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domingo, 25 de dezembro de 2022

Raymond Franz – um inimigo do Soberano Senhor Jeová

 
 

Contribuído por Cristão Antitípico.

 

Raymond Franz é visto pelas Testemunhas de Jeová (TJs) em conexão com a Sociedade Torre de Vigia como um “apóstata”. Conforme expliquei nos artigos anteriores, ele foi culpado de heresia; portanto, este é o termo exato para descrevê-lo, a saber, “herege”. Portanto, não uso o termo “apóstata” para me referir ao ex-membro da Torre de Vigia.

Eu concordo com algumas das críticas que ele fez em relação às TJs e principalmente as que fez em relação ao Corpo Governante (CG) das TJs. Entretanto, conforme já falei exaustivamente, R. Franz foi muito além de seus conhecimentos e qualificações acadêmicas e resolveu falar de assuntos em relação aos quais não possuía qualquer qualificação. Muitas das críticas que R. Franz fez em relação à liberdade das TJs hoje tornaram-se verdadeiras nas duas últimas décadas, mas não eram verdadeiras na década de 1970. Este, inclusive, tem sido o maior feito do atual Corpo Governante: fazer com que R. Franz passasse a ter razão em muito do que disse.

Minha posição clara sobre R. Franz é esta: ele fez algumas críticas justas sobre as TJs; muitas críticas justas sobre o Corpo Governante; algumas poucas observações teológicas razoáveis ou que deveriam ser trazidas sobre a mesa; e algumas aberrações teológicas que são base para desassociação incontestável, como a que discuto neste artigo, a saber, sobre o nome de Deus. Em vista desta última questão, R. Franz tornou-se culpado de heresia e mereceu ser desassociado das TJs.

O nome de Deus

É estarrecedor o fato de R. Franz ter atacado a forma como as TJs usam o nome do Criador do universo, pois a importância do nome de Jeová é abertamente expressa tanto nas Escrituras Hebraicas como nas Escrituras Gregas Cristãs. Além disso, os argumentos de R. Franz mostram que ele está muito longe de ser um estudioso da Bíblia e revelam sua falta de conhecimento em relação ao nome de Deus — cuja santificação é o tema central da própria Bíblia. Na página 491 do livro Liberdade Cristã (em inglês), R. Franz faz a seguinte pergunta:

Com que direito, então, os homens que afirmam ser seguidores das pisadas do Filho de Deus escolhem um nome que nem mesmo dá testemunho do Cristo? Como eles justificam a escolha de um nome que remonta a uns 700 anos antes de seu aparecimento como o Messias, de volta às palavras ditas ao povo judeu sob o Pacto da Lei.

Esta pergunta mostra que R. Franz, além de não saber coisa alguma do que estava falando, seguiu a tradição das principais denominações cristãs e transferiu a ênfase de Jeová para Jesus Cristo – ao invés de dar ênfase em Jesus apenas “para a glória de Deus” – este é colocado em segundo plano. (Leia Filipenses 2:11.) A posição de R. Franz é oposta aos fatos. O nome latinizado “Jesus” é teofórico, isto é, contém um morfema que é o mesmo do nome “Jeová” – algo muito comum no idioma hebraico. “Jesus” é uma adaptação linguística do grego Iesus e do hebraico Yehoshua, que significa “Yehovah é a salvação” e, portanto, o nome Jesus dá testemunho de Jeová e está conectado com Jeová, indicando que o Supremo é a verdadeira causa da salvação. Portanto, é evidente que R. Franz tirou do vento a ideia de que ‘o nome de Deus não dá testemunho de Jesus’.

Embora os nomes não sejam traduzidos de acordo com seus significados, há tradução (ou adaptação linguística) para nomes históricos em vários idiomas. Veja alguns exemplos:

Inglês

Português

Christopher Columbus

Cristóvão Colombo

John Calvin

João Calvino

Martin Luther

Martinho Lutero

Aristotle

Aristóteles

Portanto, se usamos a forma latinizada “Jesus”, começando com o radical “JE”, é inconsistente usar a forma “Javé” para Deus, começando com o radical “JA”, pois o radical de ambos os nomes têm de ser o mesmo. Assim, não apenas o uso do nome de Deus pelas TJs é correto, mas também a forma latinizada “Jeová” é perfeitamente consistente com o sistema de tradução e com o sentido do nome de Deus.

O significado do nome de Deus

O nome de Deus não significa “Ele causa que venha a ser” (isto é, “Ele é o Criador”), conforme ensina a Torre de Vigia, pois a Bíblia não diz isso em parte alguma; o nome de Deus significa “Ele era, ele é, ele será” (ou “que era, que é e que vem”, indicando passado, presente e futuro), pois é isso que a Bíblia diz. (Apocalipse 1:8) E visto que tal sentido é apresentado em Apocalipse 1:8 de forma tão gloriosa, isso já derruba qualquer oposição à ideia da presença do nome de Deus no Novo Testamento. Farei um artigo só sobre isso em breve.

Na página 495, R. Franz argumenta contra a inclusão de “Jeová” na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Gregas Cristãs da seguinte maneira:

O que é notável é que, além dessas quatro ocorrências dessa forma abreviada em Apocalipse, em nenhuma outra parte das Escrituras Cristãs contidas nessas cópias antigas encontramos uma única ocorrência desse nome. Uma vez que existem cerca de 5.000 cópias em grego dessas Escrituras Cristãs, o fato de que nenhuma dessas milhares de cópias contém o Tetragrama é ainda mais impressionante. O mesmo se aplica às primeiras traduções dessas Escrituras Cristãs para outras línguas, como as traduções siríaca, armênia, saídica e latina antiga. Por esta razão, na grande maioria das traduções do Novo Testamento o nome “Jeová” não aparece fora de sua aparição abreviada no livro de Apocalipse. Por contraste, se consultarmos a Tradução do Novo Mundo da Sociedade Torre de Vigia, encontraremos o nome “Jeová” (e “de Jeová”) 237 vezes, de Mateus a Apocalipse. O fato, porém, é que quando a Tradução do Novo Mundo coloca o nome “Jeová” em qualquer parte das Escrituras Cristãs, o faz sem qualquer apoio de um único dos manuscritos antigos dessas Escrituras Cristãs.

Para um estudo mais profundo, poderá adquirir o livro The Tetragram — Its History, Its Use in the New Testament, and Its Pronunciation (2019), de Rolf Furuli. O irmão Furuli refuta simplesmente todos os argumentos de R. Franz contra o uso do nome de Deus nas Escrituras Gregas Cristãs e em tudo o mais. Não tenho capacidade para dissertar sobre a língua hebraica com a propriedade e autoridade que o irmão Rolf Furuli faz em seu livro. Portanto, recolho-me à minha insignificância neste ponto e apenas incentivo você, leitor, a conhecer tal livro.

Entretanto, a crítica de R. Franz é no mínimo tendenciosa demais. Ele objurga a inserção do nome de Deus pelas TJs nas Escrituras Gregas Cristãs, mas há um silêncio ensurdecedor da parte dele quanto à remoção do nome de Deus das Escrituras Hebraicas pelas igrejas cristãs em geral. Ou seja, recolocar o nome de Deus 237 vezes nas Escrituras Gregas é absurdo, mas removê-lo quase 7000 vezes das Escrituras Hebraicas é tolerável? O padrão duplo de lógica da parte de R. Franz é evidência de hipocrisia.

‘O nome de Deus não aparece no NT’

Eu não gosto de frases de impacto, pois elas são geralmente limitadas em aplicação e, se aplicadas a tudo, conduzem os ouvintes ao erro. Entretanto, vou abrir uma exceção válida. Certa vez ouvi uma frase que dizia: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só verdades.” (Queira assistir a este breve vídeo. Clique aqui.) Se apenas parte da informação for passada, por mais que tal porção esteja correta e seja plenamente verdadeira, os ouvintes serão conduzidos a uma conclusão errada. Vejamos um exemplo disso no quadro abaixo.

Como contar mentiras dizendo apenas verdades

David Splane, atual membro do Corpo Governante, fez uma palestra na Holanda e na Bélgica em 2005. Ele usou Davi, Golias e Saul como ilustrações indicando que cada um de nós também deve lutar contra gigantes. Um dos “gigantes” que devemos combater, segundo as palavras de Splane, são os problemas econômicos.

Em 1992, a revista A Sentinela publicara um artigo equilibrado sobre ensino complementar e educação, que apresentava uma visão oposta sobre educação em relação à visão que passou a ser promovida intensamente desde o ano 2005. Nesse contexto, Splane disse:[1]

Milhares de nossos irmãos enfrentam o gigante dos problemas econômicos. O mundo os mantém trabalhando longas horas. Os pais querem o melhor para os filhos. Usamos a armadura de Saul ou seguimos o caminho de Jeová? O mundo diz que a resposta é o ensino superior. Alguns passam quatro, seis ou até oito anos buscando o ensino superior do mundo. O resultado: eles são efetivamente isolados da organização e congregação de Jeová por esse período.

Em 1992, a organização de Jeová publicou alguns conselhos. A Sentinela de 1 de novembro de 1992 teve um artigo interessante sobre educação. A questão era que deveríamos ter uma visão equilibrada da educação. Curiosamente, as palavras “ensino superior” nunca apareceram naquele artigo; o termo usado foi “educação complementar”. Isso significa um curto curso de talvez alguns meses ou até um ano, ou talvez um pouco mais, para atender adequadamente as suas necessidades. Vemos a sabedoria desse conselho? Hoje, milhões de graduados universitários estão sem trabalho. Em Paris, diz-se que não se pode encontrar um encanador. Sim, muitos têm diplomas em ciência da computação, mas quando os canos estouram, um diploma em ciência da computação não os conserta!

Em uma primeira análise, nada do que Splane disse é falso; ainda assim, a mensagem é falsa e dissimulada. Vou explicar 4 declarações de Splane que são verdadeiras em primeira mão, mas que enganam os ouvintes.

1. “[Os que cursam uma universidade] são efetivamente isolados da organização e congregação de Jeová por esse período.”

 É verdade que alguns irmãos que cursam a universidade acabam se afastando da congregação, mas isso é exceção, não regra; a verdade que Splane não contou é que muitos jovens que entram no serviço de pioneiro sem cursar o ensino superior também acabam se afastando da congregação.

 Minha experiência é que jovens universitários podem ser até mais teocráticos e zelosos que aqueles que decidiram não cursar uma universidade. Conheci muitos jovens universitários que apoiavam construções de salões do reino, eram pioneiros ou mesmo ótimos publicadores; e também conheci jovens que não foram para a universidade a fim de serem pioneiros e eram os mais fofoqueiros e impertinentes da congregação, intrometidos nos assuntos dos outros e com vida dupla. (Leia 1 Timóteo 5:11-13.) Por fim, vários destes jovens, outrora “teocráticos”, foram até mesmo desassociados.

Além disso, questiono-me sinceramente sobre o motivo de muitos jovens abandonarem a congregação após entrar em uma universidade. Será que o CG não tem nenhuma culpa nisso? Com certeza tem! Devido ao modo caricato como o CG apresenta o ensino universitário e ao modo pejorativo como trata ou se refere aos irmãos universitários, a congregação absorve tais conceitos e passa a tratar um jovem universitário com desdém. Em resultado disso, após o jovem entrar em uma universidade, ele não se sente mais bem-vindo na congregação; ele se sente como se os outros o vissem como delinquente, rebelde, materialista – exatamente o que os irmãos são ensinados pelo CG a pensar dos outros; então ele se afasta.

Portanto, de quem realmente é a culpa por muitos jovens universitários se afastarem da congregação? Com certeza é do Corpo Governante – eles são os responsáveis pela difamação dos jovens universitários. Ninguém se sente bem sendo tratado e encarado pela congregação como delinquente e rebelde, e é isso que o CG ensina a congregação a pensar de jovens universitários.

2. “Hoje, milhões de graduados universitários estão sem trabalho.”

Essa frase é dissimulada. “Milhões” em quantos países? E quais cursos universitários esses desempregados têm, isto é, em qual área? Eu nunca vi um médico ou um dentista desempregado, e raramente professores, contadores públicos e outros profissionais similares ficam sem trabalho. O que acontece é que Splane está pegando a exceção e a transformando em regra.

É verdade que há muitos cursos universitários inúteis, como ciências sociais, sociologia, turismo e outros; mas há muitos cursos bons, como medicina, odontologia, enfermagem, cursos na área das tecnologias, etc.  Assim, embora a frase seja verdadeira, é dissimulada e transmite uma mensagem errada.

3. “Curiosamente, as palavras ensino superior nunca apareceram naquele artigo.

Splane se referiu ao artigo em A Sentinela de 1º de novembro 1992 que apresentara uma visão equilibrada sobre o ensino superior. Embora as palavras “ensino superior” não apareçam no artigo de 1992, as palavras “ensino complementar” se referem, ou pelo menos incluem, o ensino superior porque o contexto trata de profissões que requerem ensino superior, a saber, a irmã citada no artigo como exemplo a ser seguido, e que era “contadora pública titulada” – uma profissão que exige diploma universitário.  Assim, Splane levou a assistência a pensar que o artigo de 1992 não se referia ao ensino superior porque não menciona “ensino superior”; mas isso é falso. É uma mentira contada por meio de verdade.

4.                        Muitos têm diplomas em ciência da computação, mas quando os canos estouram, um diploma em ciência da computação não os conserta!”

Essa frase soa engraçada para a assistência. Contudo, ela é dissimulada e revela grande ignorância e até mesmo hipocrisia da parte do membro do CG. Realmente, encanadores são necessários, mas foram encanadores que traduziram a Tradução do Novo Mundo? Foram encanadores que desenvolveram o WatchTower Library (CD-ROM)? São encanadores que defendem as TJs nos tribunais? São encanadores que aceitam tratar as TJs com cirurgia sem sangue? Quando Splane tem uma dor de dente, ele vai ao dentista ou ao encanador? Foram encanadores que desenvolveram e que continuam desenvolvendo o site JW.ORG? David Splane, deixe de ser hipócrita!

O ponto é: todas essas profissões são necessárias e cada uma delas cumpre uma função; mas Splane dá a entender que ser encanador é a solução para os problemas financeiros de todos os irmãos. Ele falou alguma informação falsa? Em primeira mão, não; mas sua mensagem foi dissimulada e falsa.

Há mais pontos que poderiam ser considerados, mas estes bastam por agora para provar que mentiras podem ser contadas mesmo que apenas verdades sejam ditas. Foi isso que David Splane fez na Bélgica e que Raymond Franz fez em seu livro. Não vejo muita diferença de caráter entre eles.

O que R. Franz falou, isoladamente, é verdade; mas a mensagem que ele tenta transmitir é falsa.

O que R. Franz não menciona, e o que ele mesmo provavelmente não considerou, é que nenhum dos 5.000 manuscritos gregos representa os autógrafos, isto é, os manuscritos originais que os autores dos livros das Escrituras Gregas Cristãs escreveram. Por que isso é essencial? Porque sabemos, não apenas “presumimos”, que várias palavras que foram escritas nos autógrafos foram alteradas nas milhares de cópias existentes desses autógrafos a que R. Franz se referiu. Nós sabemos, não apenas “presumimos”, que, visto que todas as cópias dos três primeiros séculos AEC têm abreviações onde o nome de Deus supostamente fora escrito, isso é uma evidência convincente de que essa palavra foi alterada. Cerca de dez outras palavras diferentes também são abreviadas, e nunca ouvi nenhum estudioso afirmar que qualquer uma dessas abreviações teria ocorrido nos autógrafos.

A abreviação onde o nome de Deus deveria estar é ks com uma barra acima das letras. Alguns argumentariam que ks é uma abreviação de kyrios, que significa “senhor”, e essa abreviação mostraria que o Tetragrama (YHVH) não ocorria nos autógrafos. Esse argumento até parece lógico, mas existem alguns dados que contradizem definitivamente essa conclusão.

A abreviação ks também é encontrada nos manuscritos da LXX (Septuaginta) dos primeiros três séculos EC. Nos poucos fragmentos da LXX que existem do período AEC e um de 50 EC, o nome de Deus é escrito como YHVH com letras hebraicas ou aramaicas antigas ou com as letras gregas iao e nunca como kyrios. Assim, os dados mostram que somente após 50 EC e antes do final do primeiro século EC, onde ks começa a ocorrer nos manuscritos gregos, o nome de Deus começou a ser removido dos manuscritos da LXX que foram copiados e substituídos por ks.

Visto que os manuscritos mais antigos das Escrituras Gregas Cristãs têm a abreviatura ks para o nome de Deus, esta é uma boa evidência de que o nome de Deus também foi removido das Escrituras Gregas Cristãs e substituído por ks junto desta tendência em conexão com cópias da tradução da Septuaginta grega (LXX). Assim, a ausência do nome de Deus nos 5.000 manuscritos gregos não mostra em nenhuma hipótese que o nome de Deus não teria sido escrito nos autógrafos das Escrituras Gregas Cristãs. Em verdade, o argumento de R. Franz revela que ele não conhecia nada desse assunto, nem mesmo estava em dia com as informações da Sociedade Torre de Vigia. Portanto, os tradutores da Tradução do Novo Mundo tinham boa evidência manuscrita e, portanto, uma base sólida quando usaram o nome “Jeová” nas Escrituras Gregas Cristãs. Isso sem dúvida foi a direção do espírito santo.

R. Franz usa vários argumentos especulativos em favor de sua opinião de que o nome “Jeová” não deveria ser usado pelos cristãos. Vou discutir um que parece ter uma base textual. Na página 515 de Liberdade Cristã, R. Franz escreveu:

Ao contrário da prática comum das Testemunhas de Jeová ao se dirigir a Deus em oração, Jesus sempre se dirigiu a Ele, nunca como “Jeová”, mas sempre como “Pai” (empregando essa expressão seis vezes apenas em sua oração final com seus discípulos).

Em relação a este argumento, R. Franz ignora o contexto e várias informações são omitidas dos leitores. Uma delas é que as TJs também usam livremente o título “Pai” para se referir a Deus e R. Franz sabia disso. Recuso-me a crer que R. Franz não tenha se dado conta disso.

No caso da última oração de Jesus, por que então ele usa o título “Pai”, e não “Jeová”? A resposta é óbvia: porque o nome de Deus não era o assunto da oração. O tema da última oração de Jesus era a filiação, não o nome de Deus.

R. Franz parece não ter entendido a crítica feita pelas TJs em relação às outras religiões. A crítica não é que as denominações cristãs, por vezes, não usam o nome Jeová, mas que elas nunca o usam e que negam o próprio nome do Soberano. Portanto, R. Franz está atacando um espantalho.

Veja este exemplo que elucidará a questão. Quando nos dirigimos ao nosso pai carnal, usualmente não o chamamos por seu nome pessoal, mas pelo título “pai”. Entretanto, o que nosso pai carnal pensaria de nós se nos recusássemos ou achássemos desculpas para nunca mencionar seu nome? Ou pior, o que pensaria de nós se inventássemos argumentos para não mencionar seu nome? Ou ainda, o que pensaria de nós se removêssemos seu nome de seus documentos?

Imagine que um rapaz de 15 anos de idade seja parado por um policial e questionado sobre quem seria seu pai. Então, ele diz: “Meu pai é o pai.” A única razão para o rapaz se recusar a falar o nome de seu pai é se ele se envergonha do progenitor. De fato, não há nada de errado em chamar a Jeová de “Pai” – isso nunca foi afirmado pela Torre de Vigia; o erro está em negar o nome de Deus.

Em outras situações, Jesus usou o nome Jeová. Vejamos algumas.

·       (Mateus 4:4) “Está escrito: ‘O homem tem de viver, não somente de pão, mas de cada pronunciação procedente da boca de Jeová.’”

·       (Mateus 4:7) Jesus disse-lhe: “Novamente está escrito: ‘Não deves pôr Jeová, teu Deus, à prova.’”

·       (Mateus 4:10) Pois está escrito: ‘É a Jeová, teu Deus, que tens de adorar e é somente a ele que tens de prestar serviço sagrado.’

É absurdo propor que Jesus teria citado as Escrituras Hebraicas de forma adulterada, tirando o Tetragrama e o substituindo por “Senhor”. Portanto, Jesus de fato usou o nome de Deus.

Há evidências de que o nome de Deus era usado livremente pelos judeus nos dias de Jesus e que foi na última parte do primeiro século EC que os judeus pararam de usar o nome de Deus.[2]

Conclusão

Após esta clara análise, não há dúvidas de que R. Franz tornou-se culpado de séria heresia e mereceu ser desassociado das TJs. De fato, o termo “herege” descreve muito bem a personalidade de R. Franz, pois ele se tornou um inimigo do nome do Soberano universal por causa de sua disputa com a liderança das TJs.

Que isso sirva de alerta para nós: não permitamos que os erros do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová e nossa indignação justa com as atuais diretrizes dessa organização nos afastem do caminho da verdade.


Notas:

[1] A revisão foi feita por irmão da Holanda.

[2] Você poderá se inteirar com as pesquisas e publicações de Nehemia Gordon. 


Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org

 

 




domingo, 18 de dezembro de 2022

Raymond Franz e a lei de Atos 15:28, 29

 


Contribuído por Cristão Antitípico.


O ex-membro do Corpo Governante (CG) das Testemunhas de Jeová (TJs) alegara que um dos motivos pelos quais havia decidido abandonar a Sociedade Torre de Vigia era a fim de ‘deixar as Escrituras falarem por si mesmas’, eliminando assim a necessidade de instrutores humanos falíveis no meio do processo de compreensão da palavra de Deus.

Conforme expliquei nos artigos anteriores (queira ler a Parte 1 e a Parte 2), tal afirmação é apenas uma frase de impacto, agradável aos ouvidos de rebeldes desinformados, mas não se sustenta diante de uma análise profunda. Em verdade, a proposta de R. Franz se encaixa corretamente no conceito de promoção de seita/heresia, que é pecado de desassociação. (Tito 3:10)

O que havia por trás da reviravolta de R. Franz?

Pelo que li no livro de R. Franz, fica bem claro um dos motivos de sua reviravolta contra sua anterior teologia. R. Franz disse em Crise de Consciência, página 24 (em inglês):

Eu pessoalmente estive em tal “esteira” de atividade nos últimos vinte e cinco anos em que, embora tenha lido a Bíblia várias vezes, nunca fui capaz de fazer uma pesquisa tão séria e detalhada nas Escrituras, na verdade nunca sentira grande necessidade de fazê-la, pois presumia-se que outros estavam fazendo isso por mim.

Essas palavras, que na mente de R. Franz foram escritas com desdém em relação à Torre de Vigia, são, na mais pura verdade, a explicação da reviravolta do ex-membro: ele deixara de estudar profundamente as Escrituras por 25 anos enquanto membro da Torre de Vigia. A rotina corrida dos afazeres no escritório fez de R. Franz um cristão preguiçoso – isso foi fatal para a sua espiritualidade e prova que R. Franz nunca foi erudito em nada. Aqui vemos um bom exemplo a ser evitado: cristãos preguiçosos em relação ao estudo profundo das Escrituras correm grande risco de cair no pecado da heresia.

Eu falo por experiência própria que houve momentos em minha vida (e creio que isso ocorra com todos vez por outra) em que fui um cristão preguiçoso no sentido de não pesquisar as Escrituras a fundo; mas não por 25 anos, como no caso de R. Franz.

Raymond Franz rejeita o que as Escrituras dizem

                Voltarei agora à expressão “deixar as Escrituras falarem por si mesmas”. Nos artigos anteriores eu mostrei que essa é apenas uma frase de impacto, que é infantil e dissimulada, e isso porque instrutores que conheçam a Bíblia são necessários para nos ajudar a entendê-la. (Tiago 3:1) É necessário que exista um corpo fraterno que porta o conhecimento acumulado das Escrituras. Por outro lado, em relação a um texto bíblico onde se expressa uma lei clara ou um princípio irrevogável, aí sim podemos e devemos “deixar que as Escrituras falem por si mesmas”, mas R. Franz não fez isso com a lei de Atos 15:28, 29.

            A visão que defendo da Bíblia é que, quando um texto expressa um mandamento claro, tal como “Não deves assassinar”, ou “Não deves ter outros deuses em oposição a mim”, “Honra teu pai e tua mãe”, “Casem-se somente no Senhor”; então esses mandamentos são absolutos – não cabe a nós criarmos exceções. Nós podemos observar que Jesus condenou a criação de exceções para as leis da Bíblia.

(Mateus 15:3-6) 3 Em resposta, disse-lhes: “Por que é também que vós infringis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? 4 Por exemplo, Deus disse: ‘Honra a teu pai e a tua mãe’; e: ‘Quem injuriar pai ou mãe, acabe na morte.’ 5 Mas vós dizeis: ‘Quem disser ao seu pai ou à sua mãe: “Tudo o que eu tenho, que da minha parte te poderia ser de proveito, é uma dádiva dedicada a Deus”, 6 este absolutamente não deve mais honrar a seu pai. E assim invalidastes a palavra de Deus por causa da vossa tradição.

                Jesus equiparou criar exceções com invalidar a palavra de Deus – este é um pecado seriíssimo. O ponto é que, se a Bíblia apresenta uma lei clara, a menos que a própria Escritura apresente a exceção (ou excludente de ilicitude) não há exceções.


Quando a Bíblia apresenta uma lei clara, tal como “Honra teu pai e tua mãe”, ou ‘Abstenha-se de fornicação e de sangue’, a menos que a Bíblia também apresente a exceção, a lei é abrangente e absoluta e não há exceções.


                Podemos ver isso no caso da autodefesa e do homicídio culposo. A autodefesa era justificada se a vida da pessoa inocente estava em risco. (Êxodo 22:2) O homicídio culposo obrigava o homicida a ir para uma das cidades de refúgio. (Números 35:22-29) Estas eram as exceções para quando uma vida era tirada. Portanto, a Bíblia apresenta tanto a lei quanto a exceção. Se nenhuma exceção é apresentada em uma lei clara, então a lei é absoluta e extensiva, não há exceções; é esta a visão da Bíblia em que fui ensinado e creio que esteja em perfeita harmonia com o ensino de Jesus acima discutido.

                Com base nisso, analisemos o texto de Atos 15:28, 29:

(Atos 15:28, 29) 28 Pois pareceu bem ao espírito santo e a nós não impor a vocês nenhum fardo além destas coisas necessárias: 29 que persistam em se abster de coisas sacrificadas a ídolos, de sangue, do que foi estrangulado e de imoralidade sexual. Se vocês se guardarem cuidadosamente dessas coisas, tudo irá bem com vocês. Saudações!”

                A palavra grega ἀπέχομαι (apékhomai) tem o significado de “continuar evitando fazer algo” de acordo com Louw e Nida.[1]

                Para ilustrar como a frase “deixar as Escrituras falarem por si” se aplica a leis e princípios em um determinado texto, uso o termo porneía (fornicação/sexo ilícito) como exemplo. O significado da ordem “persistirdes em abster-vos de... fornicação/sexo ilícito” não é uma ordem que se aplicaria a algumas situações, mas não a outras – por exemplo, a situação em que dois solteiros apaixonados fazem sexo. A proibição é abrangente sem nenhuma exceção porque o contexto não descreve tal exceção. Não sei como isso poderia ser mais claro que a forma como estou aqui expondo, mas parece que para R. Franz isso não era tão claro.

O mesmo deve acontecer com “coisas sacrificadas a ídolos”,[2] “o que é estrangulado” e “sangue”. Isso significa que não podemos dizer que devemos nos abster de sangue em algumas situações apenas, mas em outras podemos colocar sangue em nossos corpos; por exemplo, uma situação em que o cristão está faminto, onde o alimento é escasso, e o sangue ou mesmo a carne não sangrada seriam os únicos alimentos disponíveis – não há esta exceção na lei bíblica.

Portanto, a proibição deve ser abrangente e referir-se ao uso de sangue em qualquer contexto, e o sangue para fins medicinais não é apresentado como excludente de ilicitude. Entretanto, R. Franz não aceita isso, e isto mostra que ele mesmo não está ‘deixando que as Escrituras falem por si mesmas’. Em outras palavras, R. Franz está adicionando sua própria interpretação às Escrituras, mas enganando a si mesmo e a outros por repetir a frase de impacto “deixar que as Escrituras falem por si mesmas”. O que fica claro é que R. Franz não queria que outros além dele fossem um “canal falível” na interpretação da Bíblia, mas que ele mesmo fosse tal canal para si e para outros que nele acreditaram.

Uma análise detalhada dos argumentos

Em seguida, analisarei os argumentos dele em relação a Atos 15:28, 29 e mostrarei que não apenas estão errados, mas muito errados, e tal erro é uma prova clara de que R. Franz não possuía qualquer qualificação em semântica.

Em resumo, R. Franz enxerga as palavras de Atos 15:28, 29 como uma recomendação, uma sugestão, não como uma lei para todos os cristãos. Isso consiste de heresia. Essa visão se iguala à visão oficial do protestantismo desde Lutero e a confissão de Altemburgo.[3]

Raymond Franz entendeu a lei de Atos 15:28, 29, que proibia o consumo de alimentos sacrificados a ídolos, de sangue, de carne não sangrada e a prática de sexo ilícito, não como uma lei, mas apenas como um “conselho” ou “recomendação”, a qual não se aplicaria aos cristãos hoje em dia. Isso consiste de plena heresia e até mesmo se encaixa no conceito de apostasia, isto é, abandono da lei de Deus.

A seguir, faço uma citação longa do livro de R. Franz, mas vale a pena ler com atenção os argumentos levantados por ele. Eu destaco em vermelho os pontos mais relevantes:

A carta enviada pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém, registrada em Atos, capítulo quinze, usa o termo “abster-se” em relação a coisas sacrificadas a ídolos, sangue, coisas estranguladas e fornicação. O termo grego que eles usaram (apékhomai) tem o significado básico de “ficar de fora”. As publicações da Torre de Vigia dão a entender que, com respeito ao sangue, ele tem um sentido total e abrangente . . . Mas será que esse termo, conforme usado nas Escrituras. . . pode ter um sentido relativo, relativo a uma aplicação específica e limitada?

Que pode ser aplicado, não em um sentido total e abrangente, mas de maneira limitada e específica, pode ser visto em seu uso em textos como 1 Timóteo 4:3. Ali, o apóstolo Paulo adverte que alguns professos cristãos introduziriam ensinos de natureza perniciosa, “proibindo o casamento, mandando abster-se [a mesma palavra grega usada aqui como em Atos 15] de alimentos que Deus criou para serem comidos com ação de graças”. Claramente ele não quis dizer que essas pessoas iriam ordenar aos outros que se abstivessem totalmente, de qualquer forma, de todos os alimentos criados por Deus. Isso significaria jejum total e levaria à morte. Ele obviamente se referia à proibição de alimentos específicos, evidentemente os proibidos pela lei mosaica.

Similarmente, em 1 Pedro 2:11, o apóstolo admoesta:

Amados, eu os exorto como estrangeiros e residentes temporários a se absterem dos desejos carnais, que são os mesmos que travam um conflito contra a alma.

Se tomássemos essa expressão literalmente, em sentido absoluto, significaria que não poderíamos satisfazer nenhum desejo carnal. Esse certamente não é o significado das palavras do apóstolo. Temos muitos “desejos carnais”, incluindo o desejo de respirar, comer, dormir, desfrutar de recreação e uma série de outros desejos, que são perfeitamente adequados e bons. Portanto, “abster-se dos desejos carnais” aplica-se apenas no contexto do que o apóstolo escreveu, referindo-se não a todos os desejos carnais, mas apenas aos desejos prejudiciais e pecaminosos que realmente “travam um conflito contra a alma”.

A questão então é, em que contexto Tiago e o concílio apostólico usaram a expressão “abster-se” de sangue? O próprio concílio lidou especificamente com o esforço de alguns para exigir dos cristãos gentios que eles não apenas fossem circuncidados, mas também “observassem a lei de Moisés”. (Atos 5:5) Essa foi a questão abordada pelo apóstolo Pedro, a observância da lei mosaica, que ele descreveu como um “jugo” pesado. (Atos 15:10) Quando Tiago falou perante a reunião e delineou sua recomendação de coisas das quais os cristãos gentios deveriam ser instados a se abster — coisas poluídas por ídolos, fornicação, coisas estranguladas e sangue — ele continuou com a declaração:

Pois desde os tempos antigos Moisés teve em cidade após cidade aqueles que o pregam, porque ele é lido em voz alta nas sinagogas em todos os sábados. (Atos 15:9-21)

Sua recomendação, portanto, evidentemente levou em conta o que as pessoas ouviram quando ‘Moisés foi lido’ nas sinagogas. . . Elas não eram obrigadas a ser circuncidadas, mas eram obrigadas a se abster de certas práticas e estas são descritas no livro de Levítico, capítulos 17 e 18. . .

A referência de Tiago à leitura de Moisés na sinagoga em cidade após cidade certamente dá base para acreditar que, ao listar as coisas que ele havia mencionado imediatamente antes, ele tinha em mente as abstenções que Moisés havia estabelecido para os gentios dentro da comunidade judaica em tempos antigos. Como vimos, Tiago listou não apenas as mesmas coisas encontradas no livro de Levítico, mas também na mesma ordem: abstenção de sacrifício idólatra, sangue, coisas estranguladas (portanto, não sangradas) e de imoralidade sexual. Quando os cristãos gentios foram instados a ‘abster-se de sangue’, isso claramente deveria ser entendido, não em algum sentido abrangente, mas no sentido específico de abster-se de comer sangue, algo abominável para os judeus. Levar o assunto além disso, e tentar atribuir ao próprio sangue uma espécie de status de “tabu”, é tirar o assunto de seu contexto bíblico e histórico e impor a ele um significado que realmente não existe.

(Aqui, novamente, se alguém atribuísse um sentido absoluto à expressão ‘abster-se de sangue’, vendo-a como uma espécie de proibição geral, isso significaria que alguém não poderia se submeter a nenhum tipo de exame de sangue, não poderia se submeter a cirurgia a menos que fosse de um tipo sem sangue e, de outras maneiras, teria que “ficar longe” do sangue em todos os aspectos. O contexto não dá nenhuma indicação de que tal proibição geral foi intencional e indica, em vez disso, que a liminar foi direcionada especificamente para a alimentação real de sangue.)

Notavelmente, Tiago não listou coisas como assassinato ou roubo entre as abstenções solicitadas. Essas coisas já eram condenadas tanto entre os gentios em geral quanto entre os judeus. Mas os gentios toleravam a idolatria, toleravam comer sangue e comer animais não sangrados e toleravam a imoralidade sexual, tendo até mesmo “prostitutas de templo” ligadas a locais de adoração. As abstenções recomendadas, portanto, concentravam-se nas áreas da prática dos gentios com maior probabilidade de criar grande ofensa para os judeus e resultar em atrito e perturbação.

(Já em 15 de abril de 1909, a Torre de Vigia reconheceu esta como a intenção da carta, dizendo (página 117): “As coisas aqui recomendadas eram necessárias para a preservação da comunhão do ‘corpo’ composto de judeus e Gentios com sua educação e sentimentos diferentes.”)

A lei mosaica não exigia a circuncisão para residentes estrangeiros como condição para viver em paz dentro de Israel e nem Tiago insistia nisso.

A carta que resultou da recomendação de Tiago foi dirigida especificamente aos cristãos gentios, pessoas “das nações”, em Antioquia, Síria e Cilícia (regiões que se estendiam contíguas ao norte de Israel) e, como vimos, tratava da questão de uma tentativa de exigir que os crentes gentios “observassem a lei de Moisés”. (Atos 15:5, 23-29.) Lidava com as áreas de conduta com maior probabilidade de criar dificuldades entre crentes judeus e gentios. Como será demonstrado mais tarde, não há nada que indique que a carta pretendia ser vista como “lei”, como se as quatro abstenções instadas formassem um “Quadrilogo” substituindo o “Decálogo” ou Dez Mandamentos da lei mosaica. Foi um conselho específico para uma circunstância específica prevalecente naquele período da história.

As palavras de R. Franz “recomendação”, “conselho” são uma clara negação das Escrituras e resulta em heresia. Vamos ver as alegações dele por partes.

1.    “Abster-se parcialmente”. O primeiro erro de R. Franz confundir sentido lexical com interpretação teológica; quer dizer, ele faz uma conclusão teológica e tenta introduzir tal conclusão como se fosse a definição do léxico, como se a conclusão teológica dele fosse o sentido da palavra. Não há nenhum verbo para “abster-se parcialmente”, esta é uma conclusão teológica, não o sentido da palavra “abster-se”. Este é um erro muito básico.

Como argumento de que as palavras “abster-se de” (apekhō) teriam o sentido de “abster-se parcialmente”, ele cita 1 Timóteo 4:3: “. . . ordenando abster-se de alimentos que Deus criou”. R. Franz argumenta que isso não significa que os falsos mestres ordenariam que outros se abstivessem de todos os alimentos que Deus criou e, portanto, apekho deveria significar “abster-se parcialmente”. Este é um argumento feito evidentemente por um leigo em semântica, pois no contexto as palavras se referem a uma profecia que prediz que, no futuro, os falsos mestres “ordenarão as pessoas a se absterem de alimentos”. A palavra “alimentos” é plural e indefinida, e isso indica que não está especificado de quais alimentos os falsos instrutores ordenarão outros a se abster. Mas quando essa profecia se cumprir no futuro, ficará claro de quais alimentos os falsos mestres falam e, naquele momento, a palavra “abster-se” se aplicará em um sentido abrangente a tais alimentos – esse é o ponto exato da profecia. A ordem dos falsos mestres será abster-se completamente de tais alimentos. Portanto, fica claro que R. Franz não tinha qualificação para falar desse assunto.

2.  Outro argumento é baseado em 1 Pedro 2:11 e nas palavras “abster-se dos desejos carnais”. R. Franz diz: “Se tomássemos essa expressão literalmente, em um sentido absoluto, isso significaria que não poderíamos satisfazer nenhum desejo carnal”. Esse argumento também é leigo. A palavra “desejos” é modificada pelo adjetivo sarkikós, que significa literalmente “carnal”. No entanto, de acordo com o dicionário de Mounce, o adjetivo assume o significado por vezes de “humano, como oposto ao divino”, e isso não apenas na Bíblia, até na sociedade atual usamos o termo “carnal” para se referir a isso.

Assim, o adjetivo “carnal” não se refere àquilo que é “físico”, tal como o desejo de beber água e se alimentar normalmente, mas mostra que o foco de Pedro está nos “desejos pecaminosos” e não em todos os desejos humanos em geral. Portanto, a palavra que limita o sentido de “desejos” é “carnal”, não o verbo “abster-se”. Pedro admoesta os cristãos a se absterem completamente dos desejos pecaminosos em um sentido abrangente e não limitado. Repito, não existe o verbo “abster-se parcialmente”; isso é invenção de R. Franz.

3.   R. Franz ainda argumentou que “se alguém atribuísse um sentido absoluto à expressão ‘abster-se de sangue’, vendo-a como uma espécie de proibição geral, isso significaria que alguém não poderia se submeter a nenhum tipo de exame de sangue”. Honestamente, este argumento é tosco demais. A proibição da Bíblia é quanto a introduzir sangue no corpo, não quanto a manipulá-lo ou mesmo manuseá-lo. Veja, a via de exemplo, quando alguém rala os joelhos, se corta ou algo similar. Evidentemente o corpo sangra e alguém terá de manipular aquele sangue a fim de estancar a ferida. Mas ao fazer isso, ninguém está deixando de “abster-se de sangue”. O mesmo ocorria no antigo Israel quanto ao uso sacrificial do sangue, o qual exigia manipulação. Não se pode dizer o mesmo se a pessoa introduz sangue no corpo, seja qual for o método.

4.  O argumento posterior de R. Franz quanto ao sentido “parcial” do verbo “abster-se” é “o contexto”. Notamos que R. Franz não se refere ao contexto imediato — o capítulo onde as palavras são encontradas; antes, ele se refere ao contexto da lei de Moisés. Com base nesse contexto distante, R. Franz argumenta que o significado de “abster-se de sangue” não é “abrangente”, mas apenas se refere às pessoas das nações e ao fato de comerem sangue, algo repugnante para os judeus. Ele também foi autoconfiante o suficiente para afirmar que a sua interpretação sobre a frase “persistir em abster-se de sangue”, com base em seu uso do contexto remoto, é como a frase “claramente deveria ser entendida”. (O grifo é meu.) Não há nenhuma “clareza” que aponte para tal conclusão.

O ponto é que as leis apresentadas no decreto apostólico não foram feitas “apenas para não ofender os judeus”, mas elas são leis baseadas em princípios eternos. Deus ordenou a abstenção em relação ao sangue porque este representa a vida; em relação à fornicação (sexo ilícito) porque produz filhos bastardos em caso de adultério e filhos sem família em caso de solteiros; e em relação à carne oferecida a ídolos porque oferecer um animal a um ídolo é desrespeito para com a vida animal, visto que o ídolo não é nada. Estes são princípios imutáveis, eternos; não “conselhos” para não ofender os judeus.

5.   Notamos que R. Franz usa frequentemente a palavra “recomendação” em conexão com as quatro proibições (incluindo fornicação) e que as palavras de Tiago não devem ser vistas como uma lei obrigatória para os cristãos. Em vez disso, R. Franz argumenta: “Foi um conselho específico para uma circunstância específica prevalecente naquele período da história”. Ao invés de “deixar as Escrituras falarem por si mesmas”, ele realmente remove algo das Escrituras. Ele nega que a lei sobre a abstinência de sangue, da fornicação, da idolatria, inspiradas pelo espírito santo, seja válida para os cristãos hoje! Em resumo, o ex-membro do CG defendeu que os cristãos estão livres para comer sangue, praticar idolatria e cometer fornicação, e que a Bíblia apenas deu um “conselho” ou “recomendação” contra tais práticas em uma situação específica. Isso é absurdo.

No quadro a seguir você poderá ver a comparação entre o ensino de R. Franz e o ensino das TJs.

Ensino de R. Franz

Ensino das TJs

As palavras “abster-se de” (aphekomai) significam ‘abster-se parcialmente’.

Visto que o contexto não diz o contrário, as palavras “abster-se de sangue” são abrangentes e significam que é proibido aos cristãos introduzir no corpo qualquer forma de sangue, praticar qualquer forma de fornicação e idolatria.

A lei de Moisés é o “contexto” e mostra que a referência é apenas ao povo das nações, que eles não devem comer sangue.

As quatro abstenções referem-se apenas a uma situação especial em relação aos povos das nações.

As quatro abstenções são apenas ‘recomendações’, ‘conselhos’ e não leis que são obrigatórias para todos os cristãos.

Não estou aqui alegando que a Sociedade Torre de Vigia é uma organização teocrática em todos os sentidos. Meu ponto de análise se limita a este assunto específico de Atos 15:28, 29.

Portanto, neste ponto específico, quem realmente deixou “as Escrituras falarem por si mesmas” – R. Franz ou as Testemunhas de Jeová?    


Notas:

[1] Greek-English Lexicon of the New Testament, Based on Semantic Domains, Second Edition. 13.158.

[2] Isto é, durante a cerimônia idólatra. Depois que a cerimônia idólatra havia acabado, parte da carne era vendida no açougue. Nesta ocasião, a carne poderia ser consumida, pois já perdera seu significado religioso.

[3] Lutero disse:

“Os apóstolos ordenaram abstenção do sangue e do sufocado. Mas quem observa isso hoje em dia? E, contudo, não pecam os que não o observam, porque os próprios apóstolos não quiseram onerar as consciências com tal escravidão, mas apenas o proibiram por algum tempo, a fim de evitar escândalo. Pois nessa ordenação é preciso atentar no artigo principal da doutrina cristã, que não é ab-rogado por esse decreto.” (Fonte da citação: https://www.lutero.com.br/web-files/uploads/documentos/a-confissao-de-augsburgo.pdf)



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