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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Boas intenções não bastam!


Fonte: Pinterest


Um leitor indagou: “Irmão, a fraseDe boas intenções o inferno está cheio’ – que figura de linguagem é essa?

Resposta:

Alguns atribuem essa frase a Samuel Johnson (1709-1784), que foi um escritor e pensador inglês, que atuou como poeta, ensaísta, biógrafo, moralista, literário e lexicógrafo; referenciado como “o mais distinto homem de letras da história da Inglaterra”[1]. Por outro lado, o escritor e doutor em Letras pela USP (Universidade de São Paulo, Brasil), Deonísio da Silva, atribui a frase a Bernardo de Clairvaux, comentando:
DE BOAS INTENÇÕES O INFERNO ESTÁ CHEIO. Esta frase é de autoria de um famoso teólogo e santo francês, São Bernardo de Clairvaux (1090-1153). Muito místico, travou grandes polêmicas com o célebre namorado de Heloísa, o também teólogo e filósofo escolástico Pedro Abelardo (1079-1142). Conselheiro de reis e papas, São Bernardo pregou a Segunda Cruzada, destacando-se no combate àqueles que eram considerados hereges por ousarem interpretar de modos plurais a ortodoxia católica. A frase foi brandida, não apenas contra seus desafetos, mas também a seus aliados, e tornou-se proverbial para denunciar que as boas intenções, além de não serem suficientes, podem levar a fins contrários aos esperados. – HISTÓRIAS DE FRASES FAMOSAS. (Negrito acrescentado.)

Fonte: Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=46064

A figura de linguagem em questão

Duas figuras de linguagem parecem estar envolvidas na frase em questão: o paradoxo e a hipérbole.

Paradoxo

Esta figura retrata algo “contrário do que se pensa ser a verdade”, fugindo ao senso comum e até mesmo refletindo uma falta de nexo. Trata-se de uma aproximação de palavras contrárias, que podem ser associadas em um mesmo pensamento. Reúne ideias contraditórias em um mesmo contexto. Também pode ser usada para demonstrar ironia. Como exemplo, temos a frase: “Ele não passa de um pobre homem rico.”[2]

No caso da palavra “inferno”, tornou-se erroneamente associada a um lugar de tormento onde supostamente estão pessoas ruins. Ninguém esperaria que nesse mítico lugar houvesse boas intenções.

Hipérbole

Esta figura de linguagem transmite um exagero intencional, como na frase “estou morrendo de sede”. Portanto, usar o conceito comum e errôneo de “inferno” para mostrar que as boas intenções por si só são ineficazes pode ser entendido como uma hipérbole.

O contexto em que a frase foi dita

Deonísio da Silva[3] explica que Bernardo de Claraval, que morreu há quase mil anos, autor da frase de boas intenções o inferno está cheio, […] reclamou duramente da arquitetura de seu tempo. Bernardo de Claraval referiu-se a ela como composta de “monstruosidades ridículas, essas belezas assombrosas e grotescas e essas deformidades admiravelmente belas que povoam os átrios do mosteiro […] Numa só cabeça, muitos corpos, e num só corpo, por sua vez, muitas cabeças.”
Conforme explica Deonísio da Silva, “as construções de três elementos ou de triângulos eram referências sutis à Santíssima Trindade”. Mas, apesar das explicações dadas pelos críticos de arte de sua época, o abade francês Bernardo de Claraval concluiu, tristonho e desanimado: “Com mais prazer se lê nas pedras do que nos livros, preferindo-se admirar essas singularidades a tomar a peito os mandamentos de Deus.”

Aplicações modernas da famosa frase

Deonísio da Silva também aplica a famosa frase como régua, ou critério, para “averiguar a intenção dos discursos, das falas, das intervenções, dos artigos e das declarações que surgem … na imprensa”.

Fernando Luiz Zanetti[4], em sua dissertação de mestrado, usa em epígrafe a frase “De boas intenções o inferno está cheio” para ilustrar como o Estado utiliza ONGs (Organizações Não Governamentais), escolas, hospitais, centros de recuperação de viciados em drogas – os quais praticam atividades artísticas com fins terapêuticos, pedagógicos e psicológicos, e fins políticos de promoção da cidadania – como estratégia para o controle social da população.

Além do sentido de expressão de falsa (aparente) bondade, a expressão “de boas intenções o inferno está cheio” também tem sido usada no sentido de que não basta acreditar que está se fazendo um bem.

Exemplos relacionados com a Bíblia
Emendas (correções) feitas pelos soferins

Fonte: (jw.org

Os soferins, ou copistas judeus, fizeram 18 alterações (supostas “correções”) no texto hebraico, porque, do ponto de vista deles, “a passagem original parecia mostrar quer irreverência para com Deus, quer desrespeito pelos seus representantes terrestres”[5]. Apesar da boa intenção, não poderiam ter modificado a Palavra de Deus.

A sugestão do apóstolo Pedro
Fonte: jw.org

Quando Jesus Cristo explicou a seus discípulos os sofrimentos pelos quais iria passar, o apóstolo Pedro o censurou, dizendo: “Tenha compaixão de si mesmo, Senhor! Isso de modo algum lhe acontecerá.” (Mateus 16:22) Evidentemente a intenção de Pedro era positiva. Contudo, Jesus reagiu conforme lemos no verso 23: “Mas ele virou as costas para Pedro e lhe disse: ‘Para trás de mim, Satanás! Você é uma pedra de tropeço para mim, porque não tem os pensamentos de Deus, mas os de homens.’” A boa intenção de Pedro, em querer evitar que Jesus passasse pelos preditos sofrimentos, careia de conhecimento e servia aos interesses de Satanás, em impedir Jesus de cumprir as profecias e em resolver a questão da Soberania universal de Jeová e da integridade legítima de Suas criaturas.

O ato de Uzá

Fonte: jw.org

Quando a Arca do Pacto foi transportada da casa de Abinadabe para Jerusalém, a estrada acidentada em região colinosa fez com que os touros quase a derrubassem, ocasião em que Uzá tentou impedir a queda da Arca, e foi imediatamente executado por Deus por ter tocado na Arca. (2 Samuel 6:4-7) Apesar da aparente boa intenção de Uzá, tal ato foi considerado desrespeitoso, em virtude da lei expressa de ‘não tocar nas coisas do lugar santo’. Ademais, havia instruções claras sobre o correto transporte da Arca, as quais não foram seguidas. – Números 4:15, 19, 20.

O incômodo de Marta

Fonte: jw.org

Lucas relata um incidente envolvendo duas discípulas de Jesus – Marta e Maria. Lemos sobre isso: “Uma mulher chamada Marta o recebeu como hóspede em sua casa. Ela tinha também uma irmã, chamada Maria, que se sentou aos pés do Senhor e ficou escutando o que ele dizia. Marta, por outro lado, estava distraída, cuidando de muitos afazeres. Assim, ela se aproximou dele e disse: ‘Senhor, não se importa que minha irmã me deixou sozinha para cuidar das coisas? Diga a ela que venha me ajudar.’” – Lucas 10:38-40.

Apesar da preocupação de Marta em fazer provisões materiais para Cristo, sua boa intenção estava mal orientada. Jesus corrigiu bondosamente o modo de pensar dela, dizendo: “Marta, Marta, você está ansiosa e preocupada com muitas coisas. Mas poucas coisas são necessárias, ou apenas uma. Maria, por sua vez, escolheu a boa porção, e essa não será tirada dela.” – Lucas 10:41, 42.

Jesus mostrou que mais importante do que lhe preparar uma refeição suntuosa seria prestar atenção aos seus ensinamentos.

Os conselhos dados pelos “amigos” de Jó

Fonte: jw.org

Mesmo que os conselheiros de Jó acreditassem ter boas intenções, eles atuaram quais instrumentos de Satanás em tentar desanimar Jó e em enfraquecer sua lealdade a Deus. O próprio Jeová disse a eles: “Vocês não falaram a verdade a meu respeito, assim como fez o meu servo Jó.”

O ato de Moisés em tentar ajudar os hebreus

Fonte: jw.org

A respeito de Moisés, lemos: “Então, quando ele completou 40 anos, decidiu visitar seus irmãos, os israelitas. Ao ver que um egípcio estava tratando um deles de forma injusta, ele defendeu o oprimido e o vingou, matando o egípcio.” (Atos 7:23, 24) A boa intenção de Moisés pode ser depreendida pelo versículo seguinte: “Ele achava que os seus irmãos compreenderiam que Deus estava lhes dando salvação pela mão dele, mas eles não compreenderam isso.”

As coisas não deram certo na época nem para Moisés, nem para os israelitas, e Moisés teve que fugir do Egito. (Atos 7:26-29.) Ele não errou quanto à identidade do libertador provido por Deus – seria ele mesmo. Mas, não seria daquele jeito, nem naquelas circunstâncias, e nem naquela época.

Conclusão

As boas intenções sem dúvida são importantes, e com certeza Jeová as leva em consideração. Mas, além delas, é necessário ter o critério correto. Por isso, devemos sempre orar para ter o conhecimento e a sabedoria para agir de forma correta. Como exortou Tiago:

“Portanto, se falta sabedoria a algum de vocês, que ele persista em pedi-la a Deus — pois ele dá a todos generosamente, sem censurar —, e ela lhe será dada.” – Tiago 1:5.



Notas:
[1] Rogers, Pat (2006). Johnson, Samuel (1709–1784), In: Oxford Dictionary of National Biography (online ed.). [S.l.]: Oxford University Press.
[2] Figuras de Linguagem – O que é? Tipos e Exemplos de Todas (Resumo). Disponível em: <https://www.figuradelinguagem.com/>. 
[3] SILVA, Deonísio da. Observatório da Imprensa. Feitos e Desfeitas. Porto Alegre & Davos. O trem está atrasado ou já passou. Disponível em: <http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/fd290120031p.htm>.
[4] ZANETTI, Fernando Luiz. A Condição da Arte e os Novos Paraísos Artificiais. 2007. 116f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Faculdade de Ciências e Letras, Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, 2007. Disponível em: < https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/97630/zanetti_fl_me_assis.pdf?sequence=1&isAllowed=y
[5] Apêndice da Tradução do Novo Mundo Com Referências (Rbi8) p. 1509 2B “Emendas (correções) dos soferins”. Segue a lista das Dezoito Emendas dos soferins, segundo Gins.Int, pp. 347-363: Gên 18:22; Núm 11:15; 12:12; 1Sa 3:13; 2Sa 16:12; 20:1; 1Rs 12:16; 2Cr 10:16; Jó 7:20; 32:3; Sal 106:20; Je 2:11; La 3:20; Ez 8:17; Os 4:7; Hab 1:12; Za 2:8; Mal 1:13.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

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