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domingo, 27 de março de 2022

O que é Lilith em Isaías 34:14?

Isaías 34 profetiza o fim do povo de Edom, que ficava nas montanhas ao sul do mar Morto. Fonte: jw.org

Um fábula judaica da Idade Média (séculos 8 e 10 depois de Cristo) afirmou que Lilith foi a primeira esposa de Adão. Embora a palavra Lilith apareça em registros sumérios, tais escritos não afirmam que Lilith tenha sido a esposa de Adão. Longe disso, ela é descrita como um ser espiritual e não humano. (Veja o artigo “Adão teve uma esposa chamada Lilith?”)

A palavra Lilith aparece somente uma vez na Bíblia Sagrada, no texto de  Isaías 34:14. Os judeus que traduziram o texto hebraico para o grego na versão Septuaginta (terceiro segundo séculos antes de Cristo) verteram Lilith por onokentauros (um ser híbrido da mitologia grega, metade jumento e metade homem). Segundo consta, a primeira menção a um onocentauro parece remontar a Pitágoras, do sexto século antes de Cristo, citado por Cláudio Aélio, em De Natura Animalium.[1] E Jerônimo, que produziu a Vulgata, tradução oficial para o latim, verteu por lâmia — um demônio feminino popular do imaginário greco-romano.

A Septuaginta e a Vulgata atribuem a Lilith um significado mitológico.

Assim, tanto os tradutores da Septuaginta como o tradutor da Vulgata latina interpretaram o termo Lilith como sendo uma referência a um ser mitológico, lendário, ou do mundo espiritual, e não a um ser do mundo material, como um animal. Seguindo no mesmo caminho, diversas traduções verteram de modo a indicar que o profeta Isaías se referia a um ser mitológico, ou a um demônio. Observe isso nas traduções abaixo:

“O monstro da noite.” – NASB 1995, 1977, ASV, GNT, JPS Tanakh 1917.

 “Lilith (demônio da noite).” – AB, NRSV.

“Fantasmas.” – ARA.

“Espectro noturno.” – AM.

“Um demônio feminino da noite.” – Aramaic Bible in Plain English (Peshitta Holy Bible Translated).

“O sátiro.”  – ERV, WBT.

“A lâmia.” – DR.

“A Lamia.” – BB 1568.

A Bíblia de Jerusalém verte por “Lilit”, e na nota de rodapé afirma que “Lilit é demônio feminino que frequenta as ruínas”.

Nos manuscritos do Mar Morto, mil anos mais antigos do que o texto hebraico Massorético, entre os dezenove fragmentos de Isaías que foram encontrados em Qumran, inclusive o grande rolo de Isaías, no texto de 34:14 a palavra Lilith está no plural (liloth), indicando que não se tratava de uma pessoa, mas de um coletivo de seres vivos. Tanto que a International Standard Version verte por “Liliths” (no plural). Então, o que significa Lilith em Isaías 34:14?

Associado com animais do deserto

Nesse trecho o profeta Isaías prevê a completa destruição de Edom, de modo que apenas bestas habitarão os escombros, incluindo hienas, bodes e liloth. A tradução de Darby verte assim Isaías 34:14: “E ali os animais do deserto se encontrarão com os chacais, e o bode selvagem clamará ao seu companheiro; a lilith também se estabelecerá ali, e achará para si um lugar de descanso.” Observe o leitor que o termo lilith é mencionado em conexão com animais.

Observe o seguinte comentário feito sobre como Peter D. Quinn-Miscall[2] traduz Isaías 34:14:

As traduções de Quinn-Miscall de algumas passagens-chave em Isaías são linguisticamente possíveis. No entanto, eles são exegeticamente e contextualmente improváveis. Um exemplo é sua tradução de Isaías 34:14: “Demônios se encontram com fantasmas, e um animal peludo chama seu amigo. De fato, lá Lilith [um demônio feminino] repousa e encontra descanso para si mesma.” Ele interpreta “moradores do deserto” (צִיִּים֙) como significando “demônios”. É também assim que a LXX [Septuaginta] interpreta essa difícil passagem (“κα συναντήσουσι δαιμόνια νοκενταύροις LXX). A verdadeira questão, porém, é Lilith (לִּילִ֔ית). A palavra aqui é hapax. E tomá-lo como um demônio feminino está indo além de Isaías e entrando na lenda. A explicação do Novo Dicionário Internacional de Teologia e Exegese do Antigo Testamento é provavelmente a melhor: “É provável que לִילִית‎ [Lilith] fosse um animal real do deserto, um morcego ou uma coruja, que foi animicamente dotado de qualidades demoníacas por adoradores pagãos supersticiosos. A referência de Isaías, no entanto, não faz de ‏לִילִית‎ o objeto de adoração. Em vez disso, o termo é usado para simbolizar a próxima desolação do julgamento” (NIDOTTE, 2:788).[3] – Negrito acrescentado.

Em harmonia com o comentário acima, a obra Estudo Perspicaz das Escrituras (volume 1, p. 574, verbete “Coruja (mocho)” declarou:

Alguns peritos acreditam que o termo li·líth, usado em Isaías 34:14 como estando entre as criaturas que frequentariam as ruínas de Edom, aplica-se a algum tipo de coruja. Diz-se que o nome é hoje usado “para Strix, a coruja fulva”. (The Interpreter’s Dictionary of the Bible [O Dicionário Bíblico do Intérprete], editado por G. A. Buttrick, 1962, Vol. 2; p. 252) Todavia, veja o artigo CURIANGO (NOITIBÓ).

No verbete “Curiango (noitibó)”, (volume 1, p. 626) da mesma obra, encontramos o seguinte texto:

Muitos peritos esforçam-se a mostrar que o termo hebraico é uma palavra tomada do antigo sumeriano e acadiano, e que deriva do nome duma mitológica demônia do ar (Lilitu). O Professor G. R. Driver, porém, considera que a palavra hebraica (li·líth) deriva dum radical denotando “toda espécie de movimento de torcedura ou objeto retorcido”, assim como a palavra hebraica lá·yil (ou laí·lah), significando “noite”, sugere “enrolar-se ao redor de ou envolver a terra”. Esta derivação de li·líth, sugere ele, provavelmente indica o curiango (ou noitibó), tanto como ave que se alimenta à noite, como notável pelo seu rápido voo de contorção e reviravolta, ao perseguir traças, besouros e outros insetos de voo noturno. Conforme citado por Driver, o naturalista Tristram descreveu os curiangos como “bem ativos ao anoitecer, quando caçam como o falcão a grande velocidade e dão intricadas reviravoltas ao procurar seu alimento”. — Palestine Exploration Quarterly (Revista Trimestral sobre a Exploração da Palestina), Londres, 1959, pp. 55, 56. (Negrito acrescentado.) 

Cambridge Bible for Schools and Colleges afirma que “o hebr. é Lîlîth , uma forma feminina de Iáil (‘noite’)”. Embora a maioria dos comentaristas bíblicos pesquisados associe Lilith com a mitologia, Gill’s Exposition tece o seguinte comentário:

[…] a coruja também descansará lá, e achará para si um lugar de descanso; não havendo habitantes para perturbá-la. Pelo nome "Lilith", parece ser um pássaro noturno, que voa e é ouvido na noite. 

De modo similar, Pulpit Commentary afirmou: “A palavra é provavelmente um derivado de leilah, noite.” A maioria dos lexicógrafos pesquisados costuma relacionar Lilith com a mitologia. Alguns, porém, numa segunda definição, reconhecem que “pode ser um animal noturno que habita lugares desolados” (Brown-Driver-Briggs). Strong’s (Dicionário Hebraico e Caldeu do Antigo Testamento) assim explica o termo: לִילִית lîylîyth, lee-leeth’; de H3915 ; um espectro noturno:—coruja.

Sobre essa interpretação de Lilith com seres mitológicos ou demoníacos, a “Definição Hebraica e Caldeia de Gesenius” teceu o seguinte comentário:

Tudo isso é totalmente absurdo quando associado com a natureza de algo real mencionado nas Escrituras. […] É realmente lamentável que alguém possa associar a palavra de Deus com tal absurdo; muitos entendem que a criatura noturna mencionada é simplesmente a coruja. – Negrito acrescentado.

Um dicionário de hebraico bíblico de um site da Bíblia Hebraica dá como primeira definição a de uma ave, e somente numa segunda definição menciona a interpretação mitológica, explicando que tal ideia deriva do Talmude:

Hebraico

LYLYT (לִּילִית)

Fem./Plural:
Transliteração: lilit
Tradução: coruja; môcho; demônio, diaba

Obs: Lilit: Rainha dos demônios (no Talmud)[4]

O Talmude não tem credibilidade, visto que contém lendas absurdas. Uma delas, contada pelo Talmude Palestino (de Jerusalém) é a de que, quando os israelitas estavam adorando o bezerro de ouro, “Deus tentou arrebatar as tábuas das mãos de Moisés; mas as mãos de Moisés eram tão fortes, que ele as arrebatou Dele”! A fábula prossegue dizendo que, então, “as letras saíram voando” das tábuas; em resultado, como ‘a escrita sustentava as letras’, as tábuas “tornaram-se pesadas demais para as mãos de Moisés e caíram, e se quebraram”. Longe de apresentar tal disparate, a Bíblia contém o relato cândido do que realmente aconteceu, em Êxodo 32:19, que declara: “Assim que Moisés chegou perto do acampamento e viu o bezerro e as danças, a sua ira se acendeu, e ele jogou no chão as tábuas que estavam nas suas mãos, despedaçando-as ao sopé do monte.”[5]

Traduções que reconhecem que Lilith se refere a um ser vivo material

“Os animais noturnos.” – ACF, ARC, NAA, NHEB.

“As criaturas da noite.” – NIV, CEV; NVT.

“Criaturas noturnas.” – NVI, NLT.

“O pássaro noturno.” – ESV.

“A coruja.” – KJ, HCSB.

“A coruja da noite.” – YLT.

“A criatura da noite.” – BSB, NKJ, WEB.

“Os pássaros noturnos.” – CSB.

As aves noturnas (nota: Ou: ‘os curiangos’)”. NM 2015.

“O curiango (nota: ‘Hebr.: li·líth; provavelmente uma ave noturna’).” NM Com Referências.

Alguns tradutores preferiram não traduzir:

“A Lilith.”  NAB, Db, NETB.

“Lilite.” – ARIB.

“Lilit.”  BP.

Conclusão

O fato de a palavra Lilith estar no plural, e ser associada com animais do deserto, num contexto da destruição de Edom, bem como sua derivação da palavra hebraica para “noite”, e de seu radical que indica movimento de contorção e reviravolta, parecem indicar que se trata realmente de uma ave noturna, possivelmente o curiango.

O curiango se harmonia com o sentido do radical e da origem da palavra lilith. Fonte: https://meioambiente.culturamix.com/

 

Notas:

[1] Onocentauro. Google Arts & Culture. https://artsandculture.google.com/entity/m0403qlc?hl=pt

[2] Peter D. Quinn-Miscall é membro adjunto do corpo docente da Iliff School of Theology em Denver e do Aquinas Institute of St. Louis. 

[3] READING ISAIAH. Wisconsin Lutheran Seminary. Disponível em: <https://www.wisluthsem.org/reading-isaiah/>. 

[4] Dicionário Hebraico. Disponível em: <https://hebraico.pro.br/r/bibliainterlinear/texto.asp?g=1,2&gb=1e2,2&s=ISAIAS&p=34#versiculo1>.

[5] Estudo Perspicaz das Escrituras (volume 1, p. 928,  verbete “Fábulas”).


Siglas usadas: 

AB: Amplified Bible.

ACF: Almeida Corrigida e Revisada Fiel.

AM: Ave Maria (tradução católica).

ARA: Almeida Revista e Atualizada.

ARC: Almeida Revista e Corrigida.

ARIB: Almeida Revisada Imprensa Bíblica.

ASV: American Standard Version.

BB 1568: Bishops’ Bible de 1568.

BP: Bíblia Pastoral.

BSB: Berean Study Bible,

CEV: Contemporary English Version.

CSB: Christian Standard Bible.

Db: The ‘Holy Scriptures’ (Edição de 1949), de John Nelson Darby.

DR: tradução da Bíblia da Vulgata latina para o Inglês feita por membros do Colégio católico Inglês Douay. O Novo Testamento parte foi publicada em Reims , França, em 1582.

ERV: English Revised Version.

ESV: English Standard Version.

GNT: Good News Bible.

HCS: Holman Christian Standard Bible.JPS Tanakh 1917: Jewish Publication Society AT, ed. 1917.

NAA: Nova Almeida Atualizada.

KJ: King James Version.

NAB: The New American Bible.

NAS 1995, 1977: New American Standard Bible.

NETB: NET Bible.

NHEB: New Heart English Bible.

NIV: New International Version.

NKJ: New King James Version.

NLT: New Living Translation.

NM Com Referências: Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências ed. 1986.

NM 2015: Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada.

NRSV: New Revised Standard Version Catholic Edition.

NVI: Nova Versão Internacional.

NVT: Nova Versão Transformadora.

WBT: Webster's Bible Translation. Tradução de Noah Webster, século 19.

WEB: World English Bible.

YLT: Young's Literal Translation. 


Referências:

Isaías 34:14. Bible Hub. Disponível em:  https://biblehub.com/commentaries/isaiah/34-14.htm>.

______. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/isaiah/34-14.htm>.

______. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/parallel/isaiah/34-14.htm>.

______. Bíblia Pastoral. Disponível em: <http://www.paulus.com.br/biblia-pastoral/_POF.HTM>.

______. Hebraico Pro. Disponível em: <https://hebraico.pro.br/r/bibliainterlinear/texto.asp?g=1,2&gb=1e2,2&s=ISAIAS&p=34#versiculo1>.

______. Septuaginta. Disponível em: <https://www.academic-bible.com/en/online-bibles/septuagint-lxx/read-the-bible-text/bibel/text/lesen/stelle/23/340001/349999/ch/7e660841bde7bed589b68a6aab8ceec3/>.

______. Vulgata. Disponível em: <https://bibliaestudos.com/vulgata/isaias/34/>.

Isaías 34. Versão Fácil de Ler. Disponível em: <https://www.bible.com/pt/bible/200/ISA.34.VFL>.

Lilith. Bible Lexicons. Study Light. Disponível em: <https://www.studylight.org/lexicons/eng/hebrew/3917.html>.

______. Blue Letter Bible. Disponível em: <https://www.blueletterbible.org/lexicon/h3917/kjv/wlc/0-1/>.

______. Greek/Hebrew Definitions. Bible Tools. Disponível em: <https://www.bibletools.org/index.cfm/fuseaction/Lexicon.show/ID/H3917/liyliyth.htm>.

______. Hebrew Dictionary (Lexicon-Concordance). Disponível em: <http://lexiconcordance.com/hebrew/3917.html>.

______. Knowing Jesus. Disponível em: <https://bible.knowing-jesus.com/strongs/H3917>.

______. Strong's Hebrew Lexicon. Disponível em: <https://studybible.info/strongs/H3917>.

______. 3917. Liyliyth. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/hebrew/3917.htm>.

Lilith, uma mulher que teria sido criada antes de Eva. Veritatis Splendor. Bíblia Católica News. 18 de Março de 2007 22:51. Disponível em: <https://www.bibliacatolica.com.br/blog/Lilith-uma-mulher-que-teria-sido-criada-antes-de-eva/#.YjaiFOrMLrc>.

 

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domingo, 20 de março de 2022

Adão teve uma esposa chamada Lilith?

Adão teve outra esposa além de Eva?
 Fonte: A Vida - Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação? Pág. 34

Alguns afirmam que uma parte da história da origem da humanidade foi eliminada por uma intervenção do Judaísmo patriarcal e também da Igreja Católica no Concílio de Trento, do século 16. Segundo essa versão, Adão teve duas mulheres  a primeira teria sido Lilith, e Eva teria surgido depois. Os proponentes dessa versão apresentam argumentos a favor de que Lilith tenha sido a primeira mulher de Adão, e que este suposto fato tenha sido removido da Bíblia. Vamos dar atenção a esses argumentos. 

Existe base documental para a suposta historicidade de Lilith? 

Documentos extrabíblicos

Segundo os historiadores, o nome Lilith aparece em escritos sumérios no terceiro milênio antes de Cristo, e na Epopeia de Gilgamés, do sétimo século antes de Cristo. Segundo o historiador Rodolpho Bastos, que tem doutorado em história das religiões pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Brasil, existem variadas interpretações sobre Lilith, as quais procedem da tradição sumério-acadiana, de cerca de seis mil anos antes de Cristo. Conforme o especialista, Lilith era vista nesse período como um ser do domínio espiritual associado ao submundo das trevas.[1] Nenhum desses escritos mitológicos apresenta Lilith como um ser humano, muito menos como a esposa do primeiro homem, Adão.

Por outro lado, a Bíblia apresenta Adão e sua esposa Eva como seres inteiramente humanos. Lemos em Gênesis 2:7: “E Jeová Deus formou o homem do pó do solo e soprou nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem se tornou um ser vivente.” E ambos – o primeiro homem e a primeira mulher – são referidos como sendo seres de “carne”, e não espíritos. – Gênesis 2:24.

O primeiro escrito a falar de Lilith como sendo a primeira esposa de Adão foi o Alfabeto de Ben-Sira, uma ficção medieval com influências da comédia grega, produzido entre os séculos 8 e 10 depois de Cristo, que apresenta elementos fantasiosos, como a referida Lilith voando, transformando-se em um demônio e depois na serpente que enganou Eva. (O mesmo escrito de Ben-Sira fala do profeta  Jeremias como tendo nascido já falante e com dentes!) Contrário a esse conto imaginário, a Bíblia mostra que a serpente era um animal criado por Jeová, que foi usado por um anjo que se rebelou contra Jeová e que se tornou Satanás, o Diabo.  – Gênesis 3:1; Apocalipse 12:9.

O Concilio de Trento

O 19.º Concílio Ecumênico da Igreja Católica, reunido pelo Papa Paulo III, realizado de 1545 até 1563 na cidade de Trento, na Itália, teve por objetivo primário se opor à reforma protestante de Martinho Lutero, e nada tinha que ver com esconder textos para reforçar a submissão da mulher. A afirmação de que tal concílio eliminou partes da história bíblica referentes à suposta Lilith é exposta como falsa pelos documentos bíblicos anteriores a esse concílio – de fato, anteriores até mesmo ao nascimento de Cristo. A primeira tradução da Bíblia hebraica, a Septuaginta, produzida provavelmente por volta do terceiro século antes de Cristo, não menciona uma outra esposa de Adão, além de Eva. Essa ideia só aparece tardiamente nos textos medievais, como estória fantasiosa.

A suposta contradição entre os dois primeiros capítulos de Gênesis

Os proponentes da suposta Lilith afirmam que há dois relatos da criação contraditórios, nos capítulos 1 e 2 de Gênesis. Vejamos o primeiro relato da criação da humanidade em Gênesis 1:26 e 27: “Então Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança, e que eles tenham domínio sobre os peixes do mar, sobre as criaturas voadoras dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todo animal rasteiro que se move sobre a terra.’ E Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” Com base nesta passagem, interpretam que o homem e a mulher foram criados juntos, ao mesmo tempo, do pó da terra, num único ato. Por outro lado, Gênesis 2:7, já transcrito, descreve Adão sendo criado sozinho, do pó da terra. E somente no versículo 18 Deus menciona seu propósito de criar a mulher. Lemos nesse verso: “Então Jeová Deus disse: ‘Não é bom que o homem fique sozinho. Vou fazer-lhe uma ajudadora, como complemento dele.’” Após isso, o relato declara: “Então Javé Deus formou do solo todas as feras e todas as aves do céu. E as apresentou ao homem para ver com que nome ele as chamaria: cada ser vivo levaria o nome que o homem lhe desse.” (Gênesis 2:19, Bíblia Pastoral) Após isso, Deus cria a mulher (Gênesis 2:21, 22). Isto parece apresentar os animais como tendo sido criados depois do primeiro homem, ao passo que o capítulo 1 de Gênesis apresenta os animais como tendo sido criados primeiro. Ademais, Gênesis 2:5 parece indicar que o primeiro homem foi criado antes de haver vegetação. Lemos nesse texto: “Não havia ainda nenhuma planta do campo na terra, pois ainda nenhuma erva do campo havia brotado; porque o Senhor Deus não fizera chover sobre a terra, e também não havia homem para lavrar o solo.” (Almeida Revista e Atualizada) Como entender essas aparentes discrepâncias?

Na realidade, o capítulo 1 de Gênesis apresenta um resumo geral da criação, ao passo que o capítulo 2 apresenta os detalhes. Isso é mui semelhante ao recurso editorial seguido por jornalistas, que fazem um resumo da notícia para os leitores no primeiro parágrafo para somente depois se aprofundarem nos pormenores. Assim, Gênesis 2:5 e 6 pormenoriza o terceiro dia criativo, descrito em linhas gerais em Gênesis 1:9-13. 

Em Gênesis 2:19 o verbo “formar” encontra-se na forma verbal perfeita; mas, segundo alguns hebraístas, pode ser traduzido como mais-que-perfeito. Dessa forma o texto ficaria como na tradução Almeida Revista e Atualizada: “Havendo, pois, o Senhor Deus formado”. Ou seja, uma vez que Deus já tinha formado os animais, ele os trouxe a Adão. Outra possibilidade é apresentada pela Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas (edição de 1986): “Ora, Jeová Deus estava formando.” Na nota de rodapé, a referida tradução afirma: “Em questão de tempo, ainda era o sexto dia criativo. O verbo ‘formar’, no imperfeito, denota aqui ação continuada, progressiva. Veja Ap 3C.” Assim, o periódico A Sentinela, publicado pela mesma editora, explica sobre isso:

Este texto parece indicar que mesmo após Jeová Deus criar Adão e antes de ter criado Eva, Ele continuou a criar animais inferiores e a levá-los a Adão para que este lhes desse nome. Não somente Adão, mas também Eva foram criados antes do fim do sexto dia criativo; portanto, estes animais também foram criados antes do início do sétimo dia, o dia em que Deus descansou quanto à criação.[2] 

Na mesma esteira, a criação do homem e da mulher é apresentada primeiro em linhas gerais no capítulo 1 de Gênesis, e detalhado no capítulo 2. Não há nenhuma incoerência.

Existe uma sugestão de uma possível Lilith em Gênesis 2:23?

Este verso declara: “O homem disse então: ‘Esta, por fim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne. Ela será chamada ‘mulher’, porque do homem foi tirada.’” Alguns entendem dessa declaração que existiria uma mulher antes de Eva. No entanto, essa interpretação desconsidera o contexto imediato, que mostra que Adão disse isso, não em relação a uma suposta mulher anterior a Eva, mas sim em contraste com os animais irracionais, que existiam como casais. Notamos isso claramente em Gênesis 2:20, que diz: “Assim o homem deu nome a todos os animais domésticos, às criaturas voadoras dos céus e a todo animal selvagem; mas, para o homem, não havia nenhuma ajudadora para o complementar.”

A única menção da palavra lilith encontra-se em Isaías 34:14, e está no plural, indicando que não se tratava de uma pessoa, mas sim de um coletivo de seres vivos, entre as criaturas existentes nas ruínas de Edom, sendo traduzida como “criaturas noturnas” (Nova Versão Internacional) “animais noturnos” (Almeida Corrigida Fiel) e “aves noturnas [“os curiangos”, nota]” (Tradução do Novo Mundo 2015).

Portanto, não há base documental nem inferencial para a afirmação de que existiu outra esposa de Adão além de Eva.

Por que a popularização de Lilith?

A partir da metade do século 20, na segunda onda do movimento feminista, que se estendeu até por volta do ano 2000, Lilith se tornou um dos símbolos representativos da mulher na pós-modernidade, na luta pelos direitos reprodutivos, pela legalização do aborto e nas discussões acerca da sexualidade. E, na terceira onda do movimento feminista, que se vale da sensualidade como forma de argumento de poder da mulher, a figura de Lilith se intensifica, tornando-se o símbolo máximo movimentos feministas. Pois, conforme o folclore, Lilith já no Éden exigiu a igualdade de direitos entre os sexos, sendo comumente associada à rebeldia e à liberdade sexual. O já citado historiador Rodolpho Bastos afirmou sobre isso:

Lilith é uma das personagens mais controversas que existem na tradição judaica e cristã. Ela está em voga há algumas décadas, principalmente por ser entendida pelo movimento feminista como um ícone de insubmissão e subversão.[3]

Cuidado com as fábulas!

Observe os textos abaixo:

“Mas rejeite as histórias falsas que violam o que é santo, como as que são contadas por mulheres velhas. Por outro lado, treine-se com a devoção a Deus por alvo.” – 1 Timóteo 4:7.

“E não prestem atenção a fábulas judaicas e a mandamentos de homens que se desviam da verdade.” – Tito 1:14.

Assim, em vez de dar crédito a contos fantasiosos e míticos, o bom senso nos leva a confiar no relato da criação com teor histórico apresentado na Bíblia Sagrada.


Notas:

[1] CAPPI, Lis. Quem é Lilith? Pesquisador explica figura mítica que causa polêmica na web. Correio Braziliense. Postado em 25/02/2021, às 23:42; atualizado em 26/02/2021, às 12:16. Disponível em: < https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/02/4908840-quem-e-lilith--pesquisador-explica-figura-mitica-que-causa-polemica-na-web.html>. 

[2] 15/08/63, p. 511.  Perguntas dos Leitores. Qual é o significado de Gênesis 2:19?

[3] CAPPI, Lis. Quem é Lilith? Pesquisador explica figura mítica que causa polêmica na web. Correio Braziliense. Postado em 25/02/2021, às 23:42; atualizado em 26/02/2021, às 12:16. Disponível em: < https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/02/4908840-quem-e-lilith--pesquisador-explica-figura-mitica-que-causa-polemica-na-web.html>. 


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