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domingo, 29 de maio de 2022

Comentários adicionais sobre o artigo “Qual a diferença entre apostasia, heresia e cisma?” (Parte 2)

Fonte: jw.org

Contribuído.

Este artigo é uma sequência para meu artigo primário intitulado: “Qual a diferença entre Apostasia, Heresia e Cisma?”

Eu recebi uma análise do meu artigo onde o leitor, embora tenha concordado comigo em alguns pontos, discordou em outros. Portanto, eu não citarei a “análise” na íntegra, apenas os pontos relevantes de discórdia para que eu possa analisá-los e mostrar por que creio que houve interpretação imprecisa do meu artigo. Doravante, referir-me-ei ao autor da análise sobre o meu artigo como “o leitor”.

Começo por agradecer ao leitor por ter lido na íntegra o artigo e por analisá-lo, embora, creio eu, a análise tenha sido imprecisa e contenha pontos errados. Eu farei citações da análise do leitor em itálico, e por vezes colocarei comentários breves entre colchetes [em azul] para minhas objeções imediatas, a fim de haver mais clareza nos discursos. O leitor disse:

“Comecemos com algumas definições de termos, para fins de clareza.

‘Apostasia’ significa basica e literalmente "afastamento". [Sim, eu disse isso no meu artigo. O termo mais preciso, porém, é “abandono”, não “afastamento”. Veja a TNM 2015 onde a palavra é parafraseada como “abandonar”; Atos 21:21.] Se aquilo de que se afasta é algo ruim, então tal ‘apostasia’ é boa. [Carece de base bíblica.] Mas se aquilo de que se afasta é algo bom, como o puro cristianismo, então tal ‘apostasia’ é má. Doravante, quando falarmos em ‘apostasia’, entenda-se ‘apostasia da verdade’, ‘apostasia do verdadeiro cristianismo’. Promover apostasia (i.e, defender ideias apóstatas) não equivale a ser um apóstata. Para alguém ser um apóstata é necessário que antes tenha sido um cristão verdadeiro. [Não há base neotestamentária para esta definição. A apostasia é apresentada no NT como uma atitude, não como um ensino. Do ponto de vista denominacional, conforme expliquei no meu artigo, “um apóstata” é aquele que abandona sua religião e parte para outra ideologia. Ele é considerado apóstata para sua religião anterior.] Alguém que nunca foi um genuíno servo de Jeová não pode ser um apóstata da verdade, mas pode ser um promotor de apostasia, [carece de base neotestamentária] isto é, defender ideias com potencial de afastar genuínos cristãos da verdade. Doravante, quando mencionarmos um ‘apóstata’, entenda-se ‘apóstata ou promotor de apostasia’. [Não há referência neotestamentária para esta definição.]

Quase todos os pontos apresentados acima pelo leitor não são definições neotestamentárias, mas pessoais, com exceção da primeira frase. Portanto, visto que todo o discurso dele está embasado nestas definições pessoais, tudo que ele dirá a partir de agora é subjetivo, pessoal; contudo, o meu artigo não é opinativo, mas analítico. Portanto, aqui eu já poderia encerrar o assunto. Na verdade, a última declaração do leitor (que eu destaquei em negrito) se encaixa no conceito de “heresia”, não “apostasia”. Até onde as duas referências neotestamentárias para “apostasia” apontam, o termo se refere ao abandono de algo ordenado por Deus, como no caso dos judeus que estariam “abandonando” a Lei de Moisés, (i.e., do ponto de vista dos outros judeus), por não circuncidarem seus filhos. (Atos 21:21) Note que a apostasia é sempre apresentada no NT como uma atitude, não como um ensino.

Outro ponto em que creio que o leitor esteja cometendo uma confusão é que ele não aparenta diferenciar definição lexical de aplicação nas Escrituras; ou melhor, o leitor ignora todas as definições e cria suas próprias. A minha análise no artigo principal foi objetiva, com base na aplicação do termo apostasia no NT e também na definição do dicionário em português, que é como as denominações cristãs usam o termo. 

O leitor prossegue:

“Consideremos, a partir de agora, quatro afirmações-chave do artigo em questão.

Primeira afirmação:

‘Apostasia [...] não se refere [...] a discordar de um ensino específico. [...] Um cristão que deixa de crer na Bíblia como palavra de Deus, que abandona a fé em Cristo é culpado de apostasia. [...] Apostasia não significa [...] discordar sobre pontos teológicos específicos.’ [Seria melhor você colocar toda a informação, pois as reticências omitem propositalmente detalhes relevantes que mostram que eu não quis dizer o que o leitor está afirmando. Desonestidade intelectual detectada. Em vista disso, não serão mais permitidas respostas.]

Observe que o autor do artigo defende que apostasia não se aplica a abandono [Calma lá, amigo, “abandono” não. Eu falei “discordar”. O mínimo que eu exijo de alguém que se propõe a analisar o que eu escrevo é honestidade intelectual. Ao distorcer minhas palavras, você perde o direito de responder novamente. Nem perca seu tempo, prezado.]  de um ou outro ponto doutrinal específico. [Mentira. No decorrer do artigo eu disse sim, mas eu fiz duas análises, uma com base na aplicação da palavra na Escritura, e outra definição com base no dicionário. Ademais, eu não falei “ponto doutrinal”. Eu falei “ensino”. Vou explicar melhor o que quis dizer mais adiante no quadro “O que define uma heresia?”] Porém, o próprio autor, anteriormente, comentando Atos 21:21, observara:

‘Paulo [...] foi acusado de ensinar os judeus a praticar uma apostasia [...] Paulo estava sendo acusado de instruir os judeus a se afastar, isto é, a renunciar a lei de Moisés em um ponto específico, embora não em totalidade.’

Portanto, ele mesmo admite que a apostasia não é necessariamente total e completa.”

Eu pude identificar erros. Em primeiro lugar, o leitor distorceu grosseiramente minhas palavras. Eu havia dito isto:

“digamos que a congregação tenha uma interpretação específica sobre um texto bíblico, mas alguns membros possuem opiniões diferentes; talvez achem que o texto não se refere àquilo que a maioria da congregação acredita que se refere; isso tampouco é apostasia. Apostasia não significa criticar pessoas nem significa discordar sobre pontos teológicos específicos.”

Contudo, o leitor entendeu o que ele quis das minhas palavras. Veja como o leitor entendeu o que eu havia dito:

“Observe que o autor do artigo defende que apostasia não se aplica a abandono de um ou outro ponto doutrinal específico.”

Eu nunca disse isso. Ao contrário, eu afirmei justamente o oposto disso. Cito novamente minhas palavras:

“Paulo estava sendo acusado de instruir os judeus a se afastar, isto é, a renunciar a lei de Moisés em um ponto específico, embora não em totalidade.”

Portanto, até este ponto já fica clara a motivação do leitor. Agora eu pergunto: se o leitor tivesse postado sua “análise” em uma página ou blog, qual pessoa, tendo lido o que ele escreveu em suposta “refutação” a mim, teria se apercebido do modo como minhas palavras foram distorcidas? Garanto que a maioria das pessoas teria concordado com ele e dito que ele “me destruiu”. Em vista disso, meu conselho a todos os que leem este artigo é: não confiem em “refutações”. O melhor a se fazer, creio eu, é ler explicações de gente séria, comprometida com a verdade, não com denominações, comparar ponto a ponto com as Escrituras e somente então tomar uma posição.

Eu certamente concordo que a apostasia não precisa ser completa, e pode estar limitada a um ponto específico, tanto é verdade que eu citei o exemplo de Atos 21:21, mas este é o uso escriturístico do termo. Fico decepcionado porque acho desonesto da sua parte usar a fraseologia “ele mesmo admite”, passando a impressão aos desinformados de que eu teria me contradito sem perceber, quando na verdade o leitor está ignorando o conjunto da obra, e mais à frente o leitor me acusará de ter feito justamente o contrário, conforme mostrarei a contradição. Esse tipo de argumentação revela desonestidade intelectual e por causa disso suas respostas não mais serão aceitas. No artigo eu até mesmo citei o exemplo do cristão que decide não seguir a lei bíblica contra fornicação e que isso equivale à apostasia. Veja o print do parágrafo em que digo exatamente isso:

Portanto, o leitor mentiu a respeito do meu artigo. Isso me deixa bastante triste, pois eu esperaria tal atitude de apóstatas e hereges, não do leitor que compartilha da minha fé em Cristo. Por isso que reitero a importância de sempre nos determos à Escritura, não indo nem aquém, nem além do que está escrito. (1 Coríntios 4:6) Quando cristãos, em seu excesso de zelo, vão além do que está escrito, acabam destratando seus irmãos de fé e colocando rótulos negativos neles.

Doutrina versus Entendimento

Existe uma diferença que se faz necessária, a saber, entre doutrina e ensino/entendimento. Estes conceitos se distinguem por suas próprias naturezas. Por exemplo, a doutrina é diametralmente escriturística. A Lei mosaica prescrevia a circuncisão. Levítico 12:2, 3 diz: “No oitavo dia, o prepúcio dele será circuncidado.” Isso não é um entendimento/conclusão, mas uma Lei que ordena uma atitude. Ou seja, ou o judeu continuaria seguindo, ou abandonaria a Lei. Se um judeu dissesse: “Não vou seguir”, isso seria apostasia, conforme vemos em Atos 21:21. Então, apostasia no NT se refere a abandonar uma ou mesmo várias leis bíblicas, não a ensinar falsas doutrinas. Para este último, a Bíblia usa o termo “heresia”. (2 Pedro 2:1)

A doutrina é o ensino claro e inambíguo da Escritura; o entendimento é a conclusão tirada por leitores em pontos menos claros, tais como o cumprimento de profecias, questões de consciência, referências de palavras e expressões[1] e alguns pormenores da escatologia.

Se o assunto é profecias, a questão é menos objetiva. A profecia não está inteiramente na Bíblia, apenas metade dela está, por assim dizer; a outra metade ainda tem de se cumprir na história e ser observada por homens. Portanto, poderá haver erros na forma como cristãos entendem a profecia. As questões de consciência são aquelas que a Bíblia não responde diretamente, embora haja princípios que apontem para uma conclusão, talvez não de forma tão objetiva, contudo. O ponto é que, para estas questões que possuem algum grau de subjetivismo, não há como classificar isto ou aquilo como “heresia”. Abandonar a doutrina é apostasia; deturpar a doutrina é heresia; discordar de entendimentos específicos não é nem um nem outro.

 

Dissertação

A importância de usar termos e conceitos precisos baseados exclusivamente na Escritura

É essencial que sejamos precisos no uso dos termos e em como são aplicados na Bíblia; do contrário, isso poderá ser pedra de tropeço para cristãos sinceros e poderá causar danos irreversíveis a pessoas que poderão receber punições exageradas. Vou ilustrar esta necessidade de precisão terminológica com um entendimento problemático que ocorreu na organização das Testemunhas de Jeová entre os anos de 1974 e 1978.[2]  Na edição em português de A Sentinela de 1º de maio de 1975, p. 287, na seção “Perguntas dos Leitores”, surgiu o seguinte tema: “Constituem as práticas lascivas da parte de um cônjuge para com o outro motivo bíblico para o cônjuge ofendido pedir divórcio?”

Em resumo, o tema em discussão era sobre coito anal e/ou oral dentro do arranjo marital, isto é, entre marido e esposa. (O artigo não abordou esta prática entre solteiros.) A revista definiu porneía (fornicação, sexo ilícito) da seguinte forma:

De modo que a “fornicação” é apresentada como único motivo para o divórcio. No grego comum, no qual se registraram as palavras de Jesus, o termo “fornicação” é porneía, que designa todas as formas de relações sexuais imorais, perversões e práticas lascivas tais como talvez sejam praticadas num prostíbulo, inclusive o coito oral e anal.

Quanto às declarações de Jesus a respeito do divórcio, não especificam com quem é praticada a “fornicação” ou porneía. Isto deixa a questão aberta. Que porneía pode corretamente ser considerada como incluindo as perversões dentro do arranjo marital é visto em que o homem que obriga sua esposa a ter com ele relações sexuais desnaturais virtualmente a “prostitui” ou “corrompe”. Isto o torna culpado de porneía, porque o verbo grego relacionado, porneúo, significa “prostituir, corromper”.

Em outras palavras, a liderança das Testemunhas de Jeová, orientada pelo espírito santo de Jeová para dar alimento espiritual no tempo apropriado, definiu porneía (fornicação) como abrangendo o coito oral e/ou anal entre marido e esposa. Isso significava que, se o marido coagisse a mulher a fazer tais práticas, ele era culpado de ‘fornicação dentro do casamento’; e sua esposa estaria livre para se divorciar dele e se casar novamente. Se o ato fosse plenamente espontâneo entre as partes, ambos os cristãos enfrentariam uma comissão judicativa e seriam desassociados por porneía, como de fato alguns foram.

Esta definição de 1974 (em inglês; 1975 em português) foi problemática, porque os anciãos agiam como policiais, literalmente investigando a vida sexual dos casados sob as ordens, obviamente, da liderança da organização. Havia outro problema ainda: a Bíblia não menciona sexo anal nem sexo oral,[3] e não há nenhuma relação escriturística entre porneía e tais práticas dentro do casamento. Por causa disso, pouco menos de quatro anos depois, em 1978, a edição em português de 1º de agosto de A Sentinela daquele ano, nas páginas 29 e 30, nas “Perguntas dos Leitores”, novamente abordou o tema e o mesmo espírito santo que tinha guiado o entendimento anterior consertou seu erro, dizendo:

No passado, publicaram-se nesta revista alguns comentários relacionados com certas práticas sexuais incomuns, tais como a copulação oral, dentro do matrimônio, e estas foram classificadas como crassa imoralidade sexual. Nesta base, chegou-se à conclusão de que aqueles que se empenhavam em tais práticas sexuais estavam sujeitos a serem desassociados, se fossem impenitentes. Adotava-se o conceito de que estava dentro da autoridade dos anciãos congregacionais investigarem e agirem na qualidade judicativa com respeito a tais práticas na relação conjugal.

Um cuidadoso exame adicional deste assunto, porém, convence-nos de que, em vista da ausência de claras instruções bíblicas, trata-se de assuntos pelos quais o casal tem de levar a responsabilidade perante Deus, e que essas intimidades maritais não são da competência dos anciãos congregacionais, para tentar controlá-las ou promover a desassociação, tendo tais assuntos por base exclusiva.[4]

A liderança das Testemunhas de Jeová, em 1974, sob a orientação do espírito santo para que desse alimento espiritual no tempo apropriado, havia feito uma definição de porneía (fornicação) que não era baseada na Bíblia. O resultado disso é que os anciãos, sob as ordens da liderança, passaram a investigar a vida sexual dos casados e alguns casais foram desassociados sob a acusação de ‘fornicação dentro do casamento’. No entanto, em 1978, guiados pelo espírito santo para dar alimento espiritual no tempo apropriado, a liderança anulou o entendimento de 1974 “em vista da ausência de claras instruções bíblicas”. Nenhuma desassociação que ocorreu entre 1974-1978 foi anulada, casamentos foram destruídos, filhos sofreram, pessoas sofreram.

Quero deixar bastante claro que não sou eu quem está inventando isso; as próprias revistas admitem este erro. Mas por que eu trouxe este fato “para cima da mesa”? Porque, se há algum propósito no estudo da História, é que aprendamos com os erros do passado e não os cometamos de novo.

Portanto, toda e qualquer definição, doutrina, regra, liturgia, deve ser estritamente baseada na Bíblia. Do contrário, corremos riscos de incorrer nos mesmos erros dos quais nos envergonhamos. Por causa disso eu não me canso de repetir que “apostasia”, assim como “fornicação”, deve ser somente aquilo que a Bíblia diz que é; e o mesmo serve para todas as outras palavras em análise.

    Insisto que a doutrina na Bíblia é inambígua, assim como são algumas doutrinas sobre o Cristo e seu propósito. Visto que eu abomino a ideia de alguém inocente pagar por um crime que não cometeu, também defendo que apostasia deva ser concebida apenas como aquilo que a Bíblia diz que é; o mesmo serve para “heresia”.

Apostasia deve ser definida apenas do modo como a Bíblia faz. O mesmo serve para heresia, fornicação e outros termos relevantes.

Portanto, um potencial herege somente poderá ser expulso da congregação se a heresia for expressamente provada na Escritura. Por exemplo, Jesus ensinou que a ressurreição há de ocorrer no futuro para toda a humanidade. (João 5:28, 29) Quando Himeneu e Fileto ensinavam que a ressurreição já havia ocorrido, este era um ensino tirado do vento, uma doutrina falsa, arquitetada, e que contrariava o ensino de Cristo. Neste ponto, a heresia fica provada em comparação com a Escritura. “Apostasia”, contudo, é outra coisa; tem a ver com uma atitude de abandono, não com o proselitismo contra o ensino de Cristo. (Veja novamente as referências neotestamentárias no meu artigo.)

“Entendido isso, nota-se o absurdo de outra declaração do artigo:

‘Portanto, apostasia não requer desassociação, pois envolve, em essência, a saída voluntária. Em outras palavras, o apóstata renuncia voluntariamente sua anterior religião.’ [Esta definição é a do dicionário.]

Prezado, você não analisou as referências que eu usei no artigo. De uma perspectiva lexical, quem diz isso não sou eu, mas o dicionário de português. Eu acho desonesto da sua parte citar a palavras do meu artigo chamando-as de “absurdas” quando elas são em essência a definição do dicionário. (https://www.dicio.com.br/apostasia-2/)

O leitor prossegue:

“Ele procura equiparar ‘apostasia’ exclusivamente ao que as Testemunhas de Jeová chamam de dissociação. [Eu não, o dicionário. Esta é a “definição denominacional” conforme apresentada no dicionário.] Veja só: ele diz que, ao indivíduo que apostatou parcialmente, por assim dizer, e não se arrependeu, deve ser permitido continuar na congregação, como gangrena entre os irmãos! (2 Timóteo 2:17).” [O termo “apostasia” não consta neste texto.]

Prezado, eu não disse em parte alguma no meu artigo que propagadores de falsos ensinos não devam ser expulsos. Se um membro da congregação ensina doutrinas falsas, entretanto, isso é heresia, não apostasia; e heresia é pecado de desassociação. Ele será desassociado por heresia, com base bíblica. (Tito 3:10) Na aplicação escriturística do termo “apostasia”, se ele apostatar (i.e., abandonar) em relação a uma lei bíblica, ele será julgado não por apostasia, mas pela conduta dele em relação à lei que abandonou.

O seguinte exemplo ilustrará o caso. Se um membro da congregação abandonar conscientemente a lei bíblica contra fornicação (sexo ilícito), isso é apostasia (i.e., abandono) em relação à Escritura, e isso faz dele um fornicador. O fornicador deve ser expulso da congregação. (1 Coríntios 5:11) Não é a apostasia (no sentido bíblico) em si o pecado de desassociação, mas a fornicação que resultou da apostasia/abandono. O mesmo se aplica aos outros pecados de desassociação, tais como idolatria, extorsão, embriaguez etc. Em momento algum Paulo lista o termo “apostasia” em conexão com a desassociação.

Segunda afirmação:

‘A heresia é pecado de desassociação’ [...] ‘apostasia não requer desassociação’.

Observe que o autor procura diferençar completamente ‘heresia’ de ‘apostasia’. [“o autor” não, o dicionário] Não fossem coisas completamente distintas na visão do autor, não poderia ele afirmar que uma requer desassociação (expulsão) e outra não. [Não há relação bíblica nem lexical entre “apostasia” e “heresia”.]

É verdade que ‘apostasia’ e ‘heresia’ são termos que destacam nuanças diferentes. Não são sinônimos perfeitos. Mas não raro aplicam-se ao mesmo caso. [Carece de base bíblica.] São sinônimos parciais, por assim dizer (como, por exemplo, "assassinato" e "homicídio"). Senão vejamos.

O leitor afirmou que os termos são “sinônimos parciais”, mas que não são “perfeitos”. Em primeiro lugar, não existem “sinônimos perfeitos” na língua, pois os signos linguísticos se diferenciam tanto em força, modalidade e principalmente em contextos dialógicos e regionalismos. Em segundo lugar, apostasia e heresia não são nem sinônimos, nem “sinônimos parciais”. O leitor tirou isso do vento. Dizer que estes dois termos são sinônimos assim como “homicídio” e “assassinato” são sinônimos é descabido.

Busque em qualquer dicionário de sinônimos e verá que sequer os termos aparecem como sinônimos distantes um do outro. A seguir apresento os sinônimos para apostasia (O ponto 1 mostra o sinônimo mais próximo, o ponto 2 mostra potenciais usos do termo em contextos não ortodoxos.): (Link da imagem a seguir: https://www.sinonimos.com.br/apostasia/)

Veja agora os sinônimos para heresia. (Link da imagem abaixo: https://www.sinonimos.com.br/heresia/)  O termo “apostasia” não aparece em nenhum grau de parentesco.

Contudo, agora veja os sinônimos para “homicídio” no mesmo dicionário: (Link da imagem abaixo: https://www.sinonimos.com.br/homicidio/)

As referências que apresentei provam que a tese do leitor, de que apostasia e heresia “são sinônimos parciais, por assim dizer (como, por exemplo, ‘assassinato’ e ‘homicídio’)”, foi tirada do vento.

O fato de estes termos não serem sinônimos, entretanto, não significa que eles não estejam relacionados. Vou ilustrar. A Bíblia ensina que o “amor é paciente”. (1 Coríntios 13:4) Obviamente, o conceito de amor genuíno está relacionado com o conceito de paciência; quando amamos alguém, demonstramos paciência para com a pessoa. Contudo, seria tolice dizer que “amor” e “paciência” são sinônimos. São conceitos totalmente distintos, embora em alguns contextos dialógicos possam estar relacionados. Da mesma forma, pode até haver relação em alguns casos entre apostasia e heresia, mas estes termos são absolutamente distintos a ponto de sequer serem mencionados como sinônimos distantes. Se um membro da igreja ensinar que a ressurreição já ocorreu, isso é heresia; pode ser que em vista disso ele também comece a falar mal de bons cristãos; por fim, ele talvez deixe de crer na Escritura – isto é apostasia. Neste exemplo, o herege se tornou apóstata. Ainda assim, apostasia e heresia são conceitos distintos em essência.

O leitor prossegue sobre a definição apresentada quanto a “heresia”:

“Essa é uma boa definição. Observe ainda – e isto é muito importante – que o autor reconhece que ‘heresia’ pode referir-se à discordância de um único ensino específico. Ele reconhece também que heresia requer desassociação, como ocorreu com Himeneu e Fileto, que discordavam especificamente sobre um ensino (ressurreição). [Himeneu e Fileto não “discordavam” do ensino da ressurreição, eles o negavam e ensinavam que ela já tinha ocorrido; isso era uma negação das palavras de Jesus que eram perpetuadas pelo ensino dos apóstolos, não uma “discórdia” sobre um ponto não tão claro.]

O problema surge quando o autor tenta diferençar completamente ‘heresia’ de ‘apostasia’”. [A Bíblia não equipara “heresia” com “apostasia” em parte alguma e nem o dicionário faz isso. O problema é que o leitor tirou do vento suas próprias definições para tais termos e ele quer que os outros as aceitem.]

Eu não vi o leitor apresentar absolutamente nenhuma referência bíblica para suas alegações.

“Basicamente ele quer resumir ‘apostasia’ a ‘dissociação’. [Eu não, o dicionário faz isso; mas eu usei o exemplo da apostasia no caso da circuncisão em Atos 21:21, onde não se refere a toda a verdade cristã.] Mas admitiu que é possível ser herege em um ensino específico. [Acusações contraditórias. Heresia e apostasia não são a mesma coisa; não são nem sinônimos.]  Portanto, o herege ‘afasta-se’ da verdade, ainda que num único ensino. [O herege ensina doutrinas falsas.]  Sendo ‘afastamento’ o sentido básico de ‘apostasia’ (e, como já, citei, o próprio autor admite que é possível apostatar em ensinos específicos), [Você tinha me acusado de fazer exatamente o oposto disso no início da sua resposta.]

Quanto a esta última declaração feita, o leitor tinha me acusado de ter dito exatamente o contrário. Veja só:

“Observe que o autor do artigo defende que apostasia não se aplica a abandono de um ou outro ponto doutrinal específico.”


O LEITOR FEZ DUAS ACUSAÇÕES CONTRADITÓRIAS

·   “como já citei, o próprio autor admite que é possível apostatar em ensinos específicos”

·   “Observe que o autor do artigo defende que apostasia não se aplica a abandono de um ou outro ponto doutrinal específico.”

No fim das contas, eu já nem sei mais do que estou sendo acusado pelo leitor.

Visivelmente o leitor está confuso a ponto de sequer saber o que eu de fato defendi. Ele prossegue:

“. . . segue-se, logicamente, que todo herege (‘promotor de seitas’) é apóstata (todo herege que antes fora cristão, bem entendido). [Eu nunca disso o contrário disso. O irmão está inventando argumentos para rebater.]  Assim, cai por terra a diferenciação que o artigo procura fazer.” [Não cai não.]

Julgue-me se eu estiver errado, mas argumento feito pelo leitor, creio eu, é absurdo do início ao fim. Em resumo, ele argumentou o que se segue:

1.          É possível ser herege em um ensino específico;

2.         O herege afasta-se da verdade;

3.         Quem se afasta da verdade é culpado de apostasia;

4.         Logo, apostasia é a mesma coisa que heresia.

(Se você que está lendo este texto tem dúvidas quanto a se foi isso que o leitor disse, confira novamente. Eu sempre evito ao máximo distorcer as palavras dos outros, pois deploro que façam isso comigo. – Mateus 7:12)

Reafirmo, este argumento é insensato e provarei por quê. Se alguém negar a ordem bíblica que condena a fornicação (sexo ilícito) e disser: “Eu vou abandonar essa regra, não vou mais segui-la”; e em seguida a pessoa cometer fornicação e se tornar um fornicador, isso consiste de apostasia com base na lógica de Atos 21:21. Então, pela lógica do argumento absurdo feito pelo leitor, teríamos de concluir o seguinte:

1.    O fornicador se afasta da verdade, abandona a lei divina;

2.    Quem se afasta da verdade é culpado de apostasia;

3.     Logo, apostasia é a mesma coisa que fornicação.

No raciocínio do leitor, a lógica apontaria para a conclusão de que “fornicação” e “apostasia” são a mesma coisa. Isso é descabido. Analisemos as personalidades que devem ser expulsas da congregação em 1 Coríntios 5:11 e 6:9, 10:

1.          O herege (Tito 3:10);

2.         O fornicador;

3.         O ganancioso (charlatão);[5]

4.         O idólatra;

5.         O beberrão;

6.         O extorsor;

7.         O injuriador;

8.        O homem que se deita com homem;

9.         O homem mantido para propósitos desnaturais;

10.   O ladrão;

11.     O adúltero;

Todos eles, de uma forma ou de outra, abandonam a verdade em um ponto específico. Significa isso que fornicação e apostasia são a mesma coisa? Que idolatria e apostasia são a mesma coisa? Que bebedeiras e apostasia são a mesma coisa? Que heresia e apostasia são a mesma coisa? A resposta é um sonoro não, e surpreende-me que alguém ache plausível propor tal absurdo. Mas é exatamente esta a lógica por trás do raciocínio do leitor. Se fosse como o leitor propõe, o termo “apostasia” teria um sentido tão amplo e vago que nem mesmo os escritores inspirados conseguiriam usá-lo com precisão.

Reitero que o leitor não apresentou absolutamente nenhuma referência bíblica para suas alegações, tampouco usou o dicionário. Ele prossegue:

“Em outras palavras, se um cristão torna-se herege, ‘propagando interpretações alternativas e erradas para o ensino da Bíblia’ - mesmo que não abandone completamente a verdade e a congregação -, esse cristão herege apostata (‘afasta-se’) [erro, não são sinônimos] da verdade, e deve ser desassociado por tal apostasia.” [Carece de referência escriturística.]

Ele não deve ser desassociado por apostasia, mas por heresia. (Tito 3:10) A Bíblia não apresenta em parte alguma “apostasia” como pecado de desassociação. Leia 1 Coríntios 5:11 e 6:9, 10 quantas vezes for necessário, mas o termo “apostasia” não está ali. Repito: apostasia e heresia são termos totalmente distintos.

“Terceira afirmação: ‘Apostasia não é definida como crítica a um presbítero, líder ou ancião. [...] Heresia não é fazer críticas a homens. [...] Fazer críticas a homens específicos não constitui nem apostasia, nem heresia.’

O autor defende que criticar os líderes cristãos [eu não limitei isso a líderes, mas usei líderes em via de maximizar o sentido] (como o ‘Corpo Governante’ das Testemunhas de Jeová) não pode ser considerado apostasia nem heresia. [Eu provei o motivo disso; você ignorou totalmente meu argumento.] Embora criticar os líderes do povo de Deus não seja necessariamente heresia, normalmente o é, como veremos a seguir.” [Afinal, é ou não é? Como assim, não é “necessariamente”, mas “normalmente” é? Isso torna confuso o sentido claro de heresia. A Bíblia é clara, são os homens que a complicam.]

 

Dissertação

Afinal, é ou não é?

A declaração do leitor claramente mostra quão confuso um sujeito se torna quando vai além das coisas escritas. Ele disse: “Embora criticar os líderes do povo de Deus não seja necessariamente heresia, normalmente o é, como veremos a seguir.”

Isso é um contrassenso do início ao fim. Afinal, é ou não é heresia? Dizer que ‘não é necessariamente’, mas que ‘normalmente é’ é uma maneira de não ficar quieto e ao mesmo tempo não dizer nada. Os pecados de desassociação não podem ser tratados nesses termos; eles devem ser claros, pois Jeová é Deus de comunicação clara. Se criticar homens não é necessariamente heresia, então não é heresia. Ponto final.

Se este raciocínio for estendido aos demais pecados de desassociação, o contrassenso mencionado ficará evidente. O que você acharia das declarações a seguir?

·    “Ter relações sexuais antes/fora do casamento não é necessariamente fornicação, mas normalmente é”;

·    “Curvar-se diante de um deus pagão, um ídolo, não é necessariamente idolatria, mas normalmente é”;

·    “Beber até cair não é necessariamente embriaguez, mas normalmente é”;

·    “Tomar dinheiro de forma desonesta dos menos afortunados não é necessariamente extorsão, mas normalmente é”;

·    “Um sujeito que pratica roubos e furtos não é necessariamente ladrão, mas normalmente é”;

Deus não nos dá leis ambíguas sobre desassociação. Os pecados de desassociação são bastante claros na Escritura, e eles somente se tornam confusos quando homens vão além do que está escrito. Visivelmente o leitor e eu temos visões distintas sobre a suficiência das Escrituras Sagradas. (1 Coríntios 4:6)

Da mesma forma, criticar pessoas não é apostasia nem heresia. Pode até ser que um sujeito calunie alguém, mas calúnia é calúnia, heresia é heresia e apostasia é apostasia. Existem na legislação brasileira 3 crimes contra a honra: calúnia, injuria e difamação.

·    Calúnia: acusar falsamente alguém de cometer um crime. Por exemplo, um irmão acusa falsamente outro irmão de ter assaltado um banco. Isso não é heresia, mas calúnia;

·    Injúria: é uma agressão em termos ofensivos sem imputação de fatos concretos. Por exemplo, chamar alguém de “mentiroso”, “ladrão”, “vigarista”, dentre outros insultos. Isso é injúria, não heresia;

·    Difamação: é a imputação de um ato vergonhoso a alguém e está relacionado àquilo que outros pensarão da pessoa acusada. A pessoa não é acusada de cometer um crime, apenas de um ato desonroso. Por exemplo, alguém que acusa uma pessoa de ter cometido adultério. O adultério não é crime no Brasil, mas é desonroso para a pessoa acusada ser vista como adúltera em sua localidade. Isso é difamação, não heresia;

No que tange pecados graves, é essencial que os termos e os conceitos sejam precisos e imutáveis. E isso só acontecerá se nos basearmos exclusivamente na Escritura.

O leitor prossegue:

O texto de 2 Pedro 2:1 menciona alguns hereges (gr. hairéseis, ‘heresias’). O versículo 10 alista [sic] como características de tais hereges ‘desprezar a autoridade’ e ‘falar mal dos gloriosos’.

Muitos eruditos e comentaristas concordam com o entendimento das Testemunhas de Jeová de que a ‘autoridade’ e os ‘gloriosos’ mencionados nesse texto são humanos e não divinos.

[. . .] Confirmando que ‘falar mal dos gloriosos’, como atitude herética e apóstata [palavra inventada pelo leitor. A palavra “apostasia” não aparece no contexto em pauta.], significa difamar os homens designados por Deus, [falácia da premissa escondida, pois parte do pressuposto de que aquele contra quem se fala é escolhido por Deus.] temos que a carta de Judas, obviamente paralela ao segundo capítulo de 2 Pedro, ilustra a questão com Corá, que falou mal dos homens que Deus usava (Judas 11; Números 16:2, 3). [Leia 300 vezes se for preciso, mas nem “heresia” nem “apostasia” aparecem nestes textos.] Fica claro, portanto, que uma característica da heresia é ‘desprezar’ e ‘falar mal’ daqueles a quem Deus deu autoridade entre seu povo.

Existem vários erros neste comentário. Em primeiro lugar, o leitor atacou mais uma vez um espantalho, pois eu sequer dei a entender que o herege nunca fala mal de bons cristãos. Portanto, todo o argumento está fundamentado em uma premissa inventada pelo leitor, assim como os demais argumentos na análise dele. Naturalmente, um herege falará mal de bons cristãos. Mas isso talvez seja calúnia, injúria ou difamação, não “heresia”. Acho que todos concordaremos que seria ingenuidade demais da nossa parte pensar que um herege tratará bem a todos os seus irmãos na fé e não falará mal de ninguém, ao invés disso, “apenas ensinará falsas doutrinas”. É evidente que, se Himeneu e Fileto falavam que a ressurreição já tinha ocorrido, eles também caluniavam Paulo e os apóstolos. Na congregação de Corinto, Paulo recebeu críticas quanto a sua oratória.

(2 Coríntios 10:10) “Pois eles dizem: ‘As cartas dele têm peso e força, mas a presença dele é fraca, e a palavra dele desprezível.’”

Contudo, isso em si não era heresia. De fato, Paulo não era bom orador, e ele mesmo reconheceu isso.

(2 Coríntios 11:6) “Mas, mesmo que eu seja imperito no falar, certamente não o sou no conhecimento. . .”

Reafirmo, eu não disse absolutamente nada que sequer desse a entender o que o leitor está tentando refutar. O que eu disse e provei foi que fazer críticas a pessoas específicas não é heresia. Eu citei exemplos que foram abandonados pelo leitor, que foi a crítica pública de Paulo a Pedro em Gálatas 2:11-14 e aos superfinos apóstolos em 2 Coríntios 11:5. Se fazer críticas a homens fosse heresia, seria heresia para todos, até mesmo para Paulo.

Um herege é aquele que propaga falsas doutrinas e que promove seitas. Naturalmente, o herege também caluniará bons cristãos. Contudo, “criticar pessoas” não é heresia.

“O artigo diz que só devemos reconhecer indivíduos como designados por Deus se estes fizerem milagres e sinais sobrenaturais. Veja só que curioso... um argumento virtualmente neopentecostal”.

Meu irmão, estes são padrões bíblicos, não neopentecostais. Vejamos isso na Bíblia.

(Êxodo 4:1-5) 4 No entanto, Moisés respondeu: “Mas suponhamos que não acreditem em mim e não escutem a minha voz, pois dirão: ‘Jeová não lhe apareceu.’” 2 Jeová perguntou-lhe então: “O que é isso na sua mão?” Ele respondeu: “Um bastão.” 3 Ele lhe disse: “Jogue-o no chão.” De modo que jogou o bastão no chão, e ele se transformou numa serpente, e Moisés fugiu dela. 4 Jeová disse então a Moisés: “Estenda a mão e pegue-a pela cauda.” Ele estendeu a mão e a pegou, e ela se transformou num bastão na sua mão. 5 Deus disse então: “Isso é para que eles acreditem que Jeová, o Deus dos antepassados deles, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, apareceu a você.”

Eu entendo que Jeová não deixou este padrão nas Escrituras para que fosse ignorado. O próprio Moisés entendeu que ele não poderia simplesmente dizer que guiaria o povo, mas teria de mostrar a mão de Jeová. Portanto, até onde entendo a partir da Bíblia, se alguém me diz que devo confiar nele “sem pensar duas vezes” ‘mesmo que uma orientação pareça não fazer sentido’, é porque tal indivíduo ou grupo de indivíduos é usado por Jeová assim como Moisés, que era inspirado por Deus; é somente plausível que eu espere sinais dessa pessoa que sejam semelhantes aos realizados por Moisés – este é um direito meu e ninguém poderá dizer que eu exagero. Dizer “Deus tem um povo, e eu acho que este povo é feliz e eu sou feliz nesse povo, isso prova que o líder da minha igreja é escolhido, aprovado e usado por Deus e que tenho que obedecê-lo sem pensar duas vezes” é, a meu ver, um tiro na lua, principalmente se tal liderança já bateu várias vezes com a cara na parede e machucou terceiros em nome de Jeová, supostamente guiados por espírito santo.

Lembremo-nos de que no cristianismo primitivo alguns anciãos desejaram ter mais poder que os outros. Por fim, uma classe clerical foi instituída. Alguns passaram a ser chamados de “bispos” e passaram a criar muitas regras extrabíblicas aos cristãos. Certamente, o Senhor reprovou isso e continua reprovando onde quer que isso ocorra. Este fato nos mostra que confiar cegamente em homens é perigoso. (Salmo 146:3)

“Devemos concluir, então, que, para o autor do artigo, os antigos israelitas não precisavam obedecer aos reis - que se ‘sentavam no trono de Jeová’ -, nem respeitá-los, afinal não eram milagreiros (1 Cro. 29:23). Zorobabel, Esdras e Neemias tampouco mereciam obediência e submissão do povo, pois não faziam milagres.”

Este raciocínio foi tirado de novo do vento; mas devo esclarecer que os reis foram ungidos publicamente por profetas que faziam sinais; ainda devo lembrar que houve casos em que os profetas realmente enfrentavam os reis. Elias foi submisso a Acabe e Jezabel? De forma alguma. Quanto a Zorobabel, Esdras e Neemias, eles não fizeram nada que merecesse críticas na Bíblia. Eles foram bons líderes, mas nenhum deles clamou ser “ungido” por Deus em silêncio e, com base nisso, exigiu obediência absoluta e irrestrita. Se eles tivessem cometido erros sérios ou promovido erros sérios manchando o nome de Jeová, tal como Saul e Zedequias fizeram, seria um direito do servo de Deus desobedecê-los. Ademais, em relação a Zorobabel, o profeta Zacarias teve uma visão de Jeová que citava o governador do povo de Deus por nome.

(Zacarias 4:8) 8 Recebi novamente a palavra de Jeová: 9 “As mãos de Zorobabel lançaram o alicerce desta casa, e serão as mãos dele que a terminarão. E você terá de saber que Jeová dos exércitos me enviou a vocês. 10 Quem desprezou o dia de pequenos começos? Pois eles se alegrarão e verão o prumo na mão de Zorobabel. Estes sete são os olhos de Jeová, que percorrem toda a terra.”

Portanto, Zorobabel foi publicamente identificado pelo profeta de Jeová como sendo o indivíduo que terminaria a construção da casa de Jeová.

Seja como for, todos os sinceros concordarão que toda a submissão tem limites. Digamos que você fosse contemporâneo do irmão Charles Taze Russell e ele, hipoteticamente, pedisse para que você fizesse algo que você sabia ser errado e contra a Bíblia. Você teria obedecido a Russell ou a Jeová? Eu espero ouvir de todo cristão verdadeiro que ele obedeceria a Jeová em casos semelhantes. Portanto, é evidente que a submissão tem limites. E se tem limites, aqueles que passaram dos limites são merecedores de críticas. Veja o exemplo de Davi. Ele cometeu adultério, embora tivesse sido escolhido por Jeová. O profeta Natã foi até ele e o enfrentou, corrigiu-o. Davi tinha poder para ordenar que o profeta fosse executado. Contudo, ele foi humilde e aceitou a correção. Que isso sirva de exemplo para todo o servo do Altíssimo em cargos de responsabilidade. (Tiago 3:1)

Creio que ninguém esteja acima de críticas. Colocar indivíduos em um metafórico olimpo no qual todas as críticas contra eles são vistas como sacrilégios é certamente um erro. Mesmo os reis do povo de Deus foram alvos de críticas por profetas enviados por Jeová, e hoje olhamos para Jeremias, Isaías e outros servos fieis e os encaramos como heróis, homens bravos e destemidos, amantes da verdade. Entretanto, não raramente nos desapercebemos do fato de que não era assim que o povo daquela época os encarava. Não pense que Jeremias era visto como humilde, submisso, homem que prezava pela união; este e outros servos leais eram vistos como inimigos da liderança do povo de Deus.

Se os líderes do povo de Deus tapam os ouvidos para as críticas sinceras e justas, continuam passando dos limites de forma ainda mais vergonhosa e ainda por cima chamam de “apóstatas” a todos os que desejam corrigir o que está errado, como é possível que tais possam ter a aprovação de Deus?

João Batista também não era de modo algum respeitável representante de Jeová, haja vista João 10:41. Êxodo 22:28, na Bíblia do autor, está assim: ‘Não [...] amaldiçoe um maioral [milagreiro] do seu povo’.

   João Batista foi escolhido publicamente por Deus antes de ele nascer perante uma multidão, por intermédio de Zacarias, seu pai, que teve uma visão. (Lucas 1:8-24) Embora o próprio João Batista não tenha realizado milagres (João 10:41), ele próprio era um milagre: pois seus pais, Zacarias e Elisabete, já eram idosos. Zacarias ficou mudo e, após o nascimento de João, voltou a falar. Todos esses acontecimentos milagrosos causaram comoção nas pessoas da localidade, levando-os a perguntar: “O que será que esse menino vai ser?” (Lucas 1:66) Portanto, o ministério especial de João Batista foi testemunhado publicamente antes de ele nascer. Ele não realizou sinais, mas Deus sim realizou sinais para com ele. Prova disso é que quando Jesus foi até João para ser batizado por ele, houve uma voz alta que testemunhou em favor do Filho de Deus. Isso, por tabela, foi um sinal milagroso que atestou o caráter celestial do ministério de João Batista.

Se vivesse no tempo de Noé, o autor estaria entre os que ‘não fizeram caso’ e foram executados por Jeová - afinal, não há registro de que Noé operasse milagres (Mateus 24:39).

   Noé não pregava ter sido escolhido por Deus para ser líder, tal como Moisés; ele pregava o arrependimento por meio da justiça, assim como os cristãos pregam hoje. Quando pregamos a alguém sobre o fim deste sistema, assim como Noé pregava sobre o dilúvio, não fazemos isso dizendo: “Acredite em mim, Deus me enviou para te salvar e você deve confiar em mim.” Ao contrário, nós devemos mostrar a iminente calamidade que o Altíssimo trará sobre a Terra e deixar que o espírito santo produza frutos de arrependimento na pessoa. Era comparável a este o caso de Noé.

A Bíblia não dá detalhes sobre o método pelo qual Deus falou a Noé, se os filhos dele ouviram a voz de Deus também. Seja como for, as pessoas viram os animais sendo levados aos pares para a arca de forma sobrenatural. Este foi um testemunho excelso da benção de Deus sobre Noé. Era a última oportunidade para entrar na arca. Portanto, houve um sinal objetivo e milagroso. Mas, só por curiosidade, o que você diria de Noé se tivesse pregado que o dilúvio viria “naquela geração”, e no fim das contas o dilúvio não tivesse vindo naquela geração? Aí suponhamos que ele dissesse que “geração” não era bem o que ele quis dizer com “geração”, mas é outra coisa. Não seria isso uma prova de que Noé não fora escolhido por Deus para dizer o que disse? Ou Deus designou e orientou seus servos para, às vezes, dar alimento errado no tempo apropriado? A ideia de que Deus designou pessoas para dar alimento errado na hora certa, pelo menos para mim, é contraditória. Não estou dizendo que cristãos devam ser inerrantes; longe disso, mas se Noé foi designado para construir uma arca, a arca nunca poderia afundar; se Deus escolheu o Papa para interpretar a Bíblia e ensiná-la aos demais, não pode haver erro durante o exercício desta designação; quer dizer, o Papa não pode errar enquanto intérprete designado por Deus; se há erros, então temos sérios problemas. Mas desejo-lhe felicidades.

O leitor ainda afirmou:

“Pois bem, entendamos o seguinte: o claro ensino bíblico é que Deus, no tempo do fim, teria um povo organizado pregando e ensinando as verdades bíblicas, e que esse tempo seria um período de restauração e prosperidade espiritual (Daniel 12:4; Mateus 24:14). A conclusão lógica é que, se há um único povo que prega e ensina a verdade bíblica, um povo que usufrui de prosperidade espiritual, então os que lideram esse povo são os homens designados por Deus na atualidade. Em outras palavras, os frutos da liderança do Corpo Governante sobre as Testemunhas de Jeová – e, dentre esses frutos destacamos, não o crescimento numérico, mas (1) a pregação e ensino das verdades bíblicas e (2) as elevadas normas de moral entre o povo de Deus – são evidência de que esse corpo tem a aprovação e as bênçãos divinas, conforme o princípio enunciado por Cristo.”

As afirmações do leitor não produzem os resultados que ele atribuiu a tais afirmações. Vejamos por quê:

Posso citar aqui pelo menos dois grupos que saíram das Testemunhas de Jeová e que mantêm as mesmas crenças básicas e o mesmo modelo de atividades cristãs. Um deles se chama “A Organização Teocrática das Testemunhas de Jeová”, que está presente na Rússia, na Ucrânia e na Moldávia. O outro grupo se chama  Testemunhas de Jeová da Verdadeira Fé, que foi formado na Romênia. Este último grupo religioso encontra-se predominantemente em toda a Europa, na África e na América do Norte Suas convenções internacionais têm delegações de todo o mundo. Possuem congregações, circuitos e pioneiros (evangelizadores por tempo integral). Eles se opõem ao vício do cigarro e também são contra as transfusões de sangue. Em seus congressos internacionais fazem resoluções defendendo o nome e a Soberania de Jeová. Em uma de suas resoluções, declararam: “E agora, que cada homem permaneça firme aos justos princípios da Bíblia e ao ensino não adulterado dado ao remanescente fiel no tempo apropriado. Para se juntar a nós, na última parte nesse mundo, para a justificação da Soberania de Jeová! Não se cansem de honrar e de tornar conhecido o único Deus verdadeiro, Jeová, e se Filho, Jesus Cristo, o Rei do Novo Mundo.” (O site deles pode ser encontrado neste link:   https://web.archive.org/web/20130115025028/http://the-true-jw.oltenia.ro/)

A organização religiosa Testemunhas de Jeová da Verdadeira Fé entende que as Testemunhas de Jeová foram e têm sido permissivas quanto à prática de abuso infantil (pedofilia), e como sendo hipócritas por denunciar as Nações Unidas enquanto se inscreveram nelas como Organização Não Governamental. 

Ambos os grupos acima citados (“A Organização Teocrática das Testemunhas de Jeová” Testemunhas de Jeová da Verdadeira Fé) mantêm “(1) a pregação e ensino das verdades bíblicas e (2) as elevadas normas de moral entre o povo de Deus”; continuam com o uso regular do nome de Deus, Jeová, reúnem-se em congressos anuais, realizam o ministério de casa em casa e o batismo por imersão. Não pegam em armas, não servem ao exército, não participam da política, não vendem publicações, não cobram dízimos, traduzem em centenas de idiomas. Portanto, o pontos levantados pelo leitor também se aplicam necessariamente a estes grupos.


O autor prossegue:

Ele tem razão. Hebreus 13:17 não é argumento absoluto. Essa ‘submissão’ não é irrestrita e incondicional. E o próprio Senhor Jesus falou da possibilidade de o ‘escravo fiel’ tornar-se mau, em Mateus 24:48-51 e Lucas 12:45, 46. Jesus não profetizou tal coisa, apenas alertou sobre essa possibilidade. [Eu concordo com isso.]

Dissertação

O que define uma heresia?

Deus é comunicador por excelência, e ele não cria regras dúbias sobre como tratar indivíduos permeados pelo pecado na congregação. Portanto, o homem herege deve ser expulso, e isso fica claro pela expressão “rejeite-o”, usada por Paulo em Tito 3:10. O verbo paraiteomai, normalmente traduzido com o sentido de “rejeitar”, é uma palavra bastante forte em conexão com o tratamento dado a um promotor de seita, e significa “evitar”, assim como se faz com alguém que foi expulso da igreja.

Em todos os pecados de desassociação a base deve ser puramente bíblica e sólida, imutável. Por exemplo, o sexo ilícito (porneía) é e sempre será pecado de desassociação. Portanto, se um cristão se tornasse fornicador nos dias do apóstolo Paulo ou em 2020, ele deveria ser expulso da mesma forma. O conceito de porneía não pode ser alterado com o tempo. E só será alterado se as Escrituras forem extrapoladas. (Veja o quadro “A importância de usar termos e conceitos precisos baseados exclusivamente na Escritura”).

De forma similar, heresia tem que ser heresia sempre; se alguém disser X hoje e for considerado herege, então X é heresia; e se é heresia hoje, é heresia sempre. A heresia não é nem pode ser quando, mas o quê. Vou ilustrar isso com mais um fato na história da organização das Testemunhas de Jeová.

Em 1929, J.F. Rutherford contradisse o ensino de C.T. Russell sobre a referência em Romanos 13:1. Russell acreditava que as “autoridades superiores” de Romanos 13:1 eram as autoridades civis. Rutherford, entretanto, passou a ensinar que tais eram Jeová e Jesus. Certamente, Jeová e Jesus são as autoridades superiores no universo, e Rutherford sabia que devemos ser bons cidadãos, respeitando as leis nacionais, mas não é esta a referência de Romanos 13:1. Este ensino perdurou até 1962, quando foi revisto e anulado. Em resultado disso, várias Testemunhas de Jeová se dissociaram por achar que a organização havia abandonado a Escritura; mais tarde, algumas retornaram à organização, outras não.

Agora proponho esta reflexão: se em 2022 algum ancião disser que acredita em Rutherford e passar a ensinar que tais autoridades superiores se referem, não aos governos civis, mas a Jeová e a Jesus, seria culpado de heresia? Se dissermos que ele seria culpado de heresia com justa causa, temos um problema. Isso significaria que Rutherford era culpado de heresia e ninguém sabia disso. Hereges não são usados por Jeová. Se propusermos, entretanto, que Rutherford não era culpado de heresia por tal ensino em vista de seu caráter sincero, então teremos de estender este princípio a todos os hereges sinceros. O resultado disso seria que ninguém poderia ser desassociado por heresia desde que fosse sincero. Mas se optarmos por dizer que aquele que em 2022 insiste em ensinar o que Rutherford ensinava é culpado de heresia, então heresia não é mais o quê, e sim quando. Definir heresia como quando é uma heresia em si mesmo, pois deixa-se de atribuir a verdade à Escritura e passa-se a atribuí-la a homens. Não conheço nada mais sectário/herético do que atribuir verdades a homens.

Esta reflexão nos ensina que a heresia só pode ser pecado de desassociação em ensinos imutáveis. Por exemplo, a Bíblia ensina que há esperança celestial para os cristãos, isso é imutável. (2 Coríntios 5:1-5) A Bíblia também ensina que haverá esperança terrestre para as “nações”. (Apocalipse, capítulos 20 e 21). A Bíblia ensina que Jesus é filho de Deus. (João 3:16) E que o Pai é o único Deus verdadeiro. (João 17:3) Que Jeová é o nome do Altíssimo e que deve ser conhecido. (Salmo 83:18). Há outros ensinos também, mas estes são suficientes para o ponto que quero provar.

No entanto, em meio a estas doutrinas claras, existem detalhes que podem ser alterados com o passar dos anos. Visto que esses detalhes não são imutáveis, aquele que discorda do entendimento oficial nestes ensinos não pode ser, com justa causa, taxado de herege. Isso fica mais evidente ainda quando o assunto é entendimento profético. É inaceitável que alguém seja expulso por discordar de um entendimento profético, que muitas vezes é alegórico, e expressar publicamente o motivo disso, pois o próprio entendimento que a pessoa apresenta talvez seja correto; talvez o entendimento oficial seja mudado posteriormente. Portanto, é inconcebível a desassociação por heresia de pessoas que discordam de ensinamentos que podem ser mudados.

Assim, os presbíteros devem analisar com extrema cautela quaisquer alegações de um “potencial herege” para discernir se o que ele fala tem base bíblica ou é de fato heresia. Só será comprovada a heresia em ensinos imutáveis e expressos de forma clara na Escritura. Ter a atitude de apegar-se ao que está escrito e não ir além impulsiona o sucesso da obra de Cristo, protege as pessoas inocentes, e produz excelentes frutos de união em Cristo e vasto conhecimento.


Notas:

[1] As “referências de palavras e expressões” são quando os leitores divergem quanto a quem ou a que uma palavra ou expressão se refere. Por exemplo, no Salmo 82 fala-se de “deuses” subordinados a Jeová; alguns pensam que esses deuses são uma referência a juízes, outros dirão que se referem a anjos; contudo, ninguém poderá dizer que aqueles não são chamados de “deuses”.

[2] Os anos correspondem às edições de A Sentinela em inglês. Naquela época não havia tecnologia que agilizasse o serviço de tradução como hoje. Por causa disso, os números da revista em português eram publicados por volta de 6 meses depois do número em inglês.

[3] Neste artigo quero deixar claro que não estou dizendo que tais práticas sejam puras para casados. Minha análise é puramente lexical.

[4] w78 1/8 pp. 29-30 Perguntas dos Leitores.

[5] Visto que o termo “ganancioso” se refere a uma personalidade má que deve ser expulsa da congregação, tem de se referir a ações concretas, não a sentimentos de ganância, pois ninguém pode ser expulso com base em sentimentos. Portanto, o termo “charlatão” é mais preciso que “ganancioso”. 


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová. 


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

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