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domingo, 3 de novembro de 2019

O uso da Filosofia para tentar explicar a Trindade tem fundamentação? (Parte 2, final)



Filósofo grego Aristóteles
Fonte: jw.org


O artigo anterior analisou alguns argumentos do trinitarista Willian Lane Craig com base na filosofia à luz do que a Bíblia diz. Este artigo dará prosseguimento ao assunto, trazendo a lume outros argumentos filosóficos de Craig em comparação com a Palavra de Deus.

Os termos bíblicos “Pai” e “Filho” para explicar a relação entre Deus e Jesus Cristo

Craig tenta explicar assim porque a Bíblia fala de “Pai” e “Filho” na relação entre Deus e Jesus Cristo:

De acordo com a doutrina clássica da Trindade promulgada no Concílio de Niceia, Deus o Pai eternamente gera Deus o Filho. Esta relação é às vezes chamado de filiação, para que haja uma relação filial intrínseca entre a primeira e segunda pessoa da Trindade. Por isso, é impossível para aquelas pessoas se relacionarem como meros amigos, companheiros, colegas ou irmãos.[1]

Na realidade, as expressões “Pai” e “Filho”, usadas na Bíblia para explicar a relação entre o Deus Criador e Jesus Cristo, claramente indicam a desigualdade entre ambos no que diz respeito ao poder, autoridade e tempo de existência. Pois, se a Bíblia quisesse que entendêssemos Deus e Jesus como sendo coiguais, ela usaria o termo “irmãos” para explicar a relação entre ambos.

Lembre-se de que a Bíblia explica coisas espirituais nos moldes humanos, para que possamos entendê-los. Assim, ela menciona Jeová, o Deus Todo-Poderoso, como sendo “um ancião de dias”, com cabelos brancos “como a pura lã”. (Daniel 7:9, ACF) Sabemos que os cabelos brancos são uma consequência do pecado, que causou o envelhecimento. Mesmo assim, a Bíblia usa essa figura teofânica de Deus tendo em vista nossa experiência de vida após o surgimento do pecado, na qual existem cabelos brancos, e estes representam a longa experiência de vida.

De modo similar, a Bíblia usa outros termos que nos sejam compreensíveis para explicar certas capacidades e atuações de Deus. Por exemplo, ela fala dos “olhos”, “ouvidos”, e da “boca” de Deus, para ilustrar sua visão, audição e comunicação. (Veja 1 Pedro 3:12.) Tais usos antropomórficos visam nos dar uma compreensão de Deus nos nossos termos.

Por isso, o uso das expressões “Pai” e “Filho” para descrever a relação entre Jeová e Jesus Cristo é relevante. Mostra a superioridade de Jeová em relação a Jesus Cristo. Por outro lado, a expressão desenvolvida pelos trinitários – “Filho eterno” – está totalmente contra a lógica. Pois, a própria ideia de “filho” já pressupõe um início de vida.[2]

O problema das supostas “duas naturezas” do Filho

Para desviar-se da contradição matemática da afirmação de que Jesus é cem por cento Deus e cem por cento homem, Craig propõe que:

Jesus era verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem; ele tinha todas as propriedades essenciais da humanidade e todas as propriedades essenciais da divindade.[3]

Contudo, essa proposição choca-se frontalmente com a doutrina da Redenção, ou Resgate. Pois Jesus, como “último Adão”, não poderia jamais ser um Deus-Homem, do mesmo modo que o primeiro homem, Adão, não era um Deus-Homem. (1 Coríntios 15:45; veja os artigos “A Cristandade e a Doutrina da Redenção” e “Artigo especial: Por que Jesus teve de sofrer e morrer?”.) 

Jesus morreu inteiramente ou apenas uma parte dele?

Com base na doutrina não-bíblica das “duas naturezas” de Jesus Cristo, Craig tenta explicar a morte de Jesus Cristo da seguinte maneira:

Então, quando Jesus morreu na cruz, sua natureza humana morreu. Não sua natureza divina. Ele morreu como um homem.

A morte humana é a separação da alma do corpo e isso é o que aconteceu quando Jesus Cristo expirou na cruz, sua alma foi separada do seu corpo, o que fez com que seu corpo ficasse sem vida e fosse deixado no túmulo, e então, como nós cristãos cremos, ressuscitasse entre os mortos.

Então é considerado que a natureza divina, a pessoa divina de Cristo, não foi de forma alguma extinta na morte da natureza humana de Cristo na cruz.[4]

Primeiro de tudo, vale ressaltar que, ao tornar-se humano, Cristo deixou para trás sua natureza divina. “Sendo ele de condição divina” (Filipenses 2:6, AM), abriu mão dessa condição, “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens” (Filipenses 2:7, ARIB). “E, achado na forma de homem [não de Deus-Homem], humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte” (Filipenses 2:8, ACF). Observe a clareza de tais palavras! Jesus Cristo, na Terra, era plenamente homem, um homem perfeito, assim como Adão havia sido antes de pecar.

Além disso, não foi seu corpo, mas sua alma, que foi ao Seol (palavra hebraica para sepultura comum da humanidade). Lemos no Salmo 16:10: “Pois não deixarás a minha alma no Seol.”  (ARIB) O apóstolo Pedro falou sobre o cumprimento dessa profecia, conforme relatou Lucas em Atos 2:31, onde lemos: “Nesta previsão, [Davi] disse da ressurreição de Cristo, que a sua alma não foi deixada no Hades [equivalente grego do hebraico Seol].” – ARC.

Os três ‘eus’ de Deus, segundo Craig

Observe outra explicação dada por Craig: “Assim como eu possuo consciência da minha pessoa, Deus é um ser com três consciências, três ‘Eus’. Em outras palavras, três pessoas.”[5] No entanto, isso colide frontalmente com os usos por Deus dos pronomes na primeira pessoa do singular. Veja os exemplos abaixo:

“Deus disse a Noé: ‘Chegou o fim de toda a carne diante de mim.’” – Gênesis 6:13.

“Depois disso, Jeová disse a Noé: ‘Entre na arca, você e todos os da sua casa, porque você é quem eu vi ser justo diante de mim no meio desta geração.’” – Gênesis 7:1.

“Quando Abrão tinha 99 anos, Jeová apareceu a Abrão e lhe disse: ‘Eu sou o Deus Todo-Poderoso. Ande diante de mim e mostre-se íntegro.’” – Gênesis 17:1.

“Eu sou Jeová, seu Deus, que o tirou da terra do Egito, a terra da escravidão. Não tenha outros deuses além de mim.” - Êxodo 20:2, 3.

“Jeová disse então a Moisés: ‘Lavre duas tábuas de pedra iguais às primeiras, e eu escreverei nas tábuas as palavras que estavam nas primeiras tábuas, que você despedaçou. Esteja pronto pela manhã, visto que de manhã você subirá ao monte Sinai e se apresentará diante de mim, lá no cume do monte.’” – Êxodo 34:1, 2.

“Jeová me disse: ‘Reúna o povo diante de mim para que ouçam as minhas palavras, a fim de que aprendam a me temer todos os dias em que viverem sobre a terra e para que ensinem os seus filhos.’” – Deuteronômio 4:10.

“‘Assim é este povo, e assim é esta nação diante de mim’, diz Jeová.” – Ageu 2:14.

Tendo em vista que, na expressiva maioria dos casos, Deus fala na primeira pessoa do singular, é óbvio que, nas raríssimas vezes em que ele usa o plural, não está falando consigo mesmo, nem com outra pessoa que seja parte dele mesmo, mas com outra pessoa, não apenas distinta dele como pessoa, mas também que não é o mesmo Deus que ele. Prova disso é o seguinte: Quando Deus usa verbos que expressam atividades que não são exclusivas dele, ele às vezes usou o pronome e o verbo no plural (“façamos”, Gênesis 1:26; “desçamos”, Gênesis 11:7). Porém, quando Deus se refere a atividades exclusivas dele, como o ato de criar, o verbo está no singular, a exemplo de Gênesis 1:27, que declara: “Deus criou o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Veja o artigo “Diferença entre ‘criar’ e ‘fazer’”.)

Os nobres esforços de Willian Lane Craig em defender a existência de Deus diante de ateístas e evolucionistas proeminentes merecem elogios. Por outro lado, tentar sustentar uma doutrina pagã – a doutrina da Santíssima Trindade – e ainda pelo uso da filosofia não condiz com o que Jesus disse a seu Deus e Pai em João 17:17: “A tua palavra é a verdade.”




Notas: 


[1] CRAIG, William Lane. Por que Deus o Pai e Deus o Filho? Reasonable Faith. Disponível em: <https://www.reasonablefaith.org/translations/dutch/question-answer/por-que-deus-o-pai-e-deus-o-filho/>. 

[2]  Sobre a comparação trinitária da geração do Filho com a luz gerada pelo fogo, veja o artigo Análise da analogia trinitária do fogo” 


[3] ______. Reasonable Faith, Defenders 2 Class: Doctrine of Christ (part 1), disponível em: <http://www.reasonablefaith.org/defenders-2-podcast/transcript/s6-1#_ftn5>. Apud “A Verdade Que Existe”, de Felipe Soares Forti. São Paulo. Clube dos Autores. 2018. Disponível em: https://books.google.com.br/books>.

[4] ______. Deus esteve morto por três dias? 23 out 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vJYbSb3VP9E>.

[5]  CRAIG, William Lane. The Doctrine of the Trinity 1 (A Doutrina da Trindade)Série de Preleções Defenders. Apud “Espaço dos diretores”. 17 maio de 2011. Disponível em: <https://directors.tfionline.com/>.


Explicação das siglas usadas:

ACF: Almeida Corrigida Fiel.
AM: Bíblia Ave Maria.
ARC: Almeida Revista e Corrigida.
ARIB: Almeida Revisada Imprensa Bíblica.


Referências:

Bíblia Online. Disponível em: <https://www.bibliaonline.com.br/acf/dn/7>.


Qual seria uma boa analogia para a Trindade? - William Lane Craig.


Resonable Faith. A trindade é alucinante? Disponível em: <https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/a-trindade-e-alucinante/>.



Sociedade Bíblica do Brasil. Disponível em: <http://www.sbb.org.br/conteudo-interativo/pesquisa-da-biblia/>.



A menos que haja uma indicação, todas as citações bíblicas são da Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada, publicada pelas Testemunhas de Jeová.



Os artigos deste site podem ser citados ou republicados, desde que seja citada a fonte: o site www.oapologistadaverdade.org






 



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