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domingo, 31 de outubro de 2021

O que era o “espírito mau da parte de Deus” que atormentava o Rei Saul?

 
Fonte: jw.org

O artigo “Estudo sobre Pneumatologia – Parte 3” comentou o seguinte a respeito da expressão “espírito mau”:

“Espírito mau”, nessa acepção, significa um sentimento negativo, uma disposição ruim ou maldosa, acompanhada de pensamentos correspondentes ou em resultado deles – algo permitido por Deus devido ao afastamento Dele (Juízes 9:23), ou em resultado da retirada de Seu espírito santo. (1 Samuel 16:23) No caso do Rei Saul, essa disposição negativa foi referida como “espírito mau da parte de Deus” em função de tal sentimento ruim ser resultado da retirada do espírito santo por parte de Deus. (1 Samuel 16:14-16; 18:10; 19:9). – Negrito acrescentado.

Os textos citados acima mostram exatamente o explicado acima:

“Então Deus permitiu que surgisse hostilidade [“Lit.: ‘enviou um espírito mau’”, nota] entre Abimeleque e os líderes de Siquém, e eles agiram traiçoeiramente com Abimeleque.” – Juízes 9:23.

“Quando um espírito mau da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi pegava a harpa e tocava; então Saul sentia alívio e melhorava, e o espírito mau se retirava dele.” – 1 Samuel 16:23.

Como o artigo mostrou,

No caso do Rei Saul, essa disposição negativa foi referida como “espírito mau da parte de Deus” em função de tal sentimento ruim ser resultado da retirada do espírito santo por parte de Deus.

Isto é comprovado pelos textos citados no artigo e transcritos abaixo:

“O espírito de Jeová tinha se retirado de Saul, e um espírito mau da parte de Jeová passou a aterrorizá-lo. Os servos de Saul lhe disseram: “Um espírito mau da parte de Deus está aterrorizando o senhor. Por favor, ordene aos seus servos que estão aqui que procurem um homem perito em tocar harpa. Quando um espírito mau da parte de Deus vier sobre o senhor, ele tocará, e o senhor se sentirá melhor.” – 1 Samuel 16:14-16.

“No dia seguinte, um espírito mau da parte de Deus tomou conta de Saul, e ele começou a agir de modo estranho em sua casa, enquanto Davi tocava harpa como de costume. Saul tinha uma lança na mão.” – 1 Samuel 18:10.

Sobre a explicação acima, um leitor comentou o seguinte:

Então o espírito mau no caso especifico de Saul não era um demônio? O literalmente “vento ruim” que veio sobre ele causando sua loucura era algum tipo de mal estar mental?

Ajuda a deixar os textos mais claro essa visão...

 

Resposta: 

De fato. Esse conceito é apoiado pela revista “A Sentinela” (15 de março de 2005, p. 23), que comenta o seguinte sobre 1 Samuel 16:14:

Que espírito mau aterrorizou a Saul? O espírito mau que tirou a paz mental de Saul foi a inclinação má de sua mente e de seu coração — seu impulso íntimo para fazer o errado. Quando Jeová retirou Seu espírito santo, Saul perdeu a proteção e foi dominado por seu próprio espírito mau. Visto que Deus permitiu que esse espírito mau substituísse o espírito santo, ele é chamado de 'um espírito mau da parte de Jeová'. 

A Bíblia de Jerusalém contém a seguinte nota de rodapé a respeito de 1 Samuel 16:4, na qual reconhece a natureza impessoal do referido “espírito mau”:

Havendo o espírito de Iahweh (cf. Jz 3,10+) abandonado Saul (15,23), este é “possuído” por mau espírito. Diz-se que ele vem de Iahweh e será chamado “espírito mau de Deus” (vv. 15 e 16; cf. 18,10; 19,9), porque o israelita atribui tudo a Deus como à causa primeira. (Comparar o espírito de discórdia, Jz 9,23, o espírito de mentira, 1Rs 22, 19-23, o espírito de vertigem, Is 19,14, o espírito de torpor, Is 29,10). – Negrito acrescentado.


Na mesma esteira, Israel Silva, estudioso de hebraico bíblico[1], teceu o seguinte comentário sobre a expressão “espírito mau”:

Um erro muito comum entre os tradutores da bíblia é não olhar para todos os significados que uma palavra possui. Geralmente escolhem aqueles que são mais frequentes. Só que isso pode resultar em traduções desastrosas, pois o Hebraico tem menos palavras do que o Português, e isso faz com que a mesma palavra possa variar de significados, dependendo do contexto.

Pois bem, aqui nós temos no início do verso as palavras, “ruach Yehovah”, que literalmente significam “Espírito de Jeová”, ou “Espírito do Senhor”. 

[…]

TRADUZINDO RUACH

Ocorre que a palavra “ruach” não significa apenas “espírito”. Ela também significa “deleite” ou “alegria”, e de acordo com o contexto, era assim que deveria ter sido traduzida. Vamos provar isso! Assim, os termos “ruach Yehovah” assumem o significado de “alegria do Senhor”.

A próxima palavra do verso é o verbo סָרָה ”Sarah”, [tempo verbal aqui é o QATAL, que funciona como o passado no Português] que significa “Deixou”. Depois vem duas preposições  מֵעִם ”me’im” que combinadas com o nome de שָׁאוּל Shaul [o mesmo nome do Apóstolo Paulo] Saul, que vem logo após, vão significar “de estar com Saul”.

Reunindo a nossa tradução, feita até este ponto, temos, “E a alegria do Senhor deixou de estar com Saul”. 


RUACH RAAH – ESPÍRITO MAU?

[…]

Ruach raahsignificaespírito mauliteralmente falando […]. Mas como já estamos com um “espírito” de entendimento, sabemos que não se pode isolar as palavras de seu contexto, e nesse contexto a melhor tradução seria um mau humor, porque ruach” também significa ”humor”.[2]
 

Diversos comentaristas bíblicos apresentam o mesmo entendimento

Comentário de Thomas Coke:

1 Samuel 16:14 . O Espírito do Senhor se afastou de Saul  ou, como a palavra poderia ter sido proferida, se afastou de Saul. Mas que espírito? Não o espírito profético que ele recebeu de acordo com a previsão de Samuel, que cessou instantaneamente quando sua profecia terminou: não o espírito para torná-lo incapaz de transgredir; por isso ele nunca teve e, portanto, nunca poderia perdê-lo. Não: Deus não estava mais com ele, para prosperar e guiá-lo; mas deixou-o, como efeito de sua desobediência, àquele espírito maligno, melancólico, ciumento, invejoso, malicioso e assassino, que depois o possuía, e parece nunca o ter deixado totalmente. E esse espírito maligno de ciúme, ódio e crueldade, na natureza das coisas, banirá o espírito de uma mente sã, moderação, equidade e toda virtude principesca, introduzirá uma melancolia quase perpétua e disporá aqueles que estão sob a influência infeliz disso, aos excessos mais injustificáveis e criminais. – Negrito (com exceção do início) acrescentado.

Comentário de Adam Clarke:

Deus enviou um espírito maligno – Ele permitiu que ocorressem ciúmes que produzissem facções; e essas facções produziram insurreições, contendas civis e matança.

Comentário Bíblico Católico de George Haydock[3]:

Espírito. Deus permitiu que o espírito de discórdia surgisse, como um carrasco, (Calmet) para punir os pecados do governante e de seus súditos.

Comentário Crítico e Explicativo de toda a Bíblia[4]:

Então Deus enviou um espírito maligno entre Abimelech e os homens de Siquém - ie: no curso da Providência, ciúme, desconfiança, descontentamento secreto e sufocados a rebelião apareceu entre seus súditos, decepcionada e enojada com sua tirania; e Deus permitiu que esses distúrbios punissem os complicados crimes do fratricídio real e do usurpador idólatra.


Portanto, parece coerente entender que o referido “espírito mau” seja uma referência a algo impessoal – a “um sentimento negativo, uma disposição ruim ou maldosa, acompanhada de pensamentos correspondentes ou em resultado deles”, conforme explanado no artigo “Estudo sobre Pneumatologia – Parte 3” .

 

Notas:

[1] Cursou hebraico bíblico, geografia bíblica, Novo Testamento, e estudos do Apocalipse; é especialista em estudos da Bíblia, certificado pelo Israel Institute of Biblical Studies. Autor do livro Gênesis, o Livro dos Patriarcas.

[2] SILVA, Israel. Saul e o espírito maligno da parte do Senhor – 1º Samuel 16:14. Brasilgospel. Disponível em: <https://brasilgospel.club/hebraico/espirito-maligno-1-samuel-16-14/>.

[3] George Leo Haydock (1774-1849) era padre e estudioso da Bíblia. Produziu uma  edição da Bíblia Douay com comentários estendidos, originalmente publicada em 1811, que se tornou a Bíblia católica inglesa mais popular do século 19 em ambos os lados do Atlântico. Ela ainda é considerada valiosas por seu valor apologético. (StudyLight.org. Bible Commentaries. George Haydock's Catholic Bible Commentary. Disponível em: <https://www.studylight.org/commentaries/eng/hcc.html>.
[4] Comentário Bíblico crítico e explicativo de toda a Bíblia. Publicada em 1878, esta é a versão integral de Jamieson, Fausset, e Brown's Commentary. Esta versão inclui as palavras grega e hebraica, juntamente com o dobro do conteúdo da versão resumida. BÍBLIA PLUS. Comentários Bíblicos. Disponível em: <https://www.bibliaplus.org/pt/commentaries/1/comentario-critico-e-explicativo-de-toda-a-biblia>.

Referências:

Estudo de Juízes 9:23 – Comentado e Explicado. Bibliaco. 12 mar 2020. Disponível em: <https://versiculoscomentados.com.br/index.php/estudo-de-juizes-9-23-comentado-e-explicado/>.

Estudo de 1 Samuel 16:14 – Comentado e Explicado. Bibliaco. 13 mar de 2020. Disponível em: <https://versiculoscomentados.com.br/index.php/estudo-de-1-samuel-16-14-comentado-e-explicado/>.

Juízes 9:23. Bíblia Plus. Comentários Bíblicos. Comentário Bíblico Católico de George Haydock. Disponível em: <https://www.bibliaplus.org/pt/commentaries/104/comentario-biblico-catolico-de-george-haydock/juizes/9/23>.

______. Bíblia Plus. Comentários Bíblicos. Comentário Bíblico de Adam Clarke. Disponível em: <https://www.bibliaplus.org/pt/commentaries/7/comentario-biblico-de-adam-clarke/juizes/9/23>.

______. Bíblia Plus. Comentários Bíblicos. Comentário Crítico e Explicativo de toda a Bíblia. Disponível em: <https://www.bibliaplus.org/pt/commentaries/1/comentario-critico-e-explicativo-de-toda-a-biblia/juizes/9/23>.


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová. 

 

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org

 

 

 

 



 


Um comentário:

  1. Excelente explicação ! Muito bom mesmo ! Lembrando que a palavra riacho é polissemica e que devemos analisar o contexto!"

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