oficial enviou a Jesus “anciãos dos judeus” para lhe pedirem que curasse o servo dele. Não há contradição nos dois relatos. Visto que os anciãos estavam representando o oficial romano, Mateus fala que o próprio oficial foi até Jesus. Os anciãos foram aludidos como se fossem o próprio oficial por o estarem representando.[1] – Veja também Marcos 10:35-37; Mateus 20:20, 21; 18:5; Lucas 9:48.

Em adição, a regra supracitada aplica-se inclusive numa relação entre pessoa e objeto. 1 Samuel 4:6, 7 nos relata que, quando os filisteus “ficaram sabendo que a própria arca de Jeová tinha chegado ao acampamento” deles, eles “disseram: ‘Deus chegou ao acampamento!’” Naturalmente, ninguém diria que a arca do pacto era o próprio Deus. Porém, visto que tal objeto o representava, ela foi aludida como sendo tal.

Uma regra que elucida textos mal interpretados

Por conseguinte, a mesma regra bíblica explica coerente e satisfatoriamente os casos em que anjos falaram e foram referidos como se fossem o próprio Jeová Deus. Fizeram isso por serem representantes de Deus. Se um representante humano de Deus pôde usar a mesma linguagem, quanto mais poderia um representante celestial de Jeová! Como já mencionado, esta regra permeia a inteira Palavra de Deus. Se você ler Revelação (Apocalipse) 21:9 a 22:15, verá que “um dos sete anjos que tinham as sete tigelas cheias das últimas sete pragas” é que falou as palavras registradas em Apocalipse 21:12, 13: “‘Eis que venho depressa, e a recompensa que dou está comigo, para dar a cada um conforme a sua obra. Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim.’”  (Apocalipse 21:9, 15; 22:1, 6, 7, 10-15) Em seguida, o mesmo anjo disse: “‘Eu, Jesus, enviei o meu anjo para vos dar testemunho destas coisas para as congregações. Eu sou a raiz e a descendência de Davi, e a resplandecente estrela da manhã.’” – Apocalipse 22:16.
     
Esse anjo, que não era nem Jeová e nem Jesus Cristo, falou como se fosse cada um deles. (Apocalipse 15:1; 16:1) Pois, em Apocalipse 22:10-15 não há nenhuma expressão que introduz um personagem diferente falando. O anjo pôde falar assim por ser um representante tanto de Jeová Deus como de Jesus Cristo. Apropriadamente, a Tradução do Novo Mundo coloca tais palavras do anjo tanto com aspas normais como com aspas simples, indicando que ele estava citando aqueles a quem ele estava representando.

O anjo que falou com Moisés “na chama ardente dum espinheiro” foi mencionado como sendo “um anjo”. (Atos 7:29) Ao invés desse anjo ser Deus, a Bíblia diz que “Deus enviou [Moisés] como governante e como libertador pela mão do anjo que lhe apareceu no espinheiro”. (Atos 7:35) Portanto, falar e ser referido como sendo outrem não é prova positiva de que ambos têm a mesma identidade. Nenhum anjo, nem mesmo o Logos, pode ser equiparado a Jeová Deus. Por outro lado, eles podem representá-lo, sendo mencionados como se fossem o próprio Jeová.

Mas, há um caso interessante em que o anjo de Jeová fez referência a que suas palavras procediam de Jeová. Lemos em Gênesis 22:15, 16: “E o anjo de Jeová passou a chamar Abraão pela segunda vez, desde os céus, e a dizer: ‘Juro deveras por mim mesmo’, é a pronunciação de Jeová.” Por que neste caso especifico o anjo atribuiu a Deus sua declaração? Hebreus 6:13 explica: “Pois, quando Deus fez a sua promessa a Abraão, uma vez que não podia jurar por ninguém maior, jurou por si mesmo.” Portanto, jurar por si mesmo é uma singularidade, ou exclusividade, de Jeová Deus. Ele é o único que não possui alguém “maior” do que ele. Inversamente, o Logos é sempre apresentado num contexto de subordinação em relação a Jeová.[2] Por esta razão, mesmo representando a Deus, o anjo modestamente fez referência a que tal “declaração juramentada” procedia de Jeová. – Gênesis 26:3.

A regra bíblica considerada neste artigo é um célebre exemplo de metonímia, figura de linguagem em que um termo substitui outro pela afinidade que há entre ambos. Por exemplo, o autor pode ser substituído pela obra, quando alguém diz: “Gosto de ler Machado de Assis”, querendo dizer, naturalmente, a obra literária desse autor. (Outros exemplos envolvem o efeito pela causa, o lugar pelo produto, continente pelo conteúdo etc.) Neste caso, ocorre o fenômeno da substituição do representado pelo representante. Observamos um exemplo desse tipo de metonímia em uma notícia veiculada pelo jornal “Diário do Grande ABC”, sob o tema: “Moscou e Washington manterão conversas de defesa.”[3] Como o periódico explicou a seguir, a referência era à Rússia e aos Estados Unidos, os quais foram, no texto do jornal, representados por suas respectivas capitais e referidos como se fossem as mesmas.

A mesma regra também explica os casos em que passagens do “Velho Testamento” referentes a Jeová são aplicadas no “Novo Testamento” à pessoa de Cristo. Essa transferência de aplicação tem por base a relação entre os dois, respectivamente, de representado e representante.  – Salmo 68:18; Efésios 4:7, 8; Hebreus 1:3.

Portanto, fazemos um convite a todos os trinitaristas sinceros, no sentido de que deem a devida atenção à regra bíblica explanada neste artigo, a qual faculta a correta interpretação de muitos textos que têm sido mal entendidos pelos expositores da doutrina trinitarista. É importante respeitarmos os limites impostos pela Palavra de Deus e permitirmos que ela própria nos esclareça o sentido de sua mensagem. Fazendo assim, sentiremos em nós o cumprimento das maravilhosas palavras do Filho de Deus, Jesus Cristo: “Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” – João 8:32.

Referências

[1] Veja a revista Despertai! de 8 de agosto de 1979, pp. 28, 29, sob o tema “‘Quem me viu, viu o pai’ — em que sentido?”
[2] Veja o artigo “A Trindade é ensinada no ‘Novo Testamento’?” neste site.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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terça-feira, 27 de setembro de 2011

Quem é o anjo de Jeová?



Fonte da ilustração: 
https://www.jw.org/es/publicaciones/revistas/ws20140215/jud%C3%ADos-cre%C3%ADan-que-el-mes%C3%ADas-estaba-a-punto-de-llegar/



     Numa tentativa de identificar Jeová com Jesus Cristo, alguns trinitaristas recorrem a duas proposições: 1) afirmam que a expressão “anjo de Jeová” (“anjo do Senhor”, Al) se refere exclusivamente a Jesus Cristo; 2) afirmam que tal “anjo” é o próprio Jeová. Vamos, portanto, examinar a validade dessas duas proposições. Neste artigo analisaremos a primeira asserção. Em que base se afirma que o “anjo de Jeová” é Jesus Cristo?

     Alguns costumam fazer referência ao incidente registrado em Juízes 13:8-22. Quando Manoá pergunta ao “anjo de Jeová” sobre o nome do anjo, este declara: “Por que é que me perguntarias assim pelo meu nome, quando ele é maravilhoso?” (Versículos 17 e 18.) Com base nisso, eles relacionam a resposta do anjo com Isaías 9:6, onde um dos títulos de Jesus Cristo inclui a palavra “Maravilhoso”. No entanto, em Juízes 13:18 a palavra “maravilhoso” não é um nome pessoal nem tampouco um título; é apenas uma descrição, significando que o nome do anjo é admirável, surpreendente, até sobrenatural. A resposta do anjo foi uma objeção à pergunta de Manoá. Tal anjo modestamente não quis revelar o seu nome, assim como se deu com o anjo com quem Jacó lutou. – Gênesis 32:29.[1]

     Por outro lado, em Isaías 9:6, a palavra “Maravilhoso” faz parte do título composto “Maravilhoso Conselheiro”, assim como os demais títulos são compostos de duas expressões, tais como “Pai Eterno” e “Príncipe da Paz”. (Veja Isaías 9:6 na IBB, cuja tradução do texto é igual a da NM.) Além disso, o uso da mesma palavra não indica, automaticamente, que as pessoas (ou coisas) referidas por tal palavra tenham a mesma identidade. Um exemplo disso se encontra em Gênesis 31:48 e 50. No primeiro desses versículos, encontramos Labão dizendo: “Este montão é hoje testemunha entre mim e ti”; ao passo que, no versículo 50, Labão disse: “Deus é testemunha entre mim e ti.” Jamais se poderia concluir disso que Deus seja algo inanimado como um “montão”!   – Veja o artigo “Duas regras – uma falsa e uma verdadeira”, neste site.

     Com efeito, a Bíblia faz alusão a Jesus na sua existência pré-humana como sendo o anjo que Jeová designou para conduzir os israelitas à Terra Prometida. Lemos em Isaías 63:9: “Seu próprio mensageiro pessoal os salvou.” Outras traduções vertem por “o anjo da sua face”, (Al) e “o Anjo da sua presença”. (ALA) Contudo, ele é mencionado como “um anjo” e chamado por Jeová de “meu anjo”. (Êxodo 23:20, 23; 32:34) A clara distinção entre tal anjo – identificado como o pré-humano Filho de Deus – e o próprio Jeová reside no fato de que Jeová disse que enviaria tal anjo mas que ele mesmo não iria no meio de Israel. Apenas com a fervorosa súplica de Moisés é que Jeová assentiu, dizendo: “Minha própria pessoa irá junto.” (Êxodo 33:14-17) Encontramos outra evidência clara dessa distinção na conversa do anjo de Jeová com o próprio Jeová. – Zacarias 1:12, 13.

     De fato, a expressão “anjo de Jeová” (“anjo do Senhor”, Al) não é usada exclusivamente para o Filho primogênito de Deus. Em 1 Crônicas 21:12, 15, 27, o “anjo de Jeová” é descrito como “um anjo” enviado por Jeová e que age segundo as ordens de Jeová. A passagem não determina a identidade desse anjo como sendo o Logos. Ele pode referir-se a qualquer um dos anjos de Deus. Ademais, lemos no Salmo 34:7: “O anjo de Jeová acampa-se ao redor dos que o temem, e ele os socorre.” A expressão “anjo de Jeová” nesse texto refere-se, naturalmente, a qualquer anjo de Deus. Por fim, temos o texto de Lucas 2:9, o qual declara que, por ocasião do nascimento de Jesus, apareceu o “anjo de Jeová” (“anjo do Senhor”, Al) aos pastores, anunciando tal nascimento. É, pois, evidente que tal expressão não se aplica apenas a Jesus Cristo. Também é evidente que o “anjo de Jeová” é distinto do próprio Jeová Deus.

Mas, por que em algumas passagens o anjo de Deus fala como se fosse o próprio Deus, e é assim aludido por humanos aos quais eles se manifestaram? O artigo “Uma regra bíblica desconsiderada pelos trinitaristas” responde a essas questões.






[1] O anjo Gabriel revelou seu nome a Zacarias para dar peso à sua declaração, devido à falta de fé Zacarias. No entanto, Gabriel não revelou seu nome a Maria. (Lucas 2:18-20, 26-38) Embora a Bíblia revele que existem “miríades de miríades” de anjos, ela revela apenas o nome de dois deles, Miguel e Gabriel. (Judas 9; Lucas 1:19; Apocalipse 5:11; Hebreus 12:22) Isto, por certo, constitui uma salvaguarda contra a “adoração dos anjos”. – Colossenses 2:18.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Duas regras – uma falsa e uma verdadeira




Fonte da ilustração: http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102002031

     
É muito comum, já por muito tempo, os trinitaristas citarem textos bíblicos que usam o mesmo título ou expressão tanto para Jeová como para Jesus Cristo como alegada indicação de que ambos sejam a mesma pessoa. Por exemplo, o fato de Jeová e de Cristo serem chamados de “pastor”, “rocha” e “salvador” é tido pelos expositores dessa doutrina como “prova” de que possuem a mesma identidade. (Salmo 23:1; João 10:11;  Salmo 18:2; 1 Coríntios 10:4; Isaías 43:11; Lucas 2:11) Com isso, os trinitaristas estão estabelecendo uma regra. Essa regra poderia ser expressa assim: ‘Quando o mesmo título, a mesma expressão ou a mesma ação são atribuídos a seres chamados por nomes diferentes, isso indica que são a mesma pessoa, ou o mesmo ser.’ Será que tal regra tem validade? Sobrevive ela a um escrutínio bíblico? Vejamos.

Uma regra falsa elaborada pelos trinitaristas

Em João 8:44, Jesus declarou aos judeus de seus dias: “Vós sois de vosso pai, o Diabo.” Em João 8:56, ele se expressou ao mesmo grupo com as palavras: “Abraão, vosso pai.” Se a regra trinitarista fosse verdadeira, chegaríamos à absurda conclusão que o Diabo e Abraão são a mesma pessoa! É óbvio que o Diabo era o pai deles porque eles o imitavam, ao passo que Abraão era seu pai por serem descendentes dele.

Vejamos outro exemplo. 2 Samuel 8:13 declara: “E Davi passou a ganhar fama quando voltou de golpear os edomitas no Vale do Salmo” O cabeçalho do Salmo 60 diz que “Joabe passou a retornar e a golpear Edom no Vale do Salmo” E 1 Crônicas 18:12 diz: “Quanto a Abisai, filho de Zeruia, golpeou ele os edomitas no Vale do Salmo” Será que tais textos indicam que Davi, Joabe e Abisai são a mesma pessoa? Afinal, a mesma ação foi atribuída a cada um deles! Na realidade, o crédito pela vitória foi atribuído a Davi por ele ser o comandante-chefe; a Joabe, por este ser seu principal general; e a Abisai, por ser um comandante divisionário sob Joabe.[1] Portanto, esses dois exemplos não deixam dúvida de que a subliminar regra trinitarista não é verdadeira. Ela não subsiste ao exame honesto das Escrituras.

Uma verdadeira regra bíblica

Mas, como podemos explicar textos bíblicos que atribuem os mesmos termos tanto a Jeová como a Cristo? Para isso, vamos agora focalizar uma verdadeira regra bíblica. Ela se encontra em 1 Coríntios 8:6, que declara: “Para nós há realmente um só Deus, o Pai, de quem procedem todas as coisas, e nós para ele; e há um só Senhor, Jesus Cristo, por intermédio de quem são todas as coisas, e nós por intermédio dele.” Note que Paulo diz que do Pai “procedem todas as coisas”, ao passo que Jesus é aquele “por intermédio de quem são todas as coisas”. Embora Jesus seja aludido como “deus” na Bíblia, somente “Deus, o Pai” é a Procedência, Origem ou Fonte das coisas. (João 1:1) Por outro lado, embora Jeová seja referido como “Senhor” na Bíblia, somente Jesus é Senhor como Canal, ou Intermediário, de todas as coisas. (Salmo 8:1) Tendo presente esta clara regra estabelecida pela Bíblia, podemos entender facilmente textos que usam as mesmas expressões tanto para Jeová como para Jesus.

Por exemplo, Jeová disse: “Além de mim não há salvador.” (Isaías 43:11; veja também Salmo 106:21.) Outros textos falam de Jesus Cristo como “Salvador”. (2 Timóteo 1:10; 2 Pedro 1:11) Mas Judas, versículo 25, equaciona o problema aplicando a regra bíblica acima. O texto diz: “Ao único Deus, nosso Salvador, por intermédio de Jesus Cristo, nosso Senhor.” O entendimento é claro: Jeová é chamado de Salvador por ser a Procedência, o Autor e a Fonte da salvação, ao passo que Jesus é referido como Salvador por ser o Agente, o Canal, ou meio, pelo qual ela é realizada. Isto é confirmado pela declaração de Atos 13:23, que reza: “Deus trouxe a Israel um salvador, Jesus.” – Veja também Lucas 2:30.

Vejamos outro exemplo. Romanos 14:12 diz que “cada um de nós prestará contas de si mesmo a Deus”, ao passo que 2 Coríntios 5:10 afirma que “todos nós temos de ser manifestados perante a cadeira de juiz do Cristo”. Dada a similaridade das expressões, os trinitaristas apressam-se a concluir disso que Deus e Cristo são a mesma pessoa. Mas, como já explicado, seguir essa regra levaria a grandes equívocos. Por outro lado, a regra exposta em 1 Coríntios 8:6 explica coerentemente tais passagens. Aplicando tal regra, Romanos 2:16 fala de “Deus, por intermédio de Cristo Jesus, julgar as coisas secretas da humanidade”. Adicionalmente, Atos 10:42 descreve Jesus como “o decretado por Deus para ser juiz.” Como Fonte do julgamento e em cujas leis ele se baseia, Jeová é o Juiz supremo. (Salmo 50:6) Como Agente e Executor do julgamento, Jesus também pode ser mencionado como “juiz”.

Embora o título de “pastor” seja utilizado tanto para Jeová como para Cristo, encontramos a explicação que mostra a relação entre esses dois Pastores em Gênesis 49:24, 25: “Das mãos do Potentado de Jacó, dali provém o Pastor, a Pedra de Israel. Ele provém do Deus de teu pai.” Portanto, o texto mostra que Jesus, como “Pastor” e “Pedra de Israel”, provém de Jeová, o “Potentado de Jacó”. Isso concorda com o que diz a primeira parte de 1 Coríntios 8:6, a saber, que de “Deus, o Pai”, “procedem todas as coisas”, inclusive o próprio Filho, Jesus Cristo. Assim sendo, Jesus é o Pastor proveniente do Deus Todo-Poderoso, Jeová.

Como vimos, a hermenêutica, ou interpretação dos textos bíblicos, seguida pela cristandade, segue fórmulas equivocadas, superficiais e tendenciosas. (Marcos 7:13) Num sentido diametralmente oposto, a organização de Jeová mostra total respeito pela Palavra de Deus por aplicar a ela somente as regras que dela procedem. – João 17:17; 1 Tessalonicenses 2:13.



Referências

[1] Veja a obra Estudo Perspicaz das Escrituras, (volume 1, p. 754) publicado pelas Testemunhas de Jeová.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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domingo, 25 de setembro de 2011

Personificação prova personalidade?

Fonte da ilustração: 
https://www.jw.org/pt/publicacoes/revistas/ws20141115/Agora-voc%C3%AAs-s%C3%A3o-povo-de-Deus/

 
   “Aconteceu uma vez que as árvores foram ungir um rei sobre si. Disseram, pois, à oliveira: ‘Reina sobre nós.’ Mas a oliveira lhes disse: ‘Deveria eu renunciar à minha gordura com que se glorifica a Deus e os homens e deveria ir para oscilar sobre as outras árvores?’” – Juízes 9:8, 9.

     A personificação, também chamada de prosopopeia, é uma figura de linguagem que consiste em atribuir dotes e qualidades pessoais a algo impessoal. A citação bíblica acima é um exemplo desse recurso literário. De fato, essa figura é bastante comum no dia a dia. Expressões tais como “hoje o dia está triste”, (quando o céu nublado e/ou o tempo frio produzem tristeza no ser humano,) e “esse parafuso não quer entrar”, (como se o parafuso tivesse vontade própria,) são exemplos comuns desse estilo. A Bíblia está repleta de exemplos de personificação, ou prosopopeia. Seguem, abaixo, alguns desses exemplos:

     “A palavra de Jeová . . . foi dizer-lhe.” – 1 Reis 19:9.
     “Meu divã me consolará.” – Jó 7:13.
     “As próprias colunas do céu . . . estão pasmadas.” – Jó 26:11.
     “Durante as noites me corrigiram os meus rins.” – Salmo 16:7.
     “Levantai as vossas cabeças, ó portões.” – Salmo 24:7.
     “Que a minha glória entoe melodias.” – Salmo 30:12.
     “Que jubilem os ossos que quebrantaste”. – Salmo 51:8.
     “As próprias baixadas . . . bradam em triunfo, sim, cantam.” – Salmo 65:13.
     “Rejubile a campina”. – Salmo 96:12.
     “O próprio sol sabe muito bem onde se põe.” – Salmo 104:19.
     “O próprio mar viu e pôs-se em fuga.” – Salmo 114:3.
     “Ele faz prantear a escarpa e a muralha.” – Lamentações 2:8.

     Os casos de personificação não se limitam a livros bíblicos poéticos. O pecado e a morte são personificados na carta apostólica aos Romanos, (5:14, 21; 7:8-11) a sabedoria é personificada nos Evangelhos, (Mateus 11:19; Lucas 7:35) e o sol e as árvores são personificados em livros proféticos. (Isaías24:23; Ezequiel 31:9) Há inúmeros exemplos bíblicos de personificação. As pessoas não têm nenhuma dificuldade de entender o uso dessa figura de retórica, pois reconhecem que as coisas personificadas não são realmente seres com personalidade.

     Contudo, o mesmo não acontece quando o espírito santo é personificado nas Escrituras. Isto se dá por causa do dogma da Trindade. Em 381 EC, o Concílio de Constantinopla atribuiu personalidade ao espírito santo, chamando-o de “Senhor”. Declarou ainda que tal espírito devia ser adorado.[1] Devido ao conceito prevalecente entre os membros da cristandade, de que o espírito santo é uma pessoa, muitos encaram a personificação desse espírito como evidência de personalidade. Tais pessoas desconsideram que as mesmas expressões são usadas para outras coisas impessoais. Observe, para tanto, as comparações abaixo:
“O espírito santo . . . vos ensinará.” (João 14:26) “Toda a Escritura é . . . proveitosa para ensinar.” (2 Tim. 3:16) Assim, as Escrituras também ensinam, embora não tenham personalidade.

     “O espírito santo . . . vos fará lembrar.” (João 14:26) “E terá de vir a haver o arco-íris na nuvem, e eu certamente o verei para me lembrar do pacto.” (Gênesis 9:16) O arco-íris, algo impessoal, também faz lembrar.

     “O espírito da verdade, que procede do Pai, esse dará testemunho.” (João 15:26) “As próprias obras que meu Pai me determinou efetuar, as próprias obras que eu faço, dão testemunho de mim.” (João 5:36) Ninguém dirá que as obras são pessoas; contudo, elas também dão testemunho.

     “O espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade.” (João 16:13) “A própria coluna de nuvem não se afastou de cima deles de dia, para guiá-los no caminho.” (Neemias 9:19) Tal coluna, naturalmente, era algo, não alguém – mas também guiava.

     “O espírito da verdade . . . falará as coisas que ouvir e vos declarará as coisas vindouras.” (João 16:13) “Ouvi, ó montes, a causa jurídica de Jeová.” (Miqueias 6:2) “Os céus declaram a glória de Deus.” (Salmo 19:1) Os céus e os montes são seres inanimados; mas podem, figuradamente, “ouvir” e “falar”. Aliás, uma das definições dos dicionários para “falar” é “exercer influência”. (Aurélio; Michaelis) É com base nisso que existe o ditado: “As ações falam mais alto do que as palavras.” Quer dizer, as ações exercem maior influência do que as palavras.

     Que dizer de Efésios 4:30? Esse texto declara em parte: “Não contristeis o espírito santo de Deus.” Trata-se, coerentemente, de mais um exemplo de personificação. O inteiro escopo de textos descritivos do espírito santo usam quadros verbais que o revelam como sendo algo impessoal. (Veja o artigo “É a Trindade uma doutrina bíblica?” neste site.) Mas, como podemos entender a linguagem figurada desse texto?

   Descrevendo a reação de Moisés à persistente obstinação dos israelitas, o Salmo 106:33 diz: “Amarguraram-lhe o espírito.” A Versão Almeida verte assim o texto: “Irritaram o seu espírito.” (Al) A respeito do Rei Acabe, de Israel, foi dito: “Por que está triste o teu espírito . . . ?” (1 Reis 21:5) Nesta acepção, “espírito” significa a força íntima “que induz a pessoa a demonstrar certa atitude, disposição ou emoção, ou a tomar certa ação ou adotar certo proceder”. [2] Essa força, evidentemente, não é uma pessoa, mas emana de uma pessoa. Por isso, atribui-se a ela os sentimentos da pessoa da qual tal força emana. Uma vez que o espírito santo emana de Deus, que é a sua fonte, a Bíblia atribui a esse espírito os sentimentos do próprio Deus.[3]

     Similarmente, pela mesma razão de Jeová Deus ser a fonte do espírito santo, as Escrituras atribuem a esse espírito o que é feito a Deus. É por tal razão que encontramos em Atos 5:3 as palavras do apóstolo Pedro a Ananias: “Por que te afoitou Satanás a trapacear o espírito santo . . . ?” O versículo seguinte explica: “Trapaceaste, não homens, mas a Deus.” (Atos 5:4) Isto não significa que o espírito santo seja Deus, pois Jesus referiu-se a tal espírito como sendo o “dedo de Deus”. (Lucas 11:20) O dedo de uma pessoa não é a própria pessoa, apenas faz parte dessa pessoa e é dirigido por ela. Por esta razão, qualquer dano feito ao dedo de uma pessoa é considerado como tendo sido feito a ela.

     Mas, em que sentido aquele casal ‘trapaceou o espírito santo’?[4] Naquela época, Jeová, por meio de seu espírito, ou figurativo “dedo”, estava movendo os cristãos de coração disposto a vender suas propriedades para ajudar seus concrentes necessitados. (Atos 4:34, 35) Ananias e sua esposa, Safira, também venderam uma propriedade, mas não para agir em harmonia com a influência altruísta com a qual o espírito santo estava movendo os fiéis. Por desviarem-se do nobre propósito induzido pelo espírito de Deus para um propósito egoísta, mesquinho, tal casal ‘trapaceou’ figuradamente tal espírito. Por fazer isso, literalmente ‘trapaceou’ a Deus, a fonte de tal espírito.

     Por conseguinte, é meridianamente claro que a personificação do espírito santo é tão somente um recurso linguístico e não um suporte teológico para uma falsa doutrina. Personificação não prova personalidade. A dificuldade por parte de teólogos da cristandade em entender isso se deve à pesada neblina de obscuridade religiosa que foi legada pelos que apostataram do primitivo cristianismo. É, portanto, necessário se despojar do orgulho da batina e do diploma de teologia e ‘aceitar com brandura a implantação da palavra que é capaz de salvar as vossas almas’. – Tiago 1:21.

Referências

[1] Veja os números da revista A Sentinela de 1.º de novembro de 1991, p. 20, e de 1.º de agosto de 1992, p.21.
[2] Veja a obra Estudo Perspicaz das Escrituras, volume 2, p. 40.
[3] Um exemplo disso é a personificação do amor, em 1 Coríntios 13:4-7. Quando se diz que o amor “é longânime e benigno”, que “não fica encolerizado”, que ‘se alegra com a verdade’, significa naturalmente que a pessoa que possui amor é que tem tais sentimentos e atitudes. Os sentimentos do detentor, ou possuidor, de uma qualidade são, metonimicamente, transferidos à própria qualidade. O mesmo ocorre entre Deus e o espírito santo.
[4] A palavra grega usada, yeudomai (pseúdomai), significa “mentir”, “(tentar) enganar, mentindo”. (Léxico do N.T. Grego/Português, de Gingrich e Danker) Um termo cognato, o vocábulo qeudhv (pseudés = falso, mentiroso) deu origem ao elemento de composição pseudo-.) O casal deu a aparência de estar seguindo um propósito quando, na realidade, estava seguindo outro inteiramente diferente.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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