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domingo, 16 de dezembro de 2018

Por que algumas Bíblias usam “deus” com inicial minúscula em João 1:1?


Fonte: Tradução do Arcebispo Newcome.


Os manuscritos mais antigos do Novo Testamento estão no estilo de escrita uncial, no qual as palavras são escritas em letras maiúsculas.

Souza (p. 101) comentou sobre isso:

Por volta do ano 400 d.C., Jerônimo traduziu a Bíblia (Velho e Novo Testamentos) para o latim e não teve problemas na tradução de João 1:1, visto que o latim não utilizava o artigo definido e muito menos o indefinido. Ele não deve ter tido também problemas em decidir quando usar Deus, ou deus, porque, na época, tanto o grego como o latim eram escritos utilizando-se apenas letras maiúsculas. (Negrito acrescentado.)[1]

Assim, nesses manuscritos João 1:1 encontra-se escrito com todas as letras em maiúsculo, conforme a foto abaixo.



A parte sublinhada reza: “E DEUS ERA O LÓGOS.” As traduções da Bíblia vertem essa parte final de maneiras bem diversificadas. Ao passo que muitas traduções vertem por “o Verbo [ou: a Palavra] era Deus”, outras optam por uma tradução diferente. Veja alguns exemplos:

“e a palavra era um deus.”The New Testament, in An Improved Version, Upon the Basis of Archbishop Newcome’s New Translation: With a Corrected Text. Londres. 1808.

 

“e um deus era a Palavra.” The Emphatic Diaglott, de Benjamin Wilson. Nova Iorque e Londres. 1864.



“e a Palavra era um deus.” La Sainte Bible, Segond-Oltramare, Genebra e Paris. 1879.

“e a Palavra era um ser divino.” La Bible du Centenaire, Société Biblique de Paris. 1928.

“e a Palavra era divina.”The Bible—An American Translation, de J. M. P. Smith e E. J. Goodspeed, Chicago. 1935.



“e a Palavra era um deus.” Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs, Brooklyn, Nova Iorque, em inglês. 1950.



“e um deus (ou: da espécie divina) era a Palavra.” Das Evangelium nach Johannes, de Siegfried Schulz, Göttingen, Alemanha. 1975.



“e um deus era o Lógos.”Das Evangelium nach Johannes, de Jürgen Becker, Würzburg, Alemanha. 1979.


Por que essa diferença na tradução da parte final de João 1:1?

Lendo o versículo inteiro podemos deduzir alguns dos motivos. Veja abaixo a tradução literal do texto grego:

NO PRINCÍPIO ERA O LÓGOS, E O LÓGOS ESTAVA COM O DEUS, E DEUS ERA O LÓGOS.

Observe que a palavra “DEUS” ocorre duas vezes. Primeiro, refere-se Àquele com quem estava o Lógos. Segundo, refere-se ao Lógos (o “Verbo” ou a “Palavra”; no caso, Jesus em sua existência pré-humana). Note, também, que o substantivo “DEUS”, quando aplicado Àquele com quem o Lógos estava, é precedido do artigo definido (“o”), ao passo que o substantivo “DEUS”, quando se refere ao Lógos, é anartro (não possui artigo).

Isto torna a primeira ocorrência da palavra “DEUS” um substantivo definido. Já no caso do substantivo “DEUS” com referência ao Lógos, somente o contexto pode determinar se é definido ou não. E o que podemos concluir do contexto?


Se a palavra “deus” [sem o artigo] fosse um substantivo definido, estaria implícito o artigo definido “o” antes de “deus”, dando o seguinte sentido: “O Deus era o Lógos [Verbo].”

No entanto, essa interpretação entraria em conflito com a frase anterior, que afirma literalmente:

  λγος ν πρς τν θεν
ho lógos ên pròs tòn theón
O lógos estava com o Deus

Visto que o Lógos (Verbo) estava com “O” Deus, ele não poderia ser “O” Deus com quem ele estava. Uma pessoa que está com alguém não é a mesma pessoa com quem ela está!

Inclusive, tal interpretação entraria em conflito com a própria doutrina da Trindade, a qual apregoa a separação de Pessoas. Ou seja, a Trindade não afirma que o Pai e o Filho são a mesma Pessoa, e sim que são duas pessoas distintas que formam (juntos com o “Espírito Santo”) um só Deus. Porém, entender que o Verbo é “O” Deus com quem ele estava seria afirmar que o Verbo é o Pai, algo que nem a Trindade nem a Bíblia afirmam.

Em razão disso, muitos tradutores entendem que o substantivo “DEUS” com relação ao Lógos não é um substantivo definido, podendo ser traduzido “um deus” nas línguas que possuem o artigo indefinido, ou simplesmente “deus”, tendo função adjetiva, indicando a qualidade ou natureza do Lógos (ele é divino, tem qualidade divina) e não identificando a sua pessoa.

Como bem coloca Souza:

Outra maneira de interpretar-se a ausência do artigo em theos (θες) é considerando-o como um predicativo substantivo com uma função adjetiva. Neste caso, theos (θες) não seria um substantivo determinativo, mas uma qualidade atribuída à Palavra (ho logos -  λγος), além do que existe uma tendência entre os gramáticos em aceitar predicativos adjetivos como anartros [sem artigo]. – P. 103.

Inclusive, a primeira Bíblia de que se tem registro que traduziu João 1:1 por “o Verbo era um deus” é a versão Copta, produzida por volta do ano 200 da Era Cristã.





Conforme explica Souza (p. 102), o uso de iniciais maiúsculas e de artigo indefinido (“um”) na tradução da Bíblia é um critério do entendimento do tradutor, e não fere nenhuma regra gramatical grega. Observe suas palavras sobre isso:

[…] a inserção ou eliminação de artigos, tanto definidos como indefinidos, ou algumas palavras serem iniciadas com maiúsculas e outras não, nem sempre são uma imposição da língua para a qual é feita a tradução, mas uma adaptação ao conhecimento de mundo existente no ambiente cognitivo do tradutor. (Negrito acrescentado.)[2]

Com relação à regra de Colwell, de 1933, citada por alguns como suposto indicativo de que o substantivo “DEUS” aplicado ao Lógos é definido, Souza explica:

Independente da validade ou não da regra, ela nada adiciona sobre se o predicativo é definido ou não. O que ela afirma é que se o predicativo for definido, dispensará o artigo. Cabe ao leitor identificar, ou assumir, se se trata de um predicativo definido ou não. – P. 103.

Richard A. Young, apesar de adotar a tradução “a Palavra era Deus”, honestamente reconhece esta limitação da regra de Colwell, ao afirmar:

O problema ao aplicar-se a regra de Colwell está em determinar quando o predicativo nominativo é definido. A regra, por ela mesma, não estabelece que um substantivo é definido, uma observação algumas vezes ignorada quando aplicada a João 1:1. (1994, p. 65)[3]

Na mesma senda, Jason David BeDuhn acrescenta:

A “regra” nada faz para auxiliar na determinação de se um substantivo é, ou não é, definido. Mesmo se a “regra de Colwell” fosse verdadeira, ela no melhor dos casos permite admitir a possibilidade de que um predicativo nominativo sem o artigo, anterior ao verbo, seja definido. Ela não consegue provar que a palavra é definida. Mas visto que a regra não fornece meios de distinguir entre um predicativo nominativo definido ou indefinido anteposto ao verbo, muitos erros têm sido cometidos ao assumir-se todos os predicativos nominativos pré-verbos como definidos. (2003, p. 63.)

Para um entendimento da regra de Colwell e de suas implicações, veja os artigos:


Portanto, é perfeitamente cabível em sentido gramatical e contextual que a parte final de João 1:1 seja traduzida “o Lógos [a Palavra, ou o Verbo] era um deus” ou “era deus”.


Notas:

[1] SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA.  Veja também o artigo Por que a Tradução do Novo Mundo coloca espírito santo com iniciais minúsculas?  
[2] Ibidem p. 102.
[3] Apud Souza, p. 103.


REFERÊNCIAS

BeDUHN, Jason David. Truth in translation: accuracy and bias in English translations of the New Testament. Lanham: University Press of America, 2003.

SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA. Disponível em:< http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Linguagem_Discurso/article/view/281/295>.

YOUNG, Richard A. Intermediate New Testament Greek: a linguistic and exegetical approach. Nashville: Broadman & Homan, 1994.




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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Por que a Tradução do Novo Mundo coloca espírito santo com iniciais minúsculas?




Um leitor escreveu:

Prezados amigos, eu vejo muitos ataques contra a Tradução do Novo Mundo porque ela usa letras minúsculas em algumas passagens do Novo Testamento. Mas em hebraico, aramaico e grego não tem letras maiúsculas ou minúsculas, nem acento e nem capítulos e versículos.

Resposta:

Em primeiro lugar, é importante destacar que o uso de inicial maiúscula não determina forçosa e estritamente a pessoalidade. Pode ser usado para coisas impessoais, desde que se trate de um nome ou de um título. Exemplo disso temos com referência às constelações alistadas em Jó 9:9:

“O que fez a Ursa, o Órion, e o Sete-estrelo [“Plêiades”, ARIB, SBB, NVI], as recâmaras [“constelações”, NVI] do sul.” – ACF.

Dentro deste viés, a expressão grega pneúma hágios poderia ser traduzida por “Espírito Santo” (com iniciais maiúsculas), e mesmo assim isso não indicaria forçosamente a suposta pessoalidade dele. Porém, isso esbarraria gramaticalmente em outro aspecto: pneúma hágios teria que ser um título. Contudo, essa possibilidade não parece ter sustentação. Pneúma hágios parece mais um termo descritivo da energia procedente de Deus e não um título. Por estas razões, a Tradução do Novo Mundo traduz pneúma hágios como “espírito santo” (com iniciais minúsculas).

Mesmo que seja encarado como um título, e por este motivo seja traduzido como “Espírito Santo” (com iniciais maiúsculas), isso não implicaria forçosamente em pessoalidade. Isso é comprovado pelo título dado a Jerusalém em Isaías 1:26:

“Então Jerusalém será chamada de ‘Cidade da Justiça’ e ‘Cidade Fiel’.” – NTLH; veja também NAA e TB.

As expressões atribuídas a Jerusalém, se encaradas como títulos e não mera descrição, são corretamente expressas nas traduções com iniciais maiúsculas. Mas isso não faz de Jerusalém uma pessoa, visto tratar-se de uma cidade.

Porém, os trinitaristas traduzem pneúma hágios com iniciais maiúsculas não por apenas entenderem tratar-se de um título, ou nome, mas por encararem pneúma hágios como sendo uma Pessoa divina – a suposta Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Contudo, um estudo tanto do texto grego como um exame semântico da expressão pneúma hágios mostra que a expressão “espírito santo” com iniciais minúsculas é tanto textual, gramatical como biblicamente correta.

O uso de maiúsculas e minúsculas no texto grego do Novo Testamento

Com relação aos tipos de escrita usados no texto grego do Novo Testamento, a obra “Critica textual do Novo Testamento” (pp. 31-32) afirma:

Os mais antigos mss. [manuscritos] do NT estão escritos na forma de escrita usualmente empregada nos documentos mais literários: a escrita uncial, também chamada maiúscula. Nas inscrições oficiais, essas letras eram grandes e regulares, destacadas umas das outras. Nos mss., diferem das unciais das inscrições basicamente pela forma mais arredondada de certas letras e por haverem sido escritas mais rapidamente; contudo, também não são ligadas umas às outras, não há espaço entre as palavras, não há pontuação, e as abreviações limitam-se a um setor bem definido de palavras. A forma da escrita e bela é de fácil leitura, mas exige tempo e espaço. Havia também outro tipo de escrita, caracterizada por letras menores geralmente ligadas umas às outras e por isso chamada cursiva, onde ocorriam ainda muitas contrações e abreviações. Era usada apenas em escritos corriqueiros, como cartas de família, recibos, contratos, testamentos e outros. Como não dispomos, porém, de nenhum dos autógrafos [escritos originais] do NT [Novo Testamento], apenas podemos supor, com base nos usos da época e nas cópias mais antigas que sobreviveram, que eles foram escritos em escrita uncial. O. Roller destaca ainda que, por ser um tanto áspero, o papiro dificultava o emprego da cursiva, em que várias letras eram traçadas sem que a pena fosse erguida. – Negrito acrescentado.


  
Ainda com relação à forma de escrita usada no texto grego do Novo Testamento, lemos na obra Estudo Perspicaz das Escrituras:

O estilo mais antigo (empregado especialmente até o nono século EC) é o manuscrito uncial, escrito em grandes letras maiúsculas, separadas. Nele não costuma haver separação de palavras, e faltam pontuação e acentos. O Códice Sinaítico é tal manuscrito uncial. Mudanças no estilo de escrita começaram a surgir no sexto século, o que eventualmente levou (no nono século EC) ao manuscrito cursivo, ou em minúsculas, escrito em letras menores, muitas delas emendadas num estilo de escrita corrente ou fluente. A maioria dos manuscritos existentes das Escrituras Gregas Cristãs têm escrita cursiva. Os manuscritos cursivos [letras pequenas] permaneceram em voga até a invenção da imprensa. – Volume 2, p. 756, verbete “Manuscritos da Bíblia”; negrito acrescentado.




Assim, o texto do Novo Testamento grego foi escrito primariamente com as letras em maiúsculo (unciais), e posteriormente com as letras em minúsculo (estilo cursivo).

Manuscrito uncial. Códice Sinaítico. Lucas 11:2.


Com relação à quantidade de manuscritos unciais e cursivos existentes, a obra “Toda a Escritura é Inspirada por Deus e Proveitosa” comenta:

The New Bible Dictionary (O Novo Dicionário da Bíblia) fala de 274 manuscritos unciais das Escrituras Gregas Cristãs, e esses datam do quarto ao décimo século EC. Daí, existem mais de 5.000 manuscritos cursivos, ou minúsculos, feitos num estilo contínuo de escrita. – “Estudo número 6 — O texto grego cristão das Escrituras Sagradas”, p. 317, parágrafo 16; negrito acrescentado.


Em sua monografia de Doutorado em Letras/Linguística, Marcos Souza afirma:

Na época em que os originais foram escritos e conforme atestado pelos manuscritos existentes, não havia tal diferenciação [em inicial maiúscula ou minúscula] na língua grega escrita. Os textos gregos eram escritos utilizando-se somente maiúsculas (chamada de escrita uncial) e sem separação entre as palavras. Somente alguns séculos mais tarde introduziram-se as minúsculas, a separação entre palavras e a prática de iniciar algumas palavras por letra maiúscula. A rigor, a introdução de maiúsculas na tradução interlinear corresponde a uma determinação a priori de interpretação do tradutor, em detrimento da integridade do original que não apresenta tal diferenciação.[1] – Negrito acrescentado.

Como explicou acima o autor, o uso de iniciais maiúsculas é questão de “interpretação do tradutor”. Assim, não há obrigatoriedade textual para que os tradutores do Novo Testamento grego vertam pneúma hágios com iniciais maiúsculas.

O espírito santo

Quanto ao uso de substantivos com iniciais maiúsculas, veja o que diz a revista A Sentinela de 1.º de novembro de 1974:

[…] cabe ao tradutor decidir que uso fará delas. Assim, os que creem que o espírito santo seja a terceira pessoa duma Trindade naturalmente darão iniciais maiúsculas a “Espírito Santo”, como em Atos 1:8, que reza ([Tradução] Brasileira): “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo.” Mas o que lemos no próprio relato sobre o cumprimento das palavras de Jesus? “Acontecerá nos últimos dias . . . que derramarei do meu espírito sobre toda a carne.” (Atos 2:17, [Tradução] Brasileira) Onde está a inicial maiúscula? Não é usada! Por que não? Porque Deus não pode derramar uma parte dum Deus coigual; “espírito”, conforme usado aqui, claramente não se pode referir a uma pessoa. Visto que este texto se relaciona com o que Jesus predisse em Atos 1:8, deve seguir-se que ele não falava duma pessoa quando disse que seus apóstolos receberiam espírito santo, e, assim, em Atos 1:8, tampouco se deviam usar maiúsculas iniciais.

Tudo isso está em harmonia com as palavras de João Batista, de que, ao passo que ele batizava com água, o Vindouro ‘batizaria com espírito santo’. (Mar. 1:8) Não se pode batizar com outra pessoa, mas pode-se batizar outros com água ou com uma força ativa, aquilo que o espírito santo de Deus é. Sim, os tradutores precisam deixar que o restante da Palavra de Deus os dirija quando há uma escolha entre traduções. – P. 667.

Percebe-se, portanto, que os tradutores trinitários usam “Espírito Santo” com iniciais maiúsculas a fim de promover sua doutrina trinitária, mas contraditoriamente colocam “espírito” como inicial minúscula, mesmo se a referência for ao espírito santo, quando o texto bíblico torna claro que o espírito santo é uma energia em operação.

O artigo “Falsa Exegese na interpretação do ‘Espírito Santo’” explica o uso que a Tradução do Novo Mundo faz de iniciais minúsculas para o “espírito santo”:

Por entenderem que o tal “Espírito” é uma força, ou energia impessoal, os [que defendem a impessoalidade] do “Espírito Santo” usam tal expressão com iniciais minúsculas: “espírito santo”.

Um dos textos usados para embasar a impessoalidade do espírito santo é 2 Coríntios 3:17, que usa a expressão “Espírito do Senhor” (Al, ACRF, ARA, IBB). Sobre essa expressão, o artigo acima explicou:

Uma vez que este … espírito é do Senhor – ou seja, a ele pertence; é sua propriedade – tal “Espírito” (ainda que colocado com inicial maiúscula) não pode ser o próprio Senhor (Deus). Atos 2:17 declara: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor [“Deus”; Al, ACRF], que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne.” (ALA, IBB) Uma vez que Deus diz “do MEU Espírito”, ele está se referindo a algo dele, que lhe pertence, mas não a ele próprio, pois ele não disse: ‘derramarei a mim mesmo’. Pelo visto, por essa razão, há traduções que colocam “espírito” com inicial minúscula nesse texto. (The New American Bible; Sociedade Bíblica Britânica) Trata-se cristalinamente da energia que dele emana, Seu espírito santo ou força ativa.

Como mostrou o artigo Mateus 28:19 apoia a Trindade?”, falta ao espírito santo a identificação como pessoa. O supracitado artigo comentou:

Pois, na questão de nome pessoal, o Pai tem essa identificação: seu nome é Jeová. (Salmo 83:18) O Filho também tem tal identificação: seu nome é Jesus Cristo. (Mateus 1:1) No entanto, o espírito santo não tem nome pessoal na Bíblia. “Espírito santo” não é nome pessoal; é um termo descritivo. Deus, o Pai, é Espírito, e é santo. (João 4:24; 17:11) Portanto, ele é um espírito santo pessoal. Jesus, o Filho, também é espírito, e é santo. (1 Pedro 3:18; João 6:69) Os anjos de Deus são todos espíritos, e são santos. (Hebreus 1:7; Marcos 8:38) Assim, todos esses são espíritos santos pessoais. Para que o “espírito santo” seja uma pessoa, ele teria de ter um nome pessoal para distingui-lo dos demais espíritos santos pessoais que existem. Mas, falta-lhe tal identificação como pessoa. Uma vez que, na Bíblia, a palavra “espírito” é polissêmica, isto é, tem vários significados (dos seis significados, cinco se referem a coisas impessoais), tal ausência de identidade pessoal coloca o espírito santo coerentemente como algo impessoal, que outras passagens tornam claro ser a força procedente de Deus, que Ele usa para realizar Sua vontade. – Negrito acrescentado.

Por todos os motivos acima, a tradução de pneúma hágios como “espírito santo” (com iniciais minúsculas) tem total embasamento textual, gramatical e bíblico.


Explicação das siglas usadas:

Al: Almeida Revista e Corrigida.
ACF, ACRF: Almeida Corrigida Fiel.
ALA: Almeida Atualizada.
ARIB: Almeida Revisada Imprensa Bíblica.
IBB: Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
NAA: Nova Almeida Atualizada.
NVI: Nova Versão Internacional.
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
SBB: Sociedade Bíblia Britânica.
TB: Tradução Brasileira.


Nota:
[1] SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA. 


Referências:
Paroschi, Wilson. Critica textual do Novo Testamento. — São Paulo: Vida Nova, 1993.
SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


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domingo, 9 de dezembro de 2018

Jó 12:10 indica que alma e espírito significam a mesma coisa?

Fonte: jw.org


Um leitor escreveu:

Olá, Incansável Apologista da Verdade!
Fiquei muito intrigado com o texto bíblico de Jó 12:10 que, na Tradução do Novo Mundo Com Referências, declara: “Tendo ele na mão a alma de todo o vivente e o espírito de toda a carne de homem.”
Visto que as Testemunhas de Jeová entendem que alma e espírito não são a mesma coisa, não estaria essa passagem, que contém um paralelismo poético, indicando uma equivalência entre esses termos?
Desde já, agradeço o espaço que você dá para compartilharmos nossas ideias.

Resposta:

Na Bíblia, nem todo paralelismo expressa equivalência. Vejamos exemplos que comprovam isso.

Lemos em Isaías 1:26: “E vou novamente trazer de volta juízes para ti, como no princípio, e conselheiros para ti, como no início. Depois serás chamada Cidade de Justiça, Vila Fiel.”

Juízes e conselheiros não são, estritamente, termos equivalentes. Aconselhar e julgar são atos que se complementam, mas não significam a mesma coisa. Ademais, “cidade” e “vila” também não são sinônimos.

Também lemos em Jeremias 49:25: “Como é que não foi abandonada a cidade de louvor, a vila de exultação?”

Sobre a relação entre cidade e vila, lemos na obra Estudo Perspicaz das Escrituras, (volume 1, p. 502, verbete “Cidade”):

Cidade. Área compacta, povoada, maior em tamanho, população ou importância que uma vila ou aldeia. A palavra hebraica ʽir, traduzida “cidade”, ocorre quase 1.100 vezes nas Escrituras. Às vezes se usa a palavra qir·yáh (vila) como sinônimo ou num paralelismo — por exemplo: “Depois serás chamada Cidade [ʽir] de Justiça, Vila [qir·yáh] Fiel”, ou: “Como é que não foi abandonada a cidade [ʽir] de louvor, a vila [qir·yáth] de exultação?” — Is 1:26; Je 49:25. (Negrito acrescentado.)[1]

Outro exemplo de não equivalência em paralelismo poético é encontrado em Provérbios 25:13, onde lemos: “Como a neve refrescante no dia da colheita é o mensageiro fiel para os que o enviam, pois ele reanima o seu senhor.” Neve e mensageiro não são a mesma coisa. A semelhança está no efeito que ambos produzem: ambos restituem o vigor e as forças.

No Salmo 105:15 encontramos o paralelismo entre “ungidos” e “profetas”. Tal texto afirma: “Não toqueis nos meus ungidos e não façais nada de mal aos meus profetas.” Tais termos não são sinônimos; não significam a mesma coisa. Nem todos os referidos como ungidos na Bíblia foram referidos como profetas. E nem todos os mencionados como profetas foram ungidos. Por exemplo, em Gênesis 20:7 Abraão é referido por Deus como “profeta”, mas não há nenhum registro bíblico de que ele tenha sido ungido com óleo. Mesmo o termo “ungido”, no seu sentido ampliado de alguém designado por Deus, não é sinônimo ou equivalente de “profeta”.

Vejamos agora o texto de Amós 7:9, 16:

“E os altos de Isaque hão de ser desolados e os próprios santuários de Israel serão devastados; e levantar-me-ei contra a casa de Jeroboão com uma espada. E agora ouve a palavra de Jeová: ‘Estás dizendo: “Não deves profetizar contra Israel e não deves soltar nenhuma [palavra] contra a casa de Isaque”?’”

“Altos” e “santuários” possuem boa relação de semelhança entre si, mas não são equivalentes. Também não são equivalentes os nomes “Isaque” e “Israel”, ou seja, não se referem à mesma pessoa. Isaque não era Israel, mas foi antepassado (pai) de Jacó, que recebeu o nome de Israel.

O fato é que existem vários tipos de paralelismo poético, conforme explicado na obra Estudo Perspicaz das Escrituras (volume 2, pp. 300-301, verbete “Hebraico”).

Existe o paralelismo sinônimo, conforme vemos no Salmo 24:1: “A Jeová pertence a terra e o que a enche, o solo produtivo e os que moram nele.” Como explica a obra acima, “os termos ‘a terra’ e ‘o solo produtivo’ são sinônimos poéticos, como também o são ‘o que a enche’ e ‘os que moram nela’”.

Mas há paralelismos poéticos que expressam ideias contrárias, a exemplo do Salmo 37:9, onde lemos: “Pois os próprios malfeitores serão decepados, mas os que esperam em Jeová são os que possuirão a terra.” Este é um caso de paralelismo antitético, no qual incide uma antítese – ideias opostas.

No paralelismo sintético (também chamado formal e construtivo), a segunda parte não apresenta o mesmo pensamento da primeira, nem formula um contraste, mas produz uma ampliação da primeira parte e acrescenta a ela uma nova ideia.  Vemos um exemplo desse tipo de paralelismo no Salmo 19:7-9, que reza:

“A lei de Jeová é perfeita, fazendo retornar a alma. A advertência de Jeová é fidedigna, tornando sábio o inexperiente. As ordens de Jeová são retas, fazendo o coração alegrar-se; o mandamento de Jeová é limpo, fazendo os olhos brilhar. O temor de Jeová é puro, permanecendo de pé para todo o sempre. As decisões judiciais de Jeová são verdadeiras; mostraram-se inteiramente justas.”

Os substantivos “lei”, “advertência”, “ordens”, “mandamento”, “temor” e “decisões judiciais” possuem relação de semelhança entre si, mas definitivamente não são termos equivalentes. Na realidade, uma nova ideia, que tem certa ligação com a primeira, é construída em sequência.

Este último tipo de paralelismo poético parece ser o caso do texto citado pelo leitor – o texto de Jó 12:10.

Lemos em Jó 12:9, 10: “Qual entre todos estes não sabe muito bem que a própria mão de Jeová fez isso, tendo ele na mão a alma de todo o vivente e o espírito de toda a carne de homem?”

A Bíblia mostra que alma e espírito não significam a mesma coisa. Prova disso é o que lemos em Hebreus 4:12: “Porque a palavra de Deus é viva e exerce poder, e é mais afiada do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma e do espírito, e das juntas e da sua medula, e é capaz de discernir os pensamentos e as intenções do coração.”

Juntas e medula não são a mesma coisa, tampouco pensamentos e intenções do coração o são. Mas há uma relação entre tais coisas. Do mesmo modo, alma e espírito não significam a mesma coisa, mas há uma relação entre eles: a alma (o ser vivo) precisa de espírito (força de vida) para viver. Sobre a destruição causada pelo Dilúvio, lemos o seguinte: “Tudo o que tinha fôlego do espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia na terra seca, morreu.” – Almeida Atualizada.


Nota: 
[1] Produzida pelas Testemunhas de Jeová. 



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