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domingo, 18 de dezembro de 2022

Raymond Franz e a lei de Atos 15:28, 29

 


Contribuído por Cristão Antitípico.


O ex-membro do Corpo Governante (CG) das Testemunhas de Jeová (TJs) alegara que um dos motivos pelos quais havia decidido abandonar a Sociedade Torre de Vigia era a fim de ‘deixar as Escrituras falarem por si mesmas’, eliminando assim a necessidade de instrutores humanos falíveis no meio do processo de compreensão da palavra de Deus.

Conforme expliquei nos artigos anteriores (queira ler a Parte 1 e a Parte 2), tal afirmação é apenas uma frase de impacto, agradável aos ouvidos de rebeldes desinformados, mas não se sustenta diante de uma análise profunda. Em verdade, a proposta de R. Franz se encaixa corretamente no conceito de promoção de seita/heresia, que é pecado de desassociação. (Tito 3:10)

O que havia por trás da reviravolta de R. Franz?

Pelo que li no livro de R. Franz, fica bem claro um dos motivos de sua reviravolta contra sua anterior teologia. R. Franz disse em Crise de Consciência, página 24 (em inglês):

Eu pessoalmente estive em tal “esteira” de atividade nos últimos vinte e cinco anos em que, embora tenha lido a Bíblia várias vezes, nunca fui capaz de fazer uma pesquisa tão séria e detalhada nas Escrituras, na verdade nunca sentira grande necessidade de fazê-la, pois presumia-se que outros estavam fazendo isso por mim.

Essas palavras, que na mente de R. Franz foram escritas com desdém em relação à Torre de Vigia, são, na mais pura verdade, a explicação da reviravolta do ex-membro: ele deixara de estudar profundamente as Escrituras por 25 anos enquanto membro da Torre de Vigia. A rotina corrida dos afazeres no escritório fez de R. Franz um cristão preguiçoso – isso foi fatal para a sua espiritualidade e prova que R. Franz nunca foi erudito em nada. Aqui vemos um bom exemplo a ser evitado: cristãos preguiçosos em relação ao estudo profundo das Escrituras correm grande risco de cair no pecado da heresia.

Eu falo por experiência própria que houve momentos em minha vida (e creio que isso ocorra com todos vez por outra) em que fui um cristão preguiçoso no sentido de não pesquisar as Escrituras a fundo; mas não por 25 anos, como no caso de R. Franz.

Raymond Franz rejeita o que as Escrituras dizem

                Voltarei agora à expressão “deixar as Escrituras falarem por si mesmas”. Nos artigos anteriores eu mostrei que essa é apenas uma frase de impacto, que é infantil e dissimulada, e isso porque instrutores que conheçam a Bíblia são necessários para nos ajudar a entendê-la. (Tiago 3:1) É necessário que exista um corpo fraterno que porta o conhecimento acumulado das Escrituras. Por outro lado, em relação a um texto bíblico onde se expressa uma lei clara ou um princípio irrevogável, aí sim podemos e devemos “deixar que as Escrituras falem por si mesmas”, mas R. Franz não fez isso com a lei de Atos 15:28, 29.

            A visão que defendo da Bíblia é que, quando um texto expressa um mandamento claro, tal como “Não deves assassinar”, ou “Não deves ter outros deuses em oposição a mim”, “Honra teu pai e tua mãe”, “Casem-se somente no Senhor”; então esses mandamentos são absolutos – não cabe a nós criarmos exceções. Nós podemos observar que Jesus condenou a criação de exceções para as leis da Bíblia.

(Mateus 15:3-6) 3 Em resposta, disse-lhes: “Por que é também que vós infringis o mandamento de Deus por causa da vossa tradição? 4 Por exemplo, Deus disse: ‘Honra a teu pai e a tua mãe’; e: ‘Quem injuriar pai ou mãe, acabe na morte.’ 5 Mas vós dizeis: ‘Quem disser ao seu pai ou à sua mãe: “Tudo o que eu tenho, que da minha parte te poderia ser de proveito, é uma dádiva dedicada a Deus”, 6 este absolutamente não deve mais honrar a seu pai. E assim invalidastes a palavra de Deus por causa da vossa tradição.

                Jesus equiparou criar exceções com invalidar a palavra de Deus – este é um pecado seriíssimo. O ponto é que, se a Bíblia apresenta uma lei clara, a menos que a própria Escritura apresente a exceção (ou excludente de ilicitude) não há exceções.


Quando a Bíblia apresenta uma lei clara, tal como “Honra teu pai e tua mãe”, ou ‘Abstenha-se de fornicação e de sangue’, a menos que a Bíblia também apresente a exceção, a lei é abrangente e absoluta e não há exceções.


                Podemos ver isso no caso da autodefesa e do homicídio culposo. A autodefesa era justificada se a vida da pessoa inocente estava em risco. (Êxodo 22:2) O homicídio culposo obrigava o homicida a ir para uma das cidades de refúgio. (Números 35:22-29) Estas eram as exceções para quando uma vida era tirada. Portanto, a Bíblia apresenta tanto a lei quanto a exceção. Se nenhuma exceção é apresentada em uma lei clara, então a lei é absoluta e extensiva, não há exceções; é esta a visão da Bíblia em que fui ensinado e creio que esteja em perfeita harmonia com o ensino de Jesus acima discutido.

                Com base nisso, analisemos o texto de Atos 15:28, 29:

(Atos 15:28, 29) 28 Pois pareceu bem ao espírito santo e a nós não impor a vocês nenhum fardo além destas coisas necessárias: 29 que persistam em se abster de coisas sacrificadas a ídolos, de sangue, do que foi estrangulado e de imoralidade sexual. Se vocês se guardarem cuidadosamente dessas coisas, tudo irá bem com vocês. Saudações!”

                A palavra grega ἀπέχομαι (apékhomai) tem o significado de “continuar evitando fazer algo” de acordo com Louw e Nida.[1]

                Para ilustrar como a frase “deixar as Escrituras falarem por si” se aplica a leis e princípios em um determinado texto, uso o termo porneía (fornicação/sexo ilícito) como exemplo. O significado da ordem “persistirdes em abster-vos de... fornicação/sexo ilícito” não é uma ordem que se aplicaria a algumas situações, mas não a outras – por exemplo, a situação em que dois solteiros apaixonados fazem sexo. A proibição é abrangente sem nenhuma exceção porque o contexto não descreve tal exceção. Não sei como isso poderia ser mais claro que a forma como estou aqui expondo, mas parece que para R. Franz isso não era tão claro.

O mesmo deve acontecer com “coisas sacrificadas a ídolos”,[2] “o que é estrangulado” e “sangue”. Isso significa que não podemos dizer que devemos nos abster de sangue em algumas situações apenas, mas em outras podemos colocar sangue em nossos corpos; por exemplo, uma situação em que o cristão está faminto, onde o alimento é escasso, e o sangue ou mesmo a carne não sangrada seriam os únicos alimentos disponíveis – não há esta exceção na lei bíblica.

Portanto, a proibição deve ser abrangente e referir-se ao uso de sangue em qualquer contexto, e o sangue para fins medicinais não é apresentado como excludente de ilicitude. Entretanto, R. Franz não aceita isso, e isto mostra que ele mesmo não está ‘deixando que as Escrituras falem por si mesmas’. Em outras palavras, R. Franz está adicionando sua própria interpretação às Escrituras, mas enganando a si mesmo e a outros por repetir a frase de impacto “deixar que as Escrituras falem por si mesmas”. O que fica claro é que R. Franz não queria que outros além dele fossem um “canal falível” na interpretação da Bíblia, mas que ele mesmo fosse tal canal para si e para outros que nele acreditaram.

Uma análise detalhada dos argumentos

Em seguida, analisarei os argumentos dele em relação a Atos 15:28, 29 e mostrarei que não apenas estão errados, mas muito errados, e tal erro é uma prova clara de que R. Franz não possuía qualquer qualificação em semântica.

Em resumo, R. Franz enxerga as palavras de Atos 15:28, 29 como uma recomendação, uma sugestão, não como uma lei para todos os cristãos. Isso consiste de heresia. Essa visão se iguala à visão oficial do protestantismo desde Lutero e a confissão de Altemburgo.[3]

Raymond Franz entendeu a lei de Atos 15:28, 29, que proibia o consumo de alimentos sacrificados a ídolos, de sangue, de carne não sangrada e a prática de sexo ilícito, não como uma lei, mas apenas como um “conselho” ou “recomendação”, a qual não se aplicaria aos cristãos hoje em dia. Isso consiste de plena heresia e até mesmo se encaixa no conceito de apostasia, isto é, abandono da lei de Deus.

A seguir, faço uma citação longa do livro de R. Franz, mas vale a pena ler com atenção os argumentos levantados por ele. Eu destaco em vermelho os pontos mais relevantes:

A carta enviada pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém, registrada em Atos, capítulo quinze, usa o termo “abster-se” em relação a coisas sacrificadas a ídolos, sangue, coisas estranguladas e fornicação. O termo grego que eles usaram (apékhomai) tem o significado básico de “ficar de fora”. As publicações da Torre de Vigia dão a entender que, com respeito ao sangue, ele tem um sentido total e abrangente . . . Mas será que esse termo, conforme usado nas Escrituras. . . pode ter um sentido relativo, relativo a uma aplicação específica e limitada?

Que pode ser aplicado, não em um sentido total e abrangente, mas de maneira limitada e específica, pode ser visto em seu uso em textos como 1 Timóteo 4:3. Ali, o apóstolo Paulo adverte que alguns professos cristãos introduziriam ensinos de natureza perniciosa, “proibindo o casamento, mandando abster-se [a mesma palavra grega usada aqui como em Atos 15] de alimentos que Deus criou para serem comidos com ação de graças”. Claramente ele não quis dizer que essas pessoas iriam ordenar aos outros que se abstivessem totalmente, de qualquer forma, de todos os alimentos criados por Deus. Isso significaria jejum total e levaria à morte. Ele obviamente se referia à proibição de alimentos específicos, evidentemente os proibidos pela lei mosaica.

Similarmente, em 1 Pedro 2:11, o apóstolo admoesta:

Amados, eu os exorto como estrangeiros e residentes temporários a se absterem dos desejos carnais, que são os mesmos que travam um conflito contra a alma.

Se tomássemos essa expressão literalmente, em sentido absoluto, significaria que não poderíamos satisfazer nenhum desejo carnal. Esse certamente não é o significado das palavras do apóstolo. Temos muitos “desejos carnais”, incluindo o desejo de respirar, comer, dormir, desfrutar de recreação e uma série de outros desejos, que são perfeitamente adequados e bons. Portanto, “abster-se dos desejos carnais” aplica-se apenas no contexto do que o apóstolo escreveu, referindo-se não a todos os desejos carnais, mas apenas aos desejos prejudiciais e pecaminosos que realmente “travam um conflito contra a alma”.

A questão então é, em que contexto Tiago e o concílio apostólico usaram a expressão “abster-se” de sangue? O próprio concílio lidou especificamente com o esforço de alguns para exigir dos cristãos gentios que eles não apenas fossem circuncidados, mas também “observassem a lei de Moisés”. (Atos 5:5) Essa foi a questão abordada pelo apóstolo Pedro, a observância da lei mosaica, que ele descreveu como um “jugo” pesado. (Atos 15:10) Quando Tiago falou perante a reunião e delineou sua recomendação de coisas das quais os cristãos gentios deveriam ser instados a se abster — coisas poluídas por ídolos, fornicação, coisas estranguladas e sangue — ele continuou com a declaração:

Pois desde os tempos antigos Moisés teve em cidade após cidade aqueles que o pregam, porque ele é lido em voz alta nas sinagogas em todos os sábados. (Atos 15:9-21)

Sua recomendação, portanto, evidentemente levou em conta o que as pessoas ouviram quando ‘Moisés foi lido’ nas sinagogas. . . Elas não eram obrigadas a ser circuncidadas, mas eram obrigadas a se abster de certas práticas e estas são descritas no livro de Levítico, capítulos 17 e 18. . .

A referência de Tiago à leitura de Moisés na sinagoga em cidade após cidade certamente dá base para acreditar que, ao listar as coisas que ele havia mencionado imediatamente antes, ele tinha em mente as abstenções que Moisés havia estabelecido para os gentios dentro da comunidade judaica em tempos antigos. Como vimos, Tiago listou não apenas as mesmas coisas encontradas no livro de Levítico, mas também na mesma ordem: abstenção de sacrifício idólatra, sangue, coisas estranguladas (portanto, não sangradas) e de imoralidade sexual. Quando os cristãos gentios foram instados a ‘abster-se de sangue’, isso claramente deveria ser entendido, não em algum sentido abrangente, mas no sentido específico de abster-se de comer sangue, algo abominável para os judeus. Levar o assunto além disso, e tentar atribuir ao próprio sangue uma espécie de status de “tabu”, é tirar o assunto de seu contexto bíblico e histórico e impor a ele um significado que realmente não existe.

(Aqui, novamente, se alguém atribuísse um sentido absoluto à expressão ‘abster-se de sangue’, vendo-a como uma espécie de proibição geral, isso significaria que alguém não poderia se submeter a nenhum tipo de exame de sangue, não poderia se submeter a cirurgia a menos que fosse de um tipo sem sangue e, de outras maneiras, teria que “ficar longe” do sangue em todos os aspectos. O contexto não dá nenhuma indicação de que tal proibição geral foi intencional e indica, em vez disso, que a liminar foi direcionada especificamente para a alimentação real de sangue.)

Notavelmente, Tiago não listou coisas como assassinato ou roubo entre as abstenções solicitadas. Essas coisas já eram condenadas tanto entre os gentios em geral quanto entre os judeus. Mas os gentios toleravam a idolatria, toleravam comer sangue e comer animais não sangrados e toleravam a imoralidade sexual, tendo até mesmo “prostitutas de templo” ligadas a locais de adoração. As abstenções recomendadas, portanto, concentravam-se nas áreas da prática dos gentios com maior probabilidade de criar grande ofensa para os judeus e resultar em atrito e perturbação.

(Já em 15 de abril de 1909, a Torre de Vigia reconheceu esta como a intenção da carta, dizendo (página 117): “As coisas aqui recomendadas eram necessárias para a preservação da comunhão do ‘corpo’ composto de judeus e Gentios com sua educação e sentimentos diferentes.”)

A lei mosaica não exigia a circuncisão para residentes estrangeiros como condição para viver em paz dentro de Israel e nem Tiago insistia nisso.

A carta que resultou da recomendação de Tiago foi dirigida especificamente aos cristãos gentios, pessoas “das nações”, em Antioquia, Síria e Cilícia (regiões que se estendiam contíguas ao norte de Israel) e, como vimos, tratava da questão de uma tentativa de exigir que os crentes gentios “observassem a lei de Moisés”. (Atos 15:5, 23-29.) Lidava com as áreas de conduta com maior probabilidade de criar dificuldades entre crentes judeus e gentios. Como será demonstrado mais tarde, não há nada que indique que a carta pretendia ser vista como “lei”, como se as quatro abstenções instadas formassem um “Quadrilogo” substituindo o “Decálogo” ou Dez Mandamentos da lei mosaica. Foi um conselho específico para uma circunstância específica prevalecente naquele período da história.

As palavras de R. Franz “recomendação”, “conselho” são uma clara negação das Escrituras e resulta em heresia. Vamos ver as alegações dele por partes.

1.    “Abster-se parcialmente”. O primeiro erro de R. Franz confundir sentido lexical com interpretação teológica; quer dizer, ele faz uma conclusão teológica e tenta introduzir tal conclusão como se fosse a definição do léxico, como se a conclusão teológica dele fosse o sentido da palavra. Não há nenhum verbo para “abster-se parcialmente”, esta é uma conclusão teológica, não o sentido da palavra “abster-se”. Este é um erro muito básico.

Como argumento de que as palavras “abster-se de” (apekhō) teriam o sentido de “abster-se parcialmente”, ele cita 1 Timóteo 4:3: “. . . ordenando abster-se de alimentos que Deus criou”. R. Franz argumenta que isso não significa que os falsos mestres ordenariam que outros se abstivessem de todos os alimentos que Deus criou e, portanto, apekho deveria significar “abster-se parcialmente”. Este é um argumento feito evidentemente por um leigo em semântica, pois no contexto as palavras se referem a uma profecia que prediz que, no futuro, os falsos mestres “ordenarão as pessoas a se absterem de alimentos”. A palavra “alimentos” é plural e indefinida, e isso indica que não está especificado de quais alimentos os falsos instrutores ordenarão outros a se abster. Mas quando essa profecia se cumprir no futuro, ficará claro de quais alimentos os falsos mestres falam e, naquele momento, a palavra “abster-se” se aplicará em um sentido abrangente a tais alimentos – esse é o ponto exato da profecia. A ordem dos falsos mestres será abster-se completamente de tais alimentos. Portanto, fica claro que R. Franz não tinha qualificação para falar desse assunto.

2.  Outro argumento é baseado em 1 Pedro 2:11 e nas palavras “abster-se dos desejos carnais”. R. Franz diz: “Se tomássemos essa expressão literalmente, em um sentido absoluto, isso significaria que não poderíamos satisfazer nenhum desejo carnal”. Esse argumento também é leigo. A palavra “desejos” é modificada pelo adjetivo sarkikós, que significa literalmente “carnal”. No entanto, de acordo com o dicionário de Mounce, o adjetivo assume o significado por vezes de “humano, como oposto ao divino”, e isso não apenas na Bíblia, até na sociedade atual usamos o termo “carnal” para se referir a isso.

Assim, o adjetivo “carnal” não se refere àquilo que é “físico”, tal como o desejo de beber água e se alimentar normalmente, mas mostra que o foco de Pedro está nos “desejos pecaminosos” e não em todos os desejos humanos em geral. Portanto, a palavra que limita o sentido de “desejos” é “carnal”, não o verbo “abster-se”. Pedro admoesta os cristãos a se absterem completamente dos desejos pecaminosos em um sentido abrangente e não limitado. Repito, não existe o verbo “abster-se parcialmente”; isso é invenção de R. Franz.

3.   R. Franz ainda argumentou que “se alguém atribuísse um sentido absoluto à expressão ‘abster-se de sangue’, vendo-a como uma espécie de proibição geral, isso significaria que alguém não poderia se submeter a nenhum tipo de exame de sangue”. Honestamente, este argumento é tosco demais. A proibição da Bíblia é quanto a introduzir sangue no corpo, não quanto a manipulá-lo ou mesmo manuseá-lo. Veja, a via de exemplo, quando alguém rala os joelhos, se corta ou algo similar. Evidentemente o corpo sangra e alguém terá de manipular aquele sangue a fim de estancar a ferida. Mas ao fazer isso, ninguém está deixando de “abster-se de sangue”. O mesmo ocorria no antigo Israel quanto ao uso sacrificial do sangue, o qual exigia manipulação. Não se pode dizer o mesmo se a pessoa introduz sangue no corpo, seja qual for o método.

4.  O argumento posterior de R. Franz quanto ao sentido “parcial” do verbo “abster-se” é “o contexto”. Notamos que R. Franz não se refere ao contexto imediato — o capítulo onde as palavras são encontradas; antes, ele se refere ao contexto da lei de Moisés. Com base nesse contexto distante, R. Franz argumenta que o significado de “abster-se de sangue” não é “abrangente”, mas apenas se refere às pessoas das nações e ao fato de comerem sangue, algo repugnante para os judeus. Ele também foi autoconfiante o suficiente para afirmar que a sua interpretação sobre a frase “persistir em abster-se de sangue”, com base em seu uso do contexto remoto, é como a frase “claramente deveria ser entendida”. (O grifo é meu.) Não há nenhuma “clareza” que aponte para tal conclusão.

O ponto é que as leis apresentadas no decreto apostólico não foram feitas “apenas para não ofender os judeus”, mas elas são leis baseadas em princípios eternos. Deus ordenou a abstenção em relação ao sangue porque este representa a vida; em relação à fornicação (sexo ilícito) porque produz filhos bastardos em caso de adultério e filhos sem família em caso de solteiros; e em relação à carne oferecida a ídolos porque oferecer um animal a um ídolo é desrespeito para com a vida animal, visto que o ídolo não é nada. Estes são princípios imutáveis, eternos; não “conselhos” para não ofender os judeus.

5.   Notamos que R. Franz usa frequentemente a palavra “recomendação” em conexão com as quatro proibições (incluindo fornicação) e que as palavras de Tiago não devem ser vistas como uma lei obrigatória para os cristãos. Em vez disso, R. Franz argumenta: “Foi um conselho específico para uma circunstância específica prevalecente naquele período da história”. Ao invés de “deixar as Escrituras falarem por si mesmas”, ele realmente remove algo das Escrituras. Ele nega que a lei sobre a abstinência de sangue, da fornicação, da idolatria, inspiradas pelo espírito santo, seja válida para os cristãos hoje! Em resumo, o ex-membro do CG defendeu que os cristãos estão livres para comer sangue, praticar idolatria e cometer fornicação, e que a Bíblia apenas deu um “conselho” ou “recomendação” contra tais práticas em uma situação específica. Isso é absurdo.

No quadro a seguir você poderá ver a comparação entre o ensino de R. Franz e o ensino das TJs.

Ensino de R. Franz

Ensino das TJs

As palavras “abster-se de” (aphekomai) significam ‘abster-se parcialmente’.

Visto que o contexto não diz o contrário, as palavras “abster-se de sangue” são abrangentes e significam que é proibido aos cristãos introduzir no corpo qualquer forma de sangue, praticar qualquer forma de fornicação e idolatria.

A lei de Moisés é o “contexto” e mostra que a referência é apenas ao povo das nações, que eles não devem comer sangue.

As quatro abstenções referem-se apenas a uma situação especial em relação aos povos das nações.

As quatro abstenções são apenas ‘recomendações’, ‘conselhos’ e não leis que são obrigatórias para todos os cristãos.

Não estou aqui alegando que a Sociedade Torre de Vigia é uma organização teocrática em todos os sentidos. Meu ponto de análise se limita a este assunto específico de Atos 15:28, 29.

Portanto, neste ponto específico, quem realmente deixou “as Escrituras falarem por si mesmas” – R. Franz ou as Testemunhas de Jeová?    


Notas:

[1] Greek-English Lexicon of the New Testament, Based on Semantic Domains, Second Edition. 13.158.

[2] Isto é, durante a cerimônia idólatra. Depois que a cerimônia idólatra havia acabado, parte da carne era vendida no açougue. Nesta ocasião, a carne poderia ser consumida, pois já perdera seu significado religioso.

[3] Lutero disse:

“Os apóstolos ordenaram abstenção do sangue e do sufocado. Mas quem observa isso hoje em dia? E, contudo, não pecam os que não o observam, porque os próprios apóstolos não quiseram onerar as consciências com tal escravidão, mas apenas o proibiram por algum tempo, a fim de evitar escândalo. Pois nessa ordenação é preciso atentar no artigo principal da doutrina cristã, que não é ab-rogado por esse decreto.” (Fonte da citação: https://www.lutero.com.br/web-files/uploads/documentos/a-confissao-de-augsburgo.pdf)



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4 comentários:

  1. Saludos cordiales...

    Interesante análisis de ése personaje.
    Pregunta:
    Creía R. Franz en la trinidad ?

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    Respostas
    1. Ele não mencionou esses assuntos nos livros, o que indica que ele reteve a cristologia das TJs, que é a da Bíblia.

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  2. Muitos foram enganados por Ray Franz nesse assunto. Este foi uma bela resposta. Contudo, Ray Franz tambem disse verdades importantes.

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  3. Interesante tema.

    Una pregunta:

    Sobre la falsa dicotomía de decir que el Señor Jesucristo es un dios falso o verdadero, hay algúna.publicacióm al respecto ?

    Saludos !

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