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terça-feira, 7 de novembro de 2017

O “Espírito Santo” e o uso do artigo em grego

Fonte da ilustração: jw.org


A respeito do artigo “O artigo definido prova a pessoalidade do ‘Espírito Santo’?”, certo leitor fez o seguinte comentário:

Reposta apologética.
• E Jesus, respondendo, disse-lhes: Porventura não errais vós em razão de não saberdes as Escrituras nem o poder de Deus? (Marcos 12:24)
• Existe um grupo de textos bíblicos que fala da obra do Espírito Santo, enquanto outro fala da própria Pessoa. A distinção não aparece no texto que o estudante tem em português, apenas no original grego. Quando a expressão grega pneúma hgion (espírito santo) não é acompanhada do artigo definido grego ho (em português “o”) deveria ser sempre traduzido no sentido de “atitude divina”, “dádiva”, “poder” ou “força de Deus”. Essa forma é usada 52 vezes no NT e deve ser aplicado à dádiva e não ao doador.
• Existe uma segunda forma usada no texto original em grego. Quando o texto grego usa o artigo definido, que em português corresponde ao nosso “o”, sempre fala sobre a Pessoa divina em si. Nesse caso o artigo aparece duas vezes: uma diante da palavra grega pneúma e outra diante da palavra hágion. Assim, uma tradução literal da expressão to pneúma to hágion seria “o Espírito, o Santo”. Neste caso o texto bíblico estaria falando do Doador.
• O uso de dois artigos quando o texto bíblico se refere ao Espírito Santo é o argumento definitivo para provar a personalidade do Espírito Santo. Veja as referências a Ele nos textos abaixo:
• “Mas quem falar contra o Espírito Santo [tou pneúmatos tou hágion, ou seja, o Espírito, o Santo] não será perdoado”, Mt 12.32.
• “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo [to pneúma to hágion, ou seja, o Espírito, o Santo], que o Pai enviará em meu nome”, Jo 14.26.
• “Enquanto o adoravam o Senhor e jejuavam, disse o Espírito Santo [to pneúma to hágion, ou seja, o Espírito, o Santo]”, At 13.2.
• A Bíblia pode referir-se a Ele chamando-o apenas “o Espírito” [to pneúma] (como em At 8.29; 10.19), ou simplesmente, “o Santo” [tou hágiou] (1Jo 2.20). Em ambos os casos o texto bíblico está tratando o Espírito Santo como um ser pessoal. A distinção entre a dádiva e o doador pode ser percebida em Atos 2.4, onde se lê: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo [dádiva] e começaram a falar noutras línguas, conforme o Espírito [Doador] os capacitava.” 
• “Ausência de evidência não é evidência de ausência.” Isto significa que não neutraliza a personalidade do Espirito santo, como querem fazer a seita dos testemunhas de Jeová. Enfim, mais alguma pergunta?

Resposta:

É impressionante como os trinitaristas buscam inventar “regras” gramaticais para tentar dar base para sua crença.

Na realidade, o uso do artigo e/ou a repetição dele nada tem a ver com pessoalidade ou impessoalidade. Se tivesse, chegaríamos a conclusões absurdas. Por exemplo, o substantivo theós (“Deus”) ocorre com artigo em João 1:1 e sem o artigo em João 1:6. Pela dita “regra” do tal trinitário, a primeira referência seria a um Deus pessoal, enquanto que a segunda, a um Deus impessoal.

A repetição do artigo para pneúma (“espírito”)

Se a dita “regra” fosse verdadeira, então os usos de pneúma (“espírito”) com referência aos espíritos impuros (demônios) seriam sempre com artigo, pois os espíritos impuros são seres pessoais, os quais haviam sido anjos no céu.

Encontramos o uso do artigo em Marcos 9:20, e a repetição do artigo em Marcos 5:8 na expressão “espírito impuro” (literalmente “o espírito o impuro”). Porém, em Marcos 7:25, a palavra “espírito” ocorre SEM artigo. Segunda a tal “regra”, nesse caso tal “espírito impuro” seria algo impessoal – uma “coisa”.

Por outro lado, o substantivo pneúma (“espírito”) com artigo definido é aplicado ao vento em João 3:8. Pela suposta “regra”, o vento seria uma pessoa.

A verdadeira razão gramatical para o uso e a repetição do artigo

Em regra, o objetivo do artigo é dar qualificação, ou definição, a um substantivo, destacando-o e enfatizando-o. A repetição do artigo é para destacar uma determinada qualidade, ou atributo, do substantivo.

Vejamos alguns exemplos disso.

Em Tiago 1:1, o escritor se dirige “às 12 tribos que estão espalhadas” (Lit.: “os da dispersão [gr.: di·a·spo·raí; lat.: di·sper·si·ó·ne]”. – Nota NM Com Referências.)

Em grego encontra-se assim:

ταῖς δώδεκα φυλαῖς ταῖς ἐν τῇ διασπορᾷ.
Taîs dódeka phylaîs taîs en têi diasporãi
Às    doze      tribos    as   em a diáspora

Notamos a repetição do artigo feminino plural no dativo: ταῖς.

Sobre tal repetição, lemos o seguinte na obra Biblical Exegesis of New Testament Greek: James (“Exegese Bíblica do Novo Testamento: Tiago, Cascade Books, 2008, p. 3), do Professor do Novo Testamento e de grego Craig Price:

Para agrupamento de palavras associadas ou grupos de palavras:

O artigo serve para agrupar certas palavras associadas gramaticalmente e grupos de palavras juntas. Vemos dois exemplos disso em Tiago.

(a)      Repetição do artigo. Note a repetição do artigo ταῖς em Tiago 1:1. O artigo ταῖς é usado com φυλαῖς e é repetido em frente da frase preposicional ἐν τῇ διασπορᾷ. Essa repetição agrupa a frase preposicional “as quais estão na diáspora” com as “doze tribos”. O segundo uso de ταῖς com a frase preposicional esclarece ao leitor que modifica “as doze tribos”. [Negrito acrescentado.]

Em outras palavras, a repetição do artigo mostra uma característica específica das “doze tribos” – elas estavam espalhadas.

Adicionalmente, podemos citar a obra New Testament Greek Primer, Third Edition: From Morphology to Grammar (“Grego Elementar do Novo Testamento, Terceira Edição, Da Morfologia à Gramática”, pp. 67, 68), de Gerald L. Stevens, que é Professor do Novo Testamento e de grego, e que leciona no Seminário Teológico Batista de Nova Orleans por quase trinta anos. Ele declarou:

A repetição do artigo torna claro a relação gramatical daquela frase com um modificador do pronome associado ao artigo. Por exemplo:

 ναὸς τοῦ θεοῦ  ἐν τῷ οὐρανῷ
ho naòs toû theoû ho en tõi ouranõi
o  templo do Deus o em o céu

Note o primeiro artigo ho, usado com ναὸς para tornar esse substantivo específico, depois é repetido em frente de uma frase preposicional,  ἐν τῷ οὐρανῷ. O artigo repetido “prende” ἐν τῷ οὐρανῷ para tornar claro que essa frase é um modificador do substantivo ναὸς. Nós temos usado uma cláusula relativa para traduzir essa função adjetiva que o segundo artigo gerou. [Negrito acrescentado.]

Depreende-se claramente disso que a repetição do artigo destaca uma atribuição do substantivo. No exemplo acima, de Apocalipse 11:19, a repetição do artigo destaca a atribuição do templo de Deus – que é aquele que está no céu. Como explicou Stevens, a repetição do artigo gerou uma “função adjetiva”, ou uma qualidade ou característica, do templo (é do céu, celestial).

Outro exemplo encontra-se em Colossenses 1:15. A expressão “Deus invisível” em grego literalmente é “do Deus, do invisível”. Longe de ter a ver com a pessoalidade de Deus, a repetição do artigo enfatiza uma qualidade de Deus – que ele é invisível.

O uso e a repetição do artigo no caso do espírito santo é similar. Como mostrou o artigo “O artigo definido prova a pessoalidade do ‘Espírito Santo’?”:

No caso do espírito santo, o uso do artigo apenas destaca que se trata de um espírito santo específico, e não dos outros espíritos santos que existem (Deus, Jesus, os anjos e a força de vida).

Coerentemente, a repetição do artigo na expressão “o espírito o santo” serve para enfatizar a qualidade do espírito de Deus – que tal espírito é santo.

A “regra” e o espírito santo

Lemos em Atos 10:44 (ACF): “E, dizendo Pedro ainda estas palavras, caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra.”

Observe que, no idioma grego, encontramos a repetição do artigo:

ἐπέπεσεν τὸ πνεῦμα τὸ ἅγιον
            epépésen tò pneûma tò hágion
caiu         o   espírito  o santo

A mesma expressão ocorre em Atos 11:15. Segundo a “regra” estabelecida pelo dito trinitário, somos levados a concluir que uma pessoa espiritual caiu sobre as várias pessoas que estavam ouvindo o apóstolo Pedro. Essa “pessoa” teria que ser bem grande para abranger todos os que estavam presentes, ou precisaria ser dividida para entrar em todos eles. Ademais, soa bem estranho uma pessoa espiritual ‘cair’ sobre alguém. Os seres espirituais e pessoais que se menciona como tendo “caído” são Satanás e seus demônios, sendo tal queda um evento negativo para eles. (Lucas 10:18; Apocalipse 12:7-9) É, pois, óbvio de que se tratava de uma energia impessoal.

Que a diferença de composição gramatical nada tem a ver com a suposta diferença entre ‘espírito santo dádiva’ e ‘espírito santo pessoa’ podemos ver pelo relato de Atos 8:15, 17-19:

“E estes [apóstolos Pedro e João] desceram e oraram para que os samaritanos recebessem espírito santo [πνεῦμα ἅγιον; pneûma hágion, sem artigo]. Então lhes impuseram as mãos, e eles começaram a receber espírito santo [πνεῦμα ἅγιον; pneûma hágion, sem artigo]. Quando Simão viu que o espírito [τὸ πνεῦμα; tò pneûma, com artigo] era dado pela imposição das mãos dos apóstolos, ofereceu-lhes dinheiro, dizendo: ‘Deem essa autoridade também a mim, para que todo aquele sobre quem eu impuser as mãos receba espírito santo [πνεῦμα ἅγιον; pneûma hágion, sem artigo].”

De acordo com a “regra” trinitária, Pedro e João oraram para que os samaritanos recebessem uma “força” ou “atitude” divina, uma “dádiva” impessoal. Com a imposição da mão deles, os samaritanos teriam recebido tal “atitude divina”. No entanto, Simão percebeu que o que foi dado foi o Doador, a suposta “pessoa” do espírito santo, e não uma dádiva. Mas, em vez de querer receber o “Doador”, Simão pediu a “dádiva”.

Porém, visto que tal diferenciação gramatical não tem nenhum impacto interpretativo, fica fácil entender que as alusões ao espírito santo (com e sem artigo) referem-se à mesma coisa: a força ativa, ou energia impessoal, de Deus.


A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.



Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org





Um comentário:

  1. Maravilha de artigo! O apologista como sempre fulminando os argumentos trinitários...

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