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domingo, 15 de janeiro de 2023

Theós sem artigo e a expressão “a Palavra era divina” são erros de tradução?


 

Contribuído.

 

Um professor, em um vídeo na internet, afirma com todas as letras que a tradução “era divina” com referência ao Lógos não é correta. Aqui nós temos uma declaração que vai na contramão de alguns especialistas no grego koiné e, pior ainda, são trinitaristas – então fica a pergunta: Quem está certo? Exemplos:

 

Lourenço Stelio Rega, Bacharel em Teologia pela Faculdade Teológica Batista, em sua obra “Noções do Grego Bíblico”, na página 168, admite que a referência ao Lógos significa que ele era de qualidade ou essência divina; sendo assim, a tradução “era divina” não está errada, como alega o referido professor.

Lourenço Stelio Rega

Jason BeDuhn, Professor Associado de Estudos Religiosos, na Universidade do Norte do Arizona, diz explicitamente: “A conclusão definitiva é que ‘A Palavra era um deus’ é exatamente o que o grego diz. ‘A Palavra era divina’ é um possível significado desta frase grega.”


Jason BeDuhn

Waldir Carvalho Luz (Doutor em Filosofia pelo Princeton Theological Seminary, Estados Unidos, lecionou Grego e Hebraico no Seminário Presbiteriano em Campinas e foi autor de diversas obras, entre elas a gramática grega Manual de Grego Neotestamentário e a tradução Interlinear do Novo Testamento Grego.  Na sua obra Novo Testamento Interlinear admite que uma alternativa seria “a palavra era divina”.


Waldir Carvalho Luz

O Dr. William Barclay (que é cristoteista), erudito bastante respeitado na área, disse: “Quando o artigo definido é removido de um substantivo em grego, como em inglês, o substantivo se torna o equivalente a um adjetivo.”


William Barclay

Ray Summers, professor do Seminário Teológico Batista do Sul, explica: “Com efeito, [a ausência do artigo definido na segunda instância de Theós] dá uma qualidade adjetiva ao segundo uso de Theós (Deus), de modo que a frase significa ‘A Palavra era divina.’” – Ray Summers, Essentials of New Testament Greek, Nashville: Broadman Press, 1950,129-130.

Quem são esses homens? Quem são Lourenço Stelio, Jason Beduhn, Waldir Carvalho Luz, por exemplo? São teólogos protestantes e, diga-se de passagem, autores de obras conhecidas sobre o grego bíblico, e isso não é um apelo à autoridade. Mas, quais são as credenciais do professor YouTuber?

Bem, prossigamos. Poderia citar outros, mas a pergunta é: Por que teólogos respeitados fariam as afirmações transcritas acima, já que não são unitaristas? Você e outros jamais poderia alegar que é por ter alguma ligação com as Testemunhas de Jeová, sendo assim a afirmação do professor em que descarta totalmente a tradução era divina pode ser questionada.

ATRIBUTIVO e PREDICATIVO

O referido professor usa o termo “atributivo” inúmeras vezes em lugar do correto “predicativo”, o que gera comicidades, tais como tentar diferençar “atributivo” de “adjetivo”, mas será que realmente são coisas distintas? Não! Não são coisas distintas – um é um tipo do outro.

Mas como “atributivo” também é um tipo de “predicativo”, vamos pensar que ele usou o termo correto: “predicativo”. Ainda assim vemos o erro grosseiro, que é insistir no óbvio fato de que theós é um substantivo e não um adjetivo; ele demonstra ignorância de uma diferença gramatical elementar: a diferença entre morfologia e sintaxe. “Adjetivo” e “substantivo” são classes (categorias) morfológicas, ao passo que “predicativo” é uma categoria sintática. E o cidadão confunde alhos com bugalhos. O fato gramatical, que ele desconhece, é que tanto um adjetivo quanto um substantivo podem exercer a função sintática de predicativos e – atente agora – SER EQUIVALENTES. Observe nos seguintes exemplos que TODAS as últimas palavras de cada oração são predicativos:

Fulano é um primor (substantivo), Fulano é primoroso (adjetivo); o quadro era uma beleza (substantivo), o quadro era belo (adjetivo); o quarto estava uma bagunça (substantivo), O quarto estava bagunçado (adjetivo). Notamos assim que é indiferente que um predicativo seja um substantivo ou um adjetivo, pois são equivalentes. Assim:

“A palavra era um deus.”

“A palavra era divina.”

Nas duas orações a última palavra é um predicativo, ainda que na primeira seja um substantivo e na segunda um adjetivo. São equivalentes. Para esclarecer de uma vez por todas: imagine que um tradutor precisa traduzir do português para o inglês a seguinte frase: “O quadro é uma beleza”

Como traduziria? Pode ser: “the painting is a beauty”. Ou, melhor ainda: “the picture is beautiful” (usando um adjetivo no lugar do substantivo, mas com o mesmo sentido). Não podemos ainda deixar de ressaltar que um substantivo anartro com função predicativa equivale a um substantivo indefinido nessa função e pode, com toda a naturalidade, ser trocado por um adjetivo. Exemplo.

José é homem. Isso equivale a dizer: José é um homem que, por sua vez, equivale a dizer: José é macho (ou: “viril”, “másculo”, “varonil”, “masculino” – todos adjetivos referentes ao substantivo “homem”).

Sendo assim todo esforço que o nobre professor fez para desqualificar a tradução a palavra era divina foi um desastre.

JOÃO 1:1 e GENESIS 1:1 

Um outro problema, que também é de lógica, é que, se ele reconhece ou admite que a expressão “no princípio” é uma referência a Gênesis; e, ao mesmo tempo, reconhece que ali em Gênesis fala da criação dos céus [como firmamento e não mundo espiritual] e da Terra, segue-se que não somente Jesus já estaria com Deus nessa narrativa, mas também, em certo sentido, todas as hostes celestiais já estariam.

Portanto, a defesa dele de eternidade para Jesus perde a força. E isso se concluiria não pelo verbo empregado, mas pela associação, feita por ele mesmo, do princípio de João 1.1 com o princípio de Gênesis 1.1. Logo, o aspecto verbal não é tudo e não determina tudo.

DEUS DEU A IGREJA PASTORES E MESTRES

Ele faz uso da falácia da autoridade e do ad populum ao sugerir que Deus deu à igreja pastores e mestres e que devemos segui-los. Mas o problema é: a quais pastores e mestres devemos seguir? Da linha teológica que ele abraça? Ele segue os padres e doutores católicos ou os pastores e doutores protestantes? Pois eles divergem entre si em diversos pontos. Quais dos que divergem entre si ele dirá que foi “Deus quem deu à igreja”? Se segue a um grupo e não a outro, o que o levou a escolher um e não o outro?

Se houve superintendentes (bispos, pastores), da antiguidade, que afirmaram o cristoteísmo, houve, também, os que afirmaram o monoteísmo estrito. Então, o autor do vídeo não pode dizer que os mestres antigos da igreja não ensinaram o verdadeiro monoteísmo. Podemos citar uma significativa quantidade desses bispos unitarianos.

 

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org

 



Um comentário:

  1. Gostei do artigo. Acho que poderia ser mais direto sobre o YouTuber em questão. Poderia colocar o link e transcrever algumas frases. Isso dá mais realidade ao texto.

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