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domingo, 27 de novembro de 2022

ARTIGO ESPECIAL: Romanos 13 – As “autoridades superiores” e o cisma de 1962 na Europa oriental (Parte 3 – final)

 

Contribuído por Cristão Antitípico.


Caso não tenha lido as partes 1 e 2, sugiro que as leia antes de ler a parte 3, para se inteirar do assunto. Para acessar as partes 1 e 2, clique abaixo: 

Parte 1

Parte 2

A parte 1 desta série de artigos especiais mostrou que a liderança das Testemunhas de Jeová (TJs) fez uma mudança de entendimento em 1929 sobre as “autoridades superiores”, de Romanos capítulo 13. A parte 2 mostrou as consequências desta mudança nos ensinos das TJs. Neste artigo, irei discorrer sobre como as TJs foram orientadas por sua liderança a tratar os que se opunham ao conceito de 1929, bem como a forma em que ocorreu a posterior mudança de conceito em 1962. 

                Entre 1930-1961 – A “classe de Judas”

A revista A Sentinela de 1º de fevereiro de 1935, p.37, fez acusações fortes.

9 . . . O “homem do pecado” ou classe de Judas, que uma vez esteve na fila para o reino, desde então zombou e continua zombando da verdade de que Deus tem uma organização na terra, e ainda insiste que as “autoridades superiores” (Rom. 13:1) são os governos desta terra e seus oficiais, que fazem parte da grande organização de Satanás. Eles zombam da verdade de que os “poderes superiores” mencionados pelas Escrituras são Jeová Deus e seu Rei ungido.

10 Aqueles que dão atenção agora às palavras contrárias e que são influenciados pelos esforços da classe do “homem do pecado” não resistirão à prova neste dia, mas certamente fracassarão.

19 . . . “Todas as árvores” aqui devem necessariamente incluir a classe “servo mau” ou “homem do pecado”, porque no momento do cumprimento da parábola profética a classe “servo mau” como “árvores” agora se curva e agita seus braços aos governantes visíveis terrestres e declaram que eles são os “autoridades superiores”, e assim eles traem o Senhor Jesus, conforme representado em seus irmãos, a classe do “servo fiel e sábio”. A classe do “homem do pecado” aqui se torna também a classe de Judas, “o filho da perdição”.[1]

                Há inúmeras outras declarações neste mesmo patamar em A Sentinela de 1935 e ainda outras até o ano de 1961. Em resumo, o entendimento de 1929 sobre Romanos 13 era visto como um divisor de águas entre a verdade e a mentira; entre a organização de Jeová e a organização de Satanás; entre a árvore frutífera e a árvore imprestável; entre a salvação e a destruição; entre a noiva de Cristo e Babilônia, a grande meretriz.

                Essas são palavras muito sérias, e elas nos mostram que não havia diplomacia nem margem para opiniões divergentes – essa era a verdade absoluta e se você discordasse, pertencia à organização de Satanás. Chamar aqueles que discordavam da visão de 1929 de “classe de Judas”, isto é, de traidores de Cristo, é uma acusação muito séria, e isso foi feito insistentemente e de forma difamatória entre os anos de 1930 e 1950. Muitos irmãos acabaram abandonando a Sociedade Torre de Vigia (STV) e sendo difamados por expressões como “filhos da destruição”, “classe de Judas”, “escravos imprestáveis”, dentre outras tão fortes quanto.

                Além disso, foi feito um julgamento de que tais não seriam salvos. Uns 30 anos mais tarde a própria Sociedade tomaria a posição da “classe de Judas”. Como de praxe, nenhum pedido de perdão foi feito pela difamação, pelas calúnias e injúrias que foram lançadas sobre os dissidentes durante os anos de 1929 e 1961.


O entendimento de 1929 sobre as “autoridades superiores” de Romanos 13 era um divisor de águas, um ensino central da Sociedade que fazia a diferença entre o escravo bom e o mau, o fiel e o infiel, Babilônia e a igreja, a salvação e a destruição. Aqueles que discordavam do entendimento eram taxados de “servos de Satanás” e insultados com o título “classe de Judas”. Em 1962 a Sociedade Torre de Vigia passou a adotar o conceito que atribuíra à “classe de Judas”. Nenhum pedido de perdão foi feito.

 

                Você estava ciente dessas informações? A STV não conta o que realmente aconteceu. Este não era um “entendimento pequeno”, conforme fica claro pela pesquisa nas publicações. Antes, a importância do entendimento de 1929 se equipara à posição sobre transfusões de sangue, desassociação, o escravo fiel e prudente, 1914 e os tempos dos gentios e até mesmo à esperança do paraíso na Terra. Era uma doutrina central, não periférica, da organização; era uma das doutrinas que determinava as TJs como a igreja de Cristo; era um pilar da fé – ou você aceitava isso, ou você era um traidor de Cristo.

                Agora pergunto: se o atual CG (Corpo Governante das Testemunhas de Jeová) anulasse o entendimento sobre os sete tempos dos gentios, tipificados em Nabucodonosor, e que culminaram em 1914,[2] ou mesmo se anulasse o entendimento sobre transfusões de sangue, você se dissociaria das TJs? Falo de minha própria parte: eu me dissociaria imediatamente, e conheço irmãos que fariam o mesmo. Pois bem, foi exatamente isso que os irmãos na Romênia fizeram – e com toda a razão, eu teria feito a mesma coisa. Agora responda: de quem foi a culpa pelo cisma de 1962? A resposta é somente uma: da própria Sociedade Torre de Vigia.

 

1962 – Trocando as fraldas

                Então chega o ano de 1962 e a liderança da organização começa a se aperceber de que uma de suas doutrinas centrais e mais relevantes, determinantes e exclusivas, estava errada. O que fazer? Poderia fazer como a cristandade herege e permanecer no erro; ou poderia tomar uma ação que refletisse o protocolo de humildade.

                Se eu fosse o presidente da organização em 1962, teria convocado anciãos representantes de congregações de todas as partes do mundo, teria pedido aos anciãos que conversassem com os irmãos, abrissem o jogo para a congregação e anotassem a resolução de cada congregação; tal resolução seria enviada à sede, e então um extenso pedido de perdão aos irmãos seria feito.

                Eu também enviaria um pedido de perdão a todas as organizações da cristandade por tê-las chamado de “classe de Judas” durante 30 anos porque discordavam da Sociedade quanto a Romanos 13, sendo que estavam certas e a Sociedade, errada.

                Em seguida, eu estabeleceria um novo sistema organizacional a fim de impedir que o mesmo tipo de erro se repetisse: ninguém mais poderia determinar doutrinas a não ser a própria congregação por meio de resoluções orquestradas pelos anciãos locais junto aos membros das congregações que são versados nas Escrituras. O modelo unidirecional, de cima para baixo, da Sociedade para as congregações, inquestionável e irrepreensível, tinha dado errado e deveria ser abolido, e o erro de 1929 certamente nos ensinou isso. É o que eu teria feito. Estou certo de que muitos irmãos aprovariam o novo sistema.

                Mas o que a organização fez? Ela fez o que sempre faz: trocou de entendimento como quem troca de fraldas –, de forma absolutamente casual; não pediu perdão, não desenvolveu humildade, não se desfez de sua autoridade, não se tornou mais diplomática e menos dogmática; ao contrário, aumentou seu poder; não se retratou, causou um grande cisma e jogou a culpa disso em quem não aceitou a mudança, exigindo humildade dos outros, não de si mesma.

                A revista A Sentinela de 1962 em inglês, (em português: 15 de junho de 1963, p. 360) trouxe o artigo intitulado: Sujeição às “Autoridades Superiores” — Por Quê?, onde foi feita uma exposição erudita sobre os detalhes e o sentido do texto. Palavras em grego foram analisadas, o contexto histórico e a intertextualidade também. O artigo explicou bem o novo entendimento, mas ficou por isso mesmo.

                Para você entender porque afirmo que o entendimento foi alterado de forma casual, imagine que neste mesmo dia você vá à reunião para o estudo de A Sentinela e o artigo tenha o tema: “Por que podemos aceitar transfusões de sangue?” Então o estudo apresenta argumentos para a tese de que a lei de Atos 15:29 não se aplica ao uso medicinal do sangue. E aí. . .  o estudo termina e é isso. Nada mais é dito. Você vai para casa e está tudo normal.

                Como você reagiria? Pois bem, foi exatamente assim que muitos irmãos reagiram na Romênia em 1962 – o paralelo com a questão do sangue é equivalente. Em várias partes do mundo, irmãos haviam sido executados e presos por causa do entendimento de 1929, e em 1962 foi anulado. Isso fez com que muitos irmãos se sentissem traídos e enganados pela STV, e com toda a razão. Afinal, eles foram presos por um erro da liderança da organização. Essa é uma bandeira vermelha e deveria nos ensinar algo seriíssimo: não podemos confiar nas decisões da liderança da Sociedade Torre de Vigia.

                O resultado disso foi que mais de 5 mil irmãos na Romênia se dissociaram da Sociedade. Esse grupo ainda retém todas as crenças das TJs, incluindo o entendimento de 1929 sobre as “autoridades superiores” como sendo Jeová e Jesus. Eles rejeitam transfusões de sangue, pregam de casa em casa e não fazem parte do mundo. Segundo o pouco que pude conversar com um membro do grupo, entretanto, eles são bastante fundamentalistas e também cometem exageros. Eles proíbem o uso de maquiagem e são contra a caça de animais.

Conclusão

                Eu admito que, embora ache muito plausível que Romanos 13 se refira às autoridades civis, não excluo totalmente a ideia de que o entendimento de 1929 poderia estar correto. Há bons argumentos usados em A Sentinela de 1929. Portanto, eu não penso que esta discórdia transforme em hereges aqueles que ainda aceitam o entendimento de 1929. Por que afirmo isso? Porque se aceitar o entendimento de 1929 é heresia hoje, então era heresia em 1929, apenas a organização não estava ciente disso. Reflita nos seguintes pontos:

·       Será que é impossível que convivamos lado a lado por causa dessa diferença?

·       Afinal, não cremos todos nós que Jeová e Jesus são de fato aqueles aos quais devemos nossa obediência incondicional e acima de tudo?

·       Não estamos de acordo, seja qual for nossa visão sobre Romanos 13, de que os governos deste mundo não são dignos de nosso apoio e não agem como ministros de Deus quando descumprem suas leis justas?

·       Será que discordamos quanto ao fato de que nossa obediência aos governos civis é relativa?

                Todos estamos de acordo nas respostas para estas perguntas.

                O que nos divide, portanto, são homens, corporações e suas regras extrabíblicas, seus sistemas eclesiásticos e clericais, seu desejo de poder e de controle sobre as nossas opiniões; sua crença de que são mais especiais perante Jeová em relação aos demais cristãos.

                A finalidade do presente artigo é, além de trazer para sobre a mesa os eventos como de fato ocorreram, (não apenas a fatia doce de um bolo amargo), que isso elucide os irmãos sobre uma verdade essencial: não há ninguém designado por Cristo para explicar a Bíblia ou para determinar regras e leis para os demais. Não podemos obedecer “sem pensar duas vezes” à cada orientação da liderança da STV. O erro sobre Romanos 13 e a divisão de 1962 provam isso.

                Que todo o cristão se revista da nova personalidade pela ação do espírito santo em seu íntimo e passe a ver os demais como irmãos de fé, não como inimigos que abandonaram seus líderes humanos. Famílias e amigos têm se separado porque um dos membros passou a pensar diferente sobre uma determinada pessoa ou grupo de pessoas – irmãos, sejamos maiores que isso! Somos servos do Senhor Jeová e seguidores de Cristo – as autoridades superiores do universo. Que sejamos uma fé, não uma religião; que sejamos uma fraternidade, não uma corporação. Que sejamos servos de Jeová, não de homens. Nossa salvação depende de Cristo, não de uma organização.

                Quando conseguirmos olhar além de corporações e enxergarmos servos de Jeová que possuem suas próprias dores e dúvidas; quando focarmos nossa atenção apenas no Senhor como único Salvador, sem mediadores humanos, estaremos novamente unidos, mais próximos da mentalidade de Cristo e a ganharemos a aprovação de nosso Pai, Jeová.

 

Notas:

[1] A Sentinela de 1º de abril, 1935, p. 104.

[2] Eu concordo com o entendimento de que Nabucodonosor é um tipo profético que representa todo o domínio gentio de “sete tempos”. Concordo que haja boa evidência de que tal profecia culminou em algum momento do século passado. Se foi exatamente em 1914, um pouco antes ou um pouco demais, isso não é relevante.


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

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domingo, 20 de novembro de 2022

ARTIGO ESPECIAL: Romanos 13 – As “autoridades superiores” e o cisma de 1962 na Europa oriental (Parte 2)

 

Contribuído por Cristão Antitípico.


              Caso não tenha lido a parte 1, sugiro que a leia antes de ler a parte 2, para se inteirar do assunto. Para acessar a parte 1, clique aqui.

A PARTE 2 deste assunto contém mais detalhes e mais argumentos para a tese de Rutherford.

RESUMO DE A SENTINELA DE 1º DE JUNHO DE 1929, PARTE 2

1.    Tese:o arranjo concernente à igreja procede de Jeová e por Cristo. Todos na igreja que agradam a Jeová e a Cristo Jesus devem ser voluntariamente submissos ou obedientes a esse arranjo divino. Não há exceção a esta regra; e, portanto, deve sempre ser lembrado pelo ungido do Senhor e seguido estritamente.” [Parágrafo 1];

2.  Argumento: Não se poderia dizer que Deus estava julgando o mundo nos dias de Paulo, porque o próprio Paulo escreveu que ‘Deus designou um dia futuro em que ele julgará o mundo com justiça’ (quando governos injustos não existirão); Deus não interferiu com as nações da terra em fazer leis e aplicá-las. O julgamento referido por Paulo, em Romanos 13:2, deve ser aplicado à igreja, e esse julgamento deve ser pelo poder que Deus ordenou que julgará a igreja. Se o “julgamento” mencionado em Romanos 13:2 deve ser proferido e executado pelos poderes dos governos gentios, então tal julgamento deve ser proferido e executado por algum homem como juiz; e isso é contrário à Palavra de Deus, independente de quem seja o homem. Nenhum homem na igreja ou fora da igreja está autorizado a julgar alguém que está na igreja. (Romanos 2:1, 3) [Parágrafos 2-4];

3.  Tese: A substância da declaração de Paulo (Romanos 13:2) é esta: Que todo aquele que na igreja resiste ao arranjo que Deus fez para o governo de sua igreja está resistindo a Deus e, portanto, receberá punição de Deus por meio de Cristo Jesus por fazê-lo. [Parágrafo 5];

4.  Argumento: Se a palavra “governantes” usada por Paulo em Romanos 13:3 não se aplica ao arranjo na igreja, então a palavra deve se aplicar a Satanás e sua organização. [Parágrafo 6];

5.   Argumento: Os ministros de Deus não recebem o “louvor” das autoridades gentias por suas “boas obras”, que se referem a pregar o evangelho de porta em porta. Apenas as autoridades da igreja dão “louvor” às boas obras dos ministros de Deus. Portanto, as autoridades superiores não são os governos civis, mas aquelas no arranjo teocrático. [Parágrafo 7];

6.  Argumento: Na Libéria, África, o governo proibiu que um missionário da Sociedade pregasse a mensagem do reino. Deveria ele ser submisso a tal autoridade para evitar o furor dela contra ele? A resposta é não. Portanto, os cristãos não devem ser submissos às autoridades do mundo, mas ao arranjo teocrático. [Parágrafo 8];

7.   Tese: Em vista de tudo isso, Paulo ordenou os cristãos a serem submissos à Cristo, o cabeça da igreja, e àqueles que foram comissionados por ele como “governantes” na igreja; [Parágrafo 9];

8.  Argumento: O texto de Romanos 13:4 prova que a “autoridade” não pode ser a do mundo de Satanás. O texto diz: pois ela é serva de Deus para você, para o seu bem. Mas, se você faz o que é mau, tenha medo, porque não é sem motivo que a autoridade traz a espada. Ela está a serviço de Deus, para executar vingança e expressar ira contra quem pratica o que é mau.” (Romanos 13:4) Deus não ordenou nenhuma autoridade civil para executar julgamento sobre os membros da igreja. Logo, a autoridade superior é o Cristo apenas. [Parágrafos 10-12];

9.  Argumento: Os poderes gentios usam a espada para matar. Se o texto é aplicado aos poderes gentios, então significa que tais são revestidos de poder e autoridade sobre o povo do Senhor para literalmente matar aqueles que estão na igreja, e que tais são vingadores de Deus. Jesus foi acusado do mal da sedição, foi injustamente julgado e morto. Ao fazer isso, certamente o Diabo não estava agindo como vingador de Deus ali.” [Parágrafo 13];

10.         Tese: Isso não significa que cada indivíduo na igreja poderá punir outros a seu bel-prazer. “Cristo e os apóstolos são os governantes da igreja. . . e à eclésia foi confiada alguma autoridade. Nada disso é um terror para as boas obras; mas esse poder que o Senhor usa é um terror para as más obras e ele não porta em vão o instrumento punitivo de Deus.” [Parágrafo 14];

11.           Tese: Em Romanos 13:6, Paulo menciona o pagamento de “impostos”. Isso, entretanto, não prova que as autoridades são aquelas do mundo. Por que não? Porque Paulo está fazendo uma comparação. Por que razão os cristãos pagam impostos? Por causa da sua consciência. Da mesma forma, os cristãos devem ser submissos à autoridade superior, isto é, Jesus Cristo, por causa da sua consciência, não aos governos do mundo. [Parágrafos 15-19];

12.          Argumento: A expressão “eles são ministros de Deus” em Romanos 13:6 prova que as autoridades não são as do mundo de Satanás, mas aquelas que provêm de Jeová. A palavra para “ministros” é de onde deriva a palavra “liturgia”; refere-se à igreja, não ao mundo secular. [Parágrafo 20];

13.          Tese: O “temor” às autoridades superiores não se refere ao temor a um ancião, nem deve ser usado como meio de ganhar reverência; refere-se ao temor a Deus. (Efésios 5:21) [Parágrafos 21-24];

14.          Tese: Cada cristão deve honrar e respeitar seu companheiro na igreja. “Se um ancião na igreja trabalha de acordo com a Palavra da verdade pelos interesses do reino, então ele tem direito a dupla honra ou respeito. Se ele se opõe às obras do Senhor e à instrução sobre a obra do Senhor, então ele não tem direito a nenhuma honra. (1 Tim. 5:17)”. [Parágrafos 25, 26];

15.          Tese: Os cristãos devem obedecer leis de caráter moral nas nações (que ser harmonizam com as leis de Deus) não apenas porque se lhes é ordenado, mas por amor à verdade e porque obedecer é o certo a fazer. [Parágrafos 27-29];

16.          Argumento: Romanos 13:10 prova que Paulo não se referia às autoridades do mundo. “O amor não obra o mal para com o próximo; portanto, o amor é o cumprimento da lei.” Se uma nação ordena que um cristão vá à guerra e mate, o amor não poderia ser o cumprimento dessa lei. Portanto, as palavras de Paulo não se referem às autoridades do mundo. O cristão não deve obedecer à lei de uma nação quando contrária à lei de Deus. [Parágrafos 30, 31];

17.          Tese: Nenhum cristão deve ir à guerra nem deve interferir nas nações em guerra. Cada nação em guerra deverá decidir o que fazer. Os cristãos não se envolvem nisso. O cristão que morrer fiel a Deus, receberá sua recompensa celestial; mas se ele for à guerra e morrer em batalha, sua esperança acabará. [Parágrafo 32-37];

18.         Tese: Os cristãos erroneamente têm concluído o seguinte: “Devemos deixar o mundo ver que somos tão doces e inofensivos que os governantes observarão que estivemos com Jesus e aprendemos dele.” Isso está errado. Os cristãos devem ser destemidos e bravos. [Parágrafo 32-37];

19.          Tese: Não é hora de dormir, é hora de despertar para a obra do Senhor. (Romanos 13:11) O cristão não tem parte no mundo de Satanás. Cristo é o cabeça de todos os cristãos que são ungidos por espírito; a organização do Senhor é conhecida pelo título genérico “A Sociedade”. [Parágrafo 38-45];

20.       Tese: “Que todas as controvérsias cessem entre o povo do Senhor, e que aqueles que não desejam ter qualquer parte na obra do Senhor se afastem e permaneçam quietos e não tentem impedir a obra do Senhor.” Que todos os ungidos marchem juntos como um exército destemido. [Parágrafos 46-48];


                Posteriormente sugiro que você leia o artigo de 1929 de forma completa. Você pode usar o Google Tradutor caso não seja fluente em inglês.

 

Efeitos severos de um entendimento errado

                Após ter visto com seus próprios olhos quão intenso foi o ensino de 1929, talvez você ainda esteja se perguntando quão relevante foi. Os entendimentos de 1929 e 1962 produziram efeitos severos no protocolo das TJs [Testemunhas de Jeová] em geral e da liderança da organização.

                Entre os anos de 1929 e 1962, durante os quais o entendimento sobre as autoridades superiores de Romanos 13 era que se referiam a Jeová e a Jesus, as TJs no mundo inteiro tinham uma postura destemida e intrépida em relação aos governos seculares, ao ponto de que, com a mentalidade que temos hoje, julgaríamos “inconsequente”.[1] Em vários países as TJs batiam de frente com as autoridades quanto ao direito e dever de pregar. Não havia rota alternativa ou diplomacia, nem discrição, nem cautela – o negócio era punk. (Perdoem-me pela gíria, mas acho que o termo descreve corretamente o que tenciono dizer.)

                Nos EUA, a postura das TJs teve um resultado positivo na sociedade e foi determinante para que se abrissem portas para liberdades individuais que hoje existem em um dos países mais prósperos e livres do mundo. Portanto, os americanos têm muito a agradecer às Testemunhas de Jeová pela liberdade de expressão que usufruem.

                Em contrapartida, outro resultado dessa visão e postura foi que em muitos países muitos irmãos foram presos por pregar abertamente, sem discrição nem cautela, e por bater de frente com as autoridades. Certa irmã que tinha filhos em idade infantil foi presa por muitos anos por pregar e enfrentar autoridades destemidamente e por se negar a parar com a pregação de casa em casa. Ela perdeu a chance de ver seus filhos crescer, perdeu grande parte da vida na cadeia, sendo que isso poderia ter sido evitado se ela continuasse pregando, porém com a postura adotada atualmente pela organização, a saber, de discrição e cautela. Não havia isso na época.

                A revista A Sentinela de 1º de agosto de 1951, p. 125, par. 7 mostrou os efeitos do entendimento sobre as “autoridades superiores” enquanto ainda estava vigente:

As conclusões às quais se chegou foram publicadas nos números de 1 e 15 de junho de 1929 de The Watchtower no artigo, em duas partes, titulado “As Autoridades Superiores”. A aderência a estas conclusões desde então custou a muitas das testemunhas sua liberdade pessoal e até sua vida. Contudo perseguições, prisões, exílio, e morte violenta foram também o preço que os fiéis apóstolos de Jesus pagaram por dar a Deus as coisas de Deus e a César apenas as coisas de César e por prestar a devida sujeição às genuínas “autoridades superiores.”

                Depois de 1962, a coisa começou a mudar. Atualmente, as TJs ainda cumprem a ordem bíblica de pregar as boas novas, mesmo sob proscrição. (Mateus 24:14) Entretanto, hoje se usa de cautela, visando a proteção e o sigilo dos irmãos. Em países onde pregar é proibido, os irmãos não pregam de casa em casa, visto que este é um método de pregação, não uma ordem sobre como pregar. (Atos 20:20) Ademais, os irmãos não batem de frente com autoridades hostis à obra do reino; antes, eles procuram ser invisíveis aos olhos das feras. Esta postura é o oposto diametral da que vigorava entre 1929 e 1962.

                Em relação à essência no conceito do ensino de 1929 e do atual, contudo, a conduta civil e o reconhecimento da posição de Cristo e de Jeová são a mesa coisa. Atualmente as autoridades superiores de Romanos 13 não são entendidas como se referindo a Jeová e a Jesus, mas aos governos civis; ainda assim, toda Testemunha de Jeová no mundo inteiro entende que Jesus e Jeová são as maiores autoridades no universo, e sabem que é a eles que devem obediência absoluta. Ademais, mesmo em 1929 entendia-se a obrigação de cada cristão ser um cidadão exemplar e honesto nos deveres civis do cotidiano. Portanto, nestes pontos não há diferença relevante entre os dois entendimentos.

                Ficou claro até agora que o entendimento de 1929 foi algo muito, muito intenso e sério. Mas a coisa fica bem pior, quando consideramos os efeitos da veemência da posição das TJs a partir de 1929 sobre as “autoridades superiores” em como tratavam os que se opunham a este conceito, bem como a forma em que ocorreu a posterior mudança de conceito em 1962. Isto será considerado na parte final desta série de artigos.

 

Nota:

[1] Eu evidentemente admiro tal postura e acho até edificante ler relatos sobre as atitudes dos irmãos naquela época. Atualmente, nossa cultura criou em nós uma mentalidade mais politicamente correta, onde discrição e cautela são regras; conflitos devem ser evitados e sempre a diplomacia é priorizada. Mas nos anos que seguiram a 1929, as pessoas eram emocionalmente muito fortes e impávidas, destemidas. Isso parece estranho para nós hoje, mas era muito comum na época.


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