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segunda-feira, 25 de junho de 2012

A importância da interpretação correta das Escrituras

Fonte da ilustração: http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102006142


“E continuaram a ler alto no livro, na lei do verdadeiro Deus, fornecendo-se esclarecimento e dando-se o sentido dela; e continuaram a tornar a leitura compreensível.” – NEEMIAS 8:8.


Sem dúvida alguma, a Bíblia Sagrada é o livro que mais tem influenciado a humanidade, tendo causado profundo impacto em praticamente todos os segmentos da sociedade humana, como as leis, as obras de arte e, principalmente, as regras de conduta e o comportamento. Tudo isso em si já demonstra a importância de se fazer um exame honesto e imparcial da Bíblia. Porém, em adição a tudo isso, a própria Bíblia estabelece motivos transcendentes para o estudo e a aplicação na vida dos princípios que ela contém. Veja alguns desses motivos:

“A tua palavra é a verdade.” (João 17:17) Essas palavras foram proferidas pelo Pai do cristianismo – o Senhor Jesus Cristo – numa fervorosa oração que ele fez ao seu Deus e Pai. Assim, encontramos na Bíblia a verdade, não conceitos humanos equivocados. O valor da verdade pode ser mensurado pelas seguintes palavras de Jesus: “A verdade vos libertará.” (João 8:32b) Assim, a verdade tem o maravilhoso poder de libertar os que a conhecem de conceitos falsos, os quais podem mantê-los aprisionados a um modo de vida altamente prejudicial. De modo que a Bíblia dignifica cada ser humano por lhe prover a maneira correta de viver. Sobre isso, lemos em 2 Timóteo 3:16, 17: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra.”

Contudo, o valor da Bíblia, qual inspirada Palavra de Deus, vai além desse benefício. O Salmo 31:5 descreve o Autor da Bíblia como sendo “Jeová, o Deus da verdade”. Assim, o progressivo conhecimento da verdade contida na Bíblia nos achega cada vez mais ao Autor dela, Jeová Deus, e também ao Seu Filho, Jesus Cristo. (Leia João 17:3.) Esses são, sem sombra de dúvida, os melhores Amigos que alguém poderia ter. Adicionalmente, o texto de João 17:3 revela outro benefício da relação achegada com o Deus verdadeiro mediante Cristo: a vida eterna. Todos esses motivos (e certamente existem outros) pontuam a importância de se conhecer a Palavra de Deus.

Mas, é mesmo possível entender a Bíblia? Por que existem tantas interpretações a respeito de seu conteúdo? Alguns adotam a postura comodista e relativista de que ‘cada um interpreta a Bíblia de um jeito’, acreditando que não existe realmente uma verdade absoluta. No entanto, em oposição a tal conceito, Jesus disse: “Conhecereis a verdade.” (João 8:32a) Por tais palavras, Jesus afirmou que é possível obter o conhecimento correto das Escrituras. De fato, uma profecia bíblica mostra que, devido à incrementada pesquisa bíblica, no “tempo do fim” ‘o verdadeiro conhecimento se tornaria abundante’. (Daniel 12:4) Naturalmente, visto que os pesquisadores não são inspirados por Deus, invariavelmente cometerão erros de interpretação, por mais bem intencionados que sejam. De modo que o entendimento é progressivo, conseguido por se reunir as passagens que dizem respeito ao tema pesquisado, por se construir sobre o que outros já descobriram sobre o referido tema e por se dispor humildemente a corrigir interpretações erradas. (Daniel 12:8-10) Veja o artigo “A ciência bíblica – como devemos encará-la?”, neste site.

Por outro lado, Jesus indicou, numa conversa que teve com certos judeus de seus dias, algo que pode servir de obstáculo ao correto entendimento da Palavra de Deus. Jesus disse-lhes: “Vocês vivem estudando as Escrituras, pensando que vão encontrar nelas a vida eterna. No entanto, as Escrituras dão testemunho de mim. Mas vocês não querem vir a mim para terem a vida eterna.” (João 5:39, 40, Bíblia Pastoral) Por que razão tais judeus não relacionavam com a pessoa de Jesus as passagens que diziam respeito a ele como sendo o Messias?

Jesus apontou o motivo, ao dizer: “Eu bem sei que não tendes em vós o amor de Deus. Vim em nome de meu Pai, mas não me recebestes; se algum outro chegasse no seu próprio nome, a este receberíeis. Como podeis crer, quando aceitais glória uns dos outros e não buscais a glória que é do único Deus?” Como Jesus mostrou, aqueles judeus não eram motivados pelo amor a Deus, mas buscavam a glória e o louvor de homens. Não estavam comprometidos com a verdade divina, e sim com manter as aparências perante os homens, para granjear o favor deles.

Essas duas características perniciosas estavam entre os ingredientes que resultaram na grande apostasia, ou desvio, do verdadeiro cristianismo que se impôs no segundo século da Era Comum. Os líderes religiosos daquele tempo, a fim de obter o favor dos pagãos, procuraram expressar crenças cristãs nos moldes da filosofia grega, fazendo, com efeito, uma fusão entre os ensinos bíblicos e a filosofia grega, em especial a neoplatônica. Mas, como água e óleo não se misturam, e beber e dirigir não combinam, tentar explicar a Bíblia à base de conceitos filosóficos faz com que ela entre em contradição consigo mesma. Qual é, então, o modo correto de interpretar a Bíblia?


Hermenêutica e orthotoméo

Hermenêutica é o nome dado ao conjunto de princípios que regem a correta interpretação das Escrituras. Ela está relacionada com o verbo ἑρμηνεύω (hermeneúo), que significa “explicar”, “interpretar” e “traduzir”.

Lucas 24:27 declara sobre Jesus Cristo: “E, principiando por Moisés e por todos os Profetas, interpretou-lhes [de hermeneúo][1] em todas as Escrituras as coisas referentes a si mesmo.”

Outra palavra grega ligada ao ensino correto das Escrituras é ὀρθοτομέω (orthotoméo), que significa literalmente “cortar reto”, ou “cortar direito”. Ela é formada por dois elementos de composição gregos. Ortho significa “reto, direito”, tendo sido incorporado em diversas palavras portuguesas, tais como “ortografia”, “ortodoxo”, “ortopedia”, “ortodontia”, etc. Toméo deriva-se do verbo témno, que significa “cortar”. (Há quem escreva a palavra de forma incorreta – como “ortothoméo” – trocando em ortho a letra theta pela letra tau, e trocando em toméo o tau pelo theta, devido a pouca familiaridade com a língua grega. O leitor provavelmente encontrará algum site ou blog, e também temas de vídeos teológicos, que grafaram esse termo de forma errada, o que evidentemente compromete a credibilidade do autor dos mesmos quanto ao conhecimento do grego bíblico.)[2]

O termo grego orthotoméo ocorre declinado em 2 Timóteo 2:15, texto que reza: “Faze o máximo para te apresentar a Deus aprovado, obreiro que não tem nada de que se envergonhar, manejando corretamente [ὀρθοτομοῦντα; orthotomoûnta] a palavra da verdade.”  Assim como um perito alfaiate corta tecido seguindo um modelo e um experiente agricultor faz sulcos retos numa roça, o responsável e diligente instrutor da Palavra de Deus deve ‘manejá-la corretamente’ por se esforçar em apegar-se ao seu real conteúdo e viver em harmonia com ela.

Notas:

[1] Como varia lectio, encontramos o verbo relacionado διερμηνεύω (diermeneúo).
[2] A palavra pode ser transliterada orthotoméo ou aportuguesada ortotoméo (sem o th de ortho).



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org





sábado, 23 de junho de 2012

Sangue de quem?

Fonte da ilustração:
http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102005135


“A congregação de Deus, que ele comprou com o sangue do seu próprio [Filho].” – Atos 20:28, 
NM.

τὴν ἐκκλησίαν τοῦ θεοῦ, ἣν περιεποιήσατο διὰ τοῦ αἵματος τοῦ ἰδίου  - W.H.


1963  “com o sangue do seu próprio [Filho]”       
Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs, Brooklyn, Nova Iorque.

1973  “por meio do sangue do seu próprio Filho”
A Bíblia na Linguagem de Hoje, Sociedade Bíblica do Brasil, Rio de Janeiro, RJ.                            

1981  “pelo sangue de seu próprio Filho”     
A Bíblia de Jerusalém, Edições Paulinas, São Paulo, SP.

1983   “por meio do sangue do seu próprio Filho”
BMD (Bíblia Mensagem de Deus)

“por meio do sangue do seu próprio Filho”
BF (Bíblia Fácil), Paulo Avelino de Assis, Centro Bíblico Católico.


Razões para a tradução mostrada acima:


1)  Essa é a tradução literal do texto grego.

Para que o texto pudesse ser traduzido literalmente “por intermédio do seu próprio sangue”, ou  “com o seu próprio sangue”  (Almeida), teríamos de encontrar a expressão διὰ τοῦ ἰδίου αἵματος, (dia toû idíou haímatos) ou outra construção semelhante. – Veja Hebreus 9:12; 13:12.


2) Os manuscritos mais antigos dão margem para essa tradução. 

Há manuscritos que rezam “a congregação do Senhor”, podendo este “Senhor” ser Jesus Cristo, dando assim margem para a tradução “com o seu próprio sangue”. Contudo, esses manuscritos são todos do 5.º século em diante. Estes são: A (Códice Alexandrino, gr., 5.º séc. EC, Museu Britânico, E.H., E.G.C), C (Códice Ephraemi rescriptus, gr., 5.º  séc. EC, Paris, E.H., E.G.), D (Códices Bezae, gr. e lat., 5.º e 6.º séc. EC, Cambridge, Inglaterra, E.G.), e Sy (Versão siríaca filoxeniana-harcleana, 6.º e 7.º séc. EC; E.G.) Entretanto, manuscritos mais antigos rezam “Deus” (articular), tornando impraticável a tradução “com o seu próprio sangue”, visto que Deus não tem um corpo físico com sangue correndo nas veias. Estes manuscritos são: א (Códice Sinaítico, gr., quarto séc. EC, Museu Britânico, E.H., E.G.), B (Ms. Vaticano 1209, gr., quarto séc. EC, Cidade do Vaticano, Roma, E.H., E.G.) e Vg (Vulgata latina, de Jerônimo, originalmente produzida em c. 400 EC. [luxta Vulgatam Versionem,
Württembergische Bibelanstalt, Stuttgart, 1975]).

Sobre isso, o tradutor Benjamin Wilson, em sua tradução The Emphatic Diaglott, de 1864, coloca a seguinte nota sobre Atos 20:28:

A frase ecclesia tou Kuríou [igreja do Senhor] não ocorre em parte alguma no Novo Testamento, enquanto que ecclesia tou theou [igreja de Deus] ocorre cerca de dez vezes nas epístolas de Paulo. Existem não menos do que seis diferentes leituras dessa expressão nos MSS., os quais têm provavelmente suscitado uma presumida dificuldade em entendê-la em conexão com a última parte da sentença – ‘comprou com seu próprio sangue.’ Mas, leia-se como se encontra no original e faça-se ainda uso do bom senso, sem rejeitar a leitura dos mais antigos MS., e algumas das mais antigas cópias da Pesito Syriaca. O leitor pode suprir a palavra elíptica depois de próprio, seja Filho, ou Cordeiro, ou Sacrifício. Assim, “pastoreai a IGREJA DE DEUS, a qual ele adquiriu pelo SANGUE de seu PRÓPRIO [Filho]”.

As ocorrências nas quais aparece a expressão ‘congregação de Deus’ estão em 1 Coríntios 1:2; 10:32; 11:22; 15:9; 2 Coríntios 1:1; Gálatas 1:13; 1 Timóteo 3:5, 15.


3) Em Atos 20:28 a palavra ἴδιος (ídios) atua como substantivo, e não como adjetivo, levando a predominar a tradução “o sangue do seu próprio”.

Quando a palavra ἴδιος (ídios) atua como adjetivo, ela acompanha um substantivo expresso ou subentendido no contexto. Seguem abaixo exemplos de tais casos:

Mateus 25:15: “segundo a sua própria capacidade” (κατὰ τὴν ἰδίαν δύναμιν; katá tèn idían dýnamin)

Lucas 6:41: “no teu próprio olho” (ἐν τῷ ἰδίῳ ὀφθαλμῷ  ; en tôi idíoi oftalmôi)

Lucas 6:44: “pelo seu próprio fruto” (ἐκ τοῦ ἰδίου καρποῦ ; ek toû idíou karpoû)

João 10:3: ”as suas próprias ovelhas” (τὰ ἴδια πρόβατα  ; tà ídia próbata)

Atos 2:8: “o seu próprio idioma” (τῇ ἰδίᾳ διαλέκτῳ; têi idíai dialéktoi)

Atos 4:32: “a sua própria” (ἴδιον ; ídion)

Romanos 10:3: “a sua própria” (justiça) (τὴν ἰδίαν; tèn idían), substantivo subentendido, mencionado no contexto.

1 Coríntios 3:8: “a sua própria recompensa”  (τὸν ἴδιον μισθὸν; tòn ídion misthòn); “seu próprio labor”  (τὸν ἴδιον κόπον ; tòn ídion kópon)

1 Coríntios 4:12: “com as nossas próprias mãos” (ταῖς ἰδίαις χερσίν; taís idíais khersín)

Tito 1:3: “nos seus próprios tempos devidos”  (καιροῖς ἰδίοις; kairoîs idíois)

Tito 2:5: “aos seus próprios maridos” (τοῖς ἰδίοις ἀνδράσιν; toîs idíois andrásin)

Tito 2:9: “aos seus donos” (ἰδίοις δεσπόταις; idíois despótais)

2 Pedro 1:20: “interpretação particular”  (ἰδίας ἐπιλύσεως; idías epilýseos)

2 Pedro 2:22: “ao seu próprio vômito”  (ἐπὶ τὸ ἴδιον ἐξέραμα ; epì tò ídion eksérama)

Portanto, como vimos do já exposto, quando a palavra ἴδιος (ídios) atua como adjetivo, existe um substantivo expresso acompanhante, o que não ocorre em Atos 20:28.

No texto em pauta, a palavra ἴδιος (í·di·os) ocorre sem um substantivo expresso, atuando ela mesma como um substantivo em grego, e nesse caso representa uma expressão idiomática como termo de carinho para com parentes chegados, ou para com algo peculiar, achegado, ao ser (ou coisa) a que í·di·os está relacionado no texto. Neste caso, na tradução para outras línguas, os tradutores costumam acrescentar palavras para determinar qual é a coisa que é chegada ao elemento envolvido. Nota-se isso nos exemplos abaixo:

João 13:1: “os seus próprios”  (τοὺς ἰδίους; toùs idíous; lit. “os [seus] próprios”, Int); “os seus”, Als.

Atos 4:23: “sua própria gente”  (τοὺς ἰδίους; toùs idíous; lit. “os [seus] próprios”, Int); Al, IBB: “os seus”; ALA: “aos irmãos.”

Atos 24:23: “do seu povo”  (τῶν ἰδίων αὐτοῦ ; tôn idíon autoû; lit. “dos [seus] próprios”, Int); Al, IBB: “dos seus”; ALA: “os seus próprios.”

João 1:11: “seu próprio lar  (τὰ ἴδια; tá ídia; lit. “próprias [coisas]”, Int.); “os seus”  (οἱ ἴδιοι; hoi ídioi); Als: “o que era seu” e “os seus”.

1 Timóteo 5:8: “os seus próprios”  (τῶν ἰδίων; tôn idíon); Als: “dos seus.”

Lucas 18:28: “nossas próprias coisas” (τὰ ἴδια; tá ídia); Al, IBB: “tudo”; ALA: “as nossas casas.”

João 16:32: “sua própria casa”  (τὰ ἴδια ; tá ídia; lit. “próprias [coisas]”, Int.); Al: “sua parte”; IBB: “seu lado”; ALA: “sua casa.”

João 19:27: “seu próprio lar”  (τὰ ἴδια; tá ídia); “casa”, Als.

Atos 21:6: “seus lares”  (τὰ ἴδια; tá ídia; lit. “próprias [coisas]”, Int.) Al: “suas casas”; IBB: “casa”; ALA: “suas próprias casas.”

João 8:44: “sua própria disposição”  (ἐκ τῶν ἰδίων; ek tôn idíon; lit. “das [suas] próprias [coisas]”, Int.); Als: “do que lhe é próprio.”

1 Tessalonicenses 4:11: “vossos próprios negócios” (τὰ ἴδια; tá ídia; lit. “suas próprias [coisas]”, Int.); também Al e IBB; ALA: “do que é vosso.”

João 15:19: “ao que é seu”  (τὸ ἴδιον ; tò ídion; lit. “à [sua] própria [coisa]”, Int.); também Als.


Por isso, em The New Testament in the Original Greek (de Westcott e Hort), Hort declarou:

De modo algum é impossível que ΥΙΟΥ [hui·oú,  ‘do Filho’] fosse omitido depois de ΤΟΥΙΔΙΟΥ [tou i·dí·ou,   ‘de seu próprio’] numa transcrição muito antiga, afetando todos os documentos existentes. Por se inserir isso deixa-se a passagem inteira isenta de qualquer tipo de dificuldade.” – Vol. 2, Londres, 1881, pp. 99, 100 do Apêndice.

Os exemplos adrede mencionados mostram que a expressão “o seu próprio” não se refere à pessoa de quem se fala, não significa “a si mesma”, mas se refere a algo ou alguma coisa que é peculiar a tal pessoa, que lhe pertence, que lhe é chegada, próxima, que tem afinidade com ela. Assim, a expressão em Atos 20:28, “o sangue do seu próprio”, não significa “o seu próprio sangue”, mas se refere ao sangue do parente mais chegado a Deus, seu Filho unigênito, Jesus Cristo.

O contexto da Bíblia como um todo concorda com isso. 1 João 1:7 declara: “O sangue de Jesus, seu Filho, purifica-nos de todo o pecado.”



Explicação das siglas usadas:

Al: Almeida Revista e Corrigida.
ALA: Almeida Revista e Atualizada.
Als: Al, ALA e IBB.
IBB: Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
W.H.: Texto compilado por Westcott e Hort.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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quinta-feira, 21 de junho de 2012

“Meu Senhor e meu Deus!” – em que sentido?


Fonte da ilustração:
http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102014735



ἀπεκρίθη Θωμᾶς καὶ εἶπεν αὐτῷ, Ὁ κύριός μου καὶ ὁ θεός μου. 
Respondeu Tomé e disse a ele: “O Senhor meu e o Deus meu.” – João 20:28.

     
Muitas narrativas bíblicas visam nos ensinar valiosas lições morais. (Romanos 15:4; 1 Coríntios 10:11) Podemos dizer que este é o caso do relato envolvendo Tomé. Que lição este relato visa ensinar-nos? Podemos ver claramente o objetivo do relato nas palavras de Jesus a Tomé em João 20:27: ”Põe o teu dedo aqui, e vê as minhas mãos, e toma a tua mão e põe-na no meu lado, e para de ser incrédulo, mas torna-te crente.”
     
A palavra grega para “crente” neste texto é πιστός (pistós), que significa “fiel”, “confiável”, e “digno de confiança”. (G.D.) No âmbito do cristianismo, tal palavra é aplicada aos conversos, os convertidos à fé cristã. Por exemplo, Paulo exortou Timóteo a ‘tornar-se exemplo para os fiéis”, quer dizer, para os cristãos. (1 Timóteo 4:12) Fala-se da mãe de Timóteo como “mulher judia crente” (γυναικὸς Ἰουδαίας πιστῆς; gynaikós Ioudaías pistês), usando-se o feminino de pistós, que é πιστή (pisté). E o que está essencialmente envolvido em ser pistós, ou “crente” (fiel)? Quem é pistós, ou “crente”, tem πίστις (pístis), palavra grega para “fé”. Fé em quem? Evidentemente em Cristo. Este é um requisito fundamental para se ser cristão. Mas tal fé é baseada na aceitação de que verdade?

1 João 5:5 nos fornece a resposta. Este texto declara: “Quem é que vence o mundo senão aquele que tem fé [ὁ πιστεύων ; ho pisteúon] em que Jesus é o Filho de Deus?” Portanto, a base da fé é reconhecer a Jesus, não como o Deus Todo-Poderoso, mas como “o Filho de Deus”. O pistós, ou “crente”, tem tal πίστις (pístis), ou “fé”.

Portanto, ao exortar Tomé a ‘tornar-se crente’, Jesus não tencionava fazer Tomé aceitá-lo como sendo o ‘seu Deus’. Inclusive o próprio contexto do Evangelho de João identificou o motivo de este relato, bem como de os demais, terem sido registrados. Logo em seguida à narrativa envolvendo Tomé, João conclui: “De certo, Jesus efetuou muitos outros sinais, também diante dos discípulos, os quais não estão escritos neste rolo. Mas, estes foram escritos para que creiais [pisteúete] que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e que, por crerdes [pisteúontes], tenhais vida por meio do seu nome.” (João 20:30, 31) O verbo “crer” (πιστεύω; pisteúo) tem ligação com a palavra “fé” (pístis) em grego. Torna-se assim claro que o relato não visava provar que Jesus é o Deus Todo-Poderoso, mas sim que o verdadeiro seguidor de Cristo deve ser pistós, ou “crente”, crendo que “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”. De modo que a expressão exclamativa de Tomé não é o que é relevante, e sim o objetivo do relato, que é provar “que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus”.

Mas, por que Jesus não repreendeu Tomé por este ter usado a expressão “meu Senhor e meu Deus”? Em primeiro lugar, não há consenso entre os peritos em grego sobre a quem Tomé se referiu ao usar tal expressão. Alguns estudiosos afirmam que o grego original exige que as palavras sejam consideradas como dirigidas a Jesus. Mas, por outro lado, outros peritos têm encarado esta expressão como uma exclamação emocional de espanto falada diante de Jesus, mas realmente dirigida a Deus, seu Pai. Seria semelhante a uma pessoa exclamar “meu Deus!” diante de alguém ou de algo que o surpreende.

Os substantivos “Senhor” e “Deus”, na resposta de Tomé, são precedidos de artigo no caso nominativo. Além disso, são acompanhados pelo pronome possessivo “meu”. Não encontramos em nenhuma outra parte das Escrituras Gregas Cristãs (“Novo Testamento”) uma construção similar. Também, a expressão “meu Senhor” é aplicada a humanos (Gênesis 18:12), ao anjos (Zacarias 1:9; 4:4, 5, 13; 6:4), a Jesus (Mateus 22:44; Marcos 12:36; Lucas 1:43; 20:42; João 20:13; Atos 2:34; Filipenses 3:8) e a um dos salvos no céu. (Apocalipse 7:14)

No entanto, a expressão “meu Deus” (quando usada por um fiel servo do verdadeiro Deus) em todo o restante das Escrituras é aplicada somente ao Deus Todo-Poderoso Jeová, como Ser distinto do Filho. (Gênesis 28:21; Êxodo 15:2; Deuteronômio 4:5;18:16; 26:14; Salmo 68:24; Romanos 1:8; Filipenses 4:19) Assim sendo, ela nunca foi aplicada a Jesus Cristo.

O sentido bíblico da expressão “meu Deus” foi determinado pelo próprio Jesus Cristo, pelo que ele disse uma semana antes desta ocorrência com Tomé a Maria Madalena: “Vai aos meus irmãos e dize-lhes: ‘Eu ascendo para junto de meu Pai e vosso Pai, e para meu Deus e vosso Deus.’” (João 20:17) Ademais, pouco antes da morte de Jesus, Tomé ouvira a oração de Jesus, na qual se dirigia a seu Pai como “o único Deus verdadeiro”. (João 17:3) O próprio Jesus deixou bem claro quem é o Deus dos cristãos. Assim, pelo conhecimento que tinha, Tomé não pensava que Jesus era o Deus Todo-Poderoso. De modo que o contexto bíblico aponta para o entendimento de que Tomé estava se dirigindo a Jeová Deus ao fazer tal exclamação.

Até mesmo os teólogos da cristandade reconhecem o peso do contexto. John Martin Creed, como Professor de Divindade na Universidade de Cambridge, observou:

A exclamação adoradora de S. Tomé “meu Senhor e meu-Deus” (João xx. 28) ainda não é a mesma coisa que se dirigir a Cristo como sendo sem ressalva Deus, e precisa ser equilibrada pelas palavras do próprio Cristo ressuscitado a Maria Madalena (v. 17): “Vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, e meu Deus e vosso Deus.” – The Divinity of Jesus Christ (A Divindade de Jesus Cristo), de John Martin Creed, página 123.
     
Mesmo que Tomé estivesse se referindo a Jesus como “Deus”, isto não argumentaria a favor da Trindade, porque ser alguém mencionado como “Deus” na Bíblia não prova, em si mesmo, que tal pessoa é o Deus Todo-Poderoso. O termo “Deus” foi aplicado a Moisés, a anjos e a juízes humanos. (Êxodo 4:16: 7:1; Salmo 8:5; 82:1-6; João 10:34, 35, ALA ) Moisés e os juízes humanos receberam poder ou autoridade conferidos por Deus e agiram como Seus representantes. Os anjos, além de serem representantes de Deus, também possuem natureza divina. (Salmo 8:5) Por tais motivos, foram mencionados como sendo “Deus’ ou “deuses”. E quando tal termo foi aplicado a Jesus, sempre se esclareceu o sentido em que ele é referido como “Deus”. Por exemplo, em João 1:18 ele é referido como “Deus unigênito” (ALA, TB), literalmente, ‘o único Deus gerado’, o que indica que mesmo na sua divindade ele teve princípio. Isaías 9:6 refere-se a Jesus como “Deus forte” (ALA), ou “Deus poderoso” (NM), ao passo que somente Jeová é descrito como “Deus Todo-Poderoso”. (Gênesis17:1) Em  João 1:1 Jesus é aludido como “Deus” (Als) sem o artigo definido, em contraste com Aquele com quem ele estava no princípio, que é descrito como “o Deus”. Assim sendo, tal uso do termo “Deus” descreve sua natureza e não identifica sua pessoa com o Deus Todo-Poderoso. Jesus é mencionado como “Deus” na Bíblia por ter natureza divina e por ser representante do Deus Todo-Poderoso.

Tomé tinha conhecimento do uso que as Escrituras Hebraicas ("Velho Testamento) fazem do termo “Deus”. Portanto, se ele se referiu a Jesus com a expressão “meu Deus”, ele meramente estava reconhecendo em Jesus o Porta-Voz e Representante de Deus, assim como outros se dirigiram a anjos como se fossem Jeová. (Compare com Gênesis 16:7-11, 13; 18:1-5, 22-33; 31:11-13; 32:24-30; Juízes 2:1-5; 6:11-15; 13:20-22.) Isto se dava porque o mensageiro angélico atuava por Jeová, como Seu representante, falando em Seu nome, talvez usando o pronome pessoal na primeira pessoa do singular e chegando mesmo a dizer: “Eu sou o verdadeiro Deus.” (Gênesis 31:11-13; Juízes 2:1-5) Mas, mesmo usando a primeira pessoa do singular, às vezes tais anjos explicavam que o que estavam falando era “a pronunciação de Jeová”. (Gênesis 22:17; Números 14:28; compare com Gálatas 3:19; Atos 7:38, 53; Hebreus 2:2; veja também Zacarias 2:1-6; 3:6-4:1; 5:3-5.) Veja o artigo “Quem é o anjo de Jeová?” neste site.
     
Por conseguinte, a declaração de Tomé não pode ser usada para sustentar a crença antibíblica da Trindade.

Explicação das siglas usadas

G.D.: Dicionário grego de Gingrich e Danker.
ALA: Almeida Revista e Atualizada.
Als: Versões Almeida Revista e Corrigida, Revista e
Atualizada e da IBB (Imprensa Bíblica Brasileira)
TB: Tradução Brasileira. 



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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