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quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Aceitar órgãos transplantados constitui desrespeito à lei bíblica que proíbe aceitar sangue?


Fonte: tjdefendidasapologia

 

Um leitor deixou o seguinte comentário sobre a postagem “A lei de Deus sobre o sangue inclui as transfusões?”:


Oi, boa noite, meus irmãos. Que a paz de Jeová e seu espírito esteja com todos vocês! Uma coisa... mesmo se provarmos à base das Escrituras que, de fato, é errado o uso do sangue, alguns usam como desculpas os órgãos do corpo humano, dizendo: ‘Se vocês não recebem sangue, então os órgãos (que contêm sangue, como o fígado) vocês não podem receber também, já que os órgãos contêm sangue!

Bem, eu já usei tudo o que sei para mostrar a ele a diferença entre sangue e os órgãos; mas, mesmo assim, nada! Quais são os métodos que os irmãos usam para esse tipo de raciocínio, que para mim não tem fundamento nenhum! Obrigado.

Resposta:

A lei de Deus que proíbe o uso de sangue não exige que cada célula sanguínea seja retirada da carne a ser consumida. Simplesmente declara:

“Todo animal que se move e que está vivo pode servir-lhes de alimento. Assim como dei a vocês a vegetação verde, eu lhes dou todos eles. Somente não comam a carne de um animal com seu sangue, que é a sua vida.” – Gênesis 9:3, 4.

Caso fosse necessário retirar cada célula sanguínea, tal lei seria ilógica, impraticável e, portanto, inútil. Por escoar razoavelmente o sangue que pudesse ser escoado, os fiéis servos de Deus estariam mostrando respeito pelo fato de que a vida – representada pelo sangue – procede do Criador e estava sendo devolvida a ele. De fato, não havia um requisito biológico de extrair da carne cada célula sanguínea e sim o requisito MORAL de reconhecer que o sangue é sagrado e pertence ao Criador e que, por isso, ele proibiu o uso do sangue.

O mesmo princípio coerente se aplica ao transplante de órgãos. Não se exige que cada célula de sangue seja extraída dos mesmos. Assim como comer carne devidamente sangrada que contém naturalmente algumas células sanguíneas não é desrespeito à lei divina sobre o sangue, o mesmo se pode dizer de receber órgãos que, naturalmente, contêm células sanguíneas. A razão da proibição é moral e não biológica.

Veja também os artigos: 



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domingo, 13 de janeiro de 2019

Os violentos conquistam o reino de Deus? (Mateus 11:12)


Fonte: jw.org

Lemos em Mateus 11:12 na Bíblia de Jerusalém: “Desde os dias de João Batista até agora, o Reino dos Céus sofre violência, e os violentos se apoderam dele.” A nota de rodapé sobre a expressão “sofre violência” diz o seguinte:

A expressão foi interpretada de vários modos: 1. Pode-se tratar da santa violência daqueles que se apoderam do Reino à custa das mais duras renúncias; 2. da violência perversa dos que querem estabelecer o Reino pelas armas (os zelotas); 3. da tirania dos poderes demoníacos, ou dos seus partidários terrestres, que pretendem conservar o domínio desse mundo e criar obstáculos ao progresso do Reino de Deus. Finalmente, há quem traduza: “O Reino dos Céus abre caminho com violência”, isto é, se estabelece com poder, apesar de todos obstáculos.




Há outras traduções que vertem de forma similar à BJ:

“O Reino do Céu tem sido atacado com violência, e as pessoas violentas tentam conquistá-lo.” – NTLH.

“O Reino dos Céus sofre violência, e os que usam de força se apoderam dele.” – NAA.

“Se faz violência ao Reino dos céus, e pela força se apoderam dele.” – ARC.

“O Reino dos céus é tomado à força, e os que usam de violência se apoderam dele. – Bíblia King James Atualizada.

O impacto da má tradução

De acordo com o escritor Marco Antônio de Castro Faleiro,

Estas palavras do Senhor Jesus têm sido usadas para promover muitas violências contra pessoas, foram nelas que a Igreja Católica Medieval se apoiou para fazer a inquisição, e inclusive que muitos movimentos cristãos históricos se apoiaram para promover perseguição, genocídio, preconceito, racismo e divisões. Os cristãos chegaram a formar exércitos para exterminar inimigos “pagãos”. Houve os “soldados de Cristo” que carregavam uma armadura e espadas reais e matavam fisicamente os chamados “inimigos da igreja”. A violência “cristã” criou a doutrina do antissemitismo fazendo de todo judeu um traidor como Judas, e diminuiu todos os povos de pele escura como amaldiçoados por teoricamente serem filhos de Cão. Com doutrinas absurdas os pretensos “cristãos” criaram suas ‘desculpas’ para a violência a favor do Reino de Deus. O texto de Mateus 11:12 tem sido usado por muitos “cristãos” que o utilizam como apoio para promover a perseguição de todos que são considerados hereges, perdidos e traidores da igreja. 

Tentativas de explicar o texto

 O Padre Jaldemir Vitório, Jesuíta, Doutor em Exegese Bíblica e Professor da FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia) teceu o seguinte comentário sobre essa passagem:

Por um lado, quando Jesus começou a pregar, nos dias de João Batista, muita gente se converteu, esforçando-se para entrar no Reino.

[…]

Por outro lado, desde o início de seu ministério, o Mestre viu-se às voltas com a violência das forças do anti-Reino, articuladas para neutralizá-lo, de modo a impedir que muitas pessoas entrassem nele.

[…]

O discípulo experimenta, pois, dois níveis de violência: um interno, enquanto combate seus vícios e pecados; e outro externo, enquanto é vítima da maldade dos inimigos do Reino.[1]

Segue abaixo uma explicação de Mateus 11:12 em uma Homilia de Pio XII:

Nem todos somos chamados a sofrer o martírio; mas todos somos chamados a adquirir as virtudes cristãs. A virtude, porém, exige energia, … um cuidado contínuo e muito atento, que deve ser sempre mantido por nós até ao fim da vida. Por isso, semelhante esforço pode ser considerado um martírio lento e prolongado, ao qual nos convidam estas divinas palavras de Jesus Cristo: O reino dos Céus sofre violência e são os violentos que o arrebatam. (Negrito acrescentado.)

Apesar dos nobres esforços de explicar essa forma de traduzir Mateus 11:12, teria sido mais fácil e natural optar por uma tradução que seja coerente com todo o contexto bíblico – que prega o amor em vez de a violência.

Por mais que se busque uma ideia de “santa violência”, como no comentário da Bíblia de Jerusalém, o fato é que é impossível destituir a palavra “violência” de seu significado negativo. Sobre isso, veja o que diz o artigo “Sociologia da Violência: Teoria e Pesquisa”, do Núcleo de Estudos da Violência, da Universidade de São Paulo:

Etimologia da palavra violência.

1. Cf. Aurélio Buarque de Holanda: constrangimento físico ou moral; uso da força; coação. Violentar: exercer violência sobre; forçar; coagir; constranger; torcer o sentido de; alterar; inverter. Origem latina da palavra violentia: verbo violare significa tratar com violência, profanar, transgredir. Faz referência ao termo vis: força, vigor, potência, violência, emprego de força física em intensidade, qualidade, essência. Na tradição clássica greco-romana, violência significava o desvio, pelo emprego de força externa, do curso “natural” das coisas. Referência à ordem natural em que se concebia o universo (a natureza e a cultura, o mundo físico e o mundo social). Violar significava, portanto, transgredir, pelo emprego da potência, o equilíbrio natural (e, em decorrência, normal) em que tudo – as coisas e as pessoas – parecia estar situado e sustentado. Esse modo de conceber a violência firmou-se na tradição ocidental desde a antiguidade clássica greco-romana.

Portanto, tendo em vista o valor negativo intrínseco à palavra “violência”, é necessário optar por uma tradução que não use a palavra “violência” nem transmita a ideia de sua ocorrência, em um texto que retrata os que conquistam o Reino de Deus.

O sentido correto de Mateus 11:12

A palavra grega comumente traduzida “violentos” nas versões da Bíblia é biastés (βιαστής). Sobre tal substantivo, o Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong fornece as definições de (1) forte, impetuoso; e (2) que faz uso da força, violento. Observe que a opção de traduzir tal vocábulo por “violento” foi colocada como última opção.



De modo similar, o Léxico Grego de Thayer comenta:

Em Mateus 11:12, esses são chamados de βιασταί [biastaì], pelos quais o reino de Deus βιάζεται [biázetai], ou seja, que se esforça para obter seus privilégios com a maior ansiedade e esforço. (Negrito acrescentado.)



Um léxico grego online[2] define βιάζω por:  “(1) usar a força, aplicar força 2) forçar, infligir violência”. Note que o sentido primário apontado é de esforço, e somente em segundo plano se aponta o sentido negativo de violência.

Brett Yardley, escritor de assuntos  bíblicos e teológicos, faz o seguinte comentário sobre as palavras em foco no texto de Mateus 11:12:

Verbo principal: “tem avançado com força” - Duas grandes interpretações do verbo βιάζω (biázo) afirmam que o sujeito está conduzindo o avanço vigoroso (voz média) ou é o receptor do avanço vigoroso (voz passiva), que é “violência sofrida”. 

Sujeito: “homens fortes” -  βιασται (biastai), ou homens fortes, ou são vistos como … “adeptos entusiastas” (Howell, 123-24) já que o ministério de João marcou o início do reinado de Deus expandindo-se para incluir os outros que não são judeus, e, portanto, os “discípulos apaixonados para viver sob e promover o seu governo no mundo” (Howell 124). 

[…]

Verbo principal: “agarrar-se a ele” -Dependendo de como o verbo αρπάζω (arpazo) é traduzido, os “homens fortes” agem como aliados ou adversários do reino, “apegando-se a ele” ou “atacando-o violentamente”.

[…]

Qual interpretação e por quê: Contextualmente, o verbo βιάζω (biazo) é melhor interpretado na voz média, já que, além da recente prisão de João (sua decapitação ainda não havia ocorrido), pouco parece ter ocorrido que merecesse as poderosas palavras “sofreu violência”. Parece muito mais apropriado que, com o início da pregação de João (o cumprimento dos profetas) e a vinda de Cristo, o Reino tivesse amanhecido e estivesse de fato avançando vigorosamente (embora no sentido espiritual, não no sentido literal militarista ou político). O sujeito βιασται (biastai) é melhor interpretado à luz do verbo, que é novamente melhor compreendido contextualmente. Como αρπάζω (arpazo) significa literalmente “agarrar, pegar, arrancar, puxar ou pegar à força”, é melhor interpretá-lo em um sentido positivo … , já que parece “dificilmente possível” (sob o pressuposto de que o Reino dos Céus é o “Reino de Deus”) que homens violentos ou mesmo o próprio Satanás poderiam “agarrar, pegar, arrancar, puxar ou pegar” o Reino dos Céus pela força. Eles podem se opor ao reino, e certamente tentam, mas essa não é a definição lexical [vocabular] do verbo que Cristo usou. Assim, a NIV (a NIV original) parece oferecer a melhor interpretação, vendo as pessoas poderosas “como os samaritanos, o centurião romano, ... os 12 apóstolos” e o resto do mundo gentio apoderando-se dele por meio de “arrependimento e submissão radical ao Rei ...” (Howell, 124). 

O artigo “As traduções da cristandade – parte 1” teceu o seguinte comentário sobre Mateus 11:12:

O verbo grego biάzo (biázo), além de significar “dominar pela força”, “constranger”, “pressionar seriamente para a frente”, “apressar”, tem também o sentido passivo (que ocorre em Mateus 11:12) de ser objeto de um movimento impetuoso. (The New Analytical Greek Lexicon, de Wesley J. Perschbacher)

O sentido correto de Mateus 11:12 é ressaltado pelas traduções da Bíblia citadas abaixo:

 ”O reino dos céus é tomado por esforço, e os que se esforçam se apoderam dele.ARA.

“O reino dos céus é tomado à força, e os que se esforçam são os que o conquistam.” – TB.

“O Reino dos céus é o alvo para o qual os homens avançam vigorosamente, e os que avançam vigorosamente se apoderam dele.” – NM.

Jesus ressaltou a necessidade de esforço vigoroso em Lucas 13:24: “Esforcem-se vigorosamente para entrar pela porta estreita, pois eu lhes digo que muitos procurarão entrar, mas não poderão.”


Notas:

[1] VITÓRIO, Jaldemir. Apud DomTotal. Disponível em: < http://domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=544775>.

[2] The Online Greek Bible. Disponível em: <http://www.greekbible.com/l.php?bia/zw_v-3pmi-s>.


Siglas das traduções usadas:

ARA: Almeida Revista e Atualizada.
ARC: Almeida Revista e Corrigida.
BJ: Bíblia de Jerusalém.
NAA: Nova Almeida Atualizada.
NM: Tradução do Novo Mundo Revisada 2015.
NTLH: Nova Tradução na Linguagem de Hoje.
TB: Tradução Brasileira.


Referências:

Biastés. Léxico Grego de Thayer. Disponível em: <https://bibliaparalela.com/greek/973.htm>.

______. Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de Strong. © 2002 Sociedade Bíblica do Brasil SOCIEDADE BÍBLICA DO BRASIL Av. Ceci, 706 – Tamboré Barueri, SP – CEP 06460-120 Cx. Postal 330 – CEP 06453-970. Site: http://www.sbb.org.br.

Bíblia Português. Disponível em: <https://bibliaportugues.com/matthew/11-12.htm>.

 

Faleiro, Marco Antônio de Castro. Textos Para Refletir. Mateus 11.12 – A Violência e o Reino de Deus? Disponível em: <http://textospararefletir.blogspot.com/2011/06/mateus-1112-violencia-e-o-reino-de-deus.html>.


Pio XII. Fratres in Unum.com. O reino dos Céus sofre violência e são os violentos que o arrebatam. Disponível em: <https://fratresinunum.com/2015/07/06/o-reino-dos-ceus-sofre-violencia-e-sao-os-violentos-que-o-arrebatam/>.

Violência. Etimologia e definição. UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO. Núcleo de Estudos da Violência. CEPID-FAPESP. Disponível em: <http://nevusp.org/wp-content/uploads/2014/08/down021.pdf>.

Vitório, Jaldemir. Apud DomTotal. Disponível em: < http://domtotal.com/noticias/detalhes.php?notId=54477>.

Yardley, Brett. What is the best translation of Matthew 11:12? Disponível em: <http://www.brettyardley.com/theology-blog/what-is-the-best-translation-of-matthew-1112>.



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quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

‘Meu nome Jeová não dei a conhecer a eles’ – em que sentido?


Fonte: jw.org


Deus disse a Moisés: “Eu costumava aparecer a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso [Hebr.: be’Él Shad·daí], mas com respeito ao meu nome, Jeová [Hebr.: u·she·mí Yehwáh], não me dei a conhecer a eles.” – Êxodo 6:3.

Será que esse texto indica que Abraão, Isaque e Jacó não conheciam a Deus pelo seu nome pessoal? Este não poderia ser o sentido de Êxodo 6:3, pois as Escrituras revelam claramente que os antepassados de Moisés usaram o nome divino, Jeová.

Já nos primórdios da História humana, a primeira mulher, Eva, declarou: “Adquiri um homem com o auxílio de Jeová.” (Gênesis 4:1, TB) Posteriormente, nos dias de Enos, Gênesis 4:26 destaca outra ação de fazer uso do nome divino. Lemos sobre isso: “A Set também nasceu um filho, e chamou seu nome de Enos. Então se começou a invocar o nome de Jeová(Bíblia Reina Valera 1989); “Então os homens começaram a ser chamados pelo nome de Jeová.”Spanish Reina Valera.

Também, lemos a respeito do que Abraão fez: “Edificou um altar a Jeová, e invocou o nome de Jeová.” (Gênesis 12:8, SBB) Inclusive, Abraão usava o nome divino quando falava com Deus. Sobre isso, lemos em Gênesis 15:2, 7, 8: “E Abrão disse: Ó Senhor Jehovah, o que tu queres me dar, visto que eu vou sem filhos, e aquele que será possuidor da minha casa é Eliezer de Damasco? E ele lhe disse: Eu sou Jehovah que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra para herdá-la. E ele disse: Ó Senhor Jehovah, por meio de que saberei que a herdarei?”  (ASV) Lemos adicionalmente: “E Abraão chamou o nome daquele lugar Jehovah-jireh; como é dito nos dias de hoje: No monte de Jeová será providenciado.” – Darby Bible.

A respeito do filho de Abraão, Isaque, temos a seguinte narrativa que comprova que ele também conhecia e usava o nome divino: “Naquela noite, Jeová apareceu a Isaque. Disse Jeová: Eu sou o Deus de teu pai Abraão. Não tenhas medo, porque estou contigo. Eu te abençoarei e aumentarei o número de teus descendentes por amor de meu servo Abraão. Isaque construiu um altar ali e adorou a Jeová.” (Gênesis 26:24, 25, New Simplified Bible; “invocou o nome de Jeová”, TB.) E sobre Jacó, filho de Isaque, lemos que Deus manifestou a ele Seu nome, num sonho, em Gênesis 28:13, que declara: “E eis que Jehovah estava em pé em cima dela e disse: Eu sou Jeová, o Deus de Abraão, teu pai, e o Deus de Isaque; a terra em que você está deitado eu dou para ti e tua semente.” (VW) O versículo 18 declara: “E Jacó despertou de seu sono, dizendo: ‘Certamente Jehova está neste lugar, e eu não o sabia.’” – Bíblia Elberfelder 1871 (em alemão).

Portanto, dos textos bíblicos acima, é evidente que os antepassados de Moisés e de seus contemporâneos conheciam e usavam o nome divino, Jeová. Diante disso, perguntamos:

Em que sentido Deus não se deu a conhecer pelo seu nome aos antepassados de Moisés?

“Conhecer” envolve mais do que saber o Nome


A frase “não me dei a conhecer a eles” em hebraixo é lō nō·w·ḏa‘·tî lā-hem. O verbo “conhecer” usado nesta frase é yada‘, que envolve também “reconhecer”, “estar familiarizado com”, conforme a Concordância Exaustiva de Strong; também “saber por experiência”, “admitir”, “confessar”, “ser bem conhecido (com confiabilidade implícita)” (The Brown-Driver-Briggs Hebrew and English Lexicon [“Léxico Hebraico e Inglês, de Brown-Driver-Briggs”]).[1] Esta última obra também afirma: “especialmente de conhecer a Deus; … envolvendo adoração inteligente, obediência, etc.” 

Vejamos exemplos que tornam claro o uso mais profundo e abrangente do verbo “conhecer”:

“Os filhos de Eli eram corruptos. Eles não conheciam a Jeová.” (1 Samuel 2:12; New Simplified Bible; veja também SBB, TB.) É óbvio que os filhos de Eli, por serem sacerdotes, conheciam o nome divino, Jeová. Porém, a passagem fala de conhecer no sentido de ser amigo de Jeová, sendo obediente a ele.

“Samuel ainda não conhecia a Jeová, cuja palavra ainda não lhe havia sido revelada.” (1 Samuel 3:7, SBB) Visto que cresceu no tabernáculo, Samuel conhecia o nome de Deus, mas “ainda não conhecia a Jeová” no sentido de ter tido um contato mais achegado como ele, como o capítulo 3 de Primeiro Samuel passa a mostrar que veio a ocorrer.

“Suas obras não lhes permitem voltar a seu Deus, porque há um espírito de prostituição no meio deles, e não conhecem a Jehovah” (Reina Valera 1989); “não reconhecem a Jeová” (NM). Essa declaração foi dirigida ao povo de Deus, Israel, a seus “sacerdotes” e à “casa do rei”. Todos eles conheciam o nome divino, Jeová. Mas suas obras mostravam que, infelizmente, não o reconheciam como o seu Deus.

 “Portanto, o meu povo saberá o meu nome, por esta causa, naquele dia, porque eu mesmo sou o que digo: Eis-me aqui.” (Isaías 52:6, ARC) Essa passagem diz respeito à libertação dos israelitas do exílio em Babilônia. Quando isso ocorresse, os israelitas conheceriam, não o nome “Jeová” (o qual já conheciam) mas sim entenderiam mais profundamente o significado de tal Nome.

“De todas as famílias da terra só a vós vos tenho conhecido; portanto eu vos punirei por todas as vossas iniquidades.” (Amós 3:2, ACF) É evidente que Jeová conhece todos os povos e toda pessoa na Terra. Mas, “conhecer” neste texto tem o sentido de ter tratos, ter afinidade, estar pactuado com.

De que modo os antepassados dos israelitas não conheceram a Jeová?

Robert Santos, batista confesso, comentou:

Ele [Deus] não fala das letras ou sílabas, mas do que é significado por esse nome. Para que denota toda a sua perfeição, e, entre outros, a eternidade, constância e imutabilidade de sua natureza e vontade, e com a certeza infalível da sua palavra e promessas. E isso, diz ele, que acreditava-se por Abraão, Isaac e Jacob, no entanto, não foi experimentalmente conhecido por eles, pois eles só viram as promessas de longe: “Todos estes morreram na fé, sem terem recebido as promessas; mas vendo-as de longe, e crendo-as e abraçando-as, confessaram que eram estrangeiros e peregrinos na terra.” (Hb 11:13). – Negrito acrescentado.[2]

José Felix Rocco, da Segunda Igreja do Evangelho Quadrangular, fez o seguinte comentário:

6.3 PELO MEU NOME, JEOVÁ, NÃO LHES FUI PERFEITAMENTE CONHECIDO. O Senhor não se revelou a Abraão, Isaque e Jacó pelo nome JEOVÁ (hb. Iavé). (1) Isso não significa que os patriarcas não conheciam esse nome, mas sim que não receberam a plena revelação do significado desse nome. Realmente tinham ouvido o nome de Deus como Iavé, e tinham usado esse nome, mas na sua experiência eles conheciam a Deus mais como o Deus Todo-poderoso, nome este que releva o seu poder para realizar ou cumprir aquilo que Ele prometera. (2) Iavé é o nome de Deus como fiador do concerto, e voltado especialmente para a redenção (v. 6). Abraão não chegou a ver o cumprimento do concerto estabelecido em Gênesis 15, mas certamente experimentou o poder de Deus.[3]

Esequias Soares, em sua obra “Manual de Apologética Cristã: Defendendo os Fundamentos da Autêntica Fé Bíblica”, também expõe:

119 O termo Shadday aparece com frequência na era patriarcal; só no livro de Jó esse nome ocorre 31 vezes. Êxodo 6.3 nos diz que Deus era conhecido pelos patriarcas por esse nome: “Eu apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó, como o Deus Todo-poderoso, mas pelo meu nome, o SENHOR, não lhes fui perfeitamente conhecido”. O próprio Deus diz aqui que se revelou aos patriarcas como o El Shadday; veja que Deus não tem apenas um nome. Isso também não significa que os patriarcas nunca pronunciassem o nome Yahweh, pois que eles conheceram Deus pelo seu nome de Yahweh, mas não por seu caráter de Yahweh. – Negrito acrescentado. [4]




O Dicionário Bíblico Unger (verbete “SENHOR, O”, p. 1190) também explica:

Revelação. A observação apresentada em Êx 6.3 (“Mas pelo meu nome, o senhor, não diz foi conhecido”) não significa que os patriarcas não tinham nenhuma ideia da existência e do uso do nome de Deus, mas que não tinham conhecimento experiencial dessa redenção antes do livramento da servidão do Egito, vindo a experimentá-la apenas sob a liderança de Moisés, por meio do qual o poder redentor de Deus adquiriu caráter real para eles e lhes foi revelado o nome redentor de Deus. – Negrito acrescentado.



A obra Estudo Perspicaz das Escrituras (volume 2, pp. 500-501, verbete “Jeová”) explicou:

Uma vez que o nome Jeová foi usado muitas vezes por esses antepassados patriarcais de Moisés, é evidente que Deus queria dizer que Ele se manifestara a eles na qualidade de Jeová apenas de forma limitada. Para ilustrar isto, dificilmente se poderia dizer que aqueles que conheciam o homem Abrão realmente o conheciam como Abraão (que significa “Pai Duma Multidão”) enquanto ele só tinha um filho, Ismael. Quando nasceram Isaque e outros filhos, e eles começaram a ter descendentes, o nome Abraão assumiu maior significado ou importância. Assim, também, o nome Jeová assumiria então um significado ampliado para os israelitas. – Negrito acrescentado.[5]




Podemos ver o uso de “conhecer” num sentido mais profundo lendo o Salmo 9:10, que declara: “Os que conhecem o teu nome confiarão em ti; nunca abandonarás os que te buscam, ó Jeová.” É evidente que não basta conhecer o nome “Jeová” para confiar no Deus que leva este Nome. Tal confiança é alicerçada no conhecimento do que tal Nome significa – dos valores abarcados por este Nome. Por isso, a paráfrase conhecida como “O Livro” verte assim o Salmo 9:10: “Em ti confiarão todos os que conhecem a força do teu nome; pois tu, Senhor, nunca desamparaste os que te buscam.”

Jeová significa “Ele Causa Que Venha a Ser”, indicando o Deus Cumpridor de promessas, que pode realizar tudo o que se propuser a fazer. Os patriarcas anteriores a Moisés viram o cumprimento de algumas promessas. Porém, foram Moisés e os demais israelitas contemporâneos a ele que vivenciaram mais plenamente o significado do nome divino.

Como bem salienta a obra Estudo Perspicaz das Escrituras (volume 3, p. 723, verbete “Todo-Poderoso”):

Jeová usou este título “Deus Todo-poderoso” (ʼEl Shad·daí) ao fazer sua promessa a Abraão a respeito do nascimento de Isaque.
              
                              […]

De fato, no livro de Gênesis, que relata a vida dos patriarcas, a palavra “Todo-poderoso” ocorre apenas 6 vezes, ao passo que o nome pessoal Jeová foi escrito 172 vezes no texto hebraico original. Contudo, embora estes patriarcas viessem a reconhecer por experiência pessoal o direito e as qualificações de Deus para o título de “o Todo-poderoso”, não haviam tido a oportunidade de reconhecer o pleno significado do seu nome pessoal, Jeová, e o que este envolve. Neste respeito, O Novo Dicionário da Bíblia (Vol. 1, p. 411) comenta: “A revelação anterior, aos patriarcas, dizia respeito às promessas referentes a um futuro distante e por isso mesmo haveria a necessidade de assegurá-los que Ele, Yahweh, era um Deus (ʼel) tal que era competente (shadday) para cumprir tais promessas. A revelação na sarça ardente, entretanto, foi maior e mais íntima, pois o poder e a presença imediata e contínua de Deus entre eles foram envolvidos no nome familiar de Yahweh.” — Editado por J. D. Douglas, 1966.

Em razão de todas as explicações acima, há traduções que procuram ressaltar o significado mais amplo do verbo “conhecer” em Êxodo 6:3, a exemplo das versões abaixo:

“Pelo meu nome, o Senhor, não lhes fui perfeitamente conhecido.” - ACF, ARC.

“E acrescentou o Senhor: Eu sou Jeová, o Deus que tem todo o poder, que apareceu a Abraão, a Isaque e a Jacob, ainda que não tenha revelado a eles toda a força do meu nome de Jeová.” – Êxodo 6:2, O Livro.

Portanto, os patriarcas anteriores a Moisés usaram o nome divino e receberam promessas de Jeová. Mas não conheceram o pleno significado do nome “Jeová” por não terem presenciado Jeová agindo como Cumpridor das suas promessas.


Notas:

[1] Bible Hub. Disponível em: <https://www.studylight.org/lexicons/hebrew/03045.html>.

[2] SANTOS, Robert. AS ESCRITURAS. ESTUDO SOBRE AS SUPOSTAS “CONTRADIÇÕES BÍBLICAS”. Deus foi conhecido por SENHOR antes ou depois de Abraão? Disponível em: <https://asescrituras.wordpress.com/2012/10/23/deus-foi-conhecido-por-senhor-antes-ou-depois-de-abraao/>.

[3] ROCCO, José Felix. IEADI. Estudos bíblicosComentários Bíblicos. Disponível em: <http://www.apazdosenhor.org.br/site/estudos/comentarios-biblicos/exodo-6>.

[4] SOARES, Esequias. Manual de Apologética Cristã: Defendendo os Fundamentos da Autêntica Fé Bíblica. Disponível em: < https://books.google.com.br/>.

[5] Produzida pelas Testemunhas de Jeová.


Siglas das traduções usadas:

ACF: Almeida Corrigida Fiel.
ARC: Almeida Revista e Corrigida.
ASV: American Standard Version.
NM: Tradução do Novo Mundo Revisada.
SBB: Sociedade Bíblica Britânica.
TB: Tradução Brasileira.
VW: Voice in the Wilderness Bible (Bíblia Voz no Deserto), edição de 2006.


Referências:

Brown; Driver; Briggs. Hebrew and English Lexicon. Bible Hub. Disponível em: <https://www.studylight.org/lexicons/hebrew/03045.html>.

Knowing Jesus. A Bíblia em Português. Disponível em: <https://bible.knowing-jesus.com/Portuguese/words/Conhecido>.

Lo. Bíblia Paralela. Disponível em: <https://bibliaparalela.com/hebrew/3808.htm>.

nō·w·a‘·tî. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/hebrew/nodati_3045.htm>.

Soares, Esequias. Manual de Apologética Cristã: Defendendo os Fundamentos da Autêntica Fé Bíblica. Disponível em: < https://books.google.com.br/>.

Strong, Léxico Hebraico, Aramaico e Grego de. © 2002 Sociedade Bíblica do Brasil. Av. Ceci, 706 – Tamboré Barueri, SP – CEP 06460-120 Cx. Postal 330 – CEP 06453-970. Site: http://www.sbb.org.br

Unger Merril F.; Harrison, R. K. Dicionário Bíblico Unger; tradução Vanderlei Ortigoza e Paulo Sérgio Gomes. Barueri, São Paulo. Sociedade Bíblica do Brasil. Título em Inglês: The New Unger's Bible Dictionary.

Yada. Concordância de Strong. Disponível em: <https://biblehub.com/hebrew/3045.htm>.




A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.




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