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quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Por que a Tradução do Novo Mundo coloca espírito santo com iniciais minúsculas?




Um leitor escreveu:

Prezados amigos, eu vejo muitos ataques contra a Tradução do Novo Mundo porque ela usa letras minúsculas em algumas passagens do Novo Testamento. Mas em hebraico, aramaico e grego não tem letras maiúsculas ou minúsculas, nem acento e nem capítulos e versículos.

Resposta:

Em primeiro lugar, é importante destacar que o uso de inicial maiúscula não determina forçosa e estritamente a pessoalidade. Pode ser usado para coisas impessoais, desde que se trate de um nome ou de um título. Exemplo disso temos com referência às constelações alistadas em Jó 9:9:

“O que fez a Ursa, o Órion, e o Sete-estrelo [“Plêiades”, ARIB, SBB, NVI], as recâmaras [“constelações”, NVI] do sul.” – ACF.

Dentro deste viés, a expressão grega pneúma hágios poderia ser traduzida por “Espírito Santo” (com iniciais maiúsculas), e mesmo assim isso não indicaria forçosamente a suposta pessoalidade dele. Porém, isso esbarraria gramaticalmente em outro aspecto: pneúma hágios teria que ser um título. Contudo, essa possibilidade não parece ter sustentação. Pneúma hágios parece mais um termo descritivo da energia procedente de Deus e não um título. Por estas razões, a Tradução do Novo Mundo traduz pneúma hágios como “espírito santo” (com iniciais minúsculas).

Mesmo que seja encarado como um título, e por este motivo seja traduzido como “Espírito Santo” (com iniciais maiúsculas), isso não implicaria forçosamente em pessoalidade. Isso é comprovado pelo título dado a Jerusalém em Isaías 1:26:

“Então Jerusalém será chamada de ‘Cidade da Justiça’ e ‘Cidade Fiel’.” – NTLH; veja também NAA e TB.

As expressões atribuídas a Jerusalém, se encaradas como títulos e não mera descrição, são corretamente expressas nas traduções com iniciais maiúsculas. Mas isso não faz de Jerusalém uma pessoa, visto tratar-se de uma cidade.

Porém, os trinitaristas traduzem pneúma hágios com iniciais maiúsculas não por apenas entenderem tratar-se de um título, ou nome, mas por encararem pneúma hágios como sendo uma Pessoa divina – a suposta Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Contudo, um estudo tanto do texto grego como um exame semântico da expressão pneúma hágios mostra que a expressão “espírito santo” com iniciais minúsculas é tanto textual, gramatical como biblicamente correta.

O uso de maiúsculas e minúsculas no texto grego do Novo Testamento

Com relação aos tipos de escrita usados no texto grego do Novo Testamento, a obra “Critica textual do Novo Testamento” (pp. 31-32) afirma:

Os mais antigos mss. [manuscritos] do NT estão escritos na forma de escrita usualmente empregada nos documentos mais literários: a escrita uncial, também chamada maiúscula. Nas inscrições oficiais, essas letras eram grandes e regulares, destacadas umas das outras. Nos mss., diferem das unciais das inscrições basicamente pela forma mais arredondada de certas letras e por haverem sido escritas mais rapidamente; contudo, também não são ligadas umas às outras, não há espaço entre as palavras, não há pontuação, e as abreviações limitam-se a um setor bem definido de palavras. A forma da escrita e bela é de fácil leitura, mas exige tempo e espaço. Havia também outro tipo de escrita, caracterizada por letras menores geralmente ligadas umas às outras e por isso chamada cursiva, onde ocorriam ainda muitas contrações e abreviações. Era usada apenas em escritos corriqueiros, como cartas de família, recibos, contratos, testamentos e outros. Como não dispomos, porém, de nenhum dos autógrafos [escritos originais] do NT [Novo Testamento], apenas podemos supor, com base nos usos da época e nas cópias mais antigas que sobreviveram, que eles foram escritos em escrita uncial. O. Roller destaca ainda que, por ser um tanto áspero, o papiro dificultava o emprego da cursiva, em que várias letras eram traçadas sem que a pena fosse erguida. – Negrito acrescentado.


  
Ainda com relação à forma de escrita usada no texto grego do Novo Testamento, lemos na obra Estudo Perspicaz das Escrituras:

O estilo mais antigo (empregado especialmente até o nono século EC) é o manuscrito uncial, escrito em grandes letras maiúsculas, separadas. Nele não costuma haver separação de palavras, e faltam pontuação e acentos. O Códice Sinaítico é tal manuscrito uncial. Mudanças no estilo de escrita começaram a surgir no sexto século, o que eventualmente levou (no nono século EC) ao manuscrito cursivo, ou em minúsculas, escrito em letras menores, muitas delas emendadas num estilo de escrita corrente ou fluente. A maioria dos manuscritos existentes das Escrituras Gregas Cristãs têm escrita cursiva. Os manuscritos cursivos [letras pequenas] permaneceram em voga até a invenção da imprensa. – Volume 2, p. 756, verbete “Manuscritos da Bíblia”; negrito acrescentado.




Assim, o texto do Novo Testamento grego foi escrito primariamente com as letras em maiúsculo (unciais), e posteriormente com as letras em minúsculo (estilo cursivo).

Manuscrito uncial. Códice Sinaítico. Lucas 11:2.


Com relação à quantidade de manuscritos unciais e cursivos existentes, a obra “Toda a Escritura é Inspirada por Deus e Proveitosa” comenta:

The New Bible Dictionary (O Novo Dicionário da Bíblia) fala de 274 manuscritos unciais das Escrituras Gregas Cristãs, e esses datam do quarto ao décimo século EC. Daí, existem mais de 5.000 manuscritos cursivos, ou minúsculos, feitos num estilo contínuo de escrita. – “Estudo número 6 — O texto grego cristão das Escrituras Sagradas”, p. 317, parágrafo 16; negrito acrescentado.


Em sua monografia de Doutorado em Letras/Linguística, Marcos Souza afirma:

Na época em que os originais foram escritos e conforme atestado pelos manuscritos existentes, não havia tal diferenciação [em inicial maiúscula ou minúscula] na língua grega escrita. Os textos gregos eram escritos utilizando-se somente maiúsculas (chamada de escrita uncial) e sem separação entre as palavras. Somente alguns séculos mais tarde introduziram-se as minúsculas, a separação entre palavras e a prática de iniciar algumas palavras por letra maiúscula. A rigor, a introdução de maiúsculas na tradução interlinear corresponde a uma determinação a priori de interpretação do tradutor, em detrimento da integridade do original que não apresenta tal diferenciação.[1] – Negrito acrescentado.

Como explicou acima o autor, o uso de iniciais maiúsculas é questão de “interpretação do tradutor”. Assim, não há obrigatoriedade textual para que os tradutores do Novo Testamento grego vertam pneúma hágios com iniciais maiúsculas.

O espírito santo

Quanto ao uso de substantivos com iniciais maiúsculas, veja o que diz a revista A Sentinela de 1.º de novembro de 1974:

[…] cabe ao tradutor decidir que uso fará delas. Assim, os que creem que o espírito santo seja a terceira pessoa duma Trindade naturalmente darão iniciais maiúsculas a “Espírito Santo”, como em Atos 1:8, que reza ([Tradução] Brasileira): “Recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo.” Mas o que lemos no próprio relato sobre o cumprimento das palavras de Jesus? “Acontecerá nos últimos dias . . . que derramarei do meu espírito sobre toda a carne.” (Atos 2:17, [Tradução] Brasileira) Onde está a inicial maiúscula? Não é usada! Por que não? Porque Deus não pode derramar uma parte dum Deus coigual; “espírito”, conforme usado aqui, claramente não se pode referir a uma pessoa. Visto que este texto se relaciona com o que Jesus predisse em Atos 1:8, deve seguir-se que ele não falava duma pessoa quando disse que seus apóstolos receberiam espírito santo, e, assim, em Atos 1:8, tampouco se deviam usar maiúsculas iniciais.

Tudo isso está em harmonia com as palavras de João Batista, de que, ao passo que ele batizava com água, o Vindouro ‘batizaria com espírito santo’. (Mar. 1:8) Não se pode batizar com outra pessoa, mas pode-se batizar outros com água ou com uma força ativa, aquilo que o espírito santo de Deus é. Sim, os tradutores precisam deixar que o restante da Palavra de Deus os dirija quando há uma escolha entre traduções. – P. 667.

Percebe-se, portanto, que os tradutores trinitários usam “Espírito Santo” com iniciais maiúsculas a fim de promover sua doutrina trinitária, mas contraditoriamente colocam “espírito” como inicial minúscula, mesmo se a referência for ao espírito santo, quando o texto bíblico torna claro que o espírito santo é uma energia em operação.

O artigo “Falsa Exegese na interpretação do ‘Espírito Santo’” explica o uso que a Tradução do Novo Mundo faz de iniciais minúsculas para o “espírito santo”:

Por entenderem que o tal “Espírito” é uma força, ou energia impessoal, os [que defendem a impessoalidade] do “Espírito Santo” usam tal expressão com iniciais minúsculas: “espírito santo”.

Um dos textos usados para embasar a impessoalidade do espírito santo é 2 Coríntios 3:17, que usa a expressão “Espírito do Senhor” (Al, ACRF, ARA, IBB). Sobre essa expressão, o artigo acima explicou:

Uma vez que este … espírito é do Senhor – ou seja, a ele pertence; é sua propriedade – tal “Espírito” (ainda que colocado com inicial maiúscula) não pode ser o próprio Senhor (Deus). Atos 2:17 declara: “E acontecerá nos últimos dias, diz o Senhor [“Deus”; Al, ACRF], que derramarei do meu Espírito sobre toda a carne.” (ALA, IBB) Uma vez que Deus diz “do MEU Espírito”, ele está se referindo a algo dele, que lhe pertence, mas não a ele próprio, pois ele não disse: ‘derramarei a mim mesmo’. Pelo visto, por essa razão, há traduções que colocam “espírito” com inicial minúscula nesse texto. (The New American Bible; Sociedade Bíblica Britânica) Trata-se cristalinamente da energia que dele emana, Seu espírito santo ou força ativa.

Como mostrou o artigo Mateus 28:19 apoia a Trindade?”, falta ao espírito santo a identificação como pessoa. O supracitado artigo comentou:

Pois, na questão de nome pessoal, o Pai tem essa identificação: seu nome é Jeová. (Salmo 83:18) O Filho também tem tal identificação: seu nome é Jesus Cristo. (Mateus 1:1) No entanto, o espírito santo não tem nome pessoal na Bíblia. “Espírito santo” não é nome pessoal; é um termo descritivo. Deus, o Pai, é Espírito, e é santo. (João 4:24; 17:11) Portanto, ele é um espírito santo pessoal. Jesus, o Filho, também é espírito, e é santo. (1 Pedro 3:18; João 6:69) Os anjos de Deus são todos espíritos, e são santos. (Hebreus 1:7; Marcos 8:38) Assim, todos esses são espíritos santos pessoais. Para que o “espírito santo” seja uma pessoa, ele teria de ter um nome pessoal para distingui-lo dos demais espíritos santos pessoais que existem. Mas, falta-lhe tal identificação como pessoa. Uma vez que, na Bíblia, a palavra “espírito” é polissêmica, isto é, tem vários significados (dos seis significados, cinco se referem a coisas impessoais), tal ausência de identidade pessoal coloca o espírito santo coerentemente como algo impessoal, que outras passagens tornam claro ser a força procedente de Deus, que Ele usa para realizar Sua vontade. – Negrito acrescentado.

Por todos os motivos acima, a tradução de pneúma hágios como “espírito santo” (com iniciais minúsculas) tem total embasamento textual, gramatical e bíblico.


Explicação das siglas usadas:

Al: Almeida Revista e Corrigida.
ACF, ACRF: Almeida Corrigida Fiel.
ALA: Almeida Atualizada.
ARIB: Almeida Revisada Imprensa Bíblica.
IBB: Almeida da Imprensa Bíblica Brasileira.
NAA: Nova Almeida Atualizada.
NVI: Nova Versão Internacional.
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
SBB: Sociedade Bíblia Britânica.
TB: Tradução Brasileira.


Nota:
[1] SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA. 


Referências:
Paroschi, Wilson. Critica textual do Novo Testamento. — São Paulo: Vida Nova, 1993.
SOUZA. Marcos. ERA O VERBO UM DEUS? – ANÁLISE DE JOÃO 1:1 A PARTIR DA TEORIA DA RELEVÂNCIA.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


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