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“Unidade a Todo Custo?” - o julgamento de Douglas Walsh


Entre anos de 1953-4 houve alguns julgamentos na Escócia a fim de determinar se as Testemunhas de Jeová eram de fato uma organização religiosa e se possuía ministros regulares.  Em janeiro de 1954, uma audiência preliminar em Edimburgo determinou que Douglas Walsh era um caso relevante e Lorde Strachan ordenou que fosse submetido a julgamento. Marcou-se o dia 23 de novembro de 1954 para o caso ser julgado.

O Anuário de 1974, p. 33,[1] nos conta:

O vice-presidente da Sociedade Torre de Vigia dos EUA, F. W. Franz, da sede de Brooklyn, foi o primeiro a testemunhar. Esboçou, usando a Bíblia, as crenças das testemunhas de Jeová, em especial as que diferiam das religiões ortodoxas.

F.W. Franz era um homem modesto que trabalhou ao lado de N. Knorr. F.W. Franz escreveu a maioria dos artigos e demais publicações, ao passo que N. Knorr tomava a maioria das decisões. Nos anos de 1950-1971 não havia um Corpo Governante conforme o atual magistério/colegial, mas havia um “corpo governante” que estava intimamente associado à diretoria da Sociedade. Contudo, os representantes da Torre de Vigia, incluindo F.W. Franz, responderam às perguntas no julgamento de Walsh de forma diferente de como Russell tencionara para o grupo religioso por ele iniciado. H.C. Covington, o então advogado da Sociedade, junto dos outros representantes, deram respostas vergonhosas a perguntas bem elaboradas e dignas de serem feitas. Portanto, afirmo que a Torre de Vigia nunca foi santa. Sempre houve excessos, assim como em qualquer outra organização religiosa. Contudo, não estou certo de que todos os membros da Torre de Vigia dariam as mesmas respostas.

A seguir apresento o interrogatório de H.C. Covington.

- Não é vital falar a verdade em assuntos religiosos?

- Certamente é.

- Vocês promulgaram - perdoe a palavra - falsa profecia?

- Promulgamos? Eu não acho que promulgamos falsa profecia, houve declarações que eram errôneas e imprecisas, é assim que eu colocaria.

- Foi promulgada como uma questão que devia ser aceita por todos os membros das Testemunhas de Jeová que a segunda vinda do Senhor ocorrera em 1874?

- Não estou muito familiarizado com isso. . .

   Mais adiante o diálogo segue:

- E se presumirmos que foi promulgada de forma tão autoritária pela Sociedade a Segunda Volta de Cristo em 1984?

- Se tomarmos tal presunção como se fosse um fato, é uma declaração hipotética.

- [Nessa hipótese] Essa teria sido a publicação de uma falsa profecia?

- Essa teria sido a publicação de uma falsa profecia, seria uma declaração falsa ou uma declaração errada no cumprimento de uma profecia que era falsa ou errada.

- E isso tinha de ser aceito por todas a Testemunhas de Jeová?

- Sim, porque você deve entender, devemos ter união, não podemos ter desunião com muitas pessoas indo a todos os sentidos, um exército deve marcar no passo.

- Voltando ao ponto agora, uma falsa profecia foi promulgada?

- Eu concordo com isso. [Na hipótese]

- Tinha que ser aceito pelas testemunhas de Jeová?

- Correto.

- Se um membro das Testemunhas de Jeová levou a opinião de que essa profecia estava errada, e disse isso, ele seria desassociado?

- Sim, se ele dissesse isso, e persistisse em criar problemas, porque se toda a organização acredita em uma coisa, embora seja errônea, e outra pessoa começa por sua própria tentativa de colocar suas ideias em frente, então há desunidade e problemas, não pode haver harmonia, não pode haver uma marcha. . . Nosso objetivo é ter unidade.

- Unidade a todo custo?

- Unidade a todo custo, porque acreditamos e temos certeza de que Jeová Deus está usando nossa organização, o corpo governante da nossa organização, para direcioná-la, embora erros sejam cometidos de tempos em tempos.

- Uma unidade baseada em uma aceitação aplicada da falsa profecia?

- Isso é concebido como verdadeiro.

- E a pessoa que expressar sua visão, como você diz, de que estava errado, e foi desassociada, estaria em violação do pacto, se ela fosse batizada?

- Isso está correto.

- E como você disse ontem expressamente, seria digno de morte?

- Eu acho que. . .

- Você diria que sim ou não?

- Eu responderia que sim, sem hesitar.

- Você chama isso de religião?

- Certamente.

- Você chama isso de cristianismo?

- Certamente que sim.[2]

A unidade é certamente importante. O protestantismo é uma bagunça do início ao fim, não há unidade nem união. Mas o interrogatório de H.C. Covington começa ruim e termina péssimo. Confesso que suas respostas me dão vergonha e tenho ótimos motivos para duvidar que elas retratassem a realidade nos tempos de Rutherford e Russell. Deve ser por isso que a Torre de Vigia nunca publicou nada sobre esse interrogatório nas edições de A Sentinela. H.C. Covington não sabia do que estava falando, conforme ele mesmo afirmou, pois ele não tinha lido toda a literatura da Torre de Vigia.

Até onde sei, as respostas dadas nesse julgamento não condiziam com a realidade na década de 1950 ou antes, e isso é testemunhado por zelosas testemunhas de Jeová que estavam vivas na época de 1960, tal como Rolf Furuli.

Russell escrevera:

Tampouco teríamos nossos escritos reverenciados ou considerados infalíveis, ou em pé de igualdade com as Sagradas Escrituras. O máximo que afirmamos [agora] ou já afirmamos [antes] para nossos ensinamentos é que eles são o que acreditamos ser interpretações harmoniosas da Palavra divina, em harmonia com o espírito da verdade. E ainda insistimos, como no passado, que cada leitor estude os assuntos que apresentamos à luz das Escrituras, provando todas as coisas pelas Escrituras, aceitando o que eles vêem como aprovado e rejeitando tudo o mais. É para este fim, para capacitar o estudante a traçar o assunto no Registro divinamente inspirado, que tão livremente intercalamos citações e citações das Escrituras sobre as quais construir.[3]

A declaração de Russell é o oposto diametral das respostas de H.C. Covington, mas essas respostas levantam questões que devem ser respondidas.

Os protestantes inventaram a diferença entre unidade e união. Eles afirmam estar em união, embora não estejam em unidade, pois existem milhares de seitas protestantes. Em realidade, contudo, esse é um jogo de palavras que inverte seis por meia dúzia. Não há nem unidade nem união no protestantismo.

Em contrapartida, o povo de Jeová deve ser unido, mas será mesmo que essa “unidade é a todo custo”, conforme respondeu de forma impensada e irresponsável H.C. Covington? A resposta tem de ser não. Quando irmãos qualificados escrevem publicações com base na Bíblia e tentam explicar as Escrituras, cada cristão deve ter em mente que os autores podem estar certos ou errados. Há algumas coisas que são absolutas e outras que devem ser tratadas de modo mais flexível. Algumas são obrigatórias e outras devem estar abertas ao escrutínio pessoal e congregacional. Faço aqui a diferenciação entre doutrina e entendimento.

Doutrinas são aquelas que cada TJ é obrigada a aceitar. Em outras palavras, não há motivos para ser uma TJ se você não aceita as doutrinas. Essas doutrinas são pilares de nossa fé.

1.   Toda a Bíblia é inspirada por Deus e exata em todos os sentidos;

2.  Apenas Jeová é o Todo-Poderoso e somente Ele deve ser adorado em sentido absoluto;

3.  Jesus é filho de Jeová, o princípio da criação de Deus, e ele é digno de adoração relativa à sua posição como rei;

4.  Jesus Cristo morreu em sacrifício para salvar toda a humanidade do pecado. Sua morte paga o pecado dos homens;

5.  Existe a esperança de vida eterna na Terra e também nos céus;

6.  A alma morre e será ressuscitada na recriação;

7.   Os cristãos devem ser santos ou separados do mundo e de suas práticas;

8.   Os sete tempos dos gentios são uma profecia que se cumpriu no início do século passado e estamos vivendo no tempo do fim;

9.  O sangue é sagrado e representa a vida, devemos nos abster de sangue;

10.Qualquer adoração de imagens, pessoas ou organizações é idolatria;

   Eu citei 10 doutrinas absolutas, mas ainda há outras. O ponto é que cada Testemunha deve aceitar todas essas doutrinas. Se uma TJ negar essas doutrinas, não há motivos para ser uma TJ. Se ela pregar algo contra essas doutrinas, ela será advertida. Se persistir, será desassociada por heresia. É claro que há detalhes dentro das doutrinas que poderão ter interpretações pessoais. Por exemplo: será que os 144000 selados terão corpos materializados e estarão presentes entre a humanidade no milênio? Visto que a “Nova Jerusalém” desce dos céus no milênio, talvez alguns pensem que isso significa que os 144000 terão funções na Terra, embora tenham uma natureza celestial, assim como os anjos vieram à Terra nas Escrituras Hebraicas. Outros talvez pensem que a Nova Jerusalém desce do céu no sentido apenas de bençãos. Esses são pontos onde podem haver opiniões diferentes, desde que haja respeito.

Contudo, há entendimentos, e estes não estão no mesmo patamar das doutrinas. Esses devem ou podem ter uma versão oficial, mas deve haver margem para discussão respeitosa e debate sadio em circunstâncias apropriadas. Por “debate sadio” refiro-me não a discussões, mas a poder colocar o assunto sobre a mesa e toda a congregação participar na construção do conhecimento. Vejamos alguns:

  • Qual é a definição de “sangue”?
  • Qual é o sentido da ‘geração que não passará’?
  • Qual é o cumprimento dos números em Daniel?
  • Quem é o rei do norte e o rei do sul?

   Há muitos outros entendimentos que se assemelham a estes pontos. O Corpo Governante  (CG) possui a interpretação oficial, mas não permite que ninguém discorde. Contudo, isso está errado, pois deve haver espaço para que os argumentos sejam colocados sobre a mesa e toda a congregação se envolva na construção do conhecimento, não apenas os oito membros do CG. Mas será que isso causará desunião? É uma possibilidade, mas é o preço que se paga pela liberdade e pela busca da verdade. É lógico que as coisas devem ocorrer de modo ordeiro, mas pode haver métodos formais (ex.: concílios) de apresentar entendimentos que divergem dos oficiais. Se acreditamos que o espírito santo nos guiará para tomarmos a decisão certa, não há por que evitar que irmãos qualificados apresentem entendimentos diferentes da visão oficial.

Conforme falei, não estou certo de que as declarações infelizes de H.C. Covington estivessem em harmonia com o pensamento da Torre de Vigia na época, e não estou certo sobre o que F.W. Franz tinha em mente quando ele tratou de pontos em conexão com as publicações que eram “obrigatórios” a todas as TJs aceitar. F.W. Franz tem declarações bem mais moderadas que H.C. Covington no julgamento, mas não são mencionados exemplos específicos em conexão com as perguntas e respostas.

Seja como for, vemos no interrogatório de H.C. Covington que existia já naquela época, pelo menos entre alguns, o conceito de unidade a todo custo. Repito: não creio que as palavras dele sejam base para tudo e para todos; e pelo que li do interrogatório, H.C. Covington não me pareceu conhecedor dos escritos de Russell e seus posicionamentos. Estou certo de que as respostas de H.C. Covington não representavam os pensamentos de muitos irmãos na década de 1950.

Contudo, as palavras dele são o garoto propaganda da Torre de Vigia das últimas décadas. A união/unidade é importante, mas não pode ser exaltada em detrimento da verdade.



[1] Publicado pelas Testemunhas de Jeová.

[2] Disponível em https://archive.org/details/WalshTrial, páginas. 345-348.

[3]  “Worship the Lord in the Beauty of Holiness,” No. 2, Zion’s Watch Tower an Herald of Christ’s Presence, 15 de dezembro de 1896, reimpressão, 2080.

Comentários

  1. Verdade inconveniente, mas não deixa de ser verdade. Parabéns pelo artigo, meu irmão!

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  2. Década de 50 parece ter sido uma época de extremos em alguns contextos; para o bem e para o mal. Por um lado, se defendia a nossa doutrina e o direito de sermos reconhecidos como religião das portas para fora; das portas para dentro já havia um controle feroz pela 'unidade', como se vê acima!

    A jovem organização já ganhava os seus contornos.

    Boa pesquisa acima.

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