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terça-feira, 6 de junho de 2017

“Pregar na estaca” significa colocar num instrumento em forma de “T”?





Um leitor enviou a seguinte mensagem:

Boa noite, irmão apologista! Já faz tempo que acompanho o seu site, e sei que você entende bem do grego. Navegando pela internet, me deparei com um blog, onde o autor declara o seguinte: “Tau é a designação grega da letra T. E o T assemelha-se à cruz. Há até um tipo de cruz exatamente com essa forma. A forma de um T ou, no grego, de um TAU. O verbo sTAUrôo, etimologicamente significa “colocar num TAU” (isto é, num T). A palavra ‘tau’ está dentro de staurós e staurôo. Daí o sentido de crucificar.” 
Tem base isso que o autor do blog declarou?
Agradeço desde já! Que Jeová o abençoe!

Resposta:

Prezado leitor:

Os defensores da aparência cruciforme do instrumento de execução de Jesus usam argumentos mirabolantes, falaciosos, desconsiderando toda a evidência disponível – textual, histórica e anatômica.

Quanto ao argumento do autor desse texto que você citou, vários fatores são deixados de lado:

1)            É difícil determinar a etimologia de uma palavra.

Exemplo: a palavra “religião” vem do latim, e há quem defenda que sua origem está em religare (‘religar’ a pessoa com Deus), ao passo que outra corrente associa a origem a religere (“reler”), mostrando a ênfase na pesquisa de doutrinas.

2)      Uma palavra muda de sentido com o passar do tempo.

Mesmo quando se conhece o uso original de uma palavra, é necessário examiná-la no contexto histórico em que ela está sendo usada. Exemplo: A palavra “enfezado” originalmente significava “cheio de fezes”. Hoje tem o sentido de “irritado”. Assim, mesmo que o sentido original de staurós fosse o alegado, é necessário ver o uso dessa palavra no contexto histórico do seu uso bíblico.

3)           No uso bíblico, staurós se equipara a xýlon.

E xýlon é usada no “Velho Testamento” na Septuaginta (LXX) como sendo apenas um pedaço (não dois) de madeira – um poste ou viga, em Esdras 6:11:

κα π μο τθη γνμη τι πς νθρωπος,
Kaì ap’ emoû etéthe gnóme hóti pãs ánthropos,
E por mim foi dada uma ordem que todo homem

ς λλξει τ ῥῆμα τοτο, καθαιρεθσεται
hòs alláxei tò rêma toûto, kathairethésetai
que violar este decreto, seja arrancado

ξλον κ τς οκας ατο κα ρθωμνος
xýlon ek tês oikías autoû kaì orthoménos
um madeiro da sua casa e tendo sido

παγσεται π ατο, κα οκος ατο τ κατ μ ποιηθσεται.
pagésetai ep’ autoû, kaì ho oíkos autoû to kat’ emè poiethésetai.
pregado nele, e a casa dele se tornará confiscada.

“E um decreto foi feito por mim, para que todo homem que alterar esta palavra, um madeiro seja arrancado de sua casa e que ele seja levantado e morto sobre ele, e a sua casa seja confiscada.”[1]

4)          Não há prova contrária ao uso de staurós como “estaca” tanto no grego clássico como no grego bíblico.

A Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, seção 5C “Estaca de tortura”, página 1.517, explicou:

No grego clássico, a palavra stau·rós significava apenas estaca ou poste vertical, ou estaca de fundação. O verbo stau··o significava cercar com estacas para formar uma estacada ou paliçada. Os escritores inspirados das Escrituras Gregas Cristãs escreveram no grego comum (koi·) e usaram a palavra stau·rós para se referir à mesma coisa que no grego clássico, a saber, a uma simples estaca ou poste, sem trave de qualquer espécie ou em qualquer ângulo. Não há prova ao contrário.

Ou seja: Visto que o sentido corrente do substantivo staurós e do verbo staurôo tinha que ver, respectivamente, com “estaca” e “pregar na estaca”, teria que haver na Bíblia uma prova de MUDANÇA de sentido, caso houvesse tal mudança. Mas não há. Segue-se, logicamente, que o sentido clássico continuou no grego coiné.

5)           O contexto histórico bíblico mostra que Jesus morreu de acordo com a Lei mosaica, para cumprir tal Lei.


E a forma de execução dessa Lei não era de crucificar alguém, e sim pendurar o cadáver num madeiro (árvore), ou tronco, tendo em vista que o sentido de “madeiro” (xúlon) é estaca. (Esdras 6:11)

Deuteronômio 21:22, 23:

Εν δ γνηται ν τινι μαρτα κρμα θαντου κα ποθν κα κρεμσητε ατν π ξλου, οκ πικοιμηθσεται τ σμα ατο π το ξλου, λλ ταφ θψετε ατν ν τ μρ κεν, τι κεκατηραμνος π θεο πς κρεμμενος π ξλου· κα ο μιανετε τν γν, ν κριος θες σου δδωσν σοι ν κλρ.

Eàn dè génetai én tini hamartía kríma thanátou kaì apothánei kaì kremásete autòn epì xýlou, ouk epikoimethésetai tò soma autoû epì toû xýlou, allà tafêi thápsete autòn en têi hemérai ekeínei, hóti kekateraménos hypò theoû pãs kremámenos epì xýlou. kaì ou mianeîte tèn gên, hen kýrios ho theós sou dídosín soi em kléroi.

“Se um homem cometer um pecado que mereça a sentença de morte e for morto, e você o pendurar num madeiro, seu cadáver não deve ficar a noite toda no madeiro. Você deve se certificar de enterrá-lo naquele dia, pois quem é pendurado num madeiro é amaldiçoado por Deus. Você não deve tornar impura a terra que Jeová, seu Deus, lhe dá como herança.”

6)          Os dicionários das línguas antigas reconhecem que staurós significa “estaca” e que a crux inicialmente também tinha o sentido de um poste ou viga.

Veja a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas, no tópico 5C “Estaca de tortura” Gr.: σταυρός (stau·rós); lat.: crux, p. 1517:

O dicionário latino de Lewis e Short apresenta o sentido básico de crux como “uma árvore, armação ou outro instrumento de execução feito de madeira em que se pregavam ou penduravam criminosos”. Nos escritos de Lívio, historiador romano do primeiro século AEC, crux significa apenas uma estaca. “Cruz” é apenas um significado posterior de crux. Uma simples estaca para se fixar nela um criminoso era chamada em latim de crux sím·plex. Tal instrumento de tortura foi ilustrado por Justo Lipsio (1547-1606) no seu livro De cruce libri tres, Antuérpia, 1629, p. 19. A fotografia da crux simplex na nossa p. 1518 é uma reprodução exata tirada de seu livro.


Você poderá ler matéria adicional sobre a forma do instrumento de execução de Jesus nestes artigos:



Espero que os comentários acima possam lhe ter sido de ajuda.

Grande abraço e fique com Jeová.

Após isso, o mesmo leitor contribuiu com informação adicional sobre o provável sentido de staurôo:

Também, acabou de chegar um livro que comprei na internet que se chama “A cruz universal”, e na pg. 65 diz:

“Stauros provém de st(h)au, de onde derivam “instaurar” e “restaurar”. Em grego, como em latim, a palavra que significa, hoje, cruz referia-se primitivamente a uma peça vertical de madeira, em particular aquela que seria para imobilizar um supliciado. (Encontra-se hoje essa acepção da palavra “cruz” no verbo inglês to excruciate, que significa “torturar”, submeter ao suplício). Por consequência, a ideia moderna de “cruzamento”, “encruzilhada” está ausente dos termos fundamentais crux e staurós.”

O opositor não citou nenhuma fonte para sustentar as informações dele. Portanto, não tem base alguma!

Um grande abraço para o irmão também!


Seguem as fotos disponibilizadas gentilmente pelo leitor da obra por ele supracitada:





Nota:

[1] Disponível em:
 https://bibliaonlinesnt.blogspot.com.br/2016/11/septuaginta-esdras-capitulo-6_5.html


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org






3 comentários:

  1. Depois de tanto pesquisar sobre esse assunto, cheguei à seguinte conclusão: o formato da cruz é irrelevante. Sendo um instrumento de morte e tortura, essa "arma" poderia ter o formato que fosse! Basta analisarmos os POSTES DE ENERGIA Elétrica que existem em todos os lugares: todos são chamados de POSTE mas isso NÃO IMPEDE DE FORMA ALGUMA que esses postes tenham em suas extremidades superiores OUTRAS PEÇAS AUXILIARES transversais para suporte dos fios elétricos. Mesmo com essas peças auxiliares, os postes elétricos continuam sendo POSTES de uma viga só! E inclusive muitos postes elétricos tem um formato nítido de uma CRUZ para o suporte de fios. Mas nem por isso são chamados de "cruzes elétricas". Tudo isso porque todos sabem que a peça FUNDAMENTAL é a peça principal, o postes ÚNICO que se estende desde o chão até lá em cima, o qual sustenta todo o conjunto de peças auxiliares que sejam necessárias para amarrar o que for lá em cima do poste.
    Da mesma forma, a peça de execução onde foi pendurado Jesus pode muito bem ter tido uma peça auxiliar no topo para o suporte das mãos, mas isso não impede que ainda seja chamada de estaca, pois seja o T ou o I ambos são apenas uma peça fincada no chão. O que pode ter sido usado no topo para o suporte das mãos é apenas um acessório. Inclusive se lembrarmos da PLACA que foi colocada acima da cabeça de Jesus, essa placa forma um T com o poste principal, queira ou não! E essa imagem inicial do poste com a placa acima da cabeça de Jesus pode muito bem ter sido o que foi transmitido com o passar dos séculos. Portanto, o formato da cruz pode sim ter sido um T ou uma estaca I. Só o significado básico da palavra Stauros não ajuda em nada para se bater o martelo e se concluir sem sombra de dúvidas. Todas as informações que a bíblia nós dá devem ser consideradas na nossa análise.
    O relato inspirado nos diz que:
    1. Cada mão de Jesus foi perfurada COM UM PREGO EM CADA MÃO, como nos diz a fala de Tomé. Mas essa informação não nos permite definir se as mãos foram pregadas na mesma estaca que os pés ou se foram pregadas em uma peça de madeira separada.
    2. A bíblia diz que Pilatos colocou uma placa com dizeres ACIMA DA CABEÇA DE JESUS, o que pode nos levar a concluir que acima da cabeça de Jesus havia em espaço LIVRE da estaca onde foi pregada a placa, o que nos permite concluir que as mãos de Jesus NÃO ocupavam o espaço acima de sua cabeça, mas TALVEZ FORAM PREGADAS SEPARADAS. Mas essa informação pode ser tanto aplicada a uma pessoa pregada numa Cruz "T" QUANTO numa estaca I.
    Resumindo: Tanto Cruz T quanto Cruz I tem as suas defesas...O que não podemos é fazer disso um assunto que "revelaria" a religião que ensina a doutrina Verdadeira! Isso deve ser tratado apenas como uma CURIOSIDADE HISTÓRICA.

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    1. Prezado Wagner:

      Embora tal tema não tenha relevância como doutrinas fundamentais, a saber, a identidade de Deus e de Jesus Cristo, a justiça de Deus aplicada na salvação e na destruição de pessoas, a condição dos mortos etc., não se trata de mera curiosidade histórica porque a cristandade fez da cruz não apenas o instrumento de suplício de Cristo como também um objeto de adoração, violando assim o preceito cristão contra a idolatria. – 1 Coríntios 10:14.

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    2. Exatamente! Portanto, a grande questão que envolve a cruz NÃO É O SEU FORMATO, mas sim a idolatria praticada perante esse símbolo E considerar esse símbolo como um amuleto de proteção! Isso sim as pessoas fazem errado e não sabem! E é aí que surge a ligação da Cruz com o símbolo que era adorado pelos antigos pagaos: a partir do momento que uma pessoa se ajoelha perante uma cruz ou usa uma como amuleto ela está fazendo exatamente a MESMA coisa que os pagãos faziam até mesmo séculos ANTES DE CRISTO. Nesse instante a cruz se desliga da sua história como instrumento de morte e assume outro legado: um símbolo de deuses falsos adorados por povos que não conheciam o Verdadeiro Deus Jeová e nem seu filho Jesus!
      A idolatria da cruz é tão mais errada do que seu formato que basta pensarmos no seguinte: digamos que desde sempre se soubesse que a cruz onde Jesus foi morto fosse apenas uma estaca. Mas com o tempo as igrejas adoracem um poste no lugar de uma cruz. Estaria errado do lesmo jeito, pois ainda seria idolatria!

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