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domingo, 26 de dezembro de 2021

Deus enviou vespas contra os habitantes da Terra da Promessa?

Conquista da Terra Prometida.
Fonte: jw.org

Algumas traduções vertem assim o texto de Êxodo 23:28:

“Enviarei vespas à sua frente para expulsar os heveus, cananeus e hititas do seu caminho.” – New International Version; também English Standard Version; King James Bible; New King James Version; New American Standard Bible; Amplified Bible; Christian Standard Bible; Tradução da Septuaginta de Brenton; Douay-Rheims Bible; International Standard Version;  NET Bible.

De modo similar, outras traduções vertem por “vespões” (Berean Study Bible; American Standard Version; JPS Tanakh 1917; World English Bible), “o vespão” (Holman Christian Standard Bible; English Revised Version; Literal Standard Version; New Heart English Bible; Young's Literal Translation) e por “abelhas” (Peshitta Holy Bible Translated). Traduções mais antigas também traduzem por “vespas”, a exemplo de “A Bíblia de Genebra”, de 1587; “Bishops Bible”, de 1568; “Bíblia Coverdale”, de 1535; “Bíblia Tyndale”, de 1526.

Por outro lado, outras traduções vertem de modo inteiramente diferente. Veja os exemplos abaixo:

“Mandarei terror à sua frente para expulsar os heveus, cananeus e hititas.” – New Living Translation.

“Farei com que os heveus, cananeus e hititas entrem em pânico quando você se aproximar.” – Contemporary English Version.

“Farei com que seus inimigos entrem em pânico; vou expulsar os heveus, os cananeus e os hititas à medida que você avançar.” – Good News Translation

“Vou espalhar o pânico à sua frente para forçar os heveus, cananeus e hititas a saírem do seu caminho.” – GOD'S WORD® Translation.

Enviarei na sua frente o sentimento de desânimo, e este expulsará os heveus, os cananeus e os hititas de diante de você.” – Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada. 

O que dizem alguns comentaristas bíblicos? 

Pulpit Commentary:

Versículo 28. - E enviarei vespas diante de ti. Isso dificilmente deve ser entendido literalmente, uma vez que nenhuma praga real de vespas é mencionada na narrativa histórica. "Vespas" aqui, e em Deuteronômio 7:20 ; Josué 24:12 , são provavelmente pragas ou problemas de qualquer tipo, divinamente enviados para quebrar o poder das nações pagãs e torná-las uma presa mais fácil para os israelitas, quando eles fizeram sua invasão. Possivelmente, os principais "vespões" foram os egípcios, que, sob Ramsés III, invadiram a Palestina com sucesso na época da permanência de Israel no deserto e enfraqueceram o poder dos hititas (Khita). – Negrito acrescentado.

Ellicott's Commentary for English Readers:

(28) Vou enviar vespas. -Heb., A vespa. Comp. Josué 24:12 , para onde "o vespão" teria sido enviado. Sem dúvida, as vespas podem ser tão numerosas que se tornam uma praga intolerável e induz uma nação a abandonar seu país e buscar outro (ver Bochart, Hierozóico.4. 13). Mas como não temos nenhum relato histórico do tipo em conexão com as raças cananeias, a expressão aqui usada dificilmente deve ser tomada ao pé da letra. Provavelmente os egípcios são os vespas destinados. Foram eles que, sob Ramsés III., quebraram o poder dos hititas e de outras nações da Palestina, enquanto os israelitas peregrinavam no deserto. Possivelmente, o termo foi escolhido em referência ao sinal hieroglífico para "rei" no Egito, que era a figura de uma abelha ou vespa. – Negrito acrescentado. 

Notas de Barnes sobre a Bíblia:

Vespas – Compare as referências marginais. A palavra é usada figurativamente para uma causa de terror e desânimo. As abelhas são mencionadas no mesmo sentido em  Deuteronômio 1:44 ; Salmo 118:12. – Negrito acrescentado. 

Comentário da Bíblia Jamieson-Fausset-Brown:

28. Enviarei vespas antes de ti, & c. (Ver em [22] Jos 24:12) - Algum instrumento de julgamento divino, mas interpretado de várias maneiras: como vespas em um sentido literal [Bochart]; como uma doença pestilenta [Rosenmuller]; como um terror do Senhor, um desânimo extraordinário [Junius]. 

Exposição de Gill da Bíblia inteira:

E enviarei vespas diante de ti, ... Que podem ser interpretadas figurativamente, e assim podem significar o mesmo que o medo diante do qual cairia sobre os cananeus ao ouvirem que os israelitas estavam chegando; as picadas de suas consciências por seus pecados, terrores da mente, temendo a ira do Deus de Israel, de quem tinham ouvido, e terríveis apreensões de ruína e destruição dos israelitas: Aben Ezra interpreta isso de alguma doença do corpo, que o enfraquece, como a lepra, da significação da palavra, que tem alguma afinidade com a usada para a lepra; e assim a versão árabe o entende como uma doença. 

Qual é a forma correta de traduzir?

O artigo “As traduções da cristandade – parte 5” teceu o seguinte comentário elucidativo:

Se essa tradução do texto [“por vespas”] estivesse correta, haveria naturalmente a confirmação desse notável acontecimento em outra passagem bíblica, mas isso não ocorre. 

Tradução do Novo Mundo Com Referências explica na nota de rodapé que “a palavra hebr. hats·tsir·‛áh corresponde à palavra árabe que significa ‘desânimo; desalento; rebaixamento’”.

O artigo acima mostra a confirmação do que realmente ocorreu pelas palavras de Raabe aos espias israelitas: 

“Bem sei que o Senhor vos deu esta terra, e que o pavor de vós caiu sobre nós, e que todos os moradores da terra se derretem diante de vós. Porque temos ouvido que o Senhor secou as águas do Mar Vermelho diante de vós, quando saístes do Egito, e também o que fizestes aos dois reis dos amorreus, Siom e Ogue, que estavam além de Jordão, os quais destruístes totalmente. Quando ouvimos isso, derreteram-se os nossos corações, e em ninguém mais há ânimo algum.” – Josué 2:9-11, Almeida Corrigida Fiel. (As traduções em geral vertem assim.)

 

Referências:

Êxodo 23:28. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/commentaries/exodus/23-28.htm>.

______. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/exodus/23-28.htm>.

______. Bible Hub. Disponível em: <https://biblehub.com/parallel/exodus/23-28.htm>. 

 

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domingo, 19 de dezembro de 2021

Jesus é Senhor de todos? (Atos 10:36)

Fonte: jw.org 

Um leitor trouxe a este site a seguinte questão: 

Atos 10:36 NWT 2019 [Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada]: “Ele enviou sua palavra aos filhos de Israel, declarando-lhes as boas novas de paz por meio de Jesus Cristo — este é Senhor de todos.” Atos 10:36 NWT com referências [Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências, 1986]: “Ele enviou a palavra aos filhos de Israel, para declarar-lhes as boas novas de paz por intermédio de Jesus Cristo: Este é Senhor de todos [os demais].”

Em Atos 10:36 somos informados de que Jesus é o Senhor de todos, a NWT com referências adiciona entre colchetes uma nota para esclarecer o que diz o texto sagrado (...) Os trinitaristas acreditam que Jesus é o Senhor no texto em questão. Fala sobre a divindade de Cristo. Por que a diferença na tradução de Atos 10:36 na NWT 2019 e nas anteriores? Bênçãos. 

Resposta: 

O leitor deseja saber sobre a ligeira diferença no texto de Atos 10:36, que ocorre entre a Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada (2015) e a Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências (1986), ambas da mesma sociedade bíblica. A última citada coloca a expressão “os demais” entre colchetes após a frase “Jesus Cristo: Este é Senhor de todos”, fazendo o texto rezar: Ele enviou a palavra aos filhos de Israel, para declarar-lhes as boas novas de paz por intermédio de Jesus Cristo: Este é Senhor de todos [os demais].”

Quando a Bíblia diz que Jesus é “Senhor de todos”, isto é em sentido relativo e não absoluto. Ou seja, Jesus não é Senhor de todos os seres que existem. Obviamente, não é Senhor de seu próprio Pai, o Deus Todo-Poderoso Jeová. O seu Senhorio é relativo. Incide sobre aqueles a quem Deus estabeleceu. Observe isso nos textos abaixo: 

“E foi-lhe dado domínio, honra e um reino, para que os povos, nações e línguas o servissem. Seu domínio é um domínio eterno, que jamais terminará, e seu reino não será destruído.” - Daniel 7:14.

“Jesus se aproximou e lhes disse: ‘Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra.’” – Mateus 28:18.

Como tornado claro nos textos acima, Jesus Cristo recebeu sua autoridade de outrem, de seu Deus e Pai, Jeová. Observe agora os seguintes textos:

“Que ele [Deus] usou com relação a Cristo quando o levantou dentre os mortos e o fez sentar-se à sua direita nos lugares celestiais.” – Efésios 1:20.

“Pois com este objetivo Cristo morreu e voltou a viver: para ser Senhor tanto dos mortos como dos vivos.” – Romanos 14:9.

Novamente, vemos que a posição de autoridade de Cristo foi concedida por Aquele que o ressuscitou. Apocalipse 19:16 nos diz o seguinte a respeito do ressuscitado e glorificado Senhor Jesus Cristo: “Na sua roupa, sim, sobre a coxa, ele tem um nome escrito: Rei dos reis e Senhor dos senhores.” Obviamente, os “reis” e “senhores” sobre os quais ele exerce domínio são os que estão abaixo de sua autoridade; não incluem Aquele que lhe deu tal autoridade. Como o apóstolo Paulo muito bem explicou em 1 Coríntios 15:27, 28: “Pois Deus ‘lhe sujeitou todas as coisas debaixo dos pés’ [Salmo 8:6]. Mas, quando ele diz que ‘todas as coisas foram sujeitas’, é claro que isso não inclui Aquele que lhe sujeitou todas as coisas. No entanto, quando todas as coisas lhe tiverem sido sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará Àquele que lhe sujeitou todas as coisas, para que Deus seja todas as coisas para com todos.”

A palavra grega traduzida “de todos” em Atos 10:36 é πντων (pánton), adjetivo masculino genitivo plural de πς (pãs), que tem sido traduzido por “tudo”, “todo”, “todas as coisas” etc. Sobre esta palavra grega, veja comentário feito no artigo Jesus é o Criador ou um Ser criado? – Exame de Colossenses 1:15-20”: 

[…] pán·ta também pode significar “todas as outras coisas”, conforme o contexto e para dar maior esclarecimento. Isto se dá especialmente quando “todos” é colocado em relação a algo já mencionado, quando tem como referencial algo já citado. 

O artigo supracitado cita, entre outros, os seguintes textos para comprovar este sentido de pãs:

“No entanto, Pedro lhe disse em resposta: ‘Ainda que todos os outros [πάντες] tropecem no que diz respeito ao senhor, eu nunca tropeçarei!’” – Mateus 26:33.

“Além disso, ele lhes disse: ‘Vocês não compreendem essa ilustração; portanto, como entenderão todas as outras [πάσας] ilustrações?’” – Marcos 4:13.

“É semelhante a um grão de mostarda que, quando é semeado no solo, é a menor de todas as sementes da terra. Mas, depois de semeado, cresce e se torna maior do que todas as outras [πάντων] hortaliças e produz grandes ramos, de modo que as aves do céu podem achar abrigo sob a sua sombra.” – Marcos 4:31, 32.

“Aquele que vem do alto está acima de todos os outros [πάντων]. Quem é da terra é da terra e fala as coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos os outros.” – João 3:31.

“Visto que ele nem mesmo poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós, será que, junto com ele, não nos dará também bondosamente todas as outras coisas [τ πάντα]?” – Romanos 8:32.

“Fujam da imoralidade sexual! Qualquer outro [πν] pecado que o homem possa cometer é fora de seu corpo, mas quem pratica a imoralidade sexual peca contra o seu próprio corpo.” – 1 Coríntios 6:18.

“Se um membro sofre, todos os outros [πάντα] membros sofrem com ele; se um membro é glorificado, todos os outros membros se alegram com ele.” – 1 Coríntios 12:26.

Sobre este modo de traduzir o adjetivo pãs, o referido artigo ainda teceu o interessante e esclarecedor comentário:

O mesmo modo de traduzir (“todas as outras”, ou “todos os outros”, “todo outro”, etc.) também poderia ser usado em outros textos. Por exemplo, Romanos 5:12 diz que “por intermédio de um só homem . . . a morte se espalhou a todos os homens”. Mas a parte final do texto poderia ser traduzida ‘a morte se espalhou a todos os [outros] homens’, visto que Adão também era homem. Similarmente, 1 Coríntios 15:24 fala do período em que Jesus irá “entregar o reino ao seu Deus e Pai, tendo reduzido a nada todo governo, e toda autoridade e poder”. A parte final do texto também poderia ser traduzida: “todo [outro] governo, e toda [outra] autoridade e poder”,  visto que Deus e Jesus também têm cada qual um governo, autoridade e poder. A mesma regra poderia ser aplicada em Efésios 1:20-23, que poderia ser traduzido assim: “Ele tem operado no caso do Cristo, quando o levantou dentre os mortos e o assentou à sua direita nos lugares celestiais, muito acima de todo [outro] governo, e autoridade, e poder, e senhorio, e todo [outro] nome dado, não só neste sistema de coisas, mas também no que há de vir. Sujeitou também todas as [outras] coisas debaixo dos pés dele, e o fez cabeça sobre todas as [outras] coisas para a congregação, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que em tudo preenche todas as coisas.” Mas, então, por que nem a NM [Tradução do Novo Mundo Com Referências] nem outras traduções acrescentam em tais textos a palavra “outro”, “outras”, e assim por diante? Porque isto já está subentendido. Ninguém questiona isso. Mas o problema é que, devido à prevalência do ensino trinitário, que afirma que Jesus não foi criado, torna-se necessário acrescentar a palavra “outras” em Colossenses 1:16, 17, para esclarecer algo que já estaria subentendido, se não fosse a ‘neblina’ causada pela doutrina trinitária.

Uma prova bíblica definitiva de que a palavra grega pán·ta pode e deve ser traduzida por “todas as outras coisas” quando o contexto e/ou o esclarecimento o exigem é o texto de 1 Coríntios 15:27, 28, que diz: “Pois Deus ‘lhe sujeitou todas as coisas debaixo dos pés’. Mas, quando diz que ‘todas as coisas foram sujeitas’, é evidente que se excetua aquele que lhe sujeitou todas as coisas.” Em outras palavras, Paulo estava explicando que “todas as coisas” neste contexto significa “todas as outras coisas; não inclui “aquele que lhe sujeitou” tais coisas.  Paulo disse que isso “é evidente”. Mesmo assim, ele achou bom esclarecer isso. O mesmo se pode dizer de certos versículos bíblicos. Aos que não estão com ideias preconcebidas antibíblicas, tal significado “é evidente” nesses versículos. Mas, devido às ideias preconcebidas antibíblicas, às vezes é necessário esclarecer o sentido do texto por acrescentar palavras auxiliares. Estas palavras não mudam o sentido do texto; pelo contrário, o esclarecem.

Conclusão

Os editores da Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas com Referências (1986) acharam por bem esclarecer algo que já está subentendido em Atos 10:36: que Jesus é Senhor de todos os demais, mostrando com isso que o seu Senhorio é relativo, e não absoluto. Somente Jeová é Senhor em sentido absoluto. Lemos em 1 Coríntios 3:23: “Vocês, por sua vez, pertencem a Cristo; Cristo, por sua vez, pertence a Deus.” Ou seja, Deus, o Pai é Dono e Senhor do próprio Jesus Cristo. Usando as palavras do artigo supracitado, os editores da referida tradução da Bíblia acharam bom “esclarecer algo que já estaria subentendido, se não fosse a ‘neblina’ causada pela doutrina trinitária”. Por outro lado, os editores da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada (2015), pelo visto, não viram tal necessidade, visto que já está subentendido tal verdade. De qualquer forma, as duas traduções traduzem de modo correto – uma sendo mais específica.

 

A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová. 

 

Contato: oapologistadaverdade@gmail.com

 

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domingo, 12 de dezembro de 2021

Mateus 28:19 ocorre no texto original?

Fonte: jw.org 

Um leitor comentou:

Mateus 28:19 é muito citado pelos trinitários. Os unitaristas alegam que a frase “em nome do Pai e do Filho e do espírito santo” é espúria ... Haverá um post sobre isso? Saudações! Bençãos!

Resposta:

O que leva alguns a questionar a autenticidade de Mateus 28:19 são os motivos alistados abaixo:

1) Alguns unitários creem que esse texto apoia a doutrina da Trindade e, por isso, questionam a sua canonicidade;

2) Outros estudiosos das Escrituras acham que o batismo em nome do Pai, do Filho e do espírito santo contradiz passagens bíblicas posteriores, que falam de batizar em nome  de Jesus.

Em primeiro lugar, vejamos se o referido  texto está bem documentado historicamente. 

Existe base documental para Mateus 28:19?

Matheus Cardoso, formado em Teologia, declarou:

As palavras “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo” aparecem também em todas as traduções antigas do evangelho de Mateus ou do Novo Testamento completo, tais como a Peshitta Siríaca, a Vulgata latina, a Copta e as versões eslovacas. É interessante observar que os cristãos sírios e coptas (que possuíam sua própria tradução do Novo Testamento) não estavam ligados à Igreja Católica Romana, mas aceitavam essa passagem bíblica como autêntica. Após analisar esses fatos, um estudioso afirmou: “É incrível que uma interpolação desse caráter tenha sido feita no texto de Mateus sem deixar qualquer traço de sua inautenticidade em um simples manuscrito ou versão [tradução]. A evidência de sua genuinidade é esmagadora.”

[…]

Os documentos históricos, no entanto, mostram que todas as vezes em que os antigos escritores cristãos se referiam a Mateus 28:19, eles citavam as palavras “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”. Os exemplos incluem a Didaquê, um manual doutrinário para candidatos ao batismo, produzido entre 70 e 100 d.C.; Inácio de Antioquia (50-110 d.C.); Justino Mártir (100-165 d.C.); Taciano, o Sírio (120-180 d.C.); Irineu de Lyon (130-200 d.C.); Tertuliano de Cartago (150-220 d.C.); Hipólito de Roma (170-235 d.C.); Orígenes (185-253 d.C.); Cipriano (morreu em 258 d.C.); Dionísio de Alexandria (morreu em 265 d.C.); Vitorino de Pettau (morreu em 303 d.C.) e os autores do Tratado Contra o Herege Novaciano e do Tratado Sobre o Rebatismo.[1]

O autor supracitado cita a obra conhecida como Didaquê. Sobre este interessante documento antigo, o especialista em hebraico e grego, Rubens D. Oliveira, comenta o seguinte:

Uma das mais antigas declarações não-bíblicas da fé cristã encontra-se num livro de 16 capítulos curtos, conhecido como O Didaquê, ou O Ensino dos Doze Apóstolos. Alguns historiadores datam-no de antes do ano 100 EC ou por volta disto. O autor é desconhecido. (The Apostolic Fathers, Volume 3, de Robert A. Kraft, 1965, página 163.)

[…]

O Didaquê trata de coisas que as pessoas precisavam saber para se tornar cristãos. No capítulo 7, ele prescreve o batismo “no nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”, as mesmas palavras usadas por Jesus em Mateus 28:19. Mas nada diz sobre os três serem iguais em eternidade, poder, posição e sabedoria. No capítulo 10, O Didaquê inclui a seguinte confissão de fé em forma de oração:

“Agradecemos-te, Santo Pai, por teu Nome santo que fizeste residir em nossos corações; e pelo conhecimento, e fé, e imortalidade, que nos revelaste por meio de Jesus, teu Servo. Glória a ti para sempre! Tu, Todo-Poderoso Amo, criaste tudo pela causa do teu Nome. . . . E a nós tens dado graciosamente alimento e bebida espirituais, e vida eterna por intermédio de Jesus, teu Servo.”[2] 

Observe o leitor como inicia o capítulo VII, verso 1, do Didaquê:

1. Περὶ δὲ τοῦ βαπτίσματος, οὕτω βαπτίσατε· ταῦτα πάντα προειπόντες, βαπτίσατε εἰς τὸ ὄνομα τοῦ πατρὸς καὶ τοῦ υἱοῦ καὶ τοῦ ἁγίου πνεύματος ἐν ὕδατι ζῶντι.

1. Acerca do batismo, assim batizai: todas estas coisas tendo sido preditas, batizai em o nome do Pai e do Filho e do espírito santo em água viva [água corrente]. 

O Didaquê, do 1.º século da Era Cristã, comprova que Mateus 28:19 é uma passagem autêntica.

Mateus 28:19 e suas implicações teológicas

Portanto, existe suficiente documentação história para corroborar a canonicidade de Mateus 28:19. Vejamos agora as objeções a esta passagem citadas no início deste artigo: 

Mateus 28:19 apoia a doutrina da Trindade?

O artigo “Mateus 28:19 apoia a Trindade?” teceu as seguintes observações:

O texto não diz que os três são Pessoas, não diz que fazem parte de uma só Divindade, nem que são iguais entre si em poder, autoridade e eternidade. A fraseologia do texto não permite pressupor ou inferir tais informações que não estão contidas nele – de fato, não o estão em parte alguma da Bíblia. Por exemplo, a Bíblia menciona Abraão, Isaque e Jacó juntos várias vezes, assim como também Pedro, Tiago e João, mas isso não significa que os mencionados nesses grupos de três fossem iguais entre si, tendo o mesmo poder, autoridade e tempo de existência. (Êxodo 2:24; 3:16; 2 Reis 13:23; Mateus 17:1; Marcos 5:37; 14:33) Do mesmo modo, a menção de ‘Pai, Filho e espírito santo’ não estabelece a relação deles entre si.

Ou seja, a doutrina da Trindade não significa a mera menção de “Pai, Filho e Espírito Santo”. Tal doutrina afirma a pessoalidade destes três, bem como a sua coigualdade. Porém, Mateus 28:19 não afirma que os três citados sejam Pessoas, e nem diz que são coiguais.

O referido artigo ainda acrescentou:

Com relação à palavra “nome” (grego ónoma), deve-se salientar que nesse texto ela não tem o sentido de nome próprio, pessoal. De fato, se esse fosse o caso, o texto seria contraditório e um golpe contra a Trindade. Pois, na questão de nome pessoal, o Pai tem essa identificação: seu nome é Jeová. (Salmo 83:18) O Filho também tem tal identificação: seu nome é Jesus Cristo. (Mateus 1:1) No entanto, o espírito santo não tem nome pessoal na Bíblia. “Espírito santo” não é nome pessoal; é um termo descritivo. Deus, o Pai, é Espírito, e é santo. (João 4:24; 17:11)  Portanto, ele é um espírito santo pessoal. Jesus, o Filho, também é espírito, e é santo. (1 Pedro 3:18; João 6:69) Os anjos de Deus são todos espíritos, e são santos. (Hebreus 1:7; Marcos 8:38) Assim, todos esses são espíritos santos pessoais. Para que o “espírito santo” seja uma pessoa, ele teria de ter um nome pessoal para distingui-lo dos demais espíritos santos pessoais que existem. Mas, falta-lhe tal identificação como pessoa. Uma vez que, na Bíblia, a palavra “espírito” é polissêmica, isto é, tem vários significados (dos seis significados, cinco se referem a coisas impessoais[3]), tal ausência de identidade pessoal coloca o espírito santo coerentemente como algo impessoal, que outras passagens tornam claro ser a força procedente de Deus, que Ele usa para realizar Sua vontade. 

O batismo em nome do Pai, do Filho e do espírito santo contradiz o batismo em nome de Jesus?

Sobre esta questão, observe o que declarou o artigo “Batismo em nome de quem?”:

Os textos bíblicos envolvidos tornam claro que essa menção diferente ocorre devido ao realce que os discípulos deram ao papel de Jesus em perdoar os pecados da humanidade obediente. 

Vemos isso em Atos 2:38: “Cada um de vós seja batizado no nome de Jesus Cristo, para o perdão de vossos pecados.” Consoante a isso, lemos em Atos 10:43: “Dele é que todos os profetas dão testemunho, de que todo aquele que deposita fé nele recebe perdão de pecados por intermédio de seu nome.” Ademais, Atos 22:16 declara: “Levanta-te, sê batizado e lava os teus pecados por invocares o seu nome [o nome de Jesus Cristo].” Por fim, 1 João 2:12 afirma: “Os vossos pecados vos têm sido perdoados por causa do seu nome [o nome de Jesus Cristo].” 

Outro aspecto a considerar é que a maioria das pessoas da época – em especial os judeus, os primeiros a receber o testemunho cristão - estava familiarizada com a Pessoa e o nome de Deus, e também com a existência do espírito santo, mas Jesus Cristo era um elemento novo no propósito de Deus. (Êxodo 3:15; Salmo 51:11) O relato de Atos 19:4, 5 confirma isso – mostra que o apóstolo Paulo teve que fazer uma explicação acerca do batismo: “Paulo disse: ‘João batizava com o batismo em símbolo de arrependimento, dizendo ao povo que cressem naquele que vinha após ele, isto é, em Jesus.’ Ouvindo isso, foram batizados no nome do Senhor Jesus.”

Portanto, o texto de Mateus 28:19 está abalizado pela prova documental e contextual, o que comprova que faz parte da inteira Palavra de Deus.


Notas:

[1] Perguntas. Mateus 28:19 – falso ou autêntico? Cristianismo.com.br. Terça-feira, 14 set, 2010. Disponível em: <http://www.perguntas.criacionismo.com.br/2010/09/mateus-2819-falso-ou-autentico.html>. 

[2] OLIVEIRA, Rubens D. “Mateus 28:19 ‘batizando-as em o nome do Pai, e do Filho, e do espírito santo’ inspirado por Deus ou adulteração posterior?”. Tradução do Novo Mundo Defendida. 3 ago 2014. Disponível em: <https://traducaodonovomundodefendida.wordpress.com/2014/08/03/mateus-2819-batizando-as-em-o-nome-do-pai-e-do-filho-e-do-espirito-santo-inspirado-por-deus-ou-adulteracao-posterior/>.

Crédito da foto do Didaquê: Tradução do Novo Mundo Defendida. Disponível em: <https://traducaodonovomundodefendida.wordpress.com/2018/09/23/o-didaque-1o-sec-grego-portugues/>. 


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domingo, 5 de dezembro de 2021

O uso deturpado da gramática para tentar provar a Trindade

 Fonte: jw.org

Os trinitaristas costumam citar a gramática da língua grega usada no Novo Testamento para tentar provar a doutrina da Trindade. Porém, surgem as seguintes questões: a gramática tem o poder de determinar uma doutrina religiosa? Até que ponto a gramática consegue determinar como uma passagem bíblica deve ser traduzida?

O carro-chefe dos textos bíblicos citados pelos trinitaristas para tentar provar a coigualdade entre Jesus Cristo e seu Pai é João 1:1. De acordo com traduções trinitaristas, este texto reza: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.(Almeida Corrigida Fiel) Muitos trinitaristas afirmam ostensivamente que o termo “DEUS”, quando aplicado ao Verbo, de acordo com a gramática grega, jamais poderia ser vertido com letra inicial minúscula, como verte a Tradução do Arcebispo Newcome: “A Palavra era um deus.” – The New Testament, in An Improved Version, Upon the Basis of Archbishop Newcome’s New Translation: With a Corrected Text, Londres, 1808.

Os trinitaristas costumam fazer duas afirmações sobre esta forma de traduzir: (1) no grego usado na Bíblia não existe artigo indefinido (“um”); (2) a estrutura em que se encontra a frase “a Palavra (ou o Verbo) era Deus” não permite que o  substantivo “DEUS” seja vertido com inicial minúscula.

Com relação à primeira afirmação, o ponto não é a língua grega possuir ou não artigo indefinido, e sim o fato de ela ter substantivos indefinidos. Visto que ela possui substantivos indefinidos, ou não definidos, estes podem ser acompanhados do artigo indefinido “um” ou “uma” em línguas que possuem tais artigos indefinidos.

Por exemplo, as traduções trinitaristas costumam verter Atos 28:6 da seguinte forma: “E eles esperavam que [o apóstolo Paulo] viesse a inchar ou a cair morto de repente; mas tendo esperado já muito, e vendo que nenhum incômodo lhe sobrevinha, mudando de parecer, diziam que era um deus.(Almeida Corrigida Fiel) Neste caso, os trinitaristas não criam objeções ao uso do artigo indefinido. Assim, a oposição ao uso do artigo indefinido nas traduções de João 1:1 em línguas que possuem tal artigo não se baseia em gramática, mas sim em preconceito.

Com relação à segunda afirmação, os trinitaristas costumam citar a regra de Colwell, que afirma: “Um predicativo nominativo substantivo anartro não possui artigo quando precede o verbo.” Será que esta regra impede a tradução “um deus”, ou “deus” com inicial minúscula, quando este substantivo é aplicado ao Verbo (“Palavra”)?

Como no grego bíblico não existe artigo indefinido, o que Colwell quis afirmar é que “um predicativo nominativo substantivo anartro não possui artigo [definido] quando precede o verbo”. Assim, o objetivo desta regra é explicar por que o termo “DEUS” aplicado ao Verbo na parte final de João 1:1 não possui artigo definido. Porém, esta regra não afirma que o termo “DEUS” neste caso seja definido ou indefinido. Colwell afirmou: “[O substantivo] é indefinido nessa colocação apenas quando o contexto o exige.” Ele próprio reconheceu que a gramática não consegue determinar se um substantivo anartro (sem artigo definido), na posição de  predicativo nominativo, e vindo antes do verbo, é definido ou não. É o contexto que determina isso. Ou seja, a discussão sobre isso não é gramatical, e sim contextual, interpretativa. Para entender bem este assunto, veja os artigos abaixo:

João1:1 e a regra de Colwell (Parte 1)

João 1:1 e aregra de Colwell (Parte 2)

João 1:1 e a regrade Colwell (Parte 3)

Alguns, devido ao desconhecimento da língua grega usada na Bíblia, pensam que os unitários traduzem “deus” (com letra minúscula) pelo fato de o substantivo “DEUS” neste caso, em João 1:1, não possuir artigo definido. Alegam que os unitários deveriam também verter “deus” com inicial minúscula quando não possui artigo definido e se refere ao Pai. Sobre isso, veja o que declarou o artigo O que determina que a parte final João 1:1 possa ser traduzida ‘um deus’?”:

Os que desconhecem o idioma grego antigo, ou são leigos quanto a ele, não entendem que a tradução “um deus” não depende apenas da ausência do artigo definido. Em vez disso, tem a ver com a palavra theós (“deus”) ser um substantivo indefinido. E é o contexto (não a gramática) que irá determinar se a palavra theós em questão é indefinida ou definida.

É evidente que, quando aplicado ao Pai, o substantivo “DEUS” é definido, mesmo que não possua o artigo definido “o”. Por outro lado, também é evidente que o substantivo “DEUS”, quando aplicado ao Filho (o Verbo) em João 1:1, não é definido. O artigo supracitado mostra isso no seguinte comentário:

Visto que o Lógos (Verbo) estava com “O” Deus, ele não poderia ser “O” Deus com quem ele estava. Uma pessoa que está com alguém não é a mesma pessoa com quem ela está! 

Inclusive, tal interpretação entraria em conflito com a própria doutrina da Trindade, a qual apregoa a separação de Pessoas. Ou seja, a Trindade não afirma que o Pai e o Filho são a mesma Pessoa, e sim que são duas pessoas distintas que formam (juntos com o “Espírito Santo”) um só Deus. Porém, entender que o Verbo é “O” Deus com quem ele estava seria afirmar que o Verbo é o Pai, algo que nem a Trindade nem a Bíblia afirmam.

A construção argumentativa unitária acima se baseia no contexto de João 1:1, e no contexto da inteira Palavra de Deus, e está em harmonia com este contexto. E, como vimos, a gramática tem suas limitações, e não deveria ser deturpada para promover doutrinas religiosas. As doutrinas devem ser determinadas pelo contexto da inteira Palavra de Deus. 

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