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domingo, 21 de agosto de 2022

O sonho de Nabucodonosor tem sentido para nós?

 

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Contribuído por Cristão Antitípico.


             Charles Taze Russell acreditou até sua morte que cada palavra na Bíblia é inspirada por Deus e que todas as nuances e sutilezas em relatos especiais são significativos. Os Estudantes da Bíblia,[1] assim como vários indivíduos antes deles, entenderam que o livro de Daniel é primariamente um livro profético para a igreja/congregação, não um livro que apenas contém lições morais, tampouco apenas um livro de história. Assim, cada relato do livro de Daniel, incluindo os sonhos de Nabucodonosor, tem de ser profético e deve culminar em um cumprimento escatológico. Não existe nenhum conteúdo descartável na profecia de Daniel – é isto que significa crer que toda a Escritura é inspirada por Deus.

             Mas nem todos concordam com esses conceitos. Certo pastor evangélico comentou:

“Para nós, evangélicos, a árvore cortada representa [apenas] o próprio Nabucodonosor, pois Daniel 4:22 explica isso. E a banda que preservava o toco indicava que Nabucodonosor não seria punido pelo que fez a Israel, mas reconheceria um dia o Deus Altíssimo. (Daniel 4:26) Tudo isso se cumpriu nos dias de Nabucodonosor [apenas]. (Veja Daniel 4:34-37). Alguém precisa ser muito ignorante para acreditar que o mau exemplo do Rei Nabucodonosor, de orgulhar-se até o limite máximo, como uma árvore que cresceu até os céus, pudesse simbolizar o Reino de Deus.”[2]

             Sem dúvidas, todo o sonho de Nabucodonosor sobre a árvore cortada teve sua aplicação em seus dias, ninguém duvida disso e este não é o ponto de discórdia. Mas será que essa é toda a informação dessa maravilhosa profecia? Percebe-se que, para os evangélicos, o capítulo 4 do livro de Daniel e o sonho não são proféticos e não possuem relação com Cristo, apenas são vistos como um relato histórico para que Deus nos ensine uma lição moral, a saber, que a soberba é uma qualidade deplorável. Em outras palavras, o sonho da árvore pelo monarca babilônico não possui nenhum sentido profético para a igreja. Isto é, a meu ver, um desperdício da mensagem inspirada e uma negação da inspiração da Bíblia.

             O apóstolo Paulo escreveu sob inspiração:

(Romanos 15:4) Pois todas as coisas escritas anteriormente foram escritas para a nossa instrução, a fim de que, por meio da nossa perseverança e por meio do consolo das Escrituras, tivéssemos esperança.

Se entendermos o sonho da árvore de Nabucodonosor apenas como um evento histórico que nos ensina uma lição moral, que é basicamente a proposta supracitada pelo pastor evangélico e a atual postura do protestantismo, isso não nos dá nenhuma esperança, contrariando o ensinamento apresentado em Romanos 15:4. Os Estudantes da Bíblia e outros eruditos protestantes do século 19 se recusaram a crer que o sonho de Nabucodonosor possui apenas uma lição moral para os cristãos, pois isso vai contra o tema central do livro de Daniel, a saber, que o governo da humanidade pertence a Deus e Ele permite que outros governem, mas, por fim, Deus o dará ao Messias. Sendo este o tema do livro de Daniel, os relatos, principalmente os sonhos, têm de estar conectados com o Cristo e com o sonho da estátua no capítulo 2. A Bíblia diz que é de Cristo que “todos os profetas dão testemunho”. (Atos 10:43, compare com Lucas 24:27 e Atos 3:19-26.)

 

O TEMA CENTRAL DO LIVRO DE DANIEL É: A JEOVÁ PERTENCE O REINO DA HUMANIDADE, E OS REINOS GENTIOS EXISTEM PORQUE JEOVÁ OS TOLERA. POR FIM, O MESSIAS É QUEM REINARÁ PARA SEMPRE.

 

             No livro de Daniel, encontramos um quadro da dominação da terra pelas potências gentias durante um período de tempo. O capítulo 2 contém a visão profética, recebida pelo monarca babilônico, da grande estátua que Daniel sob inspiração mostrou representar a marcha das potências mundiais gentias que termina com sua destruição por parte do Reino estabelecido pelo “Deus do céu”, Reino este que a partir de então passa a governar toda a terra. (Daniel 2:31-45)

             O erro de muitos é achar que os sonhos e as visões do livro de Daniel não possuem relação entre si e apenas nos ensinam lições morais. Mas isso é absurdo. Obviamente, se acreditarmos que a profecia foi inspirada por Deus, não poderemos fugir da conclusão de que toda ela está interconectada com o tema central (i.e., o Reino da humanidade pertence a Deus e ele o dará ao Cristo), inclusive o sonho da árvore.



             No capítulo 2, o sonho da grande estátua começa na cabeça de ouro, que representa o império babilônico, a primeira potência mundial a ‘pisar Jerusalém’, e que derrubou a dinastia de Davi e deixou vago “trono de Jeová” em Jerusalém. (1 Crônicas 29:23) Foi isso que deu início aos tempos dos gentios (a estátua), que é o tempo durante o qual Jerusalém, ou o trono de Jeová, é pisoteado pelas nações não judaicas. Durante esse tempo, os gentios governam o mundo sob a permissão de Deus, mas o reino de Deus não possui um rei da linhagem de Davi e escolhido por Deus.

No capítulo 4 do livro, Nabucodonosor recebe outra visão. A visão simbólica é de uma imensa árvore; a qual um anjo do céu ordenou que fosse derrubada. O toco dessa árvore foi então restrito com bandas de ferro e de cobre, e teve de continuar cortado entre a relva do campo até se terem se passado “sete tempos”. (Daniel 4:16)

“Sete Tempos” – uma expressão escatológica

Sem dúvidas os “sete tempos” da demência de Nabucodonosor tiveram relação imediata que correspondeu a 2520 dias literais, mas o relato de Daniel 4:13-17 é especial demais para ser compreendido apenas como um evento do qual podemos tirar lições morais, que é a visão atual do protestantismo. É inconsistente alegar que o capítulo 2 e também os capítulos 7 até o 11 possuem sentido profético para a congregação, mas que o capítulo 4 não possui e que é apenas um “evento histórico que nos ensina que a soberba é deplorável”. Portanto, o capítulo 4 e os “sete tempos” devem ter cumprimento escatológico. Vejamos 4 evidências disso.

1)                 O dobro de três tempos e meio. A expressão “tempo, tempos e metade de um tempo”, ou “tempo, tempos e uma metade” equivale a 3 tempos e ½ e é escatológica. Isso indica que “sete tempos”, que é o seu dobro, também é escatológica. Sobre o fim dos tempos, lemos resumidamente em Daniel 12:4-7:

E quanto a ti, ó Daniel, guarda em segredo as palavras e sela o livro até o tempo do fim. Muitos [o] percorrerão, e o [verdadeiro] conhecimento se tornará abundante.”. . . “Quanto tempo levará até o fim das coisas maravilhosas?” 7 E comecei a ouvir o homem vestido de linho. . . “Será por um tempo designado, tempos designados e uma metade. . .”

Portanto, o dobro de três tempos e uma metade – sete tempos – é significativo nesse contexto e deve apontar para algo tipificado em Nabucodonosor.

2)                Um coração de animal. Esse relato, conforme já mostrei, é especial demais para ser visto apenas como histórico. Nabucodonosor se engrandeceu demais, e qual foi sua punição? Será que Deus lhe causou uma doença que o acamou? Curiosamente, Nabucodonosor recebeu um “coração de animal/besta(chêyvâ'). (Daniel 4:16) Pergunte-se: Era realmente necessário tudo isso para humilhar o rei de Babilônia? Por que Deus escolheu dar “um coração de animal/besta” ao rei, ao invés de qualquer outra punição? Essa punição é demasiadamente arquitetada e peculiar. Portanto, deve ter cumprimento antitípico. Entenda o motivo.

No capítulo 7, Daniel descreve os governos humanos que sucederiam o reinado de Nabucodonosor, que é a mesma sequência da estátua no capítulo 2. Em outras palavras, a profecia do capítulo 7 é a mesma do capítulo 2, só que, em vez de ouro, prata, bronze e ferro, agora os governos são descritos da mesma forma que Nabucodonosor em sua demência, como “animais/bestas” (chêyvâ'), e um trocadilho é feito: Nabucodonosor ganhou “um coração de animal”, mas o animal (chêyvâ') ganhou “um coração de homem”. (Daniel 7:4)

Portanto, a punição especialmente arquitetada do monarca deve ser uma tipificação do período total do domínio dos “animais/bestas” do capítulo 7, e consequentemente da estátua. Não há sentido algum em Deus dar a Nabucodonosor um coração de animal/besta por misteriosos “sete tempos” apenas para humilhá-lo. Se o propósito de Deus era somente humilhar o rei, a coisa poderia ter sido muito menos arquitetada. Nem mesmo uma visão teria sido necessária! Portanto, ter o monarca recebido um coração de animal/besta conecta o sonho da árvore com as bestas do capítulo 7 e a estátua do capítulo 2.

3)                A conclusão do sonho. O sonho do rei começa no v.10 e termina no v.17 do capítulo 4, e a interpretação de Daniel sobre o sonho termina no v.25. O modo como a descrição do sonho é concluída é escatológico. Por que Deus daria aquela punição específica a Nabucodonosor? A Escritura diz:

para que os viventes saibam que o Altíssimo é Governante no reino da humanidade e que ele o dá a quem quiser, e estabelece nele até mesmo o mais humilde da humanidade. (Daniel 4:17)

Essa é uma conclusão muito sugestiva e especial, uma indicação incontestável de que o sonho possui aplicação escatológica, pois o próprio Deus conecta o sonho com o reino sob a regência de Jesus Cristo, o “mais humilde da humanidade”. (1 Samuel 2:8) O próprio Daniel ainda conclui que os sete tempos servem para mostrar que Deus é o Governante do reino da humanidade, o qual fora entregue a todo o domínio gentio, e o fim dos sete tempos é relacionado com o domínio do Messias.

(Daniel 4:25) passarão sobre o senhor sete tempos, até que reconheça que o Altíssimo é Governante no reino da humanidade e que ele o dá a quem quiser.

O reino de Nabucodonosor é chamado de “o reino da humanidade”, e a visão diz que é no fim dos sete tempos que o reconhecimento do Altíssimo como Aquele que tem o reino da humanidade é percebido pelo monarca. Isso prova que Nabucodonosor é um tipo profético das potências mundiais que o sucederam e que a árvore do sonho não é o reino de Nabucodonosor, mas o “reino da humanidade”. Em vista disso, é evidente que esse relato é especial demais para ser visto apenas como histórico e do qual podemos apenas aprender lições morais que podem ser encontradas em abundância nos livros de Provérbios e Eclesiastes. Ele necessariamente tem de ter aplicação profética e escatológica em Cristo.

4) A natureza obscura da expressão “sete tempos”. Deus sempre pune de maneira clara aqueles que merecem punição. Todavia, nenhum período de punição na Bíblia é tão obscuro quanto “os sete tempos”. Afinal, quanto tempo são “sete tempos”? Achamos pistas para isso no último livro da Bíblia. Em Apocalipse 12:6 lemos que Deus preparou um lugar no ermo para que “a mulher” seja alimentada por 1260 dias. No versículo 14, menciona-se a mulher sendo alimentada por “um tempo, e tempos, e metade de um tempo”. Portanto, 1260 equivalem a três tempos e meio. Assim, o dobro de três tempos e meio equivale ao dobro de 1260 dias – 2520 dias, ou sete anos judaicos. (360 x 7 = 2520 dias) Foi esse o tempo de demência de Nabucodonosor.

Como isso evidencia um tipo profético? Considere as seguintes perguntas:

§  Por que Deus revelou a duração exata de sete tempos apenas no último livro da Bíblia?

§  Por que sete tempos, e não cinco, nem três?

O número sete é escatológico, e está ligado com as profecias messiânicas. (Leia Daniel 9:25 e Apocalipse, capítulos 1 e 5.)

§  E se os sete tempos equivaleram a sete anos, por que a Bíblia não disse “sete anos” logo de uma vez?

A única razão que justifica todo esse obscurantismo na linguagem é que os sete tempos possuem significado tipificado e escatológico. Do contrário, o relato inteiro se torna uma cebola em uma salada de frutas. Repito, se removermos o caráter profético da visão como faz o protestantismo atual, o relato de Daniel 4 se torna inútil para nós.

Se crermos que cada relato foi incluído na Escritura para um propósito específico e que o livro de Daniel e as visões de Nabucodonosor são proféticas, não apenas históricas, não há como fugir da conclusão de que o relato da queda de Nabucodonosor é demasiadamente arquitetado e especial do início ao fim e, assim sendo, deve ter sentido antitípico. Os “sete tempos” de demência animalesca/bestial de Nabucodonosor são igualmente especiais e devem tipificar todo o período do reino de “animais/bestas” no capítulo 7, que é o mesmo período da estátua no capítulo 2. Essa cosmovisão é tão evidente que vários eruditos concluíram a mesma coisa antes mesmo de C.T. Russell. Sobre isto, o livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus, capítulo 10, p. 120, disse:

O irmão Russell não alegou ser o primeiro a discernir [as doutrinas corretas], e reconheceu abertamente estar endividado com outros pela ajuda que prestaram durante seus primeiros anos de estudo das Escrituras. Falou com apreço da boa obra que vários movimentos da Reforma fizeram visando deixar brilhar a verdade cada vez mais. Ele citou nominalmente certos homens de mais idade, como Jonas Wendell, George Stetson, George Storrs e Nelson Barbour, que contribuíram pessoalmente de vários modos para seu entendimento da Palavra de Deus.

Thomas Rawson Birks (1810-1883), teólogo e estudioso da profecia bíblica, escreveu em seu livro First Elements of Sacred Prophecy, publicado em 1843:

O próprio rei [Nabucodonosor] representa [= tipifica] a sucessão da soberania imperial até que venha o reino de Cristo; os “sete tempos” que passaram por ele devem, portanto, representar todo o período de degradação no reino gentio, desde os tempos de Nabucodonosor até sua redenção completa. (p. 356) [O grifo é meu.]


Thomas Rawson Birks

BIRKS adiciona:

O tempo, tempos e metade de um tempo, que em termos é a metade do período [de sete tempos], evidentemente vai corresponder [...] à duração tipificada desses sete tempos. (p. 356) [O grifo é meu.]

O autor completou:

O registo completo do sonho de Nabucodonosor possui claramente um caráter tipificado. O profeta dissera perante ele: ‘Tu és a cabeça de ouro’. Agora, a cabeça de ouro prefigurava o curso completo do domínio gentio, desde o tempo do profeta até o reinado glorioso do Messias. (p. 355) [Todos os grifos são meus.]

Henry Grattan Guinness (1835-1910), teólogo protestante irlandês, estudioso da profecia bíblica e cronologista perito, escreveu em seu livro Approaching Time of the Age:

A visão da árvore não simboliza apenas os sete anos de insanidade de Nabucodonosor, mas esse incidente também tipifica alguns elementos morais e cronológicos da sucessão das monarquias gentias, das quais Nabucodonosor era cabeça e representante. (p. 347) [O grifo é meu.]

Henry Grattan Guinness

Joshua William Brooks (1790-1882), foi um pregador reformado da igreja da Inglaterra. Em seu livro Elements of Prophetical Interpretation (1841) ele escreveu:

. . . eu notei uma objeção quanto à expressão ‘tempo, tempos, etc…’ ser entendida como mística [simbólica],[3] tiradas do fato de que ‘sete tempos’ do capítulo iv.23, tendo se cumprindo literalmente com o fato de Nabucodonosor ter sido removido por sete anos da soberania de seu império:  pois a relação de um fato histórico em termos literais não é razão alguma para que tais termos não serem usados em sentido místico [simbólico] em alguma outra instância. (p. 250) [O grifo é meu.]

Da mesma forma, há outro evento que leva à mesma data: os três tempos e meio têm um alto grau de probabilidade, supostamente uma fração dos sete tempos, dos quais sete tempos devem ser ‘os tempos dos gentios’, i.e. os tempos do domínio gentio sobre Israel. (p. 337) [O grifo é meu.]

Por este comentário, fica claro que o autor entendia os sete tempos de Nabucodonosor como uma tipificação de todo o domínio gentio.

John Aquila Brown (1781-1842), estudioso da profecia bíblica, também chegou à mesma conclusão de que o sonho de Nabucodonosor simbolizou todo o domínio gentio, isto é, todo o “reino da humanidade”.

Os sonhos de Faraó foram duplos para ele, a fim de estabelecer a certeza da revelação; e que foram também assim no caso do monarca babilônico há, penso eu, evidência incontestável para provar. E por tal razão pode ser afirmado que a visão da árvore frondosa e aspirante simbolizava os quatro impérios igualmente com a imagem [da estátua], e [está] relacionada também com os quatro impérios que haviam de ser estabelecidos na Terra; no entanto, rendendo-se finalmente a Ele, que é o único Governante legítimo das nações; os poderes das nações estando então convencidos “que o Altíssimo é o governante no reino dos homens, e ele o dá a quem desejar.” Essa, portanto, deve ser considerada a visão dos “sete tempos”, ou o período do grande destino das quatro monarquias universais.[4] [O itálico é do autor, grifo em vermelho é meu.]

John Aquila Brown

Brown defendeu que os dois sonhos de Nabucodonosor, o da árvore e o da estátua, são interligados, e isso significa que os sete tempos de demência de Nabucodonosor tipificam todo o domínio gentio até o reino de Deus ser estabelecido. O autor adiciona: “Nabucodonosor foi um tipo [profético], penso eu, dos reis tirânicos da terra.” Em harmonia com isso, na obra The Preacher’s Complete Homiletical Commentary (1892), dos autores Joseph Exell, William Jones, George Barlow, W. Frank Scott, e outros, nós lemos:

[...] os sete anos da degradação animal do monarca durante sua insanidade correspondem ao período do domínio gentio representado pelas bestas [= animais] selvagens da visão subsequente. (Sobre Daniel, capítulo 4) [O grifo é meu.]

Edward Bishop Elliot (1793 – 1875) foi um teólogo e erudito bíblico inglês, pertencente ao movimento batista. A sua obra Horae Apocalypticae é considerada por certos membros do movimento batista como o comentário padrão sobre o livro de Apocalipse. Ele defendeu o mesmo que os demais eruditos protestantes de que “A insanidade e a degradação de Nabucodonosor tipificaram o seu império e sua apostasia de Deus”.[5] O teólogo batista ainda adiciona:

Uma medida muito similar de dúvida [...] tem a ver com a questão da época da terminação dos sete anos da degradação bestial de Nabucodonosor; não posso evitar presumir que tal realização simbolize a [inteira] degradação pagã, e desvio de Deus, dos quatro grandes impérios mundanos, dos quais ele [i.e., Nabucodonosor] era o representante.[6]

Edward Bishop Elliot 

Sir Isaac Newton comentou algo que nos aponta para os sete tempos de Nabucodonosor como proféticos:

o Apocalipse de São João é escrito no mesmo estilo que as profecias de Daniel, e tem a mesma relação com elas que elas têm uma com a outra; de modo que todas elas juntas formam uma profecia completa e uma interpretação dela. A profecia é distinguida em sete partes sucessivas pela abertura dos sete selos do Livro que Daniel foi ordenado a selar (Daniel xii. 4, 9.) e, portanto, é chamada de Apocalipse ou Revelação de Jesus Cristo.[7]

Repito: se presumirmos que cada relato no livro de Daniel foi incluído para um propósito específico, não há como fugir da conclusão de que o sonho de Nabucodonosor no capítulo 4, assim como o capítulo 2 e os demais, está relacionado com o Cristo e, portanto, tem de tipificar algo maior. Cito mais uma vez Romanos 15:4:

Pois todas as coisas escritas anteriormente foram escritas para a nossa instrução, a fim de que, por meio da nossa perseverança e por meio do consolo das Escrituras, tivéssemos esperança.

Daniel interpretou o sonho como significando que o monarca perderia seu reinado por “sete tempos” (= 2520 dias) e então o teria de volta depois que humilhasse seu coração e percebesse que Deus era de fato o governante no Reino da humanidade, não no “reino de Babilônia”. Então Nabucodonosor realmente foi removido de seu reino por 7 anos judaicos. A maioria das pessoas pensaria que isso é tudo: Deus deu ao monarca um sonho e ele foi interpretado pelo profeta Daniel e então cumpriu-se exatamente como ele interpretou – o relato não tem serventia alguma para nós e fim da história. Entretanto, os Estudantes da Bíblia e muitos eruditos protestantes entenderam que o que aconteceu com Nabucodonosor não foi uma profecia para humilhar um rei do passado, mas um ato/drama profético que aponta para o governo de Cristo. Em outras palavras, a demência vivida por Nabucodonosor não foi o cumprimento da profecia no sonho, mas a dramatização profética de seu próprio sonho, assim como Jonas no ventre do peixe dramatizou os três dias que Cristo esteve na sepultura; Moisés dramatizou os 40 dias que Jesus ficou no ermo; Aitofel e Davi dramatizaram, respectivamente, Judas Iscariotes e Jesus Cristo; Isaque e Abraão dramatizaram o sacrifício de Jesus Cristo, etc.

Todos os relatos especiais das Escrituras Hebraicas – Abraão, Sara e Agar; Abraão e Isaque; Esaú e Jacó; José e seus irmãos; etc; – são atos/dramas proféticos, e isso fica ainda mais evidente nos livros dos profetas maiores, tais como Daniel, Ezequiel, Isaías e Jeremias.

Dissertação sobre dramas proféticos

As profecias nem sempre se limitam a palavras. Algumas profecias nem ao menos contém palavras, apenas a dramatização, como é o caso de Jonas no ventre do peixe. Ele tipificou Jesus Cristo na sepultura por 3 dias. É verdade que muitas vezes apenas palavras são ditas, mas em muitos outros casos a profecia é feita em caráter duplo: uma parte contém apenas palavras proféticas e a outra parte contém a dramatização feita pelo profeta. A dramatização é um recurso visual que torna a profecia mais real para a audiência. Isso ocorreu inúmeras vezes com Ezequiel, Jeremias e outros.

Para seu estudo pessoal, estude os seguintes textos e reflita em como a dramatização da profecia é feita em adição às palavras. Você consegue encontrar mais profecias com este caráter duplo? Não esqueça de compartilhar suas pesquisas nos comentários no final do artigo.

Dramatização

Palavras

Jeremias 18:3, 4

Jeremias 18:5-7

1 Reis 11:30

1 Reis 11:31

No caso de Ezequiel, muitas de suas profecias se cumprem em Apocalipse. A profecia sobre “a Casa”, de onde sai “água” em Ezequiel 47:1 se cumpre em Apocalipse 22:1. O mesmo ocorre em toda a profecia de Isaías, Daniel, Jeremias e outros – o cumprimento antitípico delas é em Cristo e na restauração de todas as coisas. Dizer que tais profecias apenas “nos lembram de lições”, mas que não se aplicam a nós, é heresia; esta é um pecado de desassociação. É inconsistente alguém afirmar que acredita nas Escrituras Sagradas e negar que as profecias – todas elas – culminem em um cumprimento maior em Cristo Jesus e na restauração de todas as coisas; é a mesma coisa que afirmar crer na Bíblia e ainda assim crer que Adão e Eva não existiram e que Charles Darwin estava certo em tudo que afirmou.

Em vista disso, minha conclusão é que os sete tempos de demência animalesca de Nabucodonosor não são o cumprimento das palavras no sonho, mas a dramatização do sonho. Tudo isso é uma só profecia sendo feita, não sendo cumprida. O relato é profético para nós, não apenas histórico. Nabucodonosor é um tipo profético de todo o domínio “animalesco” dos reinos gentios e os “sete tempos” são a duração da estátua no capítulo 2 e dos reinos animalescos no capítulo 7.

Raciocinemos um pouco. Quem se importa com esse rei governando os babilônios? A Bíblia não é um livro de história para Babilônia, mas um livro de esperança para o “Israel de Deus”, a igreja ou congregação. (Gálatas 6:16) Quem se importa se Nabucodonosor pastou por sete anos, sete dias ou sete meses e depois recuperou seu reino ou não? Isso não faz diferença nenhuma para o povo de Deus. Eu não poderia me importar menos com aquele rei soberbo. Com base em Romanos 15:4, o ponto que nos dá esperança é: Quanto tempo levará até que um filho de Davi se torne rei de “Israel” mais uma vez e por fim assuma o “Reino da humanidade”? Assim, não vejo motivos para não entender o sonho da árvore como profético para o povo de Deus. Se olharmos para o relato apenas como histórico, isso não nos dá esperança alguma, mas se o enxergarmos como profético para o povo de Deus, isso sim nos dá esperança!

Em vista disso, são justificadas as palavras de Edward Bickersteth (1786-1850): “Tenha em mente o grandioso fim de todas as profecias, Jesus Cristo.” [8]

Conclusão

             A análise aqui apresentada não responde a todas as questões e não creio que eu esteja habilitado para responder a todas as questões. Portanto, não tencionei explicar o sentido profético do sonho da árvore. Contudo, o que ficou provado aqui é que a ideia proposta pelo pastor evangélico, a saber, de que ‘precisa ser muito ignorante’ para afirmar que o sonho da árvore de Nabucodonosor representa algo maior em Cristo, é em si mesma uma expressão de ignorância.

             Será que todos os estudiosos citados eram ignorantes? Claro que não. Eles sabiam exatamente o que estavam defendendo. Infelizmente, o protestantismo abandonou a visão de que a Bíblia inteira é inspirada por Deus e passou a encarar as Escrituras apenas como um livro de ética. Em resultado disso, o entendimento defendido pela elite do protestantismo no século 19 foi abandonado.

             O meu desejo é que a profecia volte a ser estudada com respeito e fé inquebrantável. Espero que esta análise incentive você, leitor, a ir além do leite espiritual e a buscar o alimento sólido. Rejeite a heresia tão propagada atualmente de que tudo que podemos aprender dos livros proféticos são “lições de fé”. Isso rebaixa as Escrituras Sagradas ao nível de um livro de ética.

             Não se engane: a Bíblia é um livro de profecias e de esperança para o povo do Soberano Senhor Jeová.


Notas:

[1] Grupo fundado por C.T. Russell cujo grande parte de seus membros posteriormente assumiu o nome de “Testemunhas de Jeová”.

[2] Optei por não citar a fonte.

[3] Na época desses autores, a palavra inglesa mystical, ou “místico”, era comumente usada para se referir a simbolismos proféticos, e não tem relação nenhuma com misticismo, conforme usamos o termo atualmente.

[4] The Even Tide or Last Triumph, Londres, 1823, p. 133.

[5] Edward Bishop Elliot, Horae Apocalypticae, A Commentary on the Apocalypse, Critical and Historical, Including also an examination of the chief prophecies of Daniel. (Volume 3, 5ª edição, p. 270-1, nota)

[6] Ibid. Volume 4, 5ª edição, p. 239.

[7] Apud A Practical Guide to the Prophecies (1835), de Edward Bickersteth, p. 191.

[8] A Practical Guide to the Prophecies (1835), p. 25.


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