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terça-feira, 21 de abril de 2020

Por que a Vulgata usa a palavra “chifres” com relação a Moisés? – Parte 3 (Final)



Os dois artigos anteriores reuniram prova linguística e contextual de que a tradução latina conhecida como Vulgata verteu de forma incorreta a passagem de Êxodo 34:29-35, ao traduzir de forma a afirmar que Moisés tinha “chifres” quando desceu do monte Sinai. Para ler os artigos anteriores desta série clique nos temas abaixo:



Este artigo examinará mais a fundo o motivo de Jerônimo ter traduzido esse texto de tal forma. E, por último, examinará os argumentos usados pelos que pretender defender a Vulgata nesta forma de traduzir.

Origem da ideia de chifres

Willibaldo Ruppenthal Neto[1], graduado em História pela Universidade Federal do Paraná e Bacharel em Teologia pelas Faculdades Batista do Paraná, Brasil, em sua dissertação de Mestrado do Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), traz à tona uma possível explicação do porquê Jerônimo teria traduzido qarán por “chifres”. Observe o que Willibaldo escreveu sobre o que ocorreu antes do tempo de Jerônimo:

… algumas interpretações posteriores, tanto de vertentes judaicas rabínicas como outras helenísticas, perceberam nestes textos (principalmente Exodo 7:1) uma afirmação da divinização de Moises. […] Mas, como estas interpretações foram tão longe? Como chegaram a uma interpretação desse texto tão literal? A explicação para tais afirmações é a conexão destes textos com outro, muito mais problemático, de Êxodo 34.29-30. – Negrito acrescentado.

Willibaldo comenta que “a interpretação de Moisés portando chifres é ‘compartilhada por uma corrente dentro da tradição judaica’”. O autor da referida dissertação afirma sobre isso:

Nesta tradição judaica, portanto, de modo muito diferente da perspectiva cristã tradicional, os chifres possuem um caráter bastante positivo, elevando Moisés, de modo quase literal – afinal, trata-se de uma tradição judaica a respeito da subida de Moisés até o céu, primeiramente indicada por Rimon Kasher. – Negrito acrescentado.

Mas, qual é a origem dessa tradição judaica dos “chifres” de Moisés? O então mestrando disserta:

[...] seguindo a indicação de Hugo Gressmann, muitos estudiosos31 entenderam que Moisés teria uma máscara ritual, muito semelhante às máscaras das religiões primitivas. Se tais autores estiverem corretos, é bem possível (e até provável) de se pensar esta máscara tendo chifres.

[…]

Nesta perspectiva, a aparição dos chifres (Êx 34.29-30) enquanto máscara teria relação com o “véu” o qual Moisés passou a usar após o ocorrido, segundo Êxodo 34.33-35. – Negrito acrescentado.

Tendo em vista tal possível contexto histórico, Jerônimo não apenas teria feito um erro linguístico (ao trocar equivocadamente qaran por qeren), como também teria supostamente sido influenciado por uma tradição judaica não bíblica. Sobre isso, afirma a retrocitada dissertação:

A ideia de que haveria uma referência a chifres brotando da cabeça de Moisés foi seguida por Jerônimo, que traduziu o termo valendo-se da palavra latina “cornuta10, o que deixou a interpretação bastante conhecida no mundo latino. Acontece, porém, que devido à percepção de algumas divindades pagãs cornudas como demônios, principalmente durante o cristianismo primitivo (especialmente o deus Pã)11, além de uma tradição de conexão entre Satanás e o bode, que remonta ao texto de Levítico 1612, pode-se dizer que ter chifres não é considerado algo bom para os cristãos. Não foi à toa, portanto, que a tradução de Jerônimo serviu como fonte de inspiração para representações de caráter antissemítico ao longo da história. – Negrito acrescentado.

Conforme mostrou o autor acima, a tradução de Jerônimo no tocante ao relato de Êxodo 34:29-35, além de relacionar Moisés com divindades pagãs, também estimulou a ação do antissemitismo, que é o preconceito contra qualquer pessoa de origem semita (árabes, assírios, judeus etc.), mas principalmente cometido contra os judeus, em sentido étnico, religioso ou cultural.

As objeções à tradução de qaran por “resplandecer”

O leitor que trouxe a questão examinada nesta série de artigos comentou que algumas pessoas objetam à tradução de quaran por “resplandecer”, “brilhar”, “reluzir” etc., afirmando que “não há outro texto na Bíblia em que a palavra Qarán signifique ‘raios’ ou ‘esplendor’”.

Primeiro, não há necessidade de haver outros usos de uma palavra para determinar seu sentido em uma passagem bíblica. Isto porque há palavras que ocorrem na Bíblia apenas uma vez. E mesmo assim, via de regra, é possível entender o sentido dela por meio do contexto. Assim, é o contexto que deve determinar o sentido de uma palavra.

Além disso, o referido leitor mencionou que os que objetam ao sentido de qaran como “brilhar” mencionam que, se Êxodo 34 tivesse o sentido de “brilhar”, a palavra usada seria chashmal. Contudo, esse vocábulo também ocorre somente em Ezequiel 1:4, 27; 8:2.  De acordo com Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong esse vocábulo (de referência 2830) é um substantivo masculino “de derivação incerta”; refere-se a uma substância brilhante, âmbar ou electro ou bronze (incerto)”. Não temos outra passagem bíblica para determinar o seu sentido; apenas o contexto. Isto argumenta contra a afirmação anterior dos perpetradores da tradução que usa “chifres” para Moisés. Assim como se afirmou que “não há outro texto na Bíblia em que a palavra Qarán signifique ‘raios’ ou ‘esplendor’”, de modo semelhante não há outro texto na Bíblia que usa chashmal. Porém, assim como no caso de qaran, o contexto nos ajuda a determinar o sentido de chashmal no livro de Ezequiel.

Outra objeção foi a de que “essas explicações [de qaran como “reluzir”, “resplandecer”] não suportam nenhuma análise linguística. Se o autor realmente quisesse falar sobre luz ou esplendor, ele teria usado a palavra Or (אור), ‘luz’ (Gên. 1:3) ou a palavra Jashmál (חשמל) ‘esplendor’ (Ezeq. 1:4). Este não é o caso”. Sem querer ofender, mas o fato é que essa objeção chega a ser infantil. Pois uma palavra pode ter vários sentidos, sem ser necessário usar uma palavra especifica para cada sentido.

Tendo presente que a Septuaginta usou o verbo doxázo, podemos exemplificar com a substantivo δόξα (dóxa), que pode significar “glória” no sentido físico, com a ideia de “brilho, radiância, esplendor” (Lucas 9:31; Atos 22:11; 1 Coríntios 15:40), como também “glória” num sentido figurado, de “fama, honra, prestígio”. – João 5:41, 44; 8:54; 12:43; Romanos 3:23; 1 Tessalonicenses 2:6, 20.

E no caso do vocábulo chashmal, o contexto indica que chashmal não se refere primariamente ao brilho, e sim a um possível metal que, por consequência, possui brilho. Por outro lado, o rosto de Moisés não se tornou de metal reluzente. Logo, não pareceria mesmo apropriado o escritor de Êxodo ter usado chashmal para descrever a luminosidade do rosto de Moisés.

Conclusão

As evidências tanto linguísticas quanto contextuais indicam que a tradução correta de Êxodo 34:29-35 é a que indica que o rosto de Moisés estava reluzindo, emitindo raios de luz, por ocasião de quando ele desceu do monte Sinai com as tábuas de pedra do Testemunho.


Nota:

[1] NETO, Willibaldo Ruppenthal. Os chifres de Moisés: um estudo sobre Êxodo 34.29-30. Disponível em: <http://revista.fuv.edu.br/index.php/reflexus/article/viewFile/441/417>.


Referências:

Atos 22. Bíblia Online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/atos/22>.

 

Bible Lexicons. Old Testament Hebrew Lexical Dictionary. Disponível em: <https://www.studylight.org/lexicons/hebrew/7160.html>.


Bíblia Comentada. Disponível em: <https://bibliacomentada.com.br/biblia/exodo-capitulo-34-versiculo-29-comentado-por-versiculo.html>.

Bíblia em Hebraico Transliterado. Disponível em: <http://www.hebraico.pro.br/r/biblia/>.

Chifre (buzina). Estudo Perspicaz das Escrituras. Volume 1, p. 496. ASSOCIAÇÃO TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS. Rodovia SP-141, km 43 Cesário Lange, SP 18285-901, Brasil.

2830. chashmal. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/hebrew/2830.htm>.

2768. keras. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/greek/2768.htm>.

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______. Bíblia Mensagem de Deus. Disponível em: <https://books.google.com.br/>.

Êxodo 34. Douay-Rheims. Bíblia Online. Disponível em: < Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/dour/ex/34>.

______. Septuaginta. Disponível em: <https://www.academic-bible.com/>.

Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. © 2002. Sociedade Bíblica do Brasil. SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL. Av. Ceci, 706 – Tamboré. Barueri, SP – CEP 06460-120. Cx. Postal 330 – CEP 06453-970.

Liber Exodus, 34. Bíblia Católica Online. Disponível em: <https://www.bibliacatolica.com.br/vulgata-latina/liber-exodus/34/#.VHMr-NLF_kU]>.

1391. doxa. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/greek/1391.htm>.

Moisés tinha chifres?????? Flecha Polida. 6 de jun. de 2018. - Teologia. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NZeYf4R-yzk>.

O que é antissemitismo? Brasil Escola. Disponível em: <https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-antissemitismo.htm>.


2 Coríntios 3:10. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/text/2_corinthians/3-10.htm 3799. opsis. Bible Hub. https://biblehub.com/greek/3799.htm>.

2 Coríntios 3:7. The Online Greek Bible. Disponível em: <http://www.greekbible.com/index.php>.

7160. qaran. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/hebrew/7160.htm>.

______. Lexicon Strong's. Disponível em: <https://www.blueletterbible.org/lang/lexicon/lexicon.cfm?t=asv&strongs=h7160>.

The Latin Vulgate Old Testament Bible. Disponível em: <http://vulgate.org/ot/exodus_34.htm>.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


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