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quarta-feira, 13 de junho de 2018

Qual é a tradução correta de Apocalipse 12:17? (Parte 2)

Fonte: Contracapa do livro Cumprir-se-á, Então, o Mistério de Deus

O artigo inicial desta série abordou a expressão grega da parte final de Apocalipse 12:17: ἐχόντων τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ (ekhónton tèn martyrían Iesoû [“têm o testemunho de Jesus”]). Algumas traduções mantêm a tradução literal, sendo que outras destacam o papel do cristão no que diz respeito ao testemunho sobre Jesus, a exemplo da NM: “Têm a obra de dar testemunho de Jesus.”


A expressão τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ (tèn martyrían Iesoû [“o testemunho de Jesus”]) ocorre em Apocalipse 1:2, 9; 12:17; 19:10 e 20:4.


Esta série de artigos se propôs a analisar quatro elementos envolvendo a expressão grega τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ (tèn martyrían Iesoû [“o testemunho de Jesus”]): 1) o verbo “ter”; 2) o substantivo “testemunho”; 3) o nome próprio Jesus no genitivo; 4) o fato de a expressão estar no acusativo, e 5) o contexto no qual ocorre tal expressão.

Os dois primeiros elementos foram analisados no artigo anterior. (Queira ver.) Este artigo analisará o terceiro aspecto da expressão:

3. O genitivo do nome “Jesus”


Algo que não depende da gramática, e sim da semântica[1], é determinar se um genitivo é subjetivo ou se é objetivo. Isso foi explicado na série de artigos intitulados “Fé em Jesus” ou “fé de Jesus”?

Como o primeiro artigo da série supracitada mostrou,

O genitivo subjetivo privilegia o sujeito, aquele que produz a ação, ao passo que no genitivo objetivo a ênfase é no objeto, e o elemento no genitivo recebe a ação.

Assim, se Ἰησοῦ Χριστοῦ [de Jesus Cristo] for tido como um genitivo subjetivo, então a passagem refere-se a um atributo ou ação pessoal de Cristo: à fé produzida por Jesus, sua própria fé (ou a fidelidade de Cristo). Por outro lado, se a expressão for entendida como um genitivo objetivo, ela se refere à fé recebida por Jesus. 

O mesmo se dá com a expressão “testemunho de Jesus Cristo”. Pode significar o testemunho dado por Jesus (no caso de genitivo subjetivo), ou o testemunho dado a respeito de Jesus Cristo (genitivo objetivo).

O Léxico Grego de Thayer prefere o sentido objetivo do genitivo Iesoû em Apocalipse 12:17, 19:10 e 20:4, e o sentido subjetivo em Apocalipse 1:2, 9:

Com um genitivo do objeto ησο, Apocalipse 12:17 ; Apocalipse 19:10 ; Apocalipse 20:4 (χειν μαρτυρία [ter testemunho]) é manter o testemunho, perseverar firmemente em levá-lo, Apocalipse 6:9; Apocalipse 12:17; Apocalipse 19:10 (ver ἔχω, I. 1 d.); outros, no entanto, explicam para que o dever de testificar seja imposto a si mesmo); em outros lugares, o testemunho de Cristo é o que ele dá a respeito de coisas divinas, das quais somente ele tem conhecimento profundo, João 3:11, 32f; μαρτυρία ησο, aquele testemunho que ele deu sobre eventos futuros relacionados com a consumação do reino de Deus, Apocalipse 1:2 (cf. Apocalipse 22:16, 20); διά τήν μαρτυρίαν Ἰησοῦ Χριστοῦ, para receber este testemunho, Apocalipse 1:9.[2]




O livro The Testimony of the Exalted Jesus – The ‘Testimony of Jesus’ inthe Book of Revelation (“O Testemunho do Jesus Exaltado – O ‘Testemunho de Jesus’ no Livro do Apocalipse”, pp. 31-32) prefere o sentido subjetivo do genitivo Ἰησοῦ (Iesoû [“de Jesus”]) em Apocalipse 1:2:

Aqui, é claramente epexegético[3] o que João testificou: a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo. Em outras palavras, ‘a palavra de Deus e o testemunho de Jesus Cristo’ são duas maneiras de descrever a visão que João teve e depois escreveu para dar a conhecer às igrejas. I. A tradução de Boxall do v. 2 capta a mensagem claramente: João agora dá testemunho de todas as coisas que ele viu: a palavra de Deus, isto é, o testemunho que o próprio Jesus Cristo deu.

Embora a posição epexegética de hósa eìden [todas as coisas que viu] torne bastante certo que aqui ‘o testemunho de Jesus Cristo’ se refere à própria visão, há várias outras pistas neste sobrescrito que confirmam esta compreensão. A primeira é a relação entre a palavra de Deus e o testemunho de Jesus, que é mais naturalmente lido como um paralelo ou epexegético. Essa relação é esclarecida pelo versículo precedente, onde se afirma claramente que a visão é simultaneamente de Deus e de Jesus: uma revelação de Jesus Cristo que Deus lhe deu (v. 1). Aqui está Deus, com Cristo.

[…]

τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ Χριστοῦ é um testemunho de Jesus e deve ser entendido como outra maneira de descrever o que João viu e depois registrou. Dada a relação entre as duas frases, seria estranho que a primeira construção genitiva fosse subjetiva (isto é, referindo-se à ‘palavra de Deus’) e a segunda fosse objetiva (‘o testemunho sobre Jesus Cristo’).

‘’H  μαρτυρίαν Ἰησοῦestá ainda ligado à revelação pela sua específica aparência como o testemunho de Jesus Cristo. Considerando que ocorrências posteriores da frase leem ‘o testemunho de Jesus’, a adição de Khistoû aqui provavelmente serve para amarrá-lo à frase anterior ‘uma revelação de Jesus Cristo’. Vincular a frase ao título inicial dá mais apoio à compreensão do testemunho de Jesus Cristo como uma referência à visão em si, visto que άποκάλυψις Ἰησοῦ Χριστοῦ’ é provavelmente o apocalipse de [da parte de] Jesus Cristo. Embora a construção genitiva possa ser lida como ‘um apocalipse sobre Jesus Cristo’, é melhor entendida como ‘um apocalipse de [da parte de] Jesus Cristo’, dado que a frase que se segue (‘que Deus lhe deu para mostrar seus servos’) significa que deste ponto em diante, Cristo será aquele que dá a revelação de Deus. (Negrito acrescentado.)



The Testimony of the Exalted Jesus – The ‘Testimony of Jesus’ in the Book of Revelation


A obra Devotions on the Greek New Testament, Volume Two: 52 Reflections toInspire and Instruct (“Devoções sobre o Novo Testamento Grego, Volume Dois: 52 Reflexões para Inspirar e Instruir”) opta pelo genitivo objetivo em Apocalipse 19:10, aceitando também a possibilidade de um genitivo pleno (objetivo e subjetivo):

João e seus companheiros crentes são identificados como aqueles que sustentam o testemunho de Jesus (καὶ ἐχόντων τὴν μαρτυρίαν Ἰησοῦ), no qual é provavelmente um genitivo objetivo, porque o testemunho é algo que eles “têm” (ἐχόντων, isto é, “testemunho sobre Jesus”). Em outras partes, o povo de Deus tem ou mantém o testemunho sobre Jesus (6:9; 11:7; 12:11, 17; 17:6; 20:4; e João somente em 1:2, 9). Dito isto, a possibilidade de um genitivo pleno não pode ser descartada inteiramente – os vencedores têm ou mantêm o testemunho tanto por e sobre Jesus (cf. Rev [Apocalipse] 1:1: Ἀποκάλυψις Ἰησοῦ Χριστοῦ, “a revelação de/sobre Jesus Cristo”). (Negrito acrescentado.)

Esta obra traduz  γὰρ μαρτυρία Ἰησοῦ ἐστιν τὸ πνεῦμα τῆς προφητείας (he gàr martyría Iesoû estin tò pneûma tês profeteías [literalmente: “o pois testemunho de Jesus é o espírito da profecia”]) interpretando o genitivo Ἰησοῦ (Iesoû [“de Jesus”]) como sendo objetivo, vertendo por “pois o testemunho sobre Jesus é o mesmo que o falado pelo Espírito nesta profecia”. (Negrito acrescentado.)



Devotions on the Greek New Testament, Volume Two: 52 Reflections to Inspire and Instruct


O artigo seguinte dará consideração à questão da espécie de genitivo de Ἰησοῦ (Iesoû [“de Jesus”]) nos textos do Apocalipse em questão.


Notas:
[1] Ramo da linguística que estuda o significado das palavrasfrases e textos de uma língua.
[2] Disponível em: <http://biblehub.com/greek/3141.htm>.
[3] Epexegese: a adição de palavras para esclarecer o significado. Palavras adicionadas com o propósito de esclarecer o significado.


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.



Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org




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