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sábado, 15 de setembro de 2012

Jesus é o Criador ou um Ser criado? – Exame de Colossenses 1:15-20

Fonte da ilustração:
http://wol.jw.org/pt/wol/d/r5/lp-t/1102007056


Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas (NM) verte Colossenses 1:15-20 do seguindo modo (as chaves – [ ] – são dessa tradução): Ele é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; porque mediante ele foram criadas todas as [outras] coisas nos céus e na terra, as coisas visíveis e as coisas invisíveis, quer sejam tronos, quer senhorios, quer governos, quer autoridades. Todas as [outras] coisas foram criadas por intermédio dele e para ele. Também, ele é antes de todas as [outras] coisas e todas as [outras] coisas vieram a existir por meio dele, e ele é a cabeça do corpo, a congregação. Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para se tornar aquele que é primeiro em todas as coisas; porque [Deus] achou bom que morasse nele toda a plenitude, e, por intermédio dele, reconciliar novamente todas as [outras] coisas consigo mesmo, por fazer a paz por intermédio do sangue [que ele derramou] na estaca de tortura, quer sejam as coisas na terra, quer as coisas nos céus.”

A palavra grega traduzida aqui por “todas as [outras] coisas” é pán·ta, forma flexionada de pas (masculino). (O feminino é pasa, e o neutro é pan.) As diversas inflexões incluem pantes (plural), pasaipanta, e assim por diante. Pas pode significar “todas as coisas” no sentido absoluto, de tudo, incluindo até a última das coisas ou pessoas mencionadas – literalmente todos. Mas também pode significar “toda espécie ou variedade” (Vine), como pode ser visto em Atos 2:17. Segundo a versão Almeida, revista e atualizada, o texto reza: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor, que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne.” A expressão “toda a carne” em grego é pâsan sárka (πᾶσαν σάρκα). Sobre a palavra “carne”, 1 Coríntios 15:39 explica: “Nem toda a carne é a mesma carne, mas uma é a da humanidade, e outra é a carne do gado, e outra é a carne de aves, e outra de peixes.” Portanto, não poderia ser “toda a carne” literalmente, visto que a palavra “carne” também se aplica aos animais. Para tentar esclarecer o assunto, a JRV traduz por “todo ser humano”. Mas esta forma de traduzir também não se aplica. O contexto mostra que não foi “toda a carne” humana que recebeu o espírito santo, nem mesmo “toda a carne” na Palestina, mas apenas os cerca de 120 discípulos de Cristo. (Atos 1:15) Além disso, Atos 5:32 declara que Deus dá o espírito santo “aos que obedecem a ele [Deus] como governante”. Por isso, a NM é exata ao traduzir por  “toda sorte de carne”. O contexto imediato apoia tal tradução, quando cita “filhos” , “filhas”, “jovens” e “anciãos”. O espírito de Deus seria derramado não só sobre pessoas selecionadas, como sacerdotes, profetas, juízes e reis, como havia sido até então, mas sobre “toda sorte de carne”. Vale ressaltar que esta forma de traduzir este versículo é praticamente ímpar na NM, e não ocorre em cerca de quarenta outras traduções que foram verificadas, nas línguas inglesa, alemã e espanhol.

Outro exemplo que podemos citar é o texto de 1 Timóteo 2:3, 4. Algumas traduções vertem-no por dizer que Deus “quer que todos os homens [πάντας ἀνθρώπους; pántas anthrópousse salvem”. (CBC) Mas, outros textos mostram que nem todos os homens se salvarão. (Salmo 145:20; Mateus 7:13) Significa então que a vontade de Deus não irá se cumprir? Não, apenas significa que a tradução acima de 1 Timóteo 2:4 está incorreta. A vontade de Deus é que “toda sorte de homens sejam salvos”. (NM) Novamente, o contexto torna isso claro. O v. 1 declara: “Exorto, portanto, em primeiro lugar, a que se façam súplicas, orações, intercessões e se deem agradecimentos com respeito a toda sorte de homens.” Paulo não exortou a que se orasse por “todos os homens” (Al), pois isto estaria em conflito com 1 João 5:16, que declara: “Se alguém vir seu irmão cometer um pecado que não é para morte, pedirá e Deus lhe dará a vida para aqueles que não pecam para a morte. Há pecado para morte, e por esse não digo que ore.” (IBB; veja também Jeremias 7:16.) Outros exemplos deste sentido de pas ocorre em João 1:9; 12:32; Mateus 5:11.

Além destes dois sentidos, pán·ta também pode significar “todas as outras coisas”, conforme o contexto e para dar maior esclarecimento. Isto se dá especialmente quando “todos” é colocado em relação a algo já mencionado, quando tem como referencial algo já citado. Por exemplo, Lucas 13:2 fala de “esses galileus”, referindo-se a galileus específicos que foram mortos por Pilatos, e os compara com “todos os galileus” (πάντας τοὺς Γαλιλαίους; ver AlIBB), evidentemente querendo dizer “todos os outros galileus” (NM; ALA; BLH; JRV), “os demais” (BV), “todos os mais”. (HR) De modo similar, Lucas 21:29 fala da figueira e de “todas as outras árvores” (πάντα τὰ δένδρα); ”as outras árvores” (JRV); “qualquer outra árvore”. (BLH) Também, ao escrever aos filipenses, Paulo tece elogios a Timóteo, e depois declara (em Filipenses 2:21) que “todos os outros estão buscando os seus próprios interesses”. (οἱ πάντες PIB verte de modo similar.) Um exemplo clássico, exemplar, deste uso de pas é encontrado em Lucas 11:41-42: “Não obstante, dai como dádivas de misericórdia as coisas que estão no íntimo, e, eis que todas as outras coisas [pán·ta] acerca de vós serão limpas. Mas, ai de vós, fariseus, porque dais o décimo da hortelã, e da arruda, e de todas as outras [pân] hortaliças, mas deixais de lado a justiça e o amor de Deus! Estas coisas tínheis a obrigação de fazer, mas sem omitir aquelas outras.”

Encontramos nos textos abaixo outros exemplos deste uso de pas:

Mateus 26:33: “Ainda que todos os outros tropecem” (πάντες).

Mateus 26:35: “Todos os outros discípulos” (πάντες οἱ μαθηταὶ).  (JRV; ver também Marcos 14:29, 31.)

Marcos 4:13: “Vós não sabeis esta ilustração, e, portanto, como entendereis todas as outras ilustrações?” (πάσας τὰςπαραβολὰς.JRV: “todas as outras.”

Marcos 4:31-32: “Grão de mostarda . . . se torna maior do que todas as outras hortaliças” (πάντων τῶν λαχάνων).

João 2:10: “Todo outro homem” (Πᾶς ἄνθρωπος).

João 3:31: “Aquele que vem de cima é sobre todos os outros” (πάντων).

Romanos 8:32: “Aquele que nem mesmo poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, por que não nos dará também com ele bondosamente todas as outras coisas?” (τὰ πάντα)

1 Coríntios 6:18: “Todo outro pecado” (πᾶν ἁμάρτημα). IBB: “Qualquer outro pecado.”

1 Coríntios12:26: “Se um membro sofre, todos os outros membros sofrem” (πάντα τὰ μέλη).

Filipenses2:9: “todo outro nome” (πᾶν ὄνομα).

Os exemplos acima mostram o extensivo uso que a Bíblia faz deste sentido do verbo pas. Mas, seria este o sentido em Colossenses 1:15-17? Examinemos detidamente o texto em questão.

Ele é a imagem do Deus invisível.” De modo similar, 2 Coríntios 4:4 fala de “Cristo, que é a imagem de Deus”. Isto não significa igualdade com Deus. Pelo contrário, mostra que Cristo é distinto ou separado de Deus; que ele não é o Deus Todo-Poderoso. Para esclarecer o assunto adicionalmente, veja o uso da palavra “imagem” (eikón) em 1 Coríntios 15:49, que declara: “Assim como temos levado a imagem daquele feito de pó [Adão], levaremos também a imagem do celestial [Jesus Cristo].” Portanto, os cristãos com esperança celestial se tornarão à imagem de Cristo. Mas é evidente que serão distintos dele, e inferiores a ele. Prova disso é que a Bíblia diz que eles serão “reis e sacerdotes” (Apocalipse 5:10, Al), ao passo que Cristo é descrito como “sumo sacerdote” e “Rei dos reis”. – Hebreus 3:1; Apocalipse 17:14.

O primogênito de toda a criação.”  Nas Escrituras Hebraicas e nas Escrituras Gregas Cristãs, a palavra “primogênito” ocorre 112 vezes no sentido de ser o primeiro nascido[1]. A mesma palavra grega para “primogênito” é usada na Septuaginta (Versão dos Setenta) nesse sentido. Tanto que a Bíblia faz um paralelo entre “primogênito” (protótokos) e “o princípio [arkhé] de toda a sua faculdade de procriação”. (Gênesis 49:3, LXX; compare com Deuteronômio 21:17, LXX; Salmo 105:36.) À base de tais declarações bíblicas é razoável concluir que o Filho de Deus é o primogênito de toda criação no sentido de ser a primeira das criaturas de Deus.

Quando a palavra “primogênito” não se aplica ao primeiro, isto se deve ao fato de que o primeiro perdeu seu direito à primogenitura, e outro da mesma família assumiu o seu lugar. (1 Crônicas 5:1; Jeremias 31:9) Portanto, seguindo esta regra bíblica, se Jesus não fosse o primogênito no sentido de ser o primeiro filho ou o primeiro nascido de Deus, isto significaria que Deus criou outro antes de Jesus, e que este outro perdeu seu direito à primogenitura, sendo necessário Jesus ter assumido o seu lugar. Assim, imagine as implicações de se negar que Jesus é a primeira criação de Deus!

Ademais, uma regra que permeia toda a Bíblia é a de que o primogênito sempre faz parte do grupo. O primogênito de Israel” é um dos filhos de Israel; “o primogênito de Faraó” é um da família de Faraó; “os primogênitos dos animais” são eles próprios animais. (Êxodo 6:14; 11:5; Deuteronômio 15:19) Assim sendo, Jesus também faz parte da criação; é um ser criado. Dito de modo simples, Jesus é o começo da criação originada por Deus.

Podemos comprovar isso adicionalmente vendo o outro uso da palavra “primogênito” no mesmo contexto, em Colossenses 1:18, que declara: “Ele é o princípio, o primogênito dentre os mortos, para se tornar aquele que é primeiro em todas as coisas.” Note o paralelo entre “primogênito” (protótokos), “princípio” (arkhé) e “primeiro” (do verbo proteúo, que significa “ser o primeiro”; “ter o primeiro lugar” [G.D.]). Tais palavras descrevem a Jesus como o primeiro de um grupo ou classe – dos ressuscitados para a vida eterna. Atos 26:23 fala de Cristo “como primeiro a ser ressuscitado dentre os mortos”. (Veja também Hebreus 6:19, 20; 1 Coríntios 15:22, 23.) Ninguém antes de Jesus Cristo foi elevado à vida imortal nos céus. (João 3:13) Visto que ele foi o primeiro a ter uma ressurreição à perfeição de vida, é “o primogênito [ou o primeiro] dentre os mortos”. Correspondentemente, visto que ele foi o primeiro a ser criado por Deus, ele é “o primogênito [ou o primeiro] de toda a criação”. Isto é reconhecido pela versão ecumênica da Comunidade de Taizé (Edições Loyola), e pela JRV, que descrevem Jesus como “o primogênito de toda criatura”.

Além disso, Jesus se refere a si mesmo como “o princípio [arkhé] da criação de Deus”. (Apocalipse 3:14, CT) Outros textos corroboram o mesmo fato – que Jesus foi criado. 1 João 2:14 descreve o Filho como “aquele que é desde o princípio”, no sentido de que Deus o criou antes de todas as outras coisas. O único que é referido como sendo “de eternidade a eternidade” é o Pai e Todo-Poderoso Deus – Jeová. – Salmo 90:2, ALA.
     
Ser Jesus o primogênito de toda a criação envolve a lei da primogenitura, o direito do primeiro que nasceu ou foi produzido. Desde os primeiros tempos, o verdadeiro filho primogênito gozava de privilégios especiais que incluíam a sucessão da chefia da família e herdar uma porção dupla da propriedade do pai. (Deuteronômio 21:15-17) A realeza e o sacerdócio, também, eram herdados pelo primogênito dum rei ou sumo sacerdote no antigo Israel. 2 Crônicas 21:3 confirma isso, quando declara: “Seu pai [Jeosafá] lhes deu muitas dádivas de prata, e de ouro, e de coisas seletas, junto com cidades fortificadas em Judá; mas o reino ele deu a Jeorão, pois era o primogênito.” E a respeito do Filho, Jesus Cristo, foi escrito: “Foi-lhe dado domínio, e dignidade, e um reino.” – Daniel 7:14.

Como a primeira de todas as criações de Deus, Jesus não podia ser o Criador. Isto é confirmado pelas expressões dos versículos 16 e 17:

“Porque mediante ele foram criadas.” A expressão “mediante ele” em grego é en autõi (ἐν αὐτῷ), que inclui uma preposição (“em) com o pronome (“ele”) no caso dativo (autõi ). O Léxico do Novo Testamento Grego/Português de Gingrich e Danker explica que esta estrutura tem o sentido de causa, apontando para a pessoa envolvida como sendo o meio ou instrumento para a realização de uma ação. Vemos isso em Atos 17:31 na expressão “por meio dum homem” (lit.: “em varão”; en andrì; ἐν ἀνδρὶ). Romanos 5:9 afirma: “Fomos declarados justos pelo seu sangue” (lit.: “em o sangue”; en tõi haímati; ἐν τῷ αἵματι).  Ambos os textos mostram que alguma coisa feita “em” algo ou alguém pode significar que tal coisa é feita por meio ou por intermédio dele, ou seja, mediante ele. Em harmonia com isso, a BLH traduz assim: “Porque, por meio dele, Deus criou tudo, no céu e na Terra.”

“Foram criadas por intermédio dele.” A expressão “por intermédio dele” traduz o grego di’ autoû (δι' αὐτοῦ). A preposição diá (διά) indica “meio, instrumento, agência”, sendo traduzida alternativamente como “por meio de”, “através de”, “por intermédio de”. (G.D.) O contexto – que apresenta Jesus, não como o Autor, mas sim como o Agente da criação  é determinativo em indicar esse modo de traduzir. Isto é reconhecido em diversas traduções, que verteram a expressão como “por meio dele”. – Veja BLHALAJRV.

“Todas as [outras] coisas.” Em harmonia com todo o precedente acima, e com tudo o que a Bíblia diz a respeito do Filho, a NM traduz a palavra grega pán·ta em Colossenses 1:16, 17 por “todas as outras coisas”. Primeiro, indica-se que ele é um ser criado, alguém que faz parte da criação produzida por Deus, em harmonia com o inteiro contexto bíblico. Segundo, as coisas criadas “mediante ele” não incluem o próprio Jesus, pois Deus já o havia criado. Terceiro, depois de Deus ter criado “o primogênito de toda a criação”, todas as coisas trazidas à existência eram outras criações.

O mesmo modo de traduzir (“todas as outras”, ou “todos os outros”, “todo outro”, etc.) também poderia ser usado em outros textos. Por exemplo, Romanos 5:12 diz que “por intermédio de um só homem . . . a morte se espalhou a todos os homens”. Mas a parte final do texto poderia ser traduzida ‘a morte se espalhou a todos os [outros] homens’, visto que Adão também era homem. Similarmente, 1 Coríntios 15:24 fala do período em que Jesus irá “entregar o reino ao seu Deus e Pai, tendo reduzido a nada todo governo, e toda autoridade e poder”. A parte final do texto também poderia ser traduzida: “todo [outro] governo, e toda [outra] autoridade e poder”,  visto que Deus e Jesus também têm cada qual um governo, autoridade e poder. A mesma regra poderia ser aplicada em Efésios 1:20-23, que poderia ser traduzido assim: “Ele tem operado no caso do Cristo, quando o levantou dentre os mortos e o assentou à sua direita nos lugares celestiais, muito acima de todo [outro] governo, e autoridade, e poder, e senhorio, e todo [outro] nome dado, não só neste sistema de coisas, mas também no que há de vir. Sujeitou também todas as [outras] coisas debaixo dos pés dele, e o fez cabeça sobre todas as [outras] coisas para a congregação, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que em tudo preenche todas as coisas.” Mas, então, por que nem a NM nem outras traduções acrescentam em tais textos a palavra “outro”, “outras”, e assim por diante? Porque isto já está subentendido. Ninguém questiona isso. Mas o problema é que, devido à prevalência do ensino trinitário, que afirma que Jesus não foi criado, torna-se necessário acrescentar a palavra “outras” em Colossenses 1:16, 17, para esclarecer algo que já estaria subentendido, se não fosse a ‘neblina’ causada pela doutrina trinitária.

Uma prova bíblica definitiva de que a palavra grega pán·ta pode e deve ser traduzida por “todas as outras coisas” quando o contexto e/ou o esclarecimento o exigem é o texto de 1 Coríntios 15:27, 28, que diz: “Pois Deus ‘lhe sujeitou todas as coisas debaixo dos pés’. Mas, quando diz que ‘todas as coisas foram sujeitas’, é evidente que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas.” Em outras palavras, Paulo estava explicando que “todas as coisas” neste contexto significa “todas as outras coisas; não inclui “aquele que lhe sujeitou” tais coisas.  Paulo disse que isso “é evidente”. Mesmo assim, ele achou bom esclarecer isso. O mesmo se pode dizer de certos versículos bíblicos. Aos que não estão com ideias preconcebidas antibíblicas, tal significado “é evidente” nesses versículos. Mas, devido às ideias preconcebidas antibíblicas, às vezes é necessário esclarecer o sentido do texto por acrescentar palavras auxiliares. Estas palavras não mudam o sentido do texto; pelo contrário, o esclarecem.

Referências:

Al – Versão Almeida, revista e corrigida.
ALA – Versão Almeida, revista e atualizada no Brasil.
Despertai! de 22/10/79 (p. 29, sob o tema “Jesus Cristo como ‘o primogênito de toda criatura’”), periódico publicado pelas Testemunhas de Jeová.
HR – Novo Testamento (1935), Huberto Rohden, União Cultural Editora Ltda.
IBB – Imprensa Bíblica Brasileira.
JRV – Bíblia Sagrada, Evangelhos (1982), José Raimundo Vidigal, Editora Santuário.
Livro Raciocínios À Base das Escrituras (p. 401, verbete “Trindade”), publicado pelas Testemunhas de Jeová.


Nota:
[1] Estas ocorrem em Gênesis 10:15; 22:21; 25:13, 31, 33; 27:19, 32; 35:23;36:15; 38:6, 7; 41:51; 43:33; 46:8; 48:14, 18; 49:3; Êxodo 4:22, 23; 6:14; 11:5; 12:12; 12:29; 13:2, 13, 15; 22:29; 34:20; Levítico 27:26; Números 1:20; 3:2, 13; 8:17; 18:15, 17; 26:5; Deuteronômio 15:19; 21:15, 16, 17; 25:6; 33:17; Josué 6:26; 17:1; Juízes 8:20; 1 Samuel 8:2; 17:13;  2 Samuel 3:2; 1 Reis 16:34; 2 Reis 3:27; 1 Crônicas 1:13, 29; 2:3, 13, 25, 27, 42, 50; 3:1, 15; 4:4; 5:1, 3; 6:28; 8:1, 30, 39; 9:5, 31, 36; 26:2, 4, 10; 21:3; Jó 1:13, 18; Salmo 105:36; Miqueias 6:7; Zacarias 12:10; Lucas 2:7; Romanos 8:29.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Estudo sobre Pneumatologia – Parte 5


O espírito santo

1.   Descrito em termos impessoais

     A primeira alusão feita na Bíblia ao espírito santo encontra-se no segundo versículo da Bíblia, o qual declara que “o espírito de Deus pairava sobre as águas”. (Gên. 1:2, Douay-Rheims) Uma grande variedade de textos usam expressões que salientam a natureza impessoal do espírito santo. Por exemplo, a Bíblia fala de ‘encher [alguém] do espírito de Deus’ (Êxo. 31:3; 35:31; Luc. 1:15, 41, 67; 4:1), de “tirar um pouco do espírito que há sobre [alguém] e colocá-lo sobre [outros]” (Núm. 11:17, 25, 26), de o espírito ‘envolver’ ou ‘revestir’ uma pessoa (Juí. 6:34, nota; 1 Crô. 12:18, nota), de ‘se tornar ativo em’ pessoas (Juí. 14:6, 19; 15:14; 1 Sam. 10:6, 10), de “borbulhar” (‘ser abundantemente derramado’, Al) para (ou sobre) pessoas (Prov. 1:23), de ser “despejado” (Isa. 32:15), de ser ‘posto sobre’ e ‘estar sobre’ uma pessoa (Isa. 42:1; 59:21; 61:1; Mat. 12:18; Luc. 2:25; 4:18), de ‘entrar em’ uma pessoa (Eze. 2:2; 3:24), ser posto “no íntimo” de pessoas (Eze. 36:27), “pousar” e ‘repousar’ sobre alguém (Isa. 11:2; 1 Ped. 4:14), ‘cair sobre’ alguém (Eze. 11:5), ser ‘derramado’ (Eze. 39:29; Joel 2:28, 29), e ser ‘soprado’. (João 20:22) Gálatas 3:5 descreve Deus como “aquele que vos supre [“dá”, Al] o espírito”. Deveríamos entender que Deus dá uma pessoa que é dividida entre todos os cristãos? (1 João 3:24; 4:13)[1] Evidência adicional de que o espírito santo pode ser parcelado é a afirmação em João 3:34, de que Deus “não dá o espírito por medida”.

     Que essas expressões não são mera figura de linguagem pode ser visto no texto de Atos 2:4, que declara, em parte: “Todos eles [os discípulos de Cristo] ficaram cheios de espírito santo.” A quantidade dos que “ficaram cheios” desse espírito “era ao todo de cerca de cento e vinte” pessoas, que estavam reunidas num “quarto de andar superior”. (Atos 1:13, 15) Portanto, o relato de Atos descreve um acontecimento real. Assim, terem mais de cem pessoas ficado ‘cheias’ simultaneamente de espírito santo foi um acontecimento literal. (Veja também Atos 4:31, onde se diz que “todos juntos ficaram cheios de espírito santo”.) O apóstolo Pedro explicou que esse ocorrido era cumprimento da profecia de Joel 2:28, 29, que reza, em parte: “‘E nos últimos dias’, diz Deus, ‘derramarei do meu espírito sobre toda sorte de carne.’” (Atos 2:17) Por conseguinte, tal espírito foi realmente ‘derramado’ (do verbo ekkhéo) no sentido de ter sido concedido e distribuído em grande parte. (The New Analytical Greek Lexicon, 7ª ed., 2001) Isto torna evidente que o espírito santo não pode ser uma pessoa (ente) espiritual, e sim uma energia.

   A título de ilustração, podemos citar a eletricidade. Se cento e vinte pessoas estiverem segurando as mãos umas da outras, e uma delas segurar um cabo de alta tensão, a energia elétrica passará para todas as 120 pessoas. Por outro lado, um ser espiritual (tal como um anjo), por ter um “corpo espiritual” definido, não pode ser parcelado ou distribuído entre 120 pessoas simultaneamente. (1 Cor. 15:44) Perto da conclusão de seu discurso explicando o derramamento do espírito santo, o apóstolo Pedro declarou: “Portanto, visto que ele [Jesus Cristo] foi enaltecido à direita de Deus e recebeu do Pai o prometido espírito santo, derramou isto que vedes e ouvis.” (Atos 2:33) O espírito santo foi chamado de “isto”, um pronome demonstrativo que evidentemente não se aplica a uma pessoa, a não ser em sentido pejorativo, o que não é o caso em questão.

    Além disso, a Bíblia descreve o espírito santo ‘caindo’ simultaneamente sobre diversas pessoas, e isso foi equiparado a ser ele ‘derramado’ sobre tais pessoas. (Atos 10:44, 45; 11:15) As únicas pessoas espirituais que são descritas como ‘caindo’, ou sofrendo uma queda, são Satanás e seus demônios. (Luc. 10:18; Rev. 12:7-10, 13) O verbo “cair”, quando aplicado a pessoas, está no sentido pejorativo. (Mat. 21:44; Rom. 11:11; 14:13; 1 Cor. 10:12; 1 Tim. 3:6; 6:9; Heb. 10:31; Rev. 2:5) Se o espírito santo fosse uma pessoa (ser) espiritual da parte de Deus, ou parte do próprio Deus, esse verbo definitivamente não se harmonizaria com ele. Mas, visto ser ele uma força, ou energia, da parte de Deus, tal verbo descreve o seu derramamento sobre os servos de Deus. O espírito santo “mora” simultaneamente em muitas pessoas (os servos de Deus) (1 Cor. 3:16), e ele habita no “íntimo” de todos eles ao mesmo tempo. (1 Cor. 6:19) Tudo isso implica em ser ele uma energia, ou força atuante, em operação, e não uma pessoa. 

            Ademais, é possível “beber” do espírito santo. (1 Cor. 12:13) O verbo traduzido por “beber” nesse texto é potízo, usado aqui metaforicamente no sentido de ‘imbuir-se’, ‘deixar-se penetrar’, ‘encher-se de’. Acha que faria sentido encher-se literalmente de uma pessoa? Mas é possível, e perfeitamente cabível, ficar cheio de uma energia. A expressão “suprimento do espírito de Jesus Cristo” (Fil. 1:19) mostra a impessoalidade do espírito santo, que é fornecido (suprido) por meio de Cristo. As traduções em geral escondem esse fato por traduzir a palavra “suprimento” por “socorro”, “auxílio”, ou por termos semelhantes. Contudo, a palavra grega em questão – epikhoregía – está relacionada ao verbo epikhoregéo, que significa “fornecer”, “providenciar”, “dar”, e “conceder”. – 2 Ped. 1:5; 2 Cor. 9:10; Gál. 3:5; 2 Ped. 1:11; Col. 2.19.

     Também, é necessário pontuar a distinção que a Bíblia faz entre o espírito santo e Deus. Tão somente a expressão “espírito de Deus” revela que tal espírito não é Deus, e sim que pertence a Deus e Dele procede. A sentença usada por Deus – “derramarei do meu espírito” – indica que tal espírito não é ele mesmo, e sim PARTE Dele. – Atos 2:17, 18.

2.   Paralelos e contrastes com coisas impessoais

     Além disso, outra linha de evidência que ressalta a impessoalidade do espírito santo é o paralelo ou contraste que a Bíblia faz dele com coisas impessoais. À guisa de exemplo, a Bíblia contrasta o “espírito de Jeová” com o “espírito mau” que aterrorizou Saul, sendo este último, não uma pessoa, mas uma disposição negativa que envolveu Saul em resultado da retirada do espírito santo. (1 Sam. 16:14, 23)[2] O espírito santo é colocado em paralelo com o maná e a água, essas três provisões tendo sido fornecidas aos israelitas no deserto. (Nee. 9:20) “Espírito” ocorre paralelamente a “sopro” (Jó 4:9), a “fôlego” (Jó 33:4), e à inclinação mental, ou mentalidade prevalecente, caracterizada por qualidades tais como sabedoria, compreensão, potência, conhecimento e temor piedoso. (Isa. 11:2) A Bíblia fala tanto de Deus ‘despejar’ água como ‘despejar’ Seu “espírito”. (Isa. 44:3) Espírito santo é paralelizado com “força” (humana) e “poder”, evidenciando que se trata de uma energia em operação. – Zac. 4:6.

     João Batista falou de Jesus ‘batizar com espírito santo e com fogo’. (Mat. 3:11; Luc. 3:16) Fala-se de batizar com água e com espírito santo (Mar. 1:8; Atos 1:5), e de se batizar em água e em espírito santo. (Atos 11:16) Menciona-se estar “cheios de espírito e de sabedoria” (Atos 6:3), e também de se estar “cheio de fé e espírito santo” e “cheios de alegria e de espírito santo”. (Atos 6:5; 13:52) O espírito santo é comparado, não a Deus, mas ao “dedo de Deus”. (Mat. 12:28; Luc. 11:20) O dedo de alguém não é uma pessoa, e sim parte de uma pessoa. O espírito santo é comparado ao óleo de unção quando se fala de ‘ungir com espírito santo e poder’. (Atos 10:38) Além disso, nesse mesmo texto é feito um paralelo entre espírito santo e poder. Visto que o espírito santo é a energia em atividade, ou força ativa, de Deus, há uma similaridade entre espírito santo e poder. (Veja também 1 Coríntios 2:4.) “Um só espírito” está em paralelo com “um só corpo”, sendo que ambos não são pessoas. (1 Cor. 12:13) O espírito santo é mencionado junto com qualidades tais como a “pureza”, o “conhecimento”, a “longanimidade”, a “benignidade” e o “amor livre de hipocrisia”. (2 Cor. 6:6) O espírito é paralelizado à “palavra”, a “poder” e à “forte certeza”. (1 Tes. 1:5) Essas coisas que são mencionadas em paralelo com o espírito santo não são pessoas. O mesmo se dá com o espírito santo.

     No que diz respeito a contrastes, ou antíteses, o espírito santo é contrastado com “código escrito” (“letra”, Al; Rom. 2:29; 7:6; 2 Cor. 3:6), e com “tinta” (2 Cor. 3:3); com o pecado e a morte (Rom. 8:2), e com a “carne”. (Rom. 8:4-6; Gál. 5:16-18; 6:8) Nenhuma dessas coisas é uma pessoa, do mesmo modo como o espírito santo não é. Nesse respeito, a Bíblia personifica tanto o espírito quanto a “carne” como tendo “desejo”. (Gál. 5:17). Há um contraste entre ‘ficar embriagado [cheio] de vinho’ com ‘ficar cheio de espírito’. – Efé. 5:18.

     Na descrição da figurativa “armadura completa de Deus” (Efé. 6:11), o apóstolo Paulo fala de peças dessa “armadura” associando-as com coisas impessoais (‘cinturão da verdade’, “couraça da justiça”, “escudo da ”, “capacete da salvação”). Nessa sequência ele menciona a “espada do espírito”. (Efé. 6:14-17) Assim como “verdade”, “justiça”, “fé” e “salvação” não são pessoas, o mesmo se dá com o espírito santo.
E o fato de a Septuaginta ter traduzido “espírito de Jeová” em Isaías 40:13 por “mente” de Jeová, e o fato de essa passagem nessa tradução ter sido citada pelo apóstolo Paulo indica que tanto os judeus como os primeiros cristãos encaravam o espírito santo como algo impessoal. – Rom. 11:34; 1 Cor. 2:16.

A personificação do espírito santo

     Os que defendem que o espírito santo é uma pessoa apontam a personificação dele como “prova” positiva de sua alegada personalidade. Apontam textos que atribuem características pessoais ao espírito santo, tais como ‘ensinar’, ‘fazer lembrar’, ‘dar testemunho’, ‘guiar’, ‘falar, ‘ouvir’, e ‘declarar’. (Luc. 12:12; João 14:26; 15:26; 16:13) Como mostrou o artigo “Personificação prova personalidade?”, as mesmas características pessoais também são atribuídas a outras coisas impessoais. (2 Tim. 3:16; Gên. 9:16; João 5:36; Nee. 9:19; Miq. 6:2; Sal. 19:1)[3] Portanto, a personificação em si mesma não é prova de personalidade. Mas alguns ainda aventam que nenhuma coisa impessoal reúne tantas atribuições pessoais. Neste respeito, podemos citar a personificação do amor feita pelo apóstolo Paulo, em 1 Coríntios 13:4-7. Observe quantas atribuições pessoais são feitas a essa qualidade:

(1) é longânime
(2) benigno
(3) não é ciumento
(4) não se gaba
(5) não se enfuna
(6) não se comporta indecentemente
(7) não procura os seus próprios interesses
(8) não fica encolerizado
(9) não leva em conta o dano
(10) não se alegra com a injustiça, mas alegra-se com a verdade
(11) suporta todas as coisas
(12) acredita todas as coisas
(13) espera todas as coisas
(14) persevera em todas as coisas

     Se ninguém soubesse hoje o significado da palavra grega para “amor” – agápe – mas fosse possível entender o restante do texto, todos concluiriam que agápe é uma pessoa. Contudo, não há nenhuma controvérsia sobre essa passagem, uma vez que se entende claramente que Paulo usou um recurso literário – a prosopopeia. Pode-se também inferir a ocorrência de metonímia – transferência de significado entre duas coisas devido à afinidade, ou relação, que há entre elas, de possuidor e coisa possuída. Assim, as características pessoais atribuídas ao amor (coisa possuída) na realidade dizem respeito ao possuidor, ou detentor, dessa qualidade.

     Do mesmo modo, as características pessoais atribuídas ao espírito santo na verdade dizem respeito à sua Fonte, ao seu Detentor – Jeová Deus. É ele quem ensina, faz lembrar, dá testemunho’, guiar, fala, etc., fazendo essas e muitas outras coisas mediante Seu espírito, ou energia, em atividade, razão pela qual a Bíblia atribui figuradamente tais características ao impessoal espírito santo.

     Quando a Bíblia fala de o espírito santo ‘testificar’, ela esclarece que na realidade é Deus quem testifica por meio de seu espírito. Uma vez que tal espírito não tem voz própria, pessoal, Jeová torna seu espírito ativo em pessoas escolhidas (os “profetas”, também os discípulos de Cristo), informando-os de seus propósitos. (Nee. 9:30; Zac. 7:12; Mat. 10:20; Mar. 12:36; Atos 1:2, 16) Um texto que ajuda na compreensão desse fato é a passagem de Atos 4:24b, 25, que registra parte da oração dos primitivos discípulos de Cristo, nestas palavras: “Soberano Senhor, tu és Aquele que fez o céu e a terra, e o mar, e todas as coisas neles, e quem, por intermédio de espírito santo, disse pela boca de nosso antepassado Davi, teu servo: ‘Por que se tumultuaram as nações e meditaram os povos coisas vãs?’” Observe que quem disse as palavras registradas no Salmo 2:1 (citado nessa oração) foi Deus. Mas ele declarou tais palavras “por intermédio de espírito santo”, usando tal força ativa para transmitir essa sentença ao Rei Davi, o qual, por sua vez, a expressou a outros e a colocou por escrito. Em harmonia com isso, 1 Coríntios 2:10 declara que ‘Deus tem revelado por intermédio de seu espírito’. Isso explica porque outros textos mencionam que o espírito santo disse algo. Visto que Jeová usa seu espírito, ou força ativa, para transmitir declarações, fala-se figuradamente desse espírito como ‘falando’ algo. - Atos 21:4, 11; 28:25.

     Atos 15:8 declara: “Deus, que conhece o coração, deu testemunho por dar-lhes o espírito santo.” Assim, quando alguém recebia em seu íntimo o espírito santo e a subsequente operação deste, entendia que Deus estava dando testemunho de Sua aprovação sobre tal pessoa. Visto que a operação do espírito santo sobre a pessoa era um testemunho da aprovação divina, tal espírito atuava, figuradamente, como um testemunhador, ou testificador. Daí a Bíblia afirmar que o espírito santo ‘testifica’, ou ‘dá testemunho’. (Atos 20:23; Rom. 8:16) No entanto, queira notar que o espírito santo não dá testemunho junto com o Pai e o Filho, e sim junto com coisas impessoais, como a água e o sangue. – João 8:17, 18; 1 João 5:8.

     Visto que os homens que escreveram a Bíblia “falaram da parte de Deus conforme eram movidos por espírito santo”, o espírito santo é personificado como se ele mesmo tivesse ‘falado’ o que está registrado nas Escrituras Sagradas. (2 Ped. 1:21) Assim, quando os apóstolos e anciãos de Jerusalém chegaram a uma decisão baseada nas Escrituras, eles podiam dizer: “Pareceu bem ao espírito santo e a nós mesmos.” (Atos 20:28) Atos 5:3 fala sobre “trapacear o espírito santo”, mas isso não passa de figura de linguagem, pois o versículo 9 explica que esse espírito não é Deus, e sim, “o espírito de Jeová”. A relação entre trapacear o espírito santo e trapacear a Deus pode ser compreendida pelas palavras de Paulo em 1 Tessalonicenses 4:8: “Assim, pois, quem mostra falta de consideração, não desconsidera o homem, mas a Deus, que pôs em vós o seu espírito santo.” Note que o texto não diz que o espírito santo é Deus, mas sim que é algo posto por Deus nos Seus servos. Desse modo, toda ação feita contra a operação do espírito santo, ou energia, que habita dentro da pessoa é considerada como sendo feita a Deus. Assim, resistir ao espírito santo significa resistir à sua operação ou influência. (Atos 7:51) Visto que Jeová usa seu espírito para designar e enviar pessoas à obra de evangelização, fala-se desse espírito como ‘enviando’ pessoas.  – Atos 13:4.

     O espírito santo é tanto descrito como “espírito de Deus” como “espírito de Cristo”, uma vez que é usado tanto por Deus quanto por Cristo na realização do propósito divino. (Rom. 8:9) Atos 16:6, 7 descreve Paulo e Silas como estando “proibidos pelo espírito santo” de pregar em certa região. Note o paralelo de “espírito santo” com a expressão “espírito de Jesus”, o que indica que uma pessoa (ser) espiritual – Jesus Cristo – usou o espírito santo (a força ativa de Deus) para proibir os discípulos. – Gál. 4:6; João 14:26.

     Atos 20:28 cita o espírito santo como tendo ‘designado’ homens fiéis para o cargo de ‘superintendente’. Em que sentido se dá isso? Visto que Jeová Deus usou seu espírito para inspirar a escrita da Bíblia, a qual registra os requisitos para o cargo de superintendente, os que preenchem as qualificações para tal cargo podem ser aludidos como tendo sido, figuradamente, ‘designados’ pelo espírito santo.

     Em Romanos 8:27, o apóstolo Paulo afirmou que “o espírito implora por nós com gemidos não pronunciados”. Como podemos entender essa linguagem figurada? Visto que Deus usou seu espírito para registrar muitas orações de Seus servos nas Escrituras, pode-se afirmar que o espírito simbolicamente implora “de acordo com Deus, a favor dos santos”. Deus aceita essas orações registradas em Sua Palavra como se fossem nossas, no que elas se aplicam à nossa situação.

     Que dizer de 1 Coríntios 2:10, texto que declara que “o espírito pesquisa todas as coisas”? Note que “espírito” ocorre em paralelo com “o espírito de homem que está nele”. Este último “espírito” não é uma pessoa, mas sim a impelente inclinação mental predominante do ser humano, que FAZ PARTE da pessoa. Essa disposição mental é personificada como ‘sabendo’ as “coisas do homem”, uma vez que envolve sua mente, sentimentos e motivações. De modo similar, visto que o espírito santo faz parte de Deus e até é comparado à Sua mente (1 Cor. 2:16), ele é personificado como ‘pesquisando’ as coisas de Deus. Mas que o espírito santo não é uma pessoa e nem é Deus pode ser visto na expressão “espírito de Deus” e na expressão “espírito que é de Deus”. (1 Cor. 2:11, 12) Ademais, ele é contrastado no mesmo contexto com ‘espírito do mundo’ (1 Cor. 2:12), expressão que não se refere a uma pessoa e sim a uma tendência, influência ou inclinação impelente que predomina no mundo de Satanás. Por fim, o espírito santo ocorre nesse contexto em contraste com “sabedoria humana”. (1 Cor. 2:13) O texto declara: “Falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com as ensinadas pelo espírito.” Tanto a sabedoria humana como o espírito santo são personificados como ‘ensinando’. Naturalmente, assim como sabedoria não é pessoa, o mesmo se dá com o espírito santo.

     A expressão “amor do espírito” (Rom. 15:30) não significa que o espírito santo seja uma pessoa com amor, e sim que “o amor de Deus tem sido derramado em nossos corações por intermédio do espírito santo”. (Rom. 5:5) 1 Cor. 12:11 menciona o espírito santo “fazendo distribuição [de operações] a cada um respectivamente, assim como quer”. Na realidade, a volição, ou vontade, é atribuída metonimicamente ao espírito santo por ele proceder de Deus. Isso se torna claro pelo que diz Hebreus 2:4: “Ao passo que Deus se juntou em dar testemunho com sinais, e também com portentos e várias obras poderosas, e com distribuições de espírito santo, segundo a sua vontade.” Portanto, a “distribuição”, ou parcelamento, do espírito santo em forma de “operações” é feita por Deus e conforme a vontade Dele.

     O fato de a Bíblia atribuir um “ministério” ao espírito santo (2 Cor. 3:8, IBB, Al, ALA) não o torna uma pessoa, pois o contexto contrasta tal ministério com o “ministério da morte” e com o “ministério da condenação” e paraleliza o ministério do espírito com “o ministério da justiça”. (2 Cor. 3:7, 9, IBB, Al, ALA) Tudo isso torna claro que o espírito santo não é pessoa, assim como não o são essas outras coisas às quais se atribui um “ministério”. Além disso, o versículo 17 (parte a) menciona que “o Senhor [Jeová] é Espírito”, mas não diz que o espírito santo é Deus. (IBB, Al, ALA) Em vez disso, fala desse espírito como “o espírito do Senhor”. (2 Cor. 3:17b, La Sainte Bible, de Augustin Crampon, 1923.) Portanto, o espírito santo não é Deus, e sim o espírito de Deus.

     A expressão “espírito diferente” ocorre como contraste com ‘o [espírito] que recebestes’. (2 Cor. 11:4) Pelo que parece, esta última expressão se refere ao espírito santo. (Gál. 3:14) Assim, “espírito diferente” é uma alusão a uma força ativa, ou energia, diferente. Por outro lado, o paralelo com “boas novas diferentes” pode indicar que “espírito diferente” se refira a uma “expressão inspirada” diferente. – 1 João 4:3.

     O texto de 2 Coríntios 13:14, muitas vezes citado como “prova” da Trindade e da personalidade do espírito santo, na realidade não prova nenhuma das duas asserções. Primeiro, porque essa passagem refere-se apenas ao Pai como “Deus”, o que indefensavelmente aplica um golpe na teoria trinitária. Segundo, o versículo menciona “a participação (koi·no·ní·a) no espírito santo”. Diversas traduções vertem essa palavra grega por “comunhão”. (Al, ALA, IBB, NVI) Embora esta última tradução seja um dos sentidos de koinonía, esse termo grego também significa “participação, partilha, compartilhamento”.[4] (Gingrich e Danker sugerem que esse seja o possível sentido em 2 Coríntios 13:13 [14].) Por exemplo, Filêmon 6 faz referência à koinonia da fé. Não faria sentido traduzir essa expressão por “comunhão da fé”. Está claro que o sentido é de ‘partilha da fé’. Em adição, 1 Timóteo 6:18 usa o adjetivo relacionado koinonikoús, que diversas versões traduzem por “generosos”, “prontos para repartir”, ou por outra ideia similar. (IBB, NVI, ALA, NTLH, CNBB, BJ, NAB, RSV) E o contexto bíblico determina que “participação” (ou “partilha”) é o sentido de 2 Coríntios 13:13. Vemos isso em Filipenses 2:1, que menciona a “partilha do espírito”. (NAB e RSV traduzem por “participação” no espírito.) Isso está em harmonia com o fato de que diversas “operações” do espírito santo são mencionadas como ‘distribuídas’ [de diairéo] aos cristãos. (1 Cor. 12:11) E o próprio espírito é referido como tendo sido ‘repartido’ aos cristãos por Cristo (literalmente: ‘a medida [métron] da dádiva gratuita do Cristo’). – Efé. 4:7; Atos 2:38; veja também João 3:34.

     ‘Contristar o espírito santo’ significa entristecer a Fonte desse espírito – Jeová Deus. (Efé. 5:30) A expressão “alegria de espírito santo” não é nem mesmo uma personificação, pois não ocorre o artigo definido, de modo a rezar “alegria do espírito santo”. O sentido é de que a alegria é proveniente do espírito santo, visto que faz parte do coletivo ‘fruto do espírito’. (Gál. 5:22, 23.) Assim, a personificação é apenas um recurso linguístico, mas não dá suporte doutrinal para os proponentes da personalidade do espírito santo, uma vez que o inteiro contexto bíblico apresenta esse espírito como sendo a força ativa de Jeová Deus.

“Espírito” com referência ao espírito santo

Escrituras Hebraicas:
Gn 1:2; 41:38; Êx 31:3; 35:31; Núm 11:17, 25 (2x), 26, 29; 24:2; Jz 3:10; 6:34; 11:29; 13:25; 14:6, 19; 15:14; 1Sa 10:6, 10; 11:6; 16:13, 14, 23; 19:20, 23; 2Sa 23:2; 1Rs 18:12; 22:24; 2Rs 2:16; 1Cr 12:18; 15:1; 18:23; 20:14; 24:20; 28:12; Ne 9:20, 30; Jó 4:9; 32:18; 33:4; Sal 51:11; 104:30; 139:7; 143:10; Pr 1:23; Is 11:2, 15; 30:1, 28; 32:15; 34:16; 40:7, 13; 42:1; 44:3; 48:16; 59:19, 21; 61:1; 63:10, 11, 14; Ez 1:12, 20 (3x), 21; 2:2; 3:24; 10:17; 11:5, 24; 36:27; 37:1, 14; 39:29; Jl 2:28, 29; Miq 2:7; 3:8; Ag 2:5; Za 4:6; 6:8; 7:12; Mal 2:15
Total: 85 vezes.

Escrituras Gregas Cristãs:
Mt 1:18, 20; 3:11, 16; 4:1; 10:20; 12:18, 28, 31, 32; 28:19; Mr 1:8, 10, 12; 3:29; 12:36; 13:11; Lu 1:15, 35, 41, 67; 2:25, 26, 27; 3:16, 22; 4:1 (2x), 14, 18; 10:21; 11:13; 12:10, 12; Jo 1:32, 33 (2x); 3:5, 6 (1.ª), 8, 34; 6:63 (1.ª); 7:39 (2x); 14:17, 26; 15:26; 16:13; 20:22; At 1:2, 5, 8, 16; 2:4 (2x), 17, 18, 33, 38; 4:8, 25, 31; 5:3, 9, 32; 6:3, 5; 7:51, 55; 8:15, 17, 18, 19, 39; 9:17, 31; 10:19, 38, 44, 45, 47; 11:12, 15, 16, 24, 28; 13:2, 4, 9, 52; 15:8, 28; 16:6, 7; 19:2 (2x), 6; 20:23, 28; 21:4, 11; 28:25; Ro 1:4; 2:29; 5:5; 7:6; 8:2, 4, 5 (2x), 6, 9 (3x), 10, 11 (2x), 13, 14, 15 (3x), 16, 23, 26 (2x), 27; 9:1; 14:17; 15:13, 16, 19, 30; 1Co 2:4, 10 (2x), 11, 12, 13, 14; 3:16; 6:11, 19; 7:40; 12:3 (2x), 4, 7, 8 (2x), 9 (2x), 11, 13 (2x); 14:2, 12, 13, 14, 15 (2x), 16, 32; 2Co 1:22; 3:3, 6 (2x), 8, 17; 5:5; 6:6; 11:4; 13:14; Gál 3:2, 3, 5, 14; 4:6, 29; 5:5, 16, 17 (2x), 18, 22, 25 (2x); 6:8; Ef 1:13; 2:18, 22; 3:5, 16; 4:3, 4, 30; 5:18; 6:17; Fil 1:19; 2:1; 3:3; 1Te 1:5, 6; 4:8; 5:19; 2Te 2:13; 2Ti 1:14; Tit 3:5; He 2:4; 3:7; 6:4; 9:8, 14; 10:15, 29; 1Pe 1:2, 11, 12; 4:6, 14 (2x); 2Pe 1:21; 1Jo 3:24; 4:13; 5:6 (2x), 8; Ju 20; Re 1:4; 2:7, 11, 17, 29; 3:1, 6, 13, 22; 4:2, 5, 6; 17:3; 21:10; 22:17.
Total: 243 vezes.
TOTAL GERAL: 328 vezes.


Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site oapologistadaverdade.org




[1] Vale ressaltar que Jesus foi dado “por nós” (em nosso favor), e não ‘para nós’. – 1 João 3:16; Rom. 8:32.
[2] Veja o terceiro artigo desta série, que considera o uso de “espírito” no sentido de inclinação (disposição) mental.
[3] Para mais informações, veja o artigo citado no link http://www.oapologistadaverdade.org/2011/09/personificacao-prova-personalidade-uma.html
[4] Exemplos do uso de koinonía nesse sentido podem ser vistos em Atos 2:42; Rom. 15:26; Fil. 1:5; 3:10; 1 Cor. 10:16; 2 Cor. 8:4; 9:13; Flm 6; Heb. 13:16.



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