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domingo, 22 de maio de 2022

Comentários adicionais sobre o artigo “Qual a diferença entre apostasia, heresia e cisma?” (Parte 1)

Fonte: jw.org

Contribuído.

Eu gostaria de responder a algumas perguntas sobre as definições bíblicas que eu apresentei no artigo supracitado. (Para ler tal artigo, clique aqui.) As perguntas foram ótimas e merecem resposta respeitosa. Certo leitor perguntou:

Caro apologista, o texto disse: “Contudo, se aquele que alega ter sido escolhido por Deus não puder provar isso com sinais nos moldes já citados, não há motivo algum para que o cristão seja forçado a aceitar tal pessoa como autoridade legítima colocada por Deus e aprovada por Ele.” Mas nos dias de hoje nenhum cristão tem os dons milagrosos do espírito, então ninguém pode provar que tem o apoio de Deus por meio de sinais sobrenaturais.

Realmente, prezado. Concordo que atualmente ninguém demonstre ter os dons do espírito. Porém, quanto à questão de sinais sobrenaturais, estes não têm relação unicamente com os dons do espírito, que ocorreram somente no primeiro século da Era Cristã. Antes do primeiro século, havia sinais sobrenaturais, embora não existissem os dons do espírito.

O mesmo leitor ainda comentou:

Mas se há outras evidências de que a pessoa ou grupo tem o apoio e a direção divina, creio que seria um pecado sério caso alguém rejeitasse deliberadamente tais evidências apenas sob a alegação de que a pessoa ou grupo não faz milagres.

Isso é plausível, mas teríamos de saber quais evidências seriam estas e teríamos de analisar as bases bíblicas para elas também. Também teríamos de avaliar todas as evidências. Teríamos de avaliar atos que um líder escolhido deve fazer e atos que ele não deveria fazer e talvez faça. Sem uma possibilidade concreta, torna-se difícil dissertar sobre o que seriam tais evidências. Vejamos algumas falsas evidências que às vezes são tidas como verdadeiras.

1. Crescimento religioso; o fato de uma religião ou igreja crescer não prova em nada que seus líderes foram designados por Deus ou que a igreja tenha apoio divino. Prova disso é que as igrejas que mais crescem são as neopentecostais;

2. Obra de pregação do Reino; eu concordo que esperamos que Deus abençoe nosso ministério e que ele cresça. Mas isso não prova que alguém específico foi designado por Deus para liderar;

3.  O amor entre os crentes; eu concordo que o amor entre os crentes seja evidência do verdadeiro cristianismo, mas isso não prova que uma pessoa específica foi escolhida por Deus para liderar ou para ter uma posição de destaque.

Em resumo, para que alguém, tal como o Papa, prove que foi escolhido por Deus, não basta usar coisas positivas que ocorrem na Igreja Católica. Por exemplo, nenhuma igreja construiu tantos orfanatos quanto a Igreja Católica. Isso é ótimo, pois cuidar “dos órfãos e das viúvas” é a “forma de adoração que é pura e imaculada do ponto de vista do nosso Deus”. (Tiago 1:27) Mas isso não prova que o Papa foi um líder escolhido por Deus e também não prova que Deus esteja usando o Papa. Tampouco prova que a Igreja Católica seja a igreja de Cristo. Uma coisa não tem nada que ver com a outra. Então, precisaríamos ter algo inegável em mente como um sinal de que alguém específico foi o líder escolhido por Deus. Em adição a isso, não poderíamos ter nada que invalidasse essa conclusão. Do contrário, é a palavra dele apenas e o Senhor não poderia condenar alguém por não crer em uma pessoa específica.

Se alguém acha que foi escolhido por Deus para ter uma posição semelhante à de Moisés, é de no mínimo esperar que tal pessoa dê sinais semelhantes aos de Moisés. Ademais, um grupo ter a aprovação de Deus não significa que o líder de tal grupo tenha a aprovação de Deus ou que seja ungido por Deus. Por exemplo, Deus estava usando a Davi e abençoava muitos esforços na guerra tanto por Davi quanto por Saul. Ainda assim, Saul, que havia sido escolhido por Deus, foi mais tarde rejeitado; mas Israel ainda era o povo de Deus, embora o Soberano rejeitasse a Saul.

Todos os casos em que Deus esperou que seu povo aceitasse um líder como ungido Dele foram atos públicos, jamais privados. Eles foram feitos por aqueles que eram profetas reconhecidos, ou de outra forma pública. O próprio Jesus Cristo teve um testemunho público:

(Mateus 3:17) “Eis que também houve uma voz dos céus, que disse: ‘Este é meu Filho, o amado, a quem tenho aprovado.’”

Deus deu provas evidentes e visíveis de que Moisés era o escolhido Dele. 

Fonte da figura: jw.org

Quando Maria foi escolhida para ser mãe de Jesus, ela contou isso a José. José não acreditou em Maria, e ele tinha toda a razão de duvidar disso. (Lucas 1:35; Mateus 1:19, 20) Ele era um sujeito bondoso demais e amava sua noiva. Por causa disso, ele não quis expô-la publicamente, isto é, não quis levá-la até as autoridades civis para que ela fosse condenada à morte. Por isso, ele decidiu se divorciar dela, o que faria com que ela não fosse acusada de adultério. Jeová jamais poderia punir um homem por não acreditar em sua noiva diante dessas circunstâncias. (Qual homem não teria feito o mesmo?) Por isso, o próprio Jeová enviou um anjo que testemunhou a José a gravidez de Maria por espírito santo.

Embora Maria não tenha sido escolhida para governar, o relato segue o mesmo padrão dos demais casos de escolha especial por Deus. A única pessoa que devia crer na escolha de Maria para ser a mãe do Messias era José, e Deus testemunhou também a José. 

O leitor prossegue:

Um outro ponto do texto diz assim: “Quando alguns dizem: ‘Temos de ser submissos, mesmo que não concordemos muito com um novo entendimento’, surge a pergunta: isso vale para todas as religiões ou só para a minha? Porque se vale só para a minha, então eu sou um fanático; mas se vale para todas, vale também para a igreja católica; e todos nós deveríamos nos converter ao catolicismo e ser submissos ao papa.’” Segundo o que pude entender, esta parte quer dizer que, se a organização tiver um ajuste de entendimento e alguém não concordar, ele deveria manifestar isso. Lógico, isso pode acontecer. Mas o ponto é que tal pessoa pode discordar e talvez ela estar errada. Então, gostaria de saber o que tens a dizer sobre isso.

Prezado, eu não foquei este comentário em uma organização específica. Eu também não quis dizer que, se alguém não se identifica ou não pensa ser um herege, logo a pessoa não é um herege. Não foi isso que eu disse no texto. Obviamente, todo o herege dirá que não é um herege. Mas há casos também nos quais alguém poderá ser acusado de heresia sem ser um herege. Os dois casos podem ocorrer. A mensagem principal no meu texto é que os presbíteros (anciãos, bispos, pastores etc.) não devem julgar como “heresia” aquilo que destoa do pensamento da maioria ou que foi determinado por outrem como heresia; não é esta a base sólida. O que define a heresia são os 3 pontos mencionados por Paulo na carta a Tito 3:9, conforme apresentei no artigo a que nos referimos. Os presbíteros devem analisar profundamente quaisquer acusações de heresia para saber se as alegações do potencial herege são de fato heresia ou apenas verdades impopulares.

Somente quando um ensino proposto por um potencial herege contradiz clara e diretamente um ensino bíblico a heresia pode ser confirmada e o herege expulso. A via de exemplo, a liderança das Testemunhas de Jeová (assim como das demais religiões) mudou seus pontos de vistas sobre assuntos específicos desde que surgiram em 1879, logo após o rompimento entre Russell e Barbour. Na verdade, muita coisa mudou. Todas as religiões mudaram também. Contudo, os ensinos doutrinais centrais, a espinha dorsal, continua a mesma. Por que alguns ensinos e entendimentos mudaram? Por vários motivos:

1)     Ninguém sabe tudo e é natural aprender com o tempo;

2)   As pessoas são errantes e alteram coisas que não deviam, depois voltam atrás;

3)   As pessoas se apegam a tradições que levam tempo para serem mudadas;

4)   Algumas pessoas desejam mais poder e por isso criam regras extrabíblicas;

5)   A profecia só pode ser plenamente entendida quando Deus a revela;

Enfim, os motivos podem ser muitos. Mas o ponto mais relevante nisso tudo é que alguns ensinos bíblicos não são tão claros. Por exemplo, desde sempre se entendeu que a fornicação e a idolatria são pecados sérios. Mas o ensino sobre quem são os gafanhotos da profecia de Joel que agem antes do Dia de Jeová é algo menos claro, visto que se trata de uma profecia alegórica. No passado, a liderança das Testemunhas de Jeová ensinava que os gafanhotos eram o povo de Deus; atualmente esta crença foi abandonada. Se um cristão defende que o entendimento atual está errado e que o entendimento anterior estava correto, ele não pode ser taxado em hipótese alguma de “herege”, porque aí teríamos de concluir que o entendimento anterior era uma heresia, e Deus não poderia ter abençoado uma heresia. Se esse cristão se negar a aceitar o novo ensino, ele pode até ser acusado de cisma, mas não de heresia; o cisma não é pecado de desassociação, apenas a heresia é. Portanto, ele não poderá ser desassociado. É muito importante sermos precisos nos termos para que pessoas não sejam injustamente acusadas de coisas que não fizeram.

Portanto, em pontos menos claros e onde há possibilidades não tão objetivas, não é possível classificar alguém como herege só porque ele discorda do entendimento oficial da religião e da maioria. É um direito dele, de defender sua posição. É claro que, se temos compromisso com a verdade, naturalmente devemos rejeitar o que é absurdo. Não seria admissível permitir que um membro da igreja defendesse a Trindade ou o Unicismo. Mas o ponto é que uma heresia só pode ser confirmada em ensinos claros e imutáveis. Por exemplo, se um cristão disser que a ressurreição já aconteceu, como no caso de Himeneu e Fileto, isso é uma heresia, pois contradiz o claro ensino de Jesus de que a ressurreição é futura. (João 5:28, 29) É muito fácil de provar a heresia. Se um cristão disser que Jesus é o mesmo ser que o Pai, isso é uma heresia, pois contradiz o ensino bíblico claro de que o Pai e Filho são seres distintos. (Colossenses 1:15, Hebreus 1:3; Apocalipse 3:14) Mas se o cristão disser que os gafanhotos de Joel são a igreja/congregação, isso não poderá ser comprovado como heresia, mesmo pelo fato de que a própria liderança das Testemunhas de Jeová já ensinou isso e porque a própria Bíblia diz que os gafanhotos são o ‘exército de Jeová’. (Leia Joel 2:11) Em outras palavras, a heresia tem de ser um falso ensino que pode ser claramente exposto como tal.

Espero ter respondido suas questões. Um abraço.

 

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org

 

 


3 comentários:

  1. Crer na Trindade (ou não), por exemplo, seria um requisito pra salvação, já que seria passível de excomunhão por não ser doutrina bíblica?

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  2. Excelente. Continue com esse assunto que é tão rico e relevante hoje

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  3. Concordo plenamente com o artigo. Desassociar por interpretação de profecias (que costumam ser tão vagas e imprecisas) ou mesmo não querer mais pregar, não faz sentido. A ordem de pregar é responsabilidade do indivíduo para com Deus, não para com uma Organização, e deve ser feita com amor e não por obrigação, de forma que o indivíduo prestará contas a Deus e não à um Comissão Judicativa. O que o indivíduo não pode fazer é sair proibindo outros de pregar, ou mesmo maltratar quem faz a pregação. Até mesmo tem uma profecia em Amós 8:11 que dá margem para certas interpretações... E até onde sei interpretar profecias sem impor seu entendimento a ninguém não é heresia.

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