Image Map











terça-feira, 4 de abril de 2017

João 1:1 e a regra de Colwell (Parte 1)


João 1:1, texto uncial

Em 1933, Ernest Cadman Colwell propôs o que ele chamou de “regra definitiva para o uso do artigo definido no Novo Testamento grego”[1]. Sua regra afirma: “Um predicativo nominativo substantivo anartro não possui artigo quando precede o verbo.” Nesta série de artigos, essa construção será referida pela sigla PNAPV (predicativo nominativo anartro precedendo o verbo).

Em seu estudo sobre o tema, ele considerou João 1:1.

A parte final desse versículo reza literalmente no texto grego:

“E DEUS ERA A PALAVRA [ou: O VERBO].”
Kaì theós en ho lógos.
 
Observe que não ocorre o artigo definido (ho) antes de theós (“DEUS”).

A regra de Colwell afirma:

“Um definido predicado nominativo [theós (“DEUS”), em João 1:1c tem o artigo [“O”] quando segue o verbo; não tem o artigo quando precede o verbo.”

Em razão dessa fórmula, diversos trinitaristas passaram a lançar críticas amargas às traduções da parte final de João 1:1 que vertem “a Palavra era deus”, ou “a Palavra era um deus”. Em especial a Tradução do Novo Mundo ficou sob ataque ferrenho.

Como mostrado acima, a cláusula joanina reza no texto grego:

kaì theós én ho lógos
E deus era a palavra (ou “o verbo”)

Nessa frase, a palavra theós (“DEUS”) é um substantivo anartro (sem artigo), está no caso Nominativo, é um predicativo e precede o verbo “era”.[2] Com base nessas características gramaticais mencionadas na regra de Colwell, os trinitaristas concluíram apressadamente que theós nessa frase não precisa de artigo para ser definido. 

Concluíram que, pela regra de Colwell, o artigo já estava subentendido, tendo o sentido de ‘o Verbo era [o] Deus’, jamais admitindo a tradução de theós como indefinido (“um deus”) ou qualitativo (“divino”). Mas é isso mesmo que a regra de Colwell demonstra?

As limitações da gramática

O próprio Colwell afirmou sobre sua regra: “[O substantivo] é indefinido nessa colocação apenas quando o contexto o exige.” Por que ele fez tal afirmação?

Porque há coisas que a gramática consegue determinar, como, por exemplo, se uma palavra é um substantivo, se é anartro, se está no caso nominativo e se é um predicado. Porém, A GRAMÁTICA NÃO CONSEGUE DETERMINAR SE UM SUBSTANTIVO ANARTRO É DEFINIDO OU NÃO. A definição ou indefinição, ou a qualitatividade de um substantivo anartro depende do contexto.

 vejamos dois exemplos do texto grego neotestamentário que corroboram isso.

João 4:19: A mulher [samaritana] lhe disse [a Jesus]: ‘Percebo que tu és profeta.’”

A parte final – “tú és profeta” – encontra-se assim no texto grego:

Profetes  eî      sú
Profeta   és      tu


                  
                         The Kingdom Interlinear (Interlinear do Reino)

 A palavra profétes é um substantivo anartro, está no caso nominativo, é um predicativo e precede o verbo. Mas é definido?

Se fosse, isso significaria que o artigo estaria subentendido, a frase tendo o sentido de ‘percebo que tu és [o] Profeta’. Para os contemporâneos de Jesus, a expressão “o Profeta” não significava qualquer profeta, mas o esperado profeta semelhante a Moisés, conforme os textos abaixo:

Deuteronômio 18:15: “Jeová, seu Deus, fará surgir para você, dentre os seus irmãos, um profeta semelhante a mim; vocês devem escutá-lo.”

João 6:14, 15: “Quando o povo viu o sinal que ele [Jesus] realizou, começaram a dizer: ‘Este é realmente o Profeta que devia vir ao mundo.’ 15 Então Jesus, sabendo que estavam para vir pegá-lo a fim de fazê-lo rei, retirou-se novamente para o monte, sozinho.”

João 7:40: “Alguns da multidão que ouviram essas palavras começaram a dizer: ‘Este é realmente o Profeta.’

Atos 3:22: “Realmente Moisés disse: ‘Jeová, seu Deus, fará surgir para vocês, dentre os seus irmãos, um profeta semelhante a mim. Escutem tudo que ele lhes disser.’”

Era isso que a samaritana pensava naquele momento de Jesus? Ou entendia que ele era um profeta entre os tantos que já haviam existido? Bem, o que a levou a pensar que Jesus era profeta? O fato de ele revelar algo da vida dela que ela não havia dito. Observe o teor da conversa:

“Disse-lhe Jesus: Vai, chama o teu marido, e vem cá. A mulher respondeu, e disse: Não tenho marido. Disse-lhe Jesus: Disseste bem: Não tenho marido; porque tiveste cinco maridos, e o que agora tens não é teu marido; isto disseste com verdade. Disse-lhe a mulher: Senhor, vejo que és profeta.” – Almeida Corrigida e Revisada Fiel.

A informação que Jesus forneceu fornecia base para a samaritana acreditar que ele era um profeta, mas não seria o suficiente para convencê-la de que ele era O Profeta. Alguns entendiam naquele tempo que esse O Profeta era o próprio Cristo. Mas a samaritana, embora vislumbrasse a possibilidade de Jesus ser o Messias, ou Cristo, mostrou dúvidas sobre isso. Pois, posteriormente a essa conversa com Jesus, ela falou dele aos seus conterrâneos: “Venham ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Será que ele não é o Cristo?” – João 4:29.

Em razão de o contexto indicar que esse nominativo predicativo substantivo anartro que precede o verbo não é definido, diversas traduções utilizam em português o pronome indefinido “um” antes desse substantivo.

Outro exemplo – este sendo conclusivo – é o texto de João 6:70, onde lemos:

ἐξ  ὑμῶν   εἷς   διάβολός ἐστιν
ex hymõn heis diábolos  estin
de  vós     um    mentiroso   é

A palavra para “mentiroso” nesse texto é diábolos. Assim, há traduções que transliteram esse substantivo, vertendo assim o texto:

“Um de vós é diabo.” – Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.

Nessa passagem, no texto grego, a palavra diábolos é um predicativo nominativo substantivo anartro que precede o verbo [PNAPV].

Nessa frase, a palavra “um” é numeral. O sujeito da oração é “de vós um” ou “um de vós”, e o predicado é o substantivo anartro “diabo”. Se tal substantivo fosse definido, isso significaria que Jesus estava dizendo que Judas Iscariotes era O Diabo – o anjo que se tornou tal! Mas isso não poderia ser, uma vez que tanto Judas como tal anjo decaído existiam ao mesmo tempo como seres distintos. Tanto que a Bíblia diz que, num dado momento, “Satanás entrou nele [em Judas]”. (João 13:27) É óbvio que o substantivo anartro diábolos (“diabo”) em João 6:70 não é definido. Apenas destaca uma categoria de pessoas: os caluniadores, ou mentirosos, mas não identifica Judas como sendo O Diabo, ou Satanás.

Seguem abaixo outros exemplos de PNAPV:

Marcos 6:49; 11:32; João 8:44; 9:17; 10:1, 13, 33; 12:6.

Tradução do Novo Mundo Com Referências 1986, p. 1519.

Diante do exposto acima, podemos perguntar:

Afinal, o que a regra de Colwell prova? Qual a sua utilidade?

Isso será respondido no próximo artigo.

Notas:
[1] Artigo publicado no Journal of Biblical Literature (Jornal de Literatura Bíblica), intitulado: “Regra Definitiva Para o Uso do Artigo no Novo Testamento Grego”.
[2] Para entender sobre como se determina o Caso e a predicatividade numa frase, veja o vídeo Uma consideração sobre João 1:1: Quem é o Verbo realmente?” 


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org





Nenhum comentário:

Postar um comentário


Formulário de contato

Nome

E-mail *

Mensagem *