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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

As Testemunhas de Jeová são dispensacionalistas ou partidários da teologia do concerto? (Parte 2)


Contribuído por Historiador JW.

O artigo anterior trouxe à luz a origem e os fundamentos da teoria dispensacionalistas e da teologia do concerto. Este artigo examinará se as Testemunhas de Jeová têm relação com quaisquer dessas filosofias doutrinárias.

A origem das Testemunhas de Jeová

As Testemunhas de Jeová não surgiram no século XIX, como dizem alguns desinformados, mas muito antes desse século inovador. Tanto é assim que, aproximadamente 2.700 anos atrás, os servos de Deus foram chamados de “testemunhas” (ʽedh) pelo profeta Isaías (43:10-13). Também, no primeiro século, o apostolo Paulo escreveu: “Estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas”, depois de citar o exemplo notável de várias Testemunhas de Jeová que viveram antes de Cristo (Hebreus 12:1). Assim, as evidências apontam que, antes mesmo da congregação cristã no primeiro século, já existiam pessoas que defendiam o nome de Jeová [Testemunhas] e exerciam fé em seus propósitos, como Abel (Gênesis 4:5; Hebreus 11:4), a primeira Testemunha de Jeová.

O desenvolvimento da apostasia

Como sabemos, depois que os apóstolos de Cristo morreram, o Cristianismo foi corrompido pela apostasia (1 João 2:18, 19). Depois do primeiro século, ideias pagãs começaram a girar em torno do texto sagrado, como o acréscimo muxibento das palavras “no céu: o Pai, a Palavra e o espírito santo; e estes três são um” em 1 João 5:7, que não se encontram nos manuscritos mais antigos. Outras doutrinas foram oficializadas quando o Imperador Constantino se tornou “cristão”, ou seja, católico, como a famosa Cruz que veio a ser o símbolo sagrado da cristandade até os dias de hoje. Assim, temos de concordar com o Historiador Geoffey Blainey (2009, p. 107), que escreveu: “O Cristianismo [Cristandade] lentamente adaptou alguns de seus rituais vindos da vida cotidiana dos romanos.” Dessa forma, a potência mundial romana multiplicou muitos clérigos e Igrejas (religiões).

Ao logo do tempo, suas terríveis maldades só aumentaram, a exemplo da morte de centenas de pessoas nas “fogueiras santas” e as torturas na “santa inquisição” no período histórico conhecido como Idade Média, período denominado pelos iluministas como “Idade das Trevas”. No século XIV, o inferno de fogo se “popularizou”, por assim dizer, com o lançamento do famoso poema intitulado “Divina Comédia” de Dante de Alighieri, além de outras obras nessa temática, como “as onze dores do inferno”, influenciando muitas pinturas na época, como a pintura na Capela Sistina, no Vaticano, de Miguel Ângelo.  Dessa forma, essa obra expressou o imaginário coletivo da cristandade por popularizar no mínimo três mentiras: o inferno de fogo, a vida pós-morte e a alma imortal. Nos séculos posteriores, os reformadores protestantes mantiveram a mesma matriz de pensamento, tanto dispensacionalistas como teólogos do concerto, etc. Assim, temos de concordar com o professor da Universidade de Harvard, Blainey:

Por pelo menos quatro séculos, o cristianismo foi como um metal quente despejado de fornos em moldes de formatos variados. Às vezes, um forno quase explodia ou o fogo era apagado. Frequentemente, os fornos eram remodelados e, muitas vezes, eram ampliados. Os moldes eram mudados repetidas vezes, de forma que, se os primeiros seguidores de Cristo tivessem voltado a viver, não teriam reconhecido muitas das crenças e rituais da Igreja que eles tinham ajudado a fundar. (BLAINEY, 2009, p. 107).

O restabelecimento das doutrinas bíblicas fundamentais

Assim, diante de tantas trevas, a luz da verdade começou a brilhar no final do século XIX, com um grupo de estudos bíblicos nos EUA e, à medida que foram florescendo em outros países, ficaram conhecidos como Estudantes Internacionais da Bíblia, por iniciativa de Charles Taze Russell, um zeloso estudante da Bíblia.  No entanto, nesse mesmo período os paradigmas teológicos ganharam ímpeto em muitos lugares, até mesmo nos EUA, induzindo muitos a afirmar que os Estudantes da Bíblia (Testemunhas de Jeová, a partir de 1931) foram influenciados pelos paradigmas teológicos dispensacionalistas e dos teólogos do concerto.

As Testemunhas de Jeová foram influenciadas pela doutrina dispensacionalistas e da teologia do concerto?

Citaremos agora os principais argumentos e críticas dos antagonistas das Testemunhas de Jeová para tais afirmações. Depois responderemos a cada uma delas:

                                     ·           As Testemunhas de Jeová acreditam que o reinado milenar será literal, uma ideia dispensacionalista;
                                       ·           As Testemunhas de Jeová dizem que o Israel natural não é mais o povo pactuado de Jeová atualmente, pois foram substituídos pelo Israel de Deus, isto é, um Israel espiritual, uma ideia da teologia do concerto;
                                          ·            C. T. Russell tinha ideias dispensacionalistas porque tinha uma tabela que apontavam para as “eras escatológicas” e a pirâmide de Gizé, conceitos dispensacionalistas com ideias correntes;
                ·           A crença de que estamos no “final dos tempos” pregado pelas Testemunhas de Jeová, é a mesma compartilhada pelos dispensacionalistas, porque acreditam que “[...] as guerras mundiais, o terrorismo, os tsunamis, doenças como malária, influenza, e AIDS são evidência empírica que o fim deve estar perto”. (DEMAR traduzido por FELIPE SABINO, 2008, p. 1).

Primeiro, a crença do reinado milenar literal não é uma ideia dispensacionalista, mas bíblica. Tanto é assim que Apocalipse, capítulo 20, descreve detalhes desse vindouro reino, não de forma alegórica como acreditava Agostinho de Hipona (354-430 EC). Se as Testemunhas de Jeová são dispensacionalistas, como afirmam os críticos pelo fato de elas acreditarem que o Reino Milenar será literal no futuro por transformar a terra num paraíso, então, os mesmos críticos afirmam indiretamente que Pápias de Hierápolis (70-155 DC) também foi um dispensacionalista porque acreditava que o Reino Messiânico será literal. Assim, fazer uma afirmação dessas é no mínimo cometer um anacronismo.

Outra prova de que as Testemunhas de Jeová não são dispensacionalistas é o fato de que nem sempre interpretam a Bíblia literalmente, mas de acordo com o contexto escriturístico. Por exemplo, acreditam conforme as Escrituras que os “dias” criativos de (Gênesis, capítulo 1) não são “dias” literais de 24 horas, mas dias que abrangem determinado período de tempo (2 Pedro 3:8). Diferentemente dos dispensacionalistas, que acreditam na literalidade dos dias criativos. Outro exemplo de que não interpretamos a Bíblia de forma literal, como os dispensacionalistas, está em Mateus 26:26-28. Não somos como Lutero, que cria que o corpo e o sangue de Cristo estavam milagrosamente presentes no pão e no vinho na Comemoração.

Veja os motivos pelos quais as Testemunhas de Jeová não acreditam como os dispensacionalistas, isto é, de forma literal cada passagem bíblica. A revista A Sentinela (2005) responde:

Líderes da Reforma Protestante também foram contra o conceito de que o Sol era o centro do Universo. Entre eles estavam Martinho Lutero (1483-1546), Philipp Melanchthon (1497-1560) e João Calvino (1509-64). Lutero disse a respeito de Copérnico: “Esse louco quer inverter toda a ciência da astronomia.” Os Reformadores baseavam seu argumento numa interpretação literal de certos textos bíblicos, tais como o relato no capítulo 10 de Josué, que menciona que o Sol e a Lua ‘ficaram imóveis’. Por que os Reformadores tiveram essa atitude? O livro Galileo’s Mistake (O Engano de Galileu) explica que a Reforma Protestante livrou-se do jugo papal, mas não “se livrou da autoridade básica” de Aristóteles e de Tomás de Aquino, cujas idéias foram “igualmente aceitas por católicos e protestantes”. (w05, 1 de abril, p. 6. Grifo acrescentado).

Portanto, uma interpretação SEMPRE literal como dos dispensacionalistas entra em contradição. Em contraste com isso, as Testemunhas de Jeová adoram a Deus com lógica. – Leia Romanos 12:1.

Segundo, acreditar que o “Israel natural” foi substituído pelo “Israel espiritual” por Jeová Deus não nos faz teólogos do concerto ou algo do tipo, mas Estudantes da Bíblia, pelo simples fato de que essa ideia é apresentada pelas Escrituras, sobretudo, nas cartas paulinas. Sabemos que o ungido de Jeová, Jesus Cristo, foi rejeitado pelos judeus; por isso, Paulo escreveu: “Não que a palavra de Deus haja faltado, porque nem todos os que são de Israel são israelitas.” (Romanos 9: 6) Por isso, o Israel espiritual não é composto por judeus naturais, mas por servos fieis de todas as nações (Romanos 9:24). (Cf. 1 Pedro 2:9; Gálatas 3:29; 6:16; Gênesis 22:18). Assim, fica claro que não seguimos uma ideia de teólogos da cristandade, mas uma ideia apresentada e defendida pelas Escrituras Gregas Cristãs (“Novo Testamento”).

Terceiro, dizer que C. T. Russell foi dispensacionalista é cometer um grave erro. Como o século XIX influenciou os Estudantes da Bíblia? Primeiro de tudo, é digno de nota que o movimento moderno dos Estudantes da Bíblia não foi “derivado” de nenhum movimento teológico do século XIX, embora C. T. Russell foi influenciado por alguns colegas adventistas. Mas, isso não permite concluir que Russell adotou as doutrinas teológicas de época. Tanto é assim, que doutrinas fundamentais da cristandade, como Trindade, Inferno de fogo e imortalidade da alma foram rejeitadas imediatamente por aqueles zelosos Estudantes da Bíblia em suas primeiras publicações.

Os Estudantes da Bíblia, durante algum tempo, também pensavam que a pirâmide do Egito representava algo especial no plano de Deus; mas, à medida que a luz do conhecimento foi clareando mais e mais, ficou claro que tal monumento pagão não tinha nada a ver com a Bíblia (Provérbios 4:18). O mesmo ocorreu com a Cruz e a celebração antibíblica do Natal. C. T. Russell era muito metódico em seu estudo das Escrituras. Por isso, em suas primeiras publicações, havia algumas tabelas cronológicas bíblicas.

Isso significa que ele era dispensacionalista? Se ele era dispensacionalista porque usava tabelas cronológicas, então, aplicando a mesma regra, a História positivista do século XIX também era, pois criava várias tabelas cronológicas para interpretar os períodos historiográficos. O positivismo teorizava os três estados – (1º) Teológico, (2º) Metafísico e (3º) o Positivo/ científico. Esse era seu principal quadro cronológico, e nem por isso eram dispensacionalistas.

Até mesmo o marxismo ateu criou quadros cronológicos para interpretar a sociedade baseado na teoria de Karl Marx, como o famoso comunismo. Assim, ninguém em sã consciência afirmaria que esses paradigmas historiográficos dos séculos XIX e XX eram dispensacionalistas, ou que se baseavam em alguma corrente teológica. Desse modo, estabelecer uma regra para determinado grupo em determinado século é muito complicado. Assim, fica claro que os quadros cronológicos não são característica exclusiva da teologia, mas, sobretudo, da Historiografia enquanto ciência do século XIX.  Portanto, afirmar que C. T. Russell era dispensacionalista é cometer uma grande falácia, coisa da muxibenta apostasia contemporânea.

Por último, o fato das Testemunhas de Jeová acreditarem estar vivendo nos últimos dias ou “final dos tempos” por conta das guerras mundiais, terrorismo, crimes, doenças, etc. não prova que elas são dispensacionalistas, como afirma Garry Demar erradamente. Pelo contrário, prova que elas baseiam suas crenças na Bíblia:

“Nação se levantará contra nação e reino contra reino... Todas essas coisas são um começo das dores de aflição.” – Mateus 24: 7,8.

“Surgirão muitos falsos profetas, que enganarão a muitos; e, por causa do aumento do que é contra a lei, o amor da maioria esfriará.” – Mateus 24: 11, 12.

“Quando ouvirem falar de guerras e notícias de guerras, não fiquem apavorados. Essas coisas têm de acontecer, mas ainda não é o fim.” – Marcos 13: 7.

“Haverá grandes terremotos e, num lugar após outro, falta de alimentos e pestilências; e as pessoas verão coisas atemorizantes e grandes sinais do céu.” – Lucas 21: 11.

O texto de 2 Timóteo 3: 1-5 complementa a ideia de que estamos nos últimos dias. Portanto, fica claro que as Testemunhas de Jeová não se baseiam em paradigmas teológicos da cristandade – dispensacionalistas, teólogos do concerto, etc. Mas, baseiam-se exclusivamente nas Escrituras. Por isso, até hoje são conhecidas como zelosos estudantes da Bíblia.

Mas, se você continua discordando do nosso posicionamento, terá de discordar também da SOCIEDADE EVANGÉLICA, porque eles reconhecem claramente que as Testemunhas de Jeová não possuem nenhum vínculo com os “princípios fundamentais do protestantismo”.  – Diário do Paraná (CURITIBA, QUINTA- FEIRA, 26 DE FEVEREIRO DE 1959, p. 4), Segundo caderno. Confira na imagem:


Reprodução do texto em foto:

Testemunhas de Jeová não é Sociedade Evangélica

RIO, … (Meridional) – A Confederação Evangélica do Brasil enviou uma nota à Imprensa onde declara que a Sociedade Torre de vigia das bíblias e tratados, cujos adeptos se chamam Testemunhas de Jeová, não é evangélica, nem está vinculado a qualquer movimento protestante, quer do país, quer do estrangeiro. Muito pelo contrário, conclui a nota, os testemunhas de Jeová são mundialmente conhecidos como divorciados dos princípios fundamentais do protestantismo.


Diário completo disponível na Hemeroteca digital.


REFERÊNCIAS:

A SENTINELA, anunciando o reino de Jeová. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. 15 de janeiro, 1993.

A SENTINELA, anunciando o reino de Jeová. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. 1 de abril, 2005.

BARROS, José D’Assunção. Teoria da História. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

BIBLIA SAGRADA. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição corrigida e revisada.

BLAINEY, Geoffrey. Uma breve história do mundo. São Paulo, SP: Editora Fundamento Educacional, 2009.

DEMAR, Garry. Eram os dispensacionalistas batendo na minha porta?. (Tradução de Felipe Sabino de Araújo Neto), Março, 2008.

DIÁRIO DO PARANÁ.  Curitiba, quinta- feira, 26 de fevereiro de 1959, p. 4, Segundo caderno.

SCHULER, Arnaldo. O Dicionário Enciclopédico de Teologia. Canoas: Ed. ULBRA, 2002.

TRADUÇÃO DO NOVO MUDO DAS ESCRITURAS SAGRDAS. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Edição de 1989.

TRADUÇÃO DO NOVO MUNDO DA BÍBLIA SAGRADA. Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados. Edição de 2015.


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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